Respirei fundo quando o frio da noite soprou em meu rosto, me fazendo pensar que fui um pouco egocêntrica e uma vadia em minhas palavras.

Mas Astoria já morreu e eu já morri, pessoas falecidas precisam descansar e ser recordadas apenas para serem usadas em uma discussão, era o pior jeito de manipular alguém.

Esperava que Astoria me desculpasse e desculpasse o Dragon, mas isso podemos saber quando a encontrarmos no véu da morte.

Observei a rua com carros e o cheiro de fumaça impregnando o ar, quase me fazendo voltar para o salão de baile.

Olhei para o Draco, que me observava ainda surpreso e sem palavras para descrever tudo que falei.

_ Por quê? - Perguntou, enquanto começamos a caminhar pela rua com poucos transeuntes.

_ Sei que pode ser repentino e pode parecer que o vi como o meu salvador da pátria. - Discordou. _ Mas, desde o momento que ficamos a sós na sala de jantar, comecei a entender que a Leesa. - Fechei meus olhos e repensei. _ Eu. - Sorriu. _ Estava cega por não ter percebido você ao meu lado.

_ Continuo sem entender. - Parei e fiquei a sua frente, desfazendo as nossas mãos.

_ Não estou dizendo que o amo, só estou dizendo que podemos tentar. - Alisei seu terno, tentando me acalmar. _ Apenas quero que saiba que você pode me cortejar, não vou mais inventar desculpas.

Alisou meu rosto e pensei que meus lábios sentiriam os seus, mas o beijo terno em minha testa me disse muito mais que o queria.

As palavras que ele aguardou por anos finalmente apareceram, mesmo não sendo em um momento apropriado, ele sabia que estava sendo sincera.

_ Desculpa pelas coisas que você teve que ouvir hoje, queria que fosse algo divertido. - Encostou sua testa na minha.

_ Dessa vez aceitarei suas desculpas. - Enlacei meus braços no seu pescoço, fazendo que nossos rostos ficassem próximos de mais.

Nossa respiração quase se unia, formando-se um ato perfeito para que tudo se concretizasse, nossos medos, anseios e desejos.

Mas preferia os desejos, estava desejando que essa ventania no meu coração não fosse momentânea ou coisa de minha cabeça, queria que continuasse, até que se formasse um vendaval.

Deveria dar o primeiro passo, já que ele, desde o começo, deu pequenos e quase inúteis passos, mas foram eles que me fizeram chegar aqui.

O beijei, fazendo que o frio que esmagava minhas emoções fosse embora e um calor gostosinho surgisse, fazendo que o riso escapasse dos meus lábios.

Estava surpreso, mas riu comigo, fazendo que o primeiro beijo não fosse romântico ou eloquente.

_ Desculpa. - Pedi. _ Mas foi mais forte que eu. - Discordou.

_ Foi perfeito para a ocasião. - Deu-me um selinho. _ Ainda está com fome? - Pensei e discordei. _ Então vamos voltar? Podemos tomar uma taça de vinho antes de dormir.

_ Claro. - Olhei em volta. _ Mas podemos caminhar um pouco? - Não houve palavras e sim, ações.

Entrelaçou nossas mãos novamente e voltamos a caminhar pela rua quase deserta.

Ergui nossas mãos, as balançando em uma pequena atmosfera risonha entre nós.

Não éramos dois adultos que deveríamos ser, era como se estivéssemos realmente em nosso pequeno mundo, um que ninguém poderia nos menosprezar.

Ou dizer o que fazer, nossa conversa poderia ter parado, mas sabíamos que estávamos tentando colocar tudo em ordem, mesmo já estando.

_ Acha que Scorpius vai gostar da notícia? - Perguntei, sentindo o vestido se arrastar pelo chão.

Provavelmente ele será jogado no lixo...

_ A notícia que ele conseguiu o que tanto queria? - Bufou. _ Com certeza, ele até mesmo poderá fazer uma festa em comemoração.

_ Não seja tão exagerado. - Sei que não estava. _ Gosto dele, mas sinto um pouco de medo de ser a... - Madrasta. _ Sabe, não quero ser alguém ruim.

_ E não vai. - Como poderia ter tanta certeza? _ Scorpius pode ensinar qualquer um a amar, mesmo que não saiba o que isso significa.

Com as memórias em minha cabeça, poderia concordar com essa afirmação.

_ Não quero contar agora. - Paramos perto da faixa de pedestre. _ Mesmo sabendo que ele e os outros iriam gostar.

_ Tudo que você desejar, farei. - Apertou minha mão e aparatamos daqui, aparecendo no hall da mansão.

Queria ter ficado no baile e dançado, conhecido os anfitriões para ter certeza de que eram boas pessoas e ajudá-los a combater essa doença.

Mas todos esses planos foram desfeitos quando aquela família apareceu.

Parei de pensar nisso e continuei parada no mesmo lugar, sem saber o que fazer em seguida.

_ Vou tirar essa roupa, a espero na cozinha, tudo bem? - Pisquei algumas vezes com a voz que sussurrou no meu ouvido.

Era rouca, sexy e sedutora, uma voz que arrepiou toda a minha alma e lugares desconhecidos por mim.

Toquei o lugar quente e apenas acenei, o vendo subir para o segundo andar, enquanto desfazia a gravata e retirava o terno.

Merlim, esse era o mesmo Draco Malfoy de dias atrás?

Fechei os olhos com força e os abri novamente, subindo a escadaria para trocar esse vestido por algo mais simples.

Entretanto, memórias apareciam em cada degrau que subia, me impedindo de respirar em certos momentos.

"Viu, meu amor, papai está ficando calvo e não vai ter mais cabelo quando você estiver na Corvinal"

Cambaleei para o lado, me apoiando no corrimão antes que pudesse cair e morrer, mesmo não podendo de fato.

Apertei a madeira fria em meus dedos, tentando entender o porquê disso tudo logo agora.

Será que foi devido ao meu posicionamento em relação a estar com o Draco? Ou foi apenas por aceitar a ser a Leesa, e não uma substituta?

Seja o que for, não poderia ficar apoiada no corrimão para sempre, mesmo com essa vertigem.

"Como foi sua vida em Hogwarts?"

"Recebi uma carta dizendo que meu filho é herdeiro Avery."

"Espero que nenhuma desses cortes venha ficar negros."

Observei meus pulsos e nenhum corte estava ali, e isso poderia significar que as memórias poderiam ser transferidas sabe-se lá como, mas as marcas e feridas não, porém, uma coisa tenho certeza.

Sou a Leesa, mas sou completamente diferente.

Não sinto dor pelo meu sangue, não quero vingança e nem mesmo quero ir para o passado salvar alguém que já está salvo e casado.

Mas mesmo tendo essas diferenças, temos algo em comum. Queremos ser livres e mesmo trancada nessa mansão, tinha uma companhia excelente para os dias.

E as noites posso apenas sentar e ler um livro no quarto de hóspedes... Não odiava essa vida pacífica, apenas agradecia por ter ela.

Respirei fundo e continuei o que estava fazendo antes dessas memórias me assombrar.

Mas o que devo fazer agora? Contar para ele que tenho algumas memórias e cada dia que passa ganho mais? Ou posso apenas fingir que ainda sou uma pessoa diferente?

Isso não seria justo, mas também não me colocaria em uma posição complicada, já que posso tê-lo beijado e aceitado seus sentimentos.

Mas não acho que o amo... Porém, ele era perfeito demais para deixar escapar de minhas mãos.

Ele era algo que poderia ser descrito como um personagem masculino feito por uma mulher.

Cavalheiro, charmoso, bonito e atencioso.

Tudo que pessoas querem na vida e olha, ele se jogou na minha frente e mostrou todas essas qualidades no mesmo instante e não posso recusar a "comida" tão apetitosa só porque me forcei a ser vegetariana.

Afinal, sou uma carnívora sedenta por uma pessoa que me ame verdadeiramente e encontrei sem precisar gastar saliva e esforço.

Então por que não posso me jogar de cabeça nisso? Isso não vai me matar e nem mesmo vai destruir meu coração já esmagado pelo tempo.

Talvez apenas reviva ele...

E se o problema é porque o conheço em menos de um mês...

Bom, existe amor precoce e se bem me lembro, em menos de cinco minutos uma pessoa pode se apaixonar por outra.

Quem é louco de não se apaixonar por aquele homem?

Parei de pensar nisso e entro no meu quarto, fechando a porta atrás de mim.

Retirei o vestido, a sapatilha e os acessórios, os deixando em qualquer lugar desse quarto.

Não estava com paciência para arrumar tudo, mesmo sabendo que deveria arrumar.

Suspirei e vou até o armário, pegando um moletom que iria até a metade das minhas coxas e... Bom, observei meu corpo no espelho ao lado.

Vendo que meus seios não eram feios e o ossinho do quadril era até que fofo, mas a calcinha não me deixava estranha.

Entretanto, acho que não preciso de calcinha para essa ocasião, mesmo que na minha cabeça imagens sujas estivessem aparecendo, sei que aquele homem era certinho demais e não faria nada comigo, ainda mais que acabei de dizer que ele poderia me cortejar.

Então, sejamos sinceros, ninguém é tão precoce que transa no mesmo dia que... Não, eles faziam isso, eu que sou estúpida por querer conhecer a pessoa primeiro e depois ir para os finalmente.

Retirei a calcinha e meu corpo nu apareceu no reflexo, me fazendo entender que era realmente bonita, apenas precisava sair daquele tempo e ser cuidada.

Até ganhei gordura em certas regiões... Ah, realmente sou linda.

Visto o moletom e calço pantufas, indo até a porta novamente.

Girei a maçaneta e saio do quarto, fechando a porta em um clique.

Passo pelo corredor extenso e desço a escadaria devagar, caminhando até a cozinha que tinha luzes acessas.

Arrastei meus pés para entrar na cozinha e parei na porta, vendo Dragon saboreando uma tábua de frios com um vinho tinto.

O líquido girava na taça, mas o que meus olhos não queriam parar de ver era o torso desnudo do homem a minha frente.

Sabia que ele era forte, mas não sabia que debaixo daqueles ternos feito sob medidas tinha uma pessoa assim...

A luz estava dando um belo de um contraste em seus ombros, fazendo que a clavícula ficasse mais proeminente e assim, saciando meu desejo de tocar.

Os braços, apoiados na mesa da cozinha, fazia que os músculos se mexessem de uma forma atraente, como se estivesse seduzindo alguém invisível.

A pele branca, banhada pela luz dourada, era como se estivesse pegando sol e acabou sendo agraciado por toda a beleza que Merlim jogou na Terra.

Os mamilos rosados e... Aquilo eram cicatrizes? Por que ele tem cicatrizes em seu torso?

Será que ele contou para a Leesa? Infelizmente essa memória ainda não estava na minha cabeça.

_ Sei que sou bonito, mas se continuar me olhando desse jeito, não posso me controlar. - Olhou para mim e sorriu de lado.

_ Demorei? - Por favor, não se controle!

Seu olhar queimava meu corpo e me fazia repensar na ideia de ele não querer fazer sexo comigo, parecia que estava sendo despida pelo seu olhar.

Isso estava deixando quente no meio das minhas pernas.

_ Não. - Vou até ele, fazendo que não conseguisse parar de me analisar.

Sentei-me a sua frente, cruzando as pernas e o fazendo me olhar pelo vidro transparente da mesa.

_ Aqui. - Entregou-me uma taça e brindamos. _ Ainda penso que estou sonhando. - Mas não está.

_ Então acorde. - Zombei. _ Você quer me contar alguma coisa? Além do que já me contou? - Ficou pensativo.

Mas continuou olhando para um ponto específico e tive que mexer no moletom que havia se levantado um pouco. O arrumei, mas seu olhar continuava ali.

_ Bom. - Estalou a língua. _ Ajudei a Leesa saber algo sobre o sangue negro, mas não consegui muito... - Continuou falando sobre os ocorridos daquele ano, enquanto bebia um pouco do vinho.

O sigo, mas o sabor de uva fez que os meus olhos doessem apenas por provar isso, porém, era refrescante.

Mas o amargor que dava uma coceirinha na garganta fez o vinho ter um sabor exótico e atraente.

_ E todas as pastas que conseguimos sobre os Comensais e outros, estão guardadas, até mesmo o álbum de fotos. - Fiquei interessada no álbum.

_ Poderia me mostrar depois? O álbum. - Concordou e observou a taça vazia. _ Não é ruim. - Deixei a taça no seu lugar, o fazendo enchê-la novamente.

Peguei um palitinho e finquei em um dos queijos, o provando logo em seguida.

_ Em poucos dias terei que voltar para St. Mungus, mas antes disso, quero te levar em alguns lugares, você gostaria de ir?

_ Por mim tudo bem. - Continuei pegando outras coisas da tábua. _ Por que você tem cicatrizes no seu torso?

Bagunçou os cabelos e sorriu, olhando para o meu rosto, ele estava bêbado? Não, acho que não.

_ Potter tentou me matar e mesmo o Snape me salvando, algumas cicatrizes ficaram. - Alisou seu peito e queria ser sua mão para fazer isso. _ Quer tocar?

Fiquei surpresa e até mesmo pensei que pudesse ler pensamentos.

Iria negar, mas ele já estava se levantando e dando a volta na mesa, se encostando nela e me olhando como se esperasse minha ação seguinte.

_ O que aconteceu com ele? - Perguntei para tentar dissipar o nervosismo.

_ Bom, no mesmo dia que salvei você, bati nele. - Queria ter visto. _ Porém, todos que trabalhavam e ajudavam aquele homem. - Suspirou. _ Até a sangue-ruim e o Weasley, que mesmo não trabalhando lá, ele também acobertou tudo...

_ Resumindo, você bateu no Potter e...

_ Fiz que os outros fossem presos. - Sorriu de lado.

Era uma boa forma de punição e esperava que eles estivessem em Azkaban, ou sendo torturados.

_ Fizeram um túmulo? - Mudei de assunto.

_ Papai fez todos os preparativos e colocou no cemitério da família, mas não tenho coragem de ir lá. - Levantei a sobrancelha. _ Porque ela não necessariamente morreu, ela é você.

Ele tinha razão, ela sou eu.

Levantei-me e fiquei observando seus olhos semicerrarem, enquanto sua língua lambia seus lábios em questão de segundos.

_ Realmente não quer tocar? - Levantou o braço e iria colocar a mão na minha cintura, mas abaixou novamente. _ Desculpa, acho que bebi demais, não quero fazer algo estando desse jeito, mesmo tendo a permissão.

Sabia que estava pensando que estava sendo desrespeitoso, mas ele não estava sendo atrevido por tentar colocar a mão na minha cintura.

Até parece que vivemos na década de 20.

Peguei sua mão e a coloquei na minha cintura, o fazendo apertar, como se não quisesse só aquilo, mas nem eu quero só isso...

Ele me puxou para o meio de suas pernas e percebi que ele só usava uma calça de flanela e Merlim, ele ficava bem com algo simples.

Olhei para o seu peito e toquei suas cicatrizes, não eram muitas, mas eram esbranquiçadas e largas.

Meus dedos sentiam a pulsação de seu coração, que batia violentamente em seu peito.

Ele estava se controlando e como estava, e se eu fizesse qualquer coisa, ele iria explodir a qualquer momento.

Quero vê-lo explodir e não estou com medo de acabar me machucando pela explosão.

Não sou a Leesa que nunca soube como é sentir amor, sei como é esse sentimento, mas nunca aprofundei ou quis aprofundar.

Achava todos os pecadores e nojentos por si só, mas esse homem era diferente. Ele tinha uma aura que dizia que eu podia confiar cegamente, que ele seria meus olhos e eu, seria seu corpo.

Enlacei meus braços no seu ombro e me inclinei para frente, como naquele dia no jardim, mas os movimentos estavam trocados.

Alisei meus lábios nos seus e sua mão apertou ainda mais a minha cintura, fazendo que o moletom se levantasse um pouco.

Dessa vez não seria um beijo risonho, ou eu que...