Cap. XVIII – Epílogo
"Corre! Pega a bexiga azul!". Cuddy pediu impaciente.
"Eu só quero te lembrar de que eu tenho uma perna ruim e que correr pra mim é fisicamente impossível". House respondeu com toda a calma enquanto estava sentado no sofá jogando vídeo game.
Era o décimo aniversário de Sam, e Cuddy faria uma festa em casa para o filho. Viriam alguns amigos, familiares e amiguinhos do garoto.
"Eu preciso de ajuda!". Ela respondeu frustrada.
"Você contratou uma equipe de festas. Gastou um belo dinheiro pra isso e são eles quem devem te ajudar".
"Mas eles não estão aqui agora e eu preciso arrumar esse balão".
"Você é perfeccionista demais, não vejo nada errado com esse balão".
Ela bufou frustrada. "Você não pode se levantar daí pra me dar esse balão?".
"Eu sou velho! Um velho aleijado".
"Mamãe, onde está minha blusa preta com detalhes brancos?".
"Ótimo! Rachel me dê esse balão!".
"O que você está fazendo em cima da escada? Você não contratou uma equipe para organizar a festa?". Rachel perguntou sem entender.
House riu. "Eu falei isso…".
"Vocês dois me deixam muito irritada". Ela respondeu descendo da escada e indo ela mesma buscar o balão.
Rachel era muito parecida com House em suas argumentações e isso deixava Cuddy louca, dois deles era demais.
"Eu trarei Monica". Rachel anunciou. Monica era amiga dela e seus pais desconfiavam que podia haver algo mais…
"Tudo bem, ela é bem vinda sempre". Cuddy disse enquanto amarrava a bexiga.
"Vovó não vai dizer nada que vai me envergonhar?".
"Querida, sua avó é imprevisível. Prepare Mônica pra tudo". Cuddy respondeu.
Arlene se desculpou eventualmente sobre o ocorrido naquela festa. Depois de muita insistência de Júlia. Depois de meses sem ver os netos e a filha.
Quando finalmente ajeitou o balão onde queria, Cuddy sentou-se no sofá perto do namorado.
"Estou esgotada".
"E a festa nem começou".
"Eu estou cansada e sobrecarregada".
"Sem precisar".
"É claro que você dirá isso. Eu sou a mãe e mesmo contratando alguém, eu sempre terei algo pra fazer".
"Ok".
"O que você quer dizer com isso?".
"Nada…".
"Você pode dizer".
"Eu não direi nada".
"Você é insuportável".
House sorriu. "E você fica linda toda tensa".
Ele fez massagem no pescoço dela e ela começou a relaxar sob seus cuidados.
"Preciso de um bom banho".
"E sexo no banho…".
Ela mordeu o lábio inferior. "Talvez…".
"De repente me sinto cansado e precisando de um banho também".
Ela riu. "Sua mãe está aqui, melhor não… vai que acontece novamente... aquilo".
Há dois anos Blythe estava passando o dia com eles e o casal esqueceu-se desse detalhe. As crianças estavam fora e eles se excederam em um 'encontro inesperado' na cozinha. Até que Blythe resolveu buscar água e…
"Ela não viu nada demais".
"Oh não… porque eu em cima da bancada da pia com minhas pernas enroladas na sua cintura não era nada".
"Estávamos vestidos ainda".
"Graças a Deus! Senão eu nunca mais conseguiria olhar pra ela".
"Você ficou sem conseguir olhar pra ela…". House zombou.
"Eu teria me mudado para o Alasca".
"O que há de mais? São dois adultos casados e com filhos tendo seu momento de intimidade. Ela sabe que transamos, ou deveria saber... De outra forma, como fizemos Sam?".
"Casados?". Foi Cuddy quem zombou agora.
"O quê? Não preciso ter um papel ou um anel que me diga meus compromissos e vínculos. Eu me sinto casado com você".
Cuddy não sabia o que sentir. Ela havia desistido de ganhar um anel há muito tempo, não esperava por essa declaração.
"House…".
"Eu não preciso de um anel ou alguém que ateste o óbvio. Nós dois bastamos".
De repente ela o beijou com tanta intensidade que logo se viu montada nele no sofá.
"Oh desculpem!".
Cuddy não podia acreditar…
"Blythe… desculpe... eu…".
"Não, não… sou eu quem estou invadindo sua casa".
E a mulher saiu.
House riu.
"Você ri? Ela nos pegou outra vez! O que vai pensar?".
"Que somos um casal muito quente!".
"Que somos adolescentes descompensados e que fazemos isso em qualquer lugar, inclusive na frente das crianças".
"Ainda bem que não foi Rachel quem apareceu na sala".
"Oh Deus! Nós somos um casal descompensado". Cuddy falou pensativa.
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Quando a festa iniciou, tudo estava perfeito, mas Cuddy e seu perfeccionismo sempre insistia em encontrar algum problema.
"Os canapés estão pouco recheados".
"Cuddy… relaxe! Tudo está ótimo e todos estão se divertindo. Principalmente Wilson".
House apontou para o amigo que havia colocado um óculos 3D e derrubava tudo da mesa onde trombou.
"Ele vai derrubar a mesa".
"Oh Cuddy, deixa ele, já estou ate filmando a cena".
Cuddy não conseguia entender como House era tão sossegado para algumas coisas.
Então ela foi até Wilson e arrancou os óculos dele. Wilson olhou assustado.
"A zona de divertimento é do outro lado. Aqui estão às mesas e convidados".
Samuel e seus amigos riram, eles estavam achando graça da falta de orientação do tio Wilson.
House balançou a cabeça. "Estraga prazer!".
Arlene foi, claro, afinal era aniversário de seu neto preferido. Ela levou seu novo namorado, Jeremy, um homem mais jovem e surfista. House zombava dela e dele. "Como alguém surfa em Nova Jersey?". Com certeza ele tinha uma prancha e se dizia surfista por isso, sem de fato vivenciar o surfe. Mas ele tinha uma tatuagem no braço e usava gírias da moda.
Além do namorado, Arlene trouxe um enorme embrulho para o neto.
"Vovó!". O menino correu para abraçá-la.
"Samuel querido, muita saúde! Muitas felicidades!".
"Obrigado".
"Trouxe isso pra você".
"Nossa!". O menino disse antes de abrir. E era um vídeo game.
"É o modelo mais novo. Oba!".
Cuddy pediu para a mãe não dar esse presente, pois ela estava aguardando as notas de Sam para decidir se ele ganharia o vídeo game, mas claro que sua mãe não a ouviria.
O garoto era muito inteligente, até demais. Por isso estava desatento nas aulas, ele perdeu o interesse. A escola recomendou buscar algo desafiador para o jovem, Cuddy estava aguardando retorno de duas escolas em Nova Iorque. Ela não sabia como seria a logística, mas pensaria em algo. Afinal, ela sempre resolvia tudo. Ela fez funcionar um relacionamento com House, o que seriam os outros desafios?
"Sua mãe não tem limites".
"Eu sei".
"O que você fará?".
"Nada…".
"Sério?".
"Sim. Deixa pra lá".
House estranhou, mas não reclamou, pois ele também gostou da ideia daquele vídeo game.
Blythe chegou. A senhora havia se mudado para os arredores de Nova Jersey apenas por conta dos netos, e do filho, claro.
Blythe sentia que a vida havia soprado novos sentidos para ela, e seus netos eram a razão disso. Então a senhora os visitava com regularidade agora. House precisou se acostumar a ver a mãe com mais frequência, Cuddy ajudava muito, afinal, ela e a mulher se davam bem e passavam a maior parte do tempo juntas com as crianças, House podia fugir em alguns momentos e isso era libertador.
Rachel também gostava muito de Blythe, ela era muito atenciosa e carinhosa com a neta, e ela sentia-se mais acolhida do que com Arlene. Sam, e Blythe o chamava assim, também amava a mulher.
"Olá filho".
"Oi mãe". E ela o abraçou e o beijou, ele sempre se sentia desconfortável com isso, como se fosse um garotinho novamente.
"Onde está Lisa e as crianças?". A mulher estava cheia de presentes, pois nunca presentiava uma pessoa só. Certamente ela trouxe presentes para todos da família.
"Eles estão por aí…".
"Você não está participando da festa?". A mulher perguntou, pois ele estava fora da casa segurando um copo de cerveja.
"Sim, estou só dando um tempo".
Ela entendeu. Conhecia seu filho melhor do que ele podia admitir.
"Mas procure Sam na região do enorme barco pirata inflável que Cuddy alugou e Rachel em algum local escondido tentando beijar a namorada".
Blythe sorriu. "E Lisa?".
"Cuddy está em todo lugar ao mesmo tempo tentando fazer tudo parecer perfeito".
"Você conhece mesmo sua família".
"Eu vivo com eles vinte e quatro horas".
"Verdade". A mulher sorriu e passou a mão carinhosa pelo ombro do filho. "Vou procurá-los, mas antes, isso é pra você". A mulher estendeu um embrulho.
"Mãe, não precisava… é aniversário de Sam, não meu".
"Você me deu o presente mais lindo: netos. Então você merece todos os presentes do mundo".
Ele ficou corado, mas tentou disfarçar. Não respondeu nada e abriu o embrulho. Era um livro de música muito antigo com os dizeres na contra capa.
Esse livro pertence a Robert Johnson.
"Sério isso?".
"Eu paguei caro por isso. Tem até um certificado de autenticidade. Se não for sério eu ficarei muito brava".
"Robert Johnson... O Robert Johnson?".
Ela sorriu.
"Caramba! Isso é… deve ter sido muito caro".
"Oh… eu tenho todo esse dinheiro do John guardado e, desde que ele foi um pai aquém do que deveria, sinto que de alguma forma o dinheiro serve para ajustar isso".
"Mãe…".
"Aproveite! E toque alguma coisa pra mim depois".
Ele ficou admirando aquela raridade sem palavras para expressar.
Enquanto isso, Cuddy corria para todos os lados como um garçom equilibrando os copos em uma bandeira abarrotada.
"Lisa, relaxe! A festa está ótima".
Ela respirou. "Eu sou muito tensa, não sou?".
Júlia riu. "Desde que eu me conheço por gente".
Cuddy riu de volta. "Achei que tinha mudado. Pelo menos um pouco. Mas House vive me dizendo que preciso parar de tentar controlar tudo".
"E ele tem razão"
"Se eu não fizer isso, quem vai fazer?".
"Lisa… você já pensou em deixar o hospital?".
Ela olhou pra irmã com horror.
"Não sei, deixar esse cargo tão exigente de reitora e passar para algo mais leve… sem tanto stress. Eu não sei como você conseguirá relaxar mantendo sua rotina insana de trabalho".
"Eu reduzi meu trabalho depois de Sam. Hoje tenho uma auxiliar e quase nunca fico até tarde no hospital".
"Mesmo assim a palavra final é sempre sua. Talvez você precise de uma mudança. Não ter que se preocupar com tudo o tempo todo".
"Eu… me aposentar?".
"Não! Absolutamente! Você ainda tem muito a fazer. Apenas… mudar!".
Cuddy ficou pensativa.
"Sei que não será algo pra ontem, mas você merece uma vida mais tranquila".
"House tem me falado sobre mudar… sobre fazermos algo diferente, e juntos".
"Então. Vocês são tão talentosos que tenho certeza pensarão em algo".
"Eu Lisa, acabou o vinho!".
Cuddy respirou fundo. "Obrigada Júlia". Ela sorriu e foi até sua mãe.
"Como você deixa acabar o vinho em uma festa?".
"Pena que você não namora mais Jesus...". Cuddy falou com uma pitada de ironia e um tanto ríspida e irritada." Temos mais vinho. O suficiente para te apagar". E ela foi buscar mais garrafas.
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Quando a festa terminou Cuddy estava exausta, mas feliz. Tudo deu certo e Sam amou cada minuto da festa. Agora o garotinho estava dormindo no sofá, Cuddy o chamou.
"Vá escovar os dentes e dormir na sua cama".
"Mãe…".
"Sem reclamar. Vai filho!". Ela beijou o rosto dele, mas Sam dormiu outra vez. Ela sorriu. O jovem dormia em qualquer local, uma vez ele dormiu em pé. Blythe disse que House era igual.
"Sam…".
O menino bufou. "Ok… já vou".
E dormiu outra vez.
"Samuel!".
"Me deixa em paz!".
Ela conteve o sorriso. "Não até você levantar e escovar seus dentes. Te deixarei em paz quando estiver na sua cama".
Samuel rendido levantou-se.
House olhava para a filha através da janela. A garota se despedia de Jota, um amigo da escola, e a despedida teve direito a um beijo na boca. Ele estava em choque. Cuddy se aproximou.
"Mas ela não estava com a garota?".
"Ela me disse que são apenas amigas".
"Quando ela falou isso? Porque pensei que ela estava muito a fim da menina".
"Durante a festa. Acho que percebeu que gosta mais de Jota".
"Se sua mãe souber disso vai dizer que é uma orgia".
"Sim, ela vai". Cuddy concordou. "Ou vai ficar feliz que Rachel está com um garoto ao invés de uma garota".
"Eu prefiro Rachel com garotas".
"Você não decide por ela". Cuddy riu.
"Garotas são mais agradáveis aos olhos. E não tem… algo perigoso no meio das pernas".
"Rachel não faz sexo".
"Você diz…".
"Eu sei. Temos um ótimo diálogo".
"É questão de tempo".
"Tudo é questão de tempo".
Cuddy o abraçou.
"Falando em tempo… eu me lembrei de uma coisa". House tirou do bolso uma foto e entregou pra Cuddy que riu.
"Nosso filho não se parece em nada com isso. Foram os dólares mais desperdiçados da sua vida. Depois daqueles que gastou com a pizza horrorosa de sábado passado".
Ela riu alto. "Você é inacreditável. Como eu ainda posso me surpreender?"
House entregou a ela a foto que a inteligência artificial havia criado simulando a aparência de seu filho com dez anos. Aquela que Cuddy criou ainda antes de Sam nascer.
"Você guardou isso por todo esse tempo?". Ela se surpreendeu.
"Claro que sim. Havia dito que iria te provar que essa máquina artificial estava errada".
Ela riu. "Sam é mais bonito".
"E loiro".
"E loiro", ela concordou sorrindo.
"E ele não tem cara de menino perturbado. Ele é feliz".
"Sim, Sam é a felicidade em pessoa. E tem seus olhos".
"E suas orelhas".
Ela virou os olhos. "Você sabe que eu acho péssimo quando você diz que ele tem minhas orelhas".
"Mas é verdade".
"Quem repara em orelhas?".
"Eu reparei".
Ela balançou a cabeça e apoiou a testa nos braços do namorado.
"E acontece que você é um grande pai".
Agora foi House quem respirou fundo e nada respondeu. Ele sabia que as coisas não tinham dado tão errado como ele previu. Ele se dava bem com as crianças, mas também ele teve sorte, os dois eram legais demais.
"E eu te amo muito". Cuddy completou.
"Então fiz algo certo na vida". House disse enquanto envolvia seu braço na cintura de Cuddy.
"Você fez muitas coisas certas na vida".
Fim
Chegamos ao fim.
Não sei se estiveram comigo até agora, mas gostaria que deixasse seu feedback sobre essa estória. Quem sabe me animo para uma nova em breve...
