Capítulo 2

"Tell him to buy me an acre of land

Parsley, sage, rosemary and thyme

Between salt water and the sea-sand

And then he'll be the true love of mine1"

Scarborough Fair, Aurora

Apesar de ter afirmado o contrário a seu pai, Brienne estava muito empolgada naquele dia. Fazia muito tempo que não assistia a um torneio ou que ia a Porto Real; e o fato de haver uma feira com barracas cheias de adereços e curiosidades de diferentes partes do reino, apenas tornava tudo melhor. Ela adorava conhecer culturas diferentes à sua e achava aquela oportunidade única.

Tendo obtido a autorização de seu pai, a jovem vagava pela feira sentindo-se deslumbrada. Felizmente sua aia não era do tipo que controlava cada passo seu, então haviam combinado de se encontrar na entrada da feira dali a duas horas.

Brienne parou em uma das barracas para observar algumas pulseiras prateadas. Elas tinham pingentes com diferentes desenhos e, dependendo da pulseira, havia uma pedra pendendo em meio aos pingentes e cuja cor variava de pulseira para pulseira.

— Eu escolheria a que tem a pedra azul, se fosse você — uma voz disse às suas costas. — Combina com seus olhos.

Brienne se virou e se deparou com Jaime Lannister. Fazia quase dois meses desde o baile em que dançaram juntos, porém a lembrança daquele sorriso não deixava sua mente.

— Olá, sir Lannister — ela falou ruborizando, pois Jaime lhe dirigia aquele sorriso que tanto atormentava seus sonhos.

— Sir Lannister? — ele questionou rindo. — Achei que já havíamos abandonado essas formalidades, Brienne.

— Bem, não é porque dançamos uma música que...

— Se bem me lembro, foram duas. — Jaime segurou a mão dela e a beijou. — E, pelo que ouvi dizer, isso é quase uma garantia de noivado.

— Não exagere — ela retrucou puxando sua mão da dele com o cenho franzido.

— Não precisa se irritar — Jaime falou com um sorriso maroto. — Fico feliz por vê-la novamente, é só. Não ficou feliz em me ver?

— Ainda estou pensando. — Brienne deu um pequeno sorriso, que fez o coração de Jaime bater mais rápido.

— Enquanto pensa, talvez eu possa lhe mostrar as melhores barracas da feira — respondeu lhe estendendo o braço direito para que pudessem caminhar juntos. — Minha favorita é a que oferece vinhos e quitutes de Dorne. São uma delícia.

— Ok — concordou Brienne segurando braço dele. — Vamos lá. Eu estou com fome mesmo.


— E então? Eu não estava certo? — Jaime perguntou assim que Brienne mordeu o petisco escolhido e ela fechou os olhos para saboreá-lo melhor.

— É maravilhoso — ela concordou e Jaime deu um sorriso satisfeito.

Eles estavam sentados sobre uma mureta que lhes permitia fugir de toda a agitação da feira enquanto observavam o mar.

— Eu sabia que ia gostar. Amo essas feiras e tento comparecer a todas que ocorrem aqui em Porto Real, portanto, já sei quais são as melhores barracas — explicou. — Geralmente eu vinha para participar dos torneios, mas agora apenas posso apreciar a comida.

— Você não vai mais participar de torneios? — Brienne perguntou chocada. A fama de espadachim de Jaime o precedia por todo o reino, então era com surpresa que ela recebia aquela notícia.

— Sem minha mão direita? — ele indagou num tom debochado. — Só se eu fosse louco.

— Você ainda poderia lutar com a esquerda. Apenas precisa treinar — ela replicou tentando animá-lo e Jaime ficou grato por isso.

— Se fossem outros tempos, talvez. Mas estou ficando velho demais pra esse tipo de competição. Tenho treinado com a mão esquerda, mas, mesmo que eu obtenha destreza com ela, estou cansado dessas obrigações. Minha vida inteira foi cheia de obrigações, acho que já cumpri o que esperavam de mim.

Brienne notou a sombra de tristeza que encobria os olhos de Jaime e se sentiu igualmente triste.

— Eu entendo — ela falou encarando-o com seriedade. — Não passei pelas mesmas situações que você, mas sinto o peso das obrigações e temo as consequências que elas trarão. Meu sonho era ser uma cavaleira — comentou sorrindo. — Consegue me imaginar sobre um cavalo com uma armadura e uma espada de aço valiriano?

— Consigo — Jaime afirmou na mesma hora.

Não era preciso ter muita imaginação para visualizar Brienne defendendo aqueles em estavam em necessidade de proteção.

— Bem, meu pai diz que é um sonho bonito, mas que guerrear não está entre as qualidades esperadas por uma boa esposa e eu ainda preciso me casar e gerar herdeiros para que nossa casa não desapareça. Embora eu ache que será muito difícil um pretendente surgir, tenho medo dos acordos que meu pai possa fazer para que isso se concretize. Parece um medo bobo, mas...

— Não é — Jaime respondeu sério. Sentia-se angustiado só de imaginar Brinne se casando forçadamente. Ninguém merecia isso, e ela menos ainda.

— Não sei por que estou te contando tudo isso — ela comentou baixando os olhos envergonhada. nunca falei sobre isso com ninguém.

— Fico feliz que tenha confiado em mim — ele afirmou tocando a mão dela e fazendo com a jovem voltasse a encará-lo.

A verdade era que Brienne nunca se sentira tão à vontade com alguém.

— Tive uma ideia — Jaime falou após terem se encarado em silêncio por algum tempo. — Já que não participaremos do torneio, o que me diz de uma aposta?

— Aposta?

— Sim. Vamos apostar quem ganhará o torneio, e aquele que vencer, terá o direito de pedir alguma coisa ao perdedor.

— Gostei da ideia — Brienne respondeu. — Embora eu não tenha ideia do que vou pedir a você caso ganhe.

— Eu sei exatamente o que vou pedir — disse sorrindo animado.

— O quê?

— Se eu ganhar, quero que me dê uma prenda. — Brienne o encarou magoada e a seguir se levantou.

— Não zombe de mim — falou fazendo menção de se afastar, porém Jaime se levantou tão rápido quanto ela e a segurou pelo braço.

— Eu não estou brincando, Brienne. — Neste momento eles estavam com os rostos a poucos centímetros um do outro. — Se eu vencer, quero uma prenda sua. Não é porque não participarei mais de torneios, que não posso querer a prenda de uma mulher para me dar sorte.

Brienne engoliu em seco e sentiu todo o seu corpo esquentar. Jaime parecia estar sendo totalmente sincero naquele momento e a proximidade entre eles mexia com seus sentidos; assim como os dele.

Jaime soltou o braço dela ao perceber que podiam acabar chamando a atenção das pessoas e como isso poderia macular a reputação dela.

— Você aceita? — perguntou sem deixar de encará-la.

— Sim — ela concordou ainda envergonhada.

— Ótimo. — Ele voltou a indicar o local onde estiveram sentados observando o mar. — Em quem você aposta? — indagou sentindo-se mais calmo por Brienne não o ter deixado.

— Sir Loras — ela respondeu após pensar alguns segundos e Jaime riu. — O que foi?

— É quase como se você estivesse optando por perder de propósito — Jaime respondeu num tom divertido e Brienne acabou rindo junto com ele.

— Tudo bem, espertinho, eu apostaria em você se estivesse participando, mas não está. — A jovem deu de ombros, resignada. — Em quem você aposta?

— Sir Clegane, o cão de caça.

— Ele não me parece ser muito melhor que Loras.

— Bem, descobriremos durante o torneio. — Jaime lhe estendeu a mão para que selassem o acordo e Brienne a apertou. — Que vença o melhor.


Jaime assistiu ao tornei sentado próximo à sua família e Brienne junto à comitiva de seu pai, porém, apesar da distância, era como se estivessem bem próximos. Afinal, toda vez que relanceava Jaime, ele parecia estar olhando para ela, analisando suas reações. Ao mesmo tempo em q isso era perturbador, fazia o coração dela acelerar e a fazia ansiar pelos momentos em que se encaravam.

Ela se perguntava se Jaime estava conseguindo acompanhar o torneio, pois, para ela, estava sendo praticamente impossível. A única coisa em que realmente prestou atenção foi que sir Clegane ganhou o torneio e que Jaime a observava em expectativa quando se levantou para acompanhar a comitiva de seu pai para fora da arena.


Como haviam combinado, ela o esperava em uma das ruas nos arredores da arena. Dissera a seu pai que daria uma última volta na feira e garantiu a sua aia que a encontraria depois. Logo viu Jaime andando em sua direção com um sorriso vitorioso.

— Parece que eu venci — disse satisfeito e Brienne revirou os olhos, embora fosse impossível não sorrir junto com ele.

— Parece que sim.

— Então quero minha prenda.

A jovem assentiu e a seguir engoliu em seco antes de puxar um lenço de entre seus seios. Estava morta de vergonha, mas era o único que carregava naquele momento e uma aposta era uma aposta.

Entregou o lenço a Jaime que, sem qualquer tipo de pudor, o aproximou de seu nariz e aspirou seu perfume, deixando a jovem chocada.

— Lavanda — murmurou sem deixar de sorrir, enrolando o lenço em sua mão. — Mas não era a isso que me referia quando pedi uma prenda.

— Então o q...? — Antes que pudesse concluir a pergunta, Jaime colou seus lábios aos dela e a encostou na parede, pressionando seus corpos um contra o outro.

Este era o primeiro beijo dela, e Jaime já devia imaginar, pois, apesar de parecer afoito, ele fora super gentil e carinhoso.

— Você enlouqueceu, Jaime — Brienne sussurrou quando se separaram. Estava mais vermelha que nunca. —Alguém poderia nos ver aqui.

— Se quiser, podemos continuar em outro lugar.

— Jaime! — A admoestação dela lhe deu vontade de rir.

— Você não faz ideia de como eu gosto de ouvir meu nome saindo da sua boca.

Brienne o fitava sem entender o que estava acontecendo. Se fosse uma jovem típica, acreditaria que Jaime estava apaixonado por ela, mas este não era o caso. Embora ansiasse por mais beijos como aquele, tinha medo de que estivesse se iludindo.

— Estou prestes a sair da cidade para resolver alguns assuntos, então não temos muito tempo. Sou obrigado a ser breve — ele falou acariciando o rosto dela. — Da última vez não pedi permissão pra lhe enviar cartas; seria muita presunção achar que posso fazê-lo agora? — O coração de Brienne parecia que ia pular do peito. — Sei que pode estar me achando impulsivo, mas...

— Pode — ela o interrompeu sentindo seu corpo tremer de ansiedade. — Você pode me enviar cartas quando quiser.

O sorriso que se expandiu pelo rosto de Jaime chegou a fazer seus olhos cor de esmeralda brilharem.

— Ótimo — ele respondeu animado. — Enquanto isso não acontece, tenho algo pra você — prosseguiu procurando algo em seus bolsos; e logo lhe mostrava uma das pulseiras que ela vira mais cedo. — Escolhi a pedra azul para combinar com seus olhos, e esse leão — ele apontou um dos penduricalhos da pulseira — é pra que se lembre de mim.

Brienne o fitou emocionada enquanto ele lhe entregava a pulseira.

— Prometo que entrarei em contato em breve — ele disse lhe dando um último beijo e começando a se afastar segurando o lenço dela contra seu coração, como se fosse um bem precioso.

Por mais absurdo que fosse, ela não podia deixar de acreditar que Jaime realmente gostava dela. E ela, com certeza, estava apaixonada por ele.

Início e Término: 09/07/2020.

1 "Diga a ele para me comprar um acre de terra

Salsa, sálvia, alecrim e tomilho

Entre água salgada e a areia do mar

E então ele será meu verdadeiro amor". Tradução Livre.