Alisei sua testa e não estava tão quente quanto antes, mas ainda estava com um pouco de febre.

_ Seu pai ainda é muito falho e não conseguiu salvar nenhuma das duas. - Mordi o interior da minha bochecha. _ Mas agora não podemos fazer nada.

_ Por quê? - Apertou minha mão. _ Por que não podemos fazer nada?

_ Não sei fazer necromancia. - Quem sabia com perfeição era aquele homem.

Ele se sentou na cama e ficou pensando em como deveria me dizer algo.

_ O que essa cabecinha mirabolante está pensando? - Baguncei ainda mais seus cabelos. _ O que você quer que eu faça? - Retirou minha mão de sua cabeça e a segurou.

_ Por que você não vai para o passado? - Meu coração errou uma batida. _ Você pode trazer ela de volta e...

_ Scorpius, pessoas que mexem com o tempo trazem grandes consequências para o futuro e até mesmo sua tia me alertou sobre isso.

_ Sei que não podemos criar um paradoxo, mas, pai, se você for para 2007 e trazer a mamãe...

_ Scorpius, você pode parar de existir e talvez nem se lembre da sua tia. - Discordou.

_ Já era nascido em 2007 e se for assim, é só levar minhas memórias com você, e quando você voltar, é só colocá-las em mim.

Ele era uma pessoa teimosa...

_ Scorpius, se fosse fazer isso, sua mãe continuaria com o mesmo destino. Você... - Apertou minha mão e suspirou.

_ Se você fosse atrás da mamãe e a trouxesse de volta, ela iria morrer em alguns anos ou meses. Mas a mamãe é um caso diferente, ela não iria morrer ou desaparecer.

_ Desculpa, mas não posso fazer isso. - Beijei sua testa. _ Devemos seguir em...

Distanciou-se de mim e ficou tentando controlar suas emoções.

_ Não, não devemos seguir em frente e ela nunca iria seguir em frente! - Gritou. _ A mamãe iria fazer de tudo para se vingar dessas pessoas e não estou dizendo para se vingar, porque isso demora, mas se você tem a opção de ajudar, por que você não faz?

Por que não faço isso? Como responderei a ele que se voltar para 2007, ela só teria 16 anos, e isso seria mais errado que ter ajudado o Potter em 98.

Mas se fosse para alguns meses atrás e levar os documentos que papai juntou, não seria nada mais do que pedaços de papéis sem importância, já que eles só seriam válidos hoje.

E se eu fosse para algumas horas no passado, não sei como ela estaria e talvez, ela não fosse mais a Leesa que conhecíamos.

Mesmo que a colocasse em uma terapia extensiva por anos, coisas que nos traumatizaram não saem do nosso corpo nem se quiséssemos.

Tenho culpa nisso e era horrível sentir essa culpa preenchendo o meu peito e consciência. Mas não posso fazer isso, porque sei que não aguentarei ficar longe dela.

Ainda tenho decência e não quero fazer algo que mancharia ainda mais o meu coração.

_ Você pensa demais. - Talvez essa fosse uma verdade que não quero acreditar. _ Pare de pensar e vai atrás dela, agora.

Não conseguia me levantar e fazer o que estava pedindo, meu corpo estava preso, estava pesado como uma pedra.

Mas ele percebeu, engatinhando até mim e me abraçou, como se estivesse passando um pouco de coragem para mim, algo que não tenho muito e só faço algo na impulsividade quando estou com raiva.

Abracei minha constelação e senti vontade de chorar, de colocar todas as minhas reclamações para fora, mas não posso fazer isso com a minha criança.

_ É isso que você quer? - Estava sendo um manipulador de primeira.

Ou apenas parei de ouvir minha consciência e quero fazer minhas vontades.

_ E é isso que você quer. - Beliscou minha bochecha. _ Quantos anos ela tinha em 2007? - Deitou-se novamente.

_ 15 para 16. - Ficou pensativo e sorriu.

_ Então colocaremos que ela tem 16, já que não sabemos a data de aniversário da mamãe, e quando ela chegar aqui, ela terá 17. - Sorriu ainda mais. _ Simples.

Apenas me levantei e coloquei as mãos nos bolsos, ele dizia aquilo com tanta simplicidade que tenho até medo do que ele estava pensando agora.

Mas essa criança se parecia tanto com a Leesa, que às vezes era assustador.

_ E quero uma irmãzinha. - Revirei os olhos. _ Talvez um casal? - Olhei para ele que sorria. _ Trigêmeos? - Meu olho começou a ter um tique.

_ Você precisa parar de ler romances. - Alisei meus cabelos para trás. _ E vou falar com a Minerva sobre sua fuga. - Olhou-me horrorizado.

_ Não, fiz isso para te ajudar e vejo que ajudei, mas agora você quer me punir? Papai, contarei para a mamãe e ela vai te colocar de joelhos no milho.

Dou tchau e saio do seu quarto, se ele já estava falando asneiras, é bem provável que estivesse melhor.

Vejo a mamãe subindo a escadaria e ela me olhou, esperando alguma notícia sobre os acontecimentos.

Desci alguns degraus e fiquei a observando, mas apenas a abracei.

Suas mãos tremiam quando pousaram nas minhas costas, tentando saber se deveria me acalentar ou me abraçar fortemente.

Queria desabar como um menino que não sabia a hora de parar, mas aguentei tudo novamente para não entristecer essa mulher.

Minha mão deslizou para os seus cabelos e faço cafuné com meus dedos, até que o seu corpo trêmulo se acalmasse.

Pensei seriamente como poderia dizer tudo que conversei com Scorpius, pedindo uma opinião, uma luz nesse túnel tão escuro e sombrio.

Scorpius pode ter dado a ideia, mas isso só me faz repensar e repensar em meus atos.

_ Scorpius falou que tem um jeito de salvá-la, mamãe. - Sussurrei. _ Mas não sei se posso fazer isso, não quero ser pintado como um monstro. - Tentou rir.

_ Monstro? O meu filho nunca será um monstro. - Distanciou meu rosto de seu pescoço e me olhou. _ Você continua sendo uma criança para mim, uma criança rabugenta, irritante e mimada.

_ Mamãe... - Alisou meu rosto.

_ Mas continua sendo meu filho amoroso, companheiro e um bom pai. A mamãe aceitará qualquer coisa que você disser, se você quer salvar a Astoria no passado, então vá.

_ Iria salvar a Leesa. - Ficou surpresa e sorriu. _ Mas ela seria apenas uma garota de 16 anos...

_ E você tem medo por ter 37? - Olhei para o lado e tentei fugir da pergunta. _ Você não é mais uma criança para fugir das perguntas.

Segurei suas mãos que continuavam no meu rosto e concordei.

_ Leesa não sabe a data do aniversário e praticamente tem 26 anos, e não dezesseis. - Discordei. _ Mas entendo o seu medo, mas Draco, o nosso mundo é errado...

_ Não quero ser errado.

_ E não estou dizendo para ser, mas não se esqueça que a Leesa faria 27 no próximo ano e sabe quantos meses faltam?

_ Dois. - Concordou. _ Mamãe, não comece a distorcer tudo para que eu faça essa besteira, se a trouxer, ela não será apenas a minha prima...

_ Você está esquecendo de algo importante.

_ Estou esquecendo de muita coisa. - Resmunguei.

_ A Leesa nunca o viu como um homem ou um companheiro. - Saber disso machucava meu coração. _ Então, você não precisa se punir tanto, você tem que conquistá-la.

Conquistar a Leesa? Isso é mais difícil do que tirar um "O" nos NIEMs em Hogwarts.

Mas a mamãe estava certa, estou colocando empecilhos demais nas minhas ações futuras, posso amar aquela mulher, mas ela nunca retribuiu esses sentimentos.

Talvez o nosso relacionamento não seja nada mais que primos que dividem a mesma casa.

_ Bom, como você já decidiu, prepararei um quarto para ela e se bem me lembro, ela gosta de azul. - Afastou-se e começou a subir.

_ Talvez você não vá se lembrar dela...

_ Filho, você trará uma Leesa diferente, mas a Leesa que sempre esteve conosco sempre irá existir. - Piscou e continuou subindo.

Uma Leesa diferente? Ela está dizendo para ir em outra realidade e "roubar" uma pessoa desconhecida, mas com as mesmas feições, queixas e caráter?

Viagem no tempo continua estranha para mim, mas quando você a entende, parece que sua cabeça vai explodir de tanto pensar.

Continuo descendo os últimos degraus e caminho até o escritório, precisava saber de certas coisas. Qual floresta a Leesa estava, horário de sua captura e até mesmo qual era a nossa realidade.

Theo saberia sobre a realidade, mas aquele idiota estava viajando e não voltaria tão cedo.

Entrei no escritório, colocando a bolsa no sofá e comecei a procurar a pasta que tinha sobre a Leesa, papai a pegou para saber como a Laverne conseguiu ter um filho com o vovô.

Mas tudo que descobriu foram coisas nojentas que nem mesmo nós, os Malfoy, teriam coragem para fazer.

Sabíamos que tinha um jeito de burlar nossa "maldição", mas nunca iríamos pensar em algo assim, não gostamos de sentir dor.

Nunca imaginei traindo a Astoria e ganhar a punição da maldição, e nunca pensei que o vovô seria estuprado e escondesse isso de todos, até mesmo de si.

Às vezes acho certo o que aconteceu com aquela mulher, ela realmente mereceu morrer, mas depois me lembro que ela era avó da Leesa.

Mas Leesa não sabia sobre isso e iria saber quando a salvasse.

Abro a gaveta da escrivaninha e retiro a pasta que não tinha muita coisa, mas tinham coisas essenciais para poder salvar aquela mulher em menos de cinco minutos.

Theo ainda não terminou o outro vira-tempo e não vou esperar meses para poder salvar a Leesa, se já posso fazer isso em menos de cinco minutos.

Leio as observações e gravo o horário, e até mesmo o local de captura.

Não era longe da casa dos Macmillan e o horário era uma hora antes deles me chamarem para curar a Leesa.

Fecho a pasta e vou até o cofre que estava atrás de um dos quadros de nossa família, devemos pintar outro.

Tiro o quadro e mordo meu dedo, deixando as gotas de sangue pingarem na maçaneta. O clique soou e a portinha do cofre se abriu, me mostrando o vira-tempo.

Antes de pegá-lo, repensei pela última vez se era uma boa escolha e se não deveria salvar a Astoria... Mas as palavras de Scorpius estavam certas.

Retiro o vira-tempo do cofre e um bilhete caiu nos meus pés, era o número da realidade em que estávamos.

Acho que papai iria usar esse vira-tempo se acontecesse algo conosco, já que o papel não estava amassado ou com más condições.

Fecho o cofre e coloco o quadro em seu lugar, não ligando para o papel no chão. Apenas respirei fundo e tentei não pensar no número em que indicava o vira-tempo.

Dez, estávamos na décima realidade e se quiser salvar alguém que ainda não se casou ou morreu, devo pular algumas realidades antes que aqueles idiotas tentem a capturar.

Girei a engrenagem até o 13 e a dimensão seria o 15.

Coloquei o vira-tempo no pescoço e coloquei a data em que queria ir, uma data que mudou meu futuro completamente e agora mudarei o passado.

Todo cuidado e tempo eram escassos, mas com essa coisinha poderia fazer o que bem entendesse. Peguei a varinha na mesa e apertei a segunda engrenagem para o vira-tempo começar a girar.

Comecei a pensar na floresta que a Leesa estava e cada tique-taque, meu coração errava uma batida e me fazia tremer pela ansiedade.

Deveria chorar e ficar de luto, mas não tenho esse direito e se quero trazer felicidade para as minhas duas razões de viver, devo me doar para não cair na tentação de luto.

Scorpius e Leesa eram tudo para mim...

Sinto o ar mudando e escutei alguns gemidos de dor, olhei em volta e estava em uma floresta e dei um suspiro em alívio.

O vira-tempo começou a cronometrar minha volta e com isso em mente, comecei a correr para saber onde ela estava.

Quando ela chegou no ministério, suas pernas estavam quebradas, mas isso foi devido ao Potter e suas costelas foi pela queda.

Derrapei nas folhas e fiquei estático com a pessoa que encontrei, ela tentava se levantar e seus gemidos de dor me fizeram observar ao nosso redor.

Pensei que salvaria uma garota de dezesseis anos, aquela garota que não me deixava invadir seu coração. Mas a pessoa deitada no chão era a minha Leesa, aquela que perdi...

Aproximei-me dela e meu coração parecia um tambor, mas minhas ações foram rápidas e precisas. Não preciso pensar muito, apenas preciso salvá-la.

_ Sairemos daqui. - Agachei e ela me olhou assustada. _ Tudo que você quiser perguntar contarei, mas não aqui e nem agora. - Coloquei o vira-tempo ao seu redor.

A peguei no colo e vi uma cabeleira ruiva aparecendo ao longe, mas ele não me viu ainda.

_ Consegue colocar a realidade 10 e a dimensão 15? E mudar a data final?

_ Qual? - Girou os números apressadamente, suas mãos tremiam.

_ 2017. - Prendeu a respiração e me observou por um momento.

Mas conseguiu mudar os números e apertou, fazendo a gente aparecer no meu escritório em menos de dois minutos.

Fiquei a analisando, essa mulher deveria ter pelo menos vinte e cinco anos, no mínimo. Entretanto, ela continuava o mesmo...

_ Malfoy... - Me olhava como um gatinho arisco e que não sabia o motivo de ter sido salva.

_ Sim, esse é meu sobrenome e o seu. - Ficou assustada. _ Tenho muita coisa para contar, mas primeiro, preciso curar suas costelas.

Mordeu os lábios e tentou suportar a dor, ela era realmente a Leesa de minhas lembranças. A mulher que nunca deixava transparecer a dor de seu coração ou física.

Retiro o vira-tempo e o deixo em cima da mesa, fazendo que ela visse sua bolsa e ficasse mais uma vez confusa.