_ Escutei você dizendo que serei a nova senhora Malfoy. - O vi deixar a taça na mesa, tentando formular uma frase que não o prejudicasse. _ O salão pode estar barulhento e a música alta demais para os meus ouvidos, mas não é tanto.

_ Dessa vez não pedirei desculpas. - Isso era bom. _ É um desejo egoísta que está em meu coração desde 2008, quanto mais vezes ia atrás de você, mais apaixonado e relutante em deixá-la, ficava.

Memórias e mais memórias apareciam em minha mente, me deixando com uma sensação agridoce em minha língua.

Era como se as palavras que eles estivessem falando fossem como um vento quente de verão, mas fosse tão cortante quanto uma navalha afiada.

Queria dizer que meus sentimentos poderiam ser recíprocos, mas não posso, afinal, esses sentimentos podem ser apenas ilusão.

_ Quero fazê-la minha esposa. - Meu garfo quase caiu dos meus dedos. _ Mas isso não depende apenas de mim e dos meus sentimentos, você é livre para ser quem quiser e não serei o empecilho de sua vida.

_ Você nunca foi o empecilho de minha vida. - O observei, seus dedos tremiam levemente. _ Talvez tenha sido a pessoa que me mostrou que o mundo é muito mais brilhante sem uma guerra.

_ Deveria ter feito isso mais cedo. - Continuamos comendo. _ Mas fiquei confortável com a situação, algo que não deveria ter ficado.

_ Talvez ela também tenha ficado confortável. - Afinal, ela não saiu do ministério. _ Quando sua mente coloca que a única saída é continuar onde está, seu corpo não dá o primeiro passo para sair de uma situação estranha.

_ Você tentou. - Deixei o talher no prato, saboreando o vinho doce. _ Tentou mudar a situação em que estava? - Discordei.

_ Era a única vida que tinha e poderia odiar, mas era confortável estar naquele mundo. - Queria escapar, mas minha mente sempre me impedia. _ Até que você apareceu, poderia ter negado.

_ Mas não negou. - Sorri. _ Por quê?

_ O confortável pode ser doloroso. - Iria me interromper, mas fui mais rápida. _ Você foi tão gentil me pegando no colo e dizendo que contaria tudo que estava acontecendo. - Ficou surpreso. _ Não era o mesmo Draco Malfoy que conhecia nas reuniões do Lorde.

_ Então existo naquele lugar. - Concordei. _ Você...

_ Não éramos uma família, se é isso que quer perguntar, éramos apenas estranhos que compartilhavam o mesmo sobrenome. - Voltei a comer e prestei atenção na música.

A música mudou, era uma mais agitada e aguda, fazendo meu corpo se arrepiar pelo violino estridente.

Parecia que o violino gritava e ria, ao mesmo tempo, sendo orquestrado por uma iniciativa que ninguém sabia. Era doloroso, mas engraçado.

A agonia em meus ouvidos não era devida os instrumentos estarem desafinados, era pela representação da música. A pessoa que compôs deveria estar em agonia e eu, estou em agonia.

Agonia por decisões e emoções, agonia por aceitar aquela vida e não ter dito nada. Mas agora que estou aqui, parece que posso falar e ninguém vai me julgar, mesmo sendo julgada.

_ Você não tinha filhos, ou esposa. - Voltei ao assunto. _ Era apenas você e seus pais. - Era a única coisa que sabia daquele homem. _ Mas não quero saber mais do meu passado, e você, parece que também não.

Ficou me olhando, fazendo que seu desejo por mim fosse nítido, mas apenas queria ver se seus sentimentos eram apenas por desejo carnal, ou era mais significativo.

Quero que ele demonstre e não fale, como daquela vez.

_ Passado é algo que só podemos recordar e não sentir. - Apenas saudades. _ Esse baile deveria ter acontecido em fevereiro, mas a esposa do diretor do hospital teve um agravamento em sua saúde.

_ E o que ela tem? - Limpei minha boca e o prato sumiu, fazendo o próximo se arrastasse para mais perto.

_ Uma doença trouxa chamada Alzheimer, os bruxos estão tentando salvá-la, mas os estudos dos trouxas e até os nossos, são ineficazes.

Iria dar uma ideia, porém, não sabia se essa pessoa em específico era uma pessoa de boa índole ou não.

_ Então ela teve uma melhora? - Discordou. _ Então por que está acontecendo o baile?

_ Para que ela tenha um pouco de felicidade. - Sorriu. _ Eles ainda não chegaram, mas com certeza irão abrir a pista de dança. - Suspirou. _ Mas você disse que não quero contar sobre o meu passado, isso está errado.

_ Pensei que odiasse seu passado. - Negou.

_ Fui uma criança mimada, amada por meus pais e que acreditava em suas crenças. Meu pai sempre foi presente e minha mãe sempre foi carinhosa, nunca me faltou afeto.

_ Até que o Lorde... - Concordou.

_ Até que o Lorde voltou e destruiu minha família que pensei que fosse feliz, papai enlouqueceu, tive que matar e torturar pessoas, aprendi Oclumência e senti medo. - Isso era interessante de certa forma.

Pensei que essa família fosse igual à da minha realidade, esnobe e mesmo entre as quatro paredes, se odiavam.

Mas acho que realmente não posso colocar tudo que sei como algo certo.

Mexi na minha comida, tentando achar um assunto que pudesse ser favorável a essa conversa, até que me lembrei do meu passado. Essa pessoa ao meu lado não sabe sobre ele.

_ Meu pai era um velho que acreditava em sua doutrina e minha mãe, uma abusadora. - Zombei. _ Ter matado ela não foi suficiente para cicatrizar minhas feridas.

_ Não sabia que Byella...

_ Byella abusou do meu pai quando viajou no tempo, como a Laverne fez com Abraxas. - Sua mandíbula travou, fazendo que demonstrasse que ele já sabia.

_ Não pensei que você soubesse. - Algumas coisas são mais fáceis de descobrir quando você está em busca de saber quem é realmente você.

Sempre me perguntei quem sou de verdade, apenas fruto de um abuso, ou apenas alguém sem um propósito no futuro?

Então tudo que descobri naquele tempo foi relativo a me descobrir e hoje, sei quem sou... Acho que sei.

_ Não sei de muitas coisas de nossa família, mas sei o necessário. - Pensou em algo, mas não falou. _ E como você se apaixonou por sua esposa? - Limpou a boca e ficou me olhando.

_ Ela foi a única que ficou comigo no final de tudo e nosso romance não foi precoce, foi gradual. - Sorriu, se lembrando do passado. _ Meus pais a odiavam, mas pela primeira vez, coloquei minhas emoções na frente de seus olhos.

_ Você lutou por seu amor. - Acho bem bonito, na verdade. _ E como ela...

_ Maldição de sangue, não sei o motivo de sua piora ao longo dos anos ou como que funcionava, mas... - Respirou fundo. _ O vira-tempo que você viu, era algo que estava guardando para usar em um caso de emergência.

Olhei para o meu prato de comida, o vendo diminuir a cada garfada que dava no bife.

Suas palavras podem ter sido ligeiras, mas foram o suficiente para dizer que ele poderia ter realmente ido atrás de sua esposa, mas que me escolheu.

Alguém que poderia muito bem ir embora e abandoná-lo, ou que poderia se casar e encontrar outra pessoa.

Sempre o vi como uma pessoa egoísta e que pensava apenas em seus sentimentos, mas vejo que ele não pensou apenas em si, algo que ele já tinha me falado e que não acreditei.

_ Conversei com meu filho naquele dia, ele me disse para salvar a sua mãe. - Franzi o cenho. _ A segunda mãe. - Tentei não demonstrar um sorriso, mas foi impossível. _ Todos a queriam de volta.

Pegou a minha mão e massageou os seus dedos na minha pele, tentando saber se era realmente real.

Ou apenas se perguntava se tudo isso iria acabar com as badaladas da meia-noite.

_ Você me queria? - Era uma pergunta idiota, mas que me faria decidir se aquela bandeirinha iria subir.

_ Sempre. - Apertou minha mão. _ Você é meu pequeno mundo, a pessoa que me mostrou que eu era mais que o simples Draco Malfoy, que não era um ser insignificante.

_ Como? - Suas palavras foram apenas um sussurro, mas que pude escutar.

_ Você teve chances de sair daquele lugar, apenas não saiu devido a mim. - Entrelaçou nossa mão. _ Não estou sendo pretensioso, percebi quando você tinha oportunidades e tudo que fazia era...

_ Continuar ali, o esperando.

As memórias podem não estar completas, mas poderia saber a motivação dela de continuar presa naquela cela.

Ela não via motivos para sair, ela se contentou com o pouco e se contentava apenas tendo Draco ao seu lado.

Não a julgava, talvez, se minha mente fosse destruída e a única coisa que pudesse me manter com um sorriso no rosto, se fosse, poderia cometer suicídio.

Leesa... Pensei que fosse uma pessoa forte para que essa pessoa se apaixonasse por uma prisioneira, mas tudo que posso dizer que era uma pessoa quebrada com um lindo sorriso.

Esperando com paciência sua morte e não sei se devo dizer felizmente, mas, estou feliz que ela tenha morrido.

_ Dragon. - Alisou seu dedão ao meu. _ Pensei que fosse a usurpadora. - Iria falar, mas não deixei. _ Mas, percebo que mesmo não tendo o mesmo passado, sou ela.

_ Você...

_ Não pense besteira, não estou o aceitando em minha vida. - Ainda. _ Mas... - O salão ficou em silêncio e olhamos para a família que entrou.

_ Greengrass. - Dissemos.

A família de três caminhou em nossa direção, mostrando sua soberania na ponta do nariz pontudo e com cabelos negros esvoaçantes.

Todos estavam torcendo para ter um bom entretenimento e eu, bom, vamos ver se vou ter que matar algumas pessoas.

Ou talvez, seja divertido ver a discussão que irá se desenrolar. Sim, mostre-me um pouco de diversão, família Greengrass.

Os passos pararam e seus olhos ficaram vidrados em nossas mãos unidas, tentando saber quais palavras iriam usar primeiro.

_ Agora tem uma amante? - A mulher mais nova perguntou, jogando os longos cabelos para trás. _ Lembro-me de minha irmã comentando sobre ela.

_ Daphne. - Draco semicerrou os olhos. _ Não diga coisas que não sabe, está é minha prima...

_ Prima que você come... - Levantou-se da cadeira e a deu um tapa em seu rosto, fazendo que alguns sussurros ficassem mais altos que o possível.

Não precisava de proteção, poderia apenas jogar essa faca no olho dessa garota e ir presa, como a Leesa.

Mas ainda gosto da minha liberdade e de comer comida extravagante, adorava essa vida de rico e não quero perder isso por cegar alguém.

_ Minha vida não diz a respeito a você, Greengrass. - Sua voz estava rouca, fazendo que o clima pesado ficasse sexy(?)

Cruzei as pernas e tentei afastar o desejo que crescia no meio de minhas pernas, não posso ser uma pessoa assim.

Ou posso?

_ Leesa Malfoy é minha convidada e se você, ou qualquer um que dizer o oposto...

_ O quê? - O homem de olhos negros falou, atiçando minha língua. _ Chamará o papai?

_ Não, acabarei com sua família como acabei com todos os outros. - Sorriu, mas logo em seguida ficou sério.

_ Minha irmã ficaria enojada, você não pode...

_ Sua irmã morreu, já estive em meu luto e já pedi perdão a todos os Deuses existentes neste mundo, mas não vou parar minha vida. - Ele não quis dizer isso.

_ Acho que posso falar um pouco, já que estão brigando devido a mim. - Peguei a taça, os observando. _ Vocês querem continuar suas lamentações porque não sabem quem culpar...

_ Cale a boca! - A mãe, a matriarca da família, falou pela primeira vez. _ Você é apenas a prostituta desse garoto irresponsável, que matou a minha filha!

Isso para mim foi demais, odiava ser chamada de coisas vulgares, entretanto, gostava ainda mais de irritar famílias ricas.

_ Sim, eu sou. - Sorri e Dragon ficou surpreso. _ Sabe, sua filha morreu e tomei o lugar dela, pelo menos posso continuar viva por décadas. - Isso foi pesado, por favor, me perdoe.

_ Sua... - Fiz minha magia prender os três, os fazendo se ajoelharem.

_ Não me entenda mal, mas, odeio pessoas que predem os outros por culpa de pessoas insignificantes. - Lorde, isso é sobre você também. _ Draco respeitou sua filha, a honrou com tudo que poderia e não a traiu, mesmo me amando...

_ Isso é traição! - Também achava, até que a irmã era inteligente.

_ E mesmo depois da morte de sua irmã, ele não me procurou ou me beijou, saciou o desejo que tanto sente por mim. - Levantei-me, deixando a taça na mesa. _ A respeitou até mesmo depois da morte, mas agora, que ele quer voltar a viver e ser feliz, vocês estão atrapalhando meu romance?

_ Leesa. - Não queria olhá-lo agora, a bandeirinha estava no topo de minha cabeça e o anjinho do mal sambava em alegria.

Merda, pensei que iria durar mais, quantos dias levaram?

Respirei fundo, estufando o peito e pegando novamente a mão do Dragon, bom, vamos ser loucos juntos.

Criaremos o nosso pequeno mundo nesse inferno que chamamos de Terra.

_ Vocês são os Greengrass, e ele. - Apontei com minha cabeça. _ Malfoy, são famílias diferentes, não pense que pode mandar em alguém apenas que teve uma pessoa casada na família.

Apertei sua mão e o sinto entrelaçar nossos dedos.

Dou um passo para o lado e sussurrei, torcendo que dissesse sim.

_ Quer fugir daqui? - Sorriu e não me contive em retribuir.

_ Para qualquer lugar que você queira me levar. - O puxei e saímos daquele salão, fazendo que a fofoca se espalhasse como areia de um vira-tempo.