Olhei para a minha mão que apertava a caixinha de veludo e imaginei como seria a minha vida se não tivesse conhecido a Leesa.

Mas tudo que consigo pensar era no que deveria fazer? Devo invadir o ministério sem um plano ou devo planejar até mesmo o horário que devo sair da mansão?

Scorpius vai me odiar se eu contar isso para ele, já que os jornais não contavam mais como a Leesa estava. A maioria já tinha se esquecido quem era a Leesa, a menina que estava trancada há anos.

Mas a nossa família era diferente, a Leesa era uma de nós e não podíamos esquecer, mesmo se quiséssemos. Já que ela não tinha a nossa maldição, mas era uma pessoa amaldiçoada.

Deixei a caixinha na mesa e me levantei da cadeira, indo até a lareira.

O barulho do fogo crepitante era o único que se tinha no ambiente, além dos meus pensamentos que não paravam.

Meus pensamentos sempre foram assim, desde que consegui aquela missão suicida. Minha boca poderia estar fechada a sete chaves, mas meus pensamentos sempre me importunavam.

Acho que foi por isso que minhas conversas com a Murta eram especiais para mim. Com ela poderia falar e me abrir, como fazia com a Leesa.

Mas aquelas lembranças devem ser apenas lembranças, já que mesmo mudando meus passos, talvez nada estivesse igual quando voltasse para a minha realidade.

Ajoelhei-me no chão e fiquei pensando se deveria realmente conversar uma coisa dessas com meu filho. Ele era apenas uma criança e não deveria se meter em coisas como meus sentimentos.

Scorpius poderia ter recebido tudo que não recebi quando tinha a idade dele, mas não quero colocar meus pensamentos e sentimentos em sua pequena cabeça loira.

Mas ele tinha que saber e não posso privá-lo disso. Pego minha varinha e aponto para a lareira.

Faço o feitiço e às vezes queria saber onde ficavam as passagens secretas, talvez eu pudesse invadir Hogwarts e conversar cara a cara.

Mas isso era um pouco difícil no momento, ainda mais com a Minerva naquele lugar.

Ela me tiraria do castelo na base de feitiços e não quero brigar com aquela mulher, ela ainda me dá medo.

As chamas ficaram verdes e alguns segundos depois elas voltaram a sua cor normal. O rosto do meu pequeno apareceu e falou:

_ Pai? O que foi? - Suspirei.

_ O que faz acordado? - Mostrou o livro que estava lendo. _ Já está tarde, você pode ler isso amanhã.

_ Pai, você não fez esse feitiço apenas para falar isso, não é? E se eu sentir sono é só fechar o livro e me cobrir, já estou no meu quarto mesmo.

Minha pequena constelação era uma coisinha inteligente, mas teimosa demais para a minha cabeça. Queria saber quem ele puxou na teimosia.

_ Não podemos mais ver sua tia...

_ Mãe. - Então o papai estava certo. _ O que você fez? Brigou com ela? Isso não se faz. - A culpa agora é minha? Talvez.

_ Potter me proibiu de ir lá, ou você estaria em perigo. - Esperei que ele falasse, mas não falou. _ Isso já tem dezenove dias.

_ E você só me conta agora? Sabe, sou o filho dela e era sua obrigação de me avisar de algo tão importante. - Filho? _ Mamãe deve te odiar tanto, espero que ela não...

_ Você é sobrinho dela. - Ficou irritado.

_ Filho, ela me chama de "meu bebê" e até mesmo que sou a coisa mais preciosa da vida dela. Ela é minha mãe e sou o filho dela, você gostando ou não.

Por que ele estava me fazendo lembrar tanto de alguém? Essa convivência de dez anos pode ser contagiosa e talvez a teimosia seja dela.

_ Não podemos mais vê-la e você sabe que ela não iria gostar de saber que você ficou em perigo por culpa dela.

_ Você não iria me chamar apenas por isso, o que você decidiu? Vai salvá-la? Precisa de ajuda?

_ É do ministério que estamos falando e mesmo se eu a tirar de lá, onde ela ficaria? Você sabe que ela quer ser livre...

Ele olhou para os lados, mesmo sabendo que ninguém iria aparecer, já que os quartos da Sonserina eram separados e não juntos, como da Grifinória.

_ Que tal irmos para o passado? Tio Nott conseguiu o vira-tempo e o vovô o tem guardado, podemos sair de 2017 e...

_ Você está ouvindo o que você está falando? - Revirou os olhos.

_ Pai, por Merlim, você está colocando muitos empecilhos para salvar a minha mãe, até parece que tem medo de algo! - Realmente tinha. _ Você tem!

_ Menino enxerido.

_ Sou seu filho, seu calvo. - Calvo? Nunca.

Levantei-me e fui até o espelho para ver se ele tinha razão, mas eu continuava bonito e meus cabelos continuavam sedosos e loiros, sem nenhuma parte que me alertasse de calvície.

_ Não sou calvo. - Começou a rir. _ Você irá ficar sem sobrancelhas quando voltar.

_ Que medo, papai. Mas me fale, o que você tem tanto medo? - Deveria contar, não é?

_ Gosto da Leesa. - O silêncio que ficou foi um pouco incômodo. _ Mas não traí sua mãe ou algo parecido...

_ Era isso? Já sabia. - O quê? _ O que foi? Era bem óbvio, você não permitiu que ninguém falasse que a minha mãe morreu e nem mesmo permitiu que os jornais publicassem coisas a difamando.

_ Era o mínimo.

_ Se você a visse apenas como a minha tia, madrinha ou sua prima, você não iria quase todos os dias para o ministério, ainda mais quando chegava de madrugada e ia direto para aquele lugar.

_ Ela poderia ter sido torturada...

_ Você dormia lá e chegava radiante para o almoço. - Chegava?

Nunca reparei em meus sentimentos ou fisionomia quando chegava em casa, talvez seja por isso que a Astoria sempre sorria quando me via.

Ela já sabia que eu não era como antes, apaixonando por ela, amando mais-que-tudo nessa vida. Eu era de outra e ela aguentou isso por nove anos... Sou um monstro que talvez tenha matado minha esposa de desgosto.

Deveria ter matado esses sentimentos, e não ela.

_ Você não está bravo? - Voltei para frente da lareira e me sentei no chão. _ Comecei a gostar dela quando sua mãe ainda estava viva, você deve sentir raiva...

_ Por quê? Você não a traiu e nem mesmo a desrespeitou, continuou com ela até os seus momentos finais e foi sincero.

_ Você estava escutando atrás da porta? - Riu. _ Você aprendeu isso com sua vó?

_ Sabe, são informações e não fofocas. - Riu mais um pouco e falou: _ Quero que minha mãe saia do ministério e quero irmãos.

_ Sabe muito bem que temos uma maldição, não podemos ter mais que um filho por geração.

_ Que bobagem, vovô te deu o contrafeitiço quando a mamãe morreu, e você sabe que a nossa maldição é apenas para controle de natalidade, e para que não tivéssemos um filho ilegítimo.

Scorpius era o único da família Malfoy que não tinha a nossa maldição, não deixei ele ter esse feitiço em si como se estivesse avisando que se ele traísse alguém, seria morto por suas ações.

Meu garoto nunca iria trair ninguém, mas era uma sensação ruim quando você colocava na balança que perdeu tal sentimento por temer morrer.

_ Sabe, pai. - Fiquei o observando. _ Sei que mesmo o vovô o tivesse dado o contrafeitiço mais cedo, você nunca iria trair a mamãe.

_ Nunca trairia sua mãe, mesmo se fosse para salvar a Leesa. - Nunca trairia ninguém que eu amasse. _ Mas você não está sabendo de mais? - Bufou quando mudei de assunto.

_ Acha que fico conversando com o vovô sobre o quê? Serei o próximo patriarca...

_ Quer que meu pai morra tão cedo?

_ Pai, você está sendo tão extremo, não fui eu que renunciei ser o patriarca para se casar.

Ele está andando com más companhias, mas como vou tirar essas pessoas do seu lado se são os meus pais? Estou cansado e só queria dormir, mas nem isso consigo fazer direito.

_ Se você quiser, posso renunciar para você ser o patriarca e a mamãe a matriarca. - Alisei os visgos da minha calça.

_ Não é assim que funciona.

_ Mas é claro que é, eu só preciso falar com o vovô e ele lhe dará o posto que já deveria ser seu.

_ Gosto do meu serviço, ser médico é uma profissão muito honrosa e...

_ Não estou dizendo que não é, só estou dizendo que você pode ser o patriarca, mesmo sendo médico. - Discordei. _ Você não deveria estar no hospital? - Concordei. _ Saiu mais cedo?

_ Não. - Baguncei ainda mais meus cabelos e eles caíram nos meus olhos, deveria cortá-los. _ Pedi férias, devo ficar alguns meses em casa.

_ Está chovendo e não estou sabendo? Você nunca pediu férias e isso só quer dizer que sua cabeça está tão conturbada que nem consegue trabalhar.

Concordei mais uma vez, minha cabeça estava doendo de tanto pensar e era cansativo.

_ Se você só ligou para dizer que gosta da minha mãe e que tem medo dela te rejeitar, não se preocupe. Posso fingir estar doente para você conquistá-la.

Ele só pode estar de brincadeira, isso não era manipulação? Meu filho está aprendendo manipular e nem sei como, ele está crescendo mais rápido do que imaginei.

_ Ela é minha prima e sou velho...

_ E eu sou gay, talvez bissexual.

_ O quê? - Gargalhou e fingiu secar uma lágrima. _ Se você é, não tem problema...

_ Vamos conversar sobre isso mais tarde, mas você não é velho e todo mundo é primo de alguém. Mas eu aprovo e você não reparou, mas você não desfez da ideia de não ter filhos.

Fiquei surpreso e comecei a rebobinar a conversa que estávamos tendo, e ele tinha razão, não falei nada sobre essa possibilidade, da possibilidade de ter algo a mais com a Leesa.

Devo tirar ela de lá, mas como? Elfos não conseguem tirar ninguém de lá, nem mesmo conseguem desfazer as runas.

Não posso entrar tão facilmente no ministério quanto antigamente e nem mesmo posso subornar pessoas daquele lugar.

Não tenho soluções para invadir aquele lugar e trazê-la para casa.

_ Não sei como. - Falei a verdade. _ Minha cabeça está agitada e não consigo ver a saída disso tudo.

Já se passaram anos e mesmo assim, não consigo achar uma solução para esse problema, parece que me acomodei com essa vida.

Ela estando naquela cela e eu tendo minha vida.

_ Você vai conseguir uma saída, papai. Confio em você para trazer a mamãe de volta. - Sorriu. _ Pai.

_ Sim?

_ Eu te amo. - Sorriu e me lembrei de como esse garoto era sentimental.

_ Também amo você. - Sempre amei, desde o dia que descobri que você estava a caminho. _ Vá dormir, amanhã a gente conversa mais.

_ Pai. - Esperei que ele falasse. _ Quero ser o irmão mais velho. - Como posso ficar bravo com a minha constelação?

_ Não depende de mim e nem de você.

_ Isso já é o suficiente, já sei que você irá atrás da minha mãe. - Bocejou. _ Até amanhã. - Desapareceu e fiquei sentado no chão por bastante tempo.

Repensando nas suas palavras, talvez ele tenha razão. Já sabia a reposta para todos os meus problemas, mas não sabia como poderia invadir o ministério, se fosse antigamente seria fácil.

Mas agora com a Granger no ministério era a coisa mais difícil, já que ela já invadiu tantas vezes aquele lugar que sabe como proteger cada canto.

Como vou tirar ela de lá?

Era isso que pensava, enquanto me deitava no chão e deixava que meus pensamentos fossem suprimidos pelo sono e cansaço.