QUANDO NOS TOCAMOS

BY DAMA 9

Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, pertencem a Masami Kuramada e a Toei Animation.

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Importante!

Dama 9 e amigos incentivam a criatividade e liberdade de expressão, mas não gostamos de COPY CATS. Então, participe dessa causa. Ao ver alguma história ou qualquer outra coisa feita por fã, ser plagiada ou utilizada de forma indevida sem os devidos créditos, Denuncie!

Boa Leitura!

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Capítulo 7: Escolhas.

(...) Você não pode sentir meu coração batendo fraco? (...)

.I.

Sentiu a água quente cair por seu corpo aliviando os músculos tensos, à noite mal caíra e fora o suficiente para ter certeza de que ela não seria mais tão tranquila dali para a frente.

June de Camaleão, esse era seu nome, provavelmente quando a jovem de melenas loiras acordasse e se desse conta de quem ele realmente era, se já não soubesse, as coisas iriam ficar complicadas.

Pouco depois da saída de Máscara da Morte, subira até o último templo, onde encontrou Athena e Shina lhe esperando, as duas haviam lhe explicado sobre as condições da ilha de Andrômeda nos últimos anos e o que vinha acontecendo com June até então. Além é claro de ressaltarem a relação de amizade que ela tinha com Shun, mas que acabara se tornando um amor platônico, onde a jovem não era correspondida com nada mais do que um sentimento fraterno do cavaleiro.

O que resumia bem as confusões que previa para o despertar dela, pelo que Athena contara, a jovem estava instável e provavelmente iria descontar tudo que estava sentindo no primeiro alvo que encontrasse na frente, no caso, ele. Graças a missão que recebera de Ares no passado, onde acompanhara Milo até a Somália para eliminar qualquer rebelde insurgente disposto a ir contra o 'novo' Grande Mestre e a nova ordem reinante sobre o Santuário.

Athena pediu sua compreensão e ajuda para lidar com o problema, mas tinha lá suas dúvidas se aquela garota realmente queria ser ajudada, ou preferia ter apenas um bode expiatório para descontar suas frustrações; ele pensou.

Suspirou pesadamente, enquanto encostava a cabeça sobre o azulejo frio. Droga! Não se arrependia das decisões que tomara, tampouco deixava que qualquer fagulha de culpa acabasse com sua tranquilidade, mas o que era tal sentimento se comparado ao inferno que vivera nos últimos quinze anos?

De qualquer forma nada do que fizesse agora apagaria a verdade, ele assassinara Albion de Cefeu.

-Sem arrependimentos; ele murmurou esperando que tais palavras ecoassem com mais força em sua mente.

Na época decidira jogar conforme as regras do Santuário, sem questionar as ordens, apenas as cumprindo, mesmo que ao avaliar agora, compreendesse que muitas coisas poderiam ter sido diferentes, mas se lamentar não as mudaria. Tomara uma decisão na época e como não tinha nada mais a perder, seguiu em frente.

-Sem arrependimentos, entenda isso de uma vez; Filipe resmungou, sentindo a água cair sobre sua cabeça, fazendo os longos fios azuis cobrirem seus olhos.

Fora uma escolha sua viver cada um de seus dias sem se preocupar com ninguém além de si mesmo, era mais fácil viver sem laços, ele bem sabia o quão difícil era estar atado a alguém e ter de se separar depois por conta de obrigações as quais odiava cumprir.

Se não houvesse sentimento, não haveria dor, tampouco arrependimentos. Entretanto precisava de um pouco mais de tempo ali para obliterar de sua mente qualquer pensamento que poderia trincar as paredes da fortaleza que construíra ao longo dos anos em torno de seu coração e faziam com que lembranças antes trancafiadas atrás dessas muralhas, fossem libertadas de forma angustiante agora.

.II.

Passou por todos os templos não a encontrando em parte alguma, não sabia mais onde procurar além do vilarejo das amazonas, mas encontrara com Marin ao passar pelo templo de Leão e ela dissera que June estava instalada no último templo e como já viera de lá, sabia que a jovem não voltara ainda.

-Droga! Onde ela esta? –ele se perguntou, ultrapassando a entrada de Touro, seguindo para o primeiro templo, quem sabe se fosse até o Observatório poderia eliminar outros pontos onde procurá-la; ele concluiu.

-Parece que já se recuperou bem, Shun; uma voz conhecida soou, chamando-lhe a atenção.

-Mú? –o cavaleiro falou surpreso ao encontrar o ariano no meio do caminho.

-Saori comentou que você estava tendo uma boa recuperação. Me desculpe, andei um pouco ocupado, por isso não consegui subir antes para te visitar; ele comentou casualmente.

-Eu entendo e agradeço por se preocupar Mú... Eu tenho me sentido muito melhor; Shun respondeu agradecendo, tentando não demonstrar a pressa que sentia.

-Se não se importar, gostaria de conversar um pouco com você em Áries? - Mú falou indicando o primeiro templo.

-Eu preciso encontrar June primeiro Mú; Shun falou suspirando pesadamente diante do olhar especulativo do ariano. –Eu... Pensei que sendo sincero não a magoaria, mas...; ele murmurou.

-Não se preocupe com ela; o ariano o cortou. -June está bem e como você, também precisa de um tempo para ordenar os próprios pensamentos; Mú completou, com um olhar sereno.

-Sabe onde ela está? –Shun perguntou ansioso.

-Sim, mas você não deve se preocupar com ela no momento. Se você realmente se importa com ela, lhe dará tempo e espaço para absorver essa nova realidade e encontrar o próprio caminho; Mú explicou com um olhar sereno e tranquilizador.

-Tem razão; ele murmurou. -Mas...;

-Agora venha, vamos conversar em casa; o ariano continuou indicando-lhe o caminho de volta.

Shun assentiu, dando-se por vencido e o acompanhando para dentro do templo de Áries.

.III.

Observou as estrelas surgindo no firmamento, em breve deixaria o Santuário e voltaria para a casa, mesmo que não soubesse ao certo o que iria encontrar lá depois de toda destruição causada pela guerra; ela pensou, enquanto arrumava a cama para se deitar.

Pouco depois de Shun sair em disparada, Athena surgira lhe oferecendo um quarto mais confortável dentro do templo onde poderia descansar, ainda não estava certa das intenções da jovem para consigo, mas decidiu que não pensaria nos problemas agora, não quando sentia o cansaço lhe dominar, tendo toda a tensão pelos últimos anos recaindo sobre si como um bloco de mil toneladas.

O peso de saber o que aconteceria e não poder mudar nada, o mesmo peso que a fizera hesitar por tanto tempo em se permitir ser feliz e mais uma infinidade de coisas, por vezes desejava fechar os olhos e deixar que o manto de Morpheu lhe prendesse no reino dos sonhos eternamente, mas ao raiar de um novo dia percebia que tal desejo não se realizaria, não naquela manhã, tampouco na próxima. Não era seu destino encontrar seu companheiro no outro mundo, um que nem mesmo as mais poderosas divindades podiam alcançar, menos ainda voltar.

Suspirou pesadamente, enquanto deitava-se no colchão macio e perfumado, desta vez não pediria que Morfeu lhe levasse, era perda de tempo. Queria apenas não pensar, menos ainda sonhar. Quem sabe isso lhe trouxesse alguma paz, mesmo que ínfima e fugaz...

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Não soube ao certo em que ordem às coisas realmente aconteceram, quando tivesse tempo de pensar sobre isso poderia até dizer que o ar mudara, ou sentira uma leve vibração no piso a seus pés, ou quem sabe a forma como seus ouvidos ficaram tampados bloqueando todo som a sua volta, de qualquer forma seus sentidos ficaram imediatamente alertas e reagiram por puro reflexo ao receber o primeiro ataque.

-MALDITO! –o grito feminino quase estourou seus tímpanos e fez com que as portas de vidro que separavam a banheira do chuveiro tremessem.

Recuou diante do soco ligeiro da amazona, a tempo de apoiar-se na parede oposta, esquivando-se do jato de água que nublava-lhe a visão.

-FICOU MALUCA! - Afrodite gritou quando viu a jovem com olhar encolerizado avançar com as unhas eriçadas como garras em sua direção.

-VOCÊ O MATOU! –June berrou mal dando-se conta da água que caia atrás do box.

Sentira-se desorientada por um momento ao despertar, perguntando-se onde estava, até se lembrar do cavaleiro que encontrara no Jardim dos Deuses e de quem ele realmente era. Lembrava-se de Mestre Albion morrendo em seus braços, após perder uma batalha contra um cavaleiro do Santuário.

Na época pensara que fosse Milo de Escorpião, já que ele fora o cavaleiro mandado oficialmente para aquela missão, mas descobriu por intermédio de Marin, que as técnicas dele não eram associadas a invocação de rosas e sim a Afrodite de Peixes, o homem conhecido como o cavaleiro mais belo dentre os doze guardiões de ouro.

Era difícil de acreditar que os deuses haviam sido tão piedosos com assassinos como aquele, trazendo-o de volta a vida e permitindo que ele vivesse, enquanto cavaleiros realmente honrados estavam mortos, como seu mestre; ela pensou.

-VOCÊ MATOU MESTRE ALBION; ela gritou avançando contra ele.

-Pare com isso antes que se machuque; Afrodite falou tentando detê-la, mas escorregou e por muito pouco as garras da jovem não lhe acertaram no rosto, mas seu abdômen não teve a mesma sorte, sentiu a ardência tomar a área no momento que as garras dela cortaram sua pele.

-Você vai morrer; June avisou, mas sentiu-o segurar-lhe os pulsos e no momento seguinte suas costas bateram fortemente contra o azulejo molhado, fazendo-a perder o fôlego ao sentir as costelas estalarem.

-Cale a boca; Filipe ordenou.

-Me solte; June rosnou, tentando se soltar, mas as mãos do cavaleiro prenderam seus pulsos de forma que ela não conseguisse se mexer.

-Não até que você se acalme; ele exasperou, mas no momento seguinte sentiu o joelho da jovem acertar-lhe a virilha em cheio.

Sentiu a contração no momento do choque e recuou com violência para trás, enquanto o coração falhava uma batida e o ar sai de seus pulmões.

-Maldita! –ele gemeu entre dentes, perdendo o fôlego.

Apoiou-se na parede, enquanto ela passava correndo por si, mas o que June não contava era que escorregaria na água ao passar pelo box e perdesse o equilíbrio. O chão lhe faltou aos pés, mas sentiu os braços do cavaleiro em torno de sua cintura, impedindo-a de cair sobre o vidro, mas o instinto de preservação e autodefesa foi mais forte e tentou esquivar-se, fazendo com que ambos rolassem no chão.

-VOCÊ É MALUCA OU O QUÊ? – Afrodite berrou furioso, sabia que deveria tê-la largado naquele jardim, mas não... Essa é a paga por tentar ser bonzinho, idiota; a voz de sua consciência debochou.

-Sai de cima de mim; June ordenou sentindo o peso do cavaleiro impedir seus movimentos e o chão molhado privar-lhe do equilíbrio.

-Pare de gritar e eu saio, afinal, quem causou tudo isso foi você, sua maluca; Afrodite falou começando a se levantar e sem pudor algum passou por ela, indo pegar uma toalha na beira da banheira para secar os cabelos que pingavam pelo chão.

-Oras! Seu...; June vociferou corando furiosamente ao ver-se seguindo-o com o olhar.

Por mais que jamais fosse admitir, ele merecia a alcunha de cavaleiro mais belo da ordem, jamais vira um homem tão bonito assim, o corpo másculo e tonificado contradizia a aura delicada que ele evocava, os longos cabelos azuis caiam até o meio das costas, ondulados como as corredeiras de uma cachoeira, a pele branca e acetinada parecia quase translúcida e a essência de rosas parecia impregnada em cada um de seus poros.

Embora fosse uma fragrância normalmente associada as mulheres, havia algo mais intenso e almiscarado, como se pertencesse somente a ele e jamais fosse combinar com qualquer outro homem e ele não perdia em nada para as antigas representações de Zeus e Apolo que vira no Jardim dos Deuses.

O pior era saber que Afrodite de Peixes não era apenas um cavaleiro lindo, mas sim alguém cruel e perigoso, um lobo sob a pele de cordeiro, ou melhor, a face de um anjo, que ocultava o pior dos demônios.

-Este templo é meu e este banheiro também... Eu estava tranquilamente tomando banho quando você me interrompeu, não espere considerações por isso; Afrodite falou com pouco caso chamando-lhe a atenção, tirando-a do torpor em que se encontrava, fitando-o embasbacada.

-Você matou meu mestre; June falou, suspirando aliviada ao vê-lo cobrir-se com um roupão branco atoalhado.

-Você já disse isso; Filipe falou dando de ombros.

-Como pode? Não tem sentimentos? –ela rosnou diante do pouco caso dele.

-Me lamentar não vai trazê-lo de volta; Filipe falou saindo do banheiro. –A propósito, agora que já esta melhor, se seque e vá embora. Não quero mais problemas do que você já está me causando aqui; ele completou jogando uma toalha na direção dela.

-Pensei que os cavaleiros de ouro tivessem honra; June falou jogando a toalha que ele lançara para si no chão e seguindo-o, indignada. –Como consegue dormir a noite com todas as mortes que causou? –ela vociferou.

-Acaso quer descobrir? –ele rebateu furioso.

Dane-se o pedido de Athena para ser compreensivo com aquela fedelha malcriada, agora ela fora longe demais. Atacara-lhe durante o banho, além de destruir o banheiro, poderia ter-lhe causado um dano irreparável naquele ponto sensível de sua anatomia. Agora quem ela pensava que era para lhe desafiar? –Afrodite pensou sentindo uma onda de fúria erguer-se dentro de si.

Segurou-a pelo pulso e num movimento brusco jogou a amazona sobre a cama, ouvindo o estrado estalar com o impacto, mas isso pouco lhe importava agora. Uma parte cruel dentro de si queria que ela tivesse medo, que aprendesse de uma vez a não desafiar aqueles que não conhecia e que matá-lo não traria o mestre de volta.

–Você não passa de uma criatura patética que nada sabe sobre a vida; Filipe falou cerrando os dentes ao prender-lhe os pulsos sobre o colchão e com os joelhos, impedir-lhe o movimento das pernas.

-O que voc-...; June tremeu diante do olhar envenenado do pisciano, os orbes antes azuis tornaram-se negros e pouco se reconhecia das feições belas do cavaleiro notadas anteriormente. Era como se fosse outra pessoa completamente diferente, aquele a sua frente era alguém que não hesitaria em matar; ela concluiu tardiamente que fora longe demais.

-Você viveu naquela ilha esquecida pelos deuses e acha que aqui as coisas são da mesma forma. Mas não são...; Afrodite continuou em tom frio. –É melhor aprender que o mundo não faz parte de um conto de fadas, antes de se decepcionar;

-Não tenho medo de você; ela o enfrentou, mesmo ao sentir os pulsos doerem quando ele os segurou mais forte.

-Mas deveria... Porque como você mesma disse, eu posso dormir a noite sem me preocupar com o peso das mortes que causo e nada do que eu ou você faça, vai mudar o passado; o cavaleiro rosnou, com a face bem próxima a dela. -Você é infantil demais para entender que mesmo com isso, temos que seguir em frente. Prefere ficar presa a sentimentos patéticos, apenas para mascarar suas muletas; ele completou.

-Não fale do que você não sabe; a amazona gritou com os orbes marejados, lutando para se soltar.

-Somos cavaleiros, treinados para cumprir uma missão. Nesse intervalo uns morrem outros vivem, é a lei natural das coisas. Pergunte ao seu amado Shun o que ele sentiu quando nos enfrentamos? Por que ele simplesmente não me deixou matá-lo sem dor e lutou com tudo que tinha? Quando o momento chegou, era matar ou morrer. Simples assim!

-Pare; ela sussurrou fracamente.

-Albion era um cavaleiro honrado que lutou até o fim, deveria ter orgulho dele, não macular sua imagem com uma atitude patética dessas. Eu poderia matá-la agora por ter me atacado e acredite, nem mesmo Athena poderia me culpar por agir em legítima defesa; Afrodite falou soltando-a, antes de levantar-se e colocar uma boa distância entre eles. –Mas ao contrário do que você pensa, não tenho por que matar sem motivos, embora você tenha acabado de me dar um;

-Você é um monstro; ela falou amargamente.

-Já me chamaram de muitas coisas; o cavaleiro falou dando de ombros. – Demônio, monstro, alguns mais criativos do que outros... Mas se meus atos me tornam isso, os seus a tornam o que? Que espécie de pessoa você é? O que você fez da sua vida? Ou melhor, o que você está fazendo para mudar o destino que lhe foi imposto ao ter de se tornar uma amazona? Buscar vingança pela morte de Albion nada mais é do que uma forma de mascarar a própria incompetência. Encare a verdade June, você tem medo de viver e eu, não me importo com você, não estou buscando redenção ou justificativas para as decisões que tomo;

-Não!

-Tem, do contrário já teria aberto os olhos, durante todo esse tempo tem vivido a sombra de Albion e Shun, querendo controlar suas vidas e fazer parte delas, sem criar seu próprio caminho. Bancar a mãezinha do Shun é sua motivação para viver. Ótimo! Isso não é problema meu, o pior será para você mesma quando a ficha cair e você perceber que a vida passou e você não fez absolutamente nada por ela; ele completou por fim dando-lhe as costas, enquanto arrumava melhor o laço do roupão que havia se aberto.

Respirou fundo, tentando manter-se indiferente quando viu de soslaio as lágrimas marcarem a face rosada da jovem e precisou ainda mais de autocontrole quando a viu disparar porta a fora, deixando o templo, tão ou mais descontrolada do que estava antes.

Passou a mão nervosamente pelos cabelos. Maldição! Se ao menos tivesse agido diferente, conseguiria mantê-la em segurança no templo, mas agora o estrago estava feito, nada poderia ser mudado.

-Me lembre de morrer de bem com você; uma voz carregada de sotaque italiano chegou a seus ouvidos.

-Pensei que tivesse ido embora; Filipe falou aborrecido ao ver Máscara da Morte surgir sob a sombra do corredor.

-Achei melhor ficar mais um tempo por aqui, você estava agindo mais estranho do que o normal depois que conversamos; o canceriano respondeu encostando o ombro no batente da porta, vendo-o com ar desnorteado no meio do quarto, provavelmente pensando por onde iria começar a arrumar aquela bagunça. –Então a garota estava com você o tempo todo; ele comentou.

-June! O nome dela é June; Afrodite ressaltou aborrecido.

-Que seja; Máscara da Morte deu de ombros. –Pelo visto as coisas foram bem quentes por aqui; ele escarneceu, indicando as marcas de garras que estavam parcialmente visíveis por uma brecha no roupão.

Baixou os olhos notando o ferimento que tinha no abdômen sangrar e manchar o tecido branco, distraidamente tocou-o com a ponta dos dedos, fazia tempo que não via a cor do próprio sangue. Jamais permitira que alguém chegasse perto o suficiente para lhe tocar, tampouco ferir. Em outros tempos não hesitaria em matá-la, mas agora não via grande motivação nisso.

Ela não passava de uma criança perdida, sem objetivos, com um apego quase obsessivo pelo cavaleiro de Andrômeda, parte que justificava aquele desejo de vingança. A muito tempo deixara de saber o que era amar alguém ao ponto de esquecer de si mesmo e viver apenas pelo outro alguém.

-Você não tem mais nada para fazer não? –Afrodite indagou visivelmente cansado ao ver que o cavaleiro ainda estava ali.

-Pode ser verdade aquilo que disse para aquela garota, mas se ela decidiu te matar, não vai desistir tão fácil; ele avisou.

-Eu sei; o pisciano respondeu em meio a um pesado suspiro. –Nesse caso só existem duas coisas que podem acontecer;

-O que?

-Ou ela aprende de uma vez que existe vida além do Santuário, ou não terei alternativa senão matá-la, pelo menos assim não será uma vida de todo desperdiçada; ele completou com pesar, enquanto se afastava com o intuito de arrumar a bagunça que fizeram no cômodo com toda confusão.

.IV.

Olhou vagamente para o líquido rosado que dançava no fundo da xícara, havia perdido a noção do tempo quando entrara no templo, era como se um véu de tranquilidade e paz houvesse caído sobre si.

-Você parece preocupado, pensei que fosse encontrá-lo mais tranquilo agora que está controlando melhor seu cosmo com o treinamento de Shaka? - Mú falou casualmente.

-Pelo tempo que estou aqui, até que fiz grande progresso; Shun respondeu levando a xícara aos lábios e sorvendo o último gole de chá. –Mas não me sinto preparado para voltar a vida normal ainda;

-Como assim? - Ele indagou casualmente, deixando que o garoto escolhesse o próprio tempo de se abrir.

-Às vezes tenho me sentido inquieto; Shun confessou. –Alguma vez já sentiu como se tivesse alguma coisa dentro de você? Não sei, como se você sentisse que seu próprio corpo não lhe pertencesse? –ele perguntou agoniado.

-Existem coisas que às vezes não entendemos; Mú falou desviando do assunto um tanto quanto inquieto. –Mas que passam a fazer sentido depois de um tempo;

-Gostaria de ter certeza disso, mas não consigo; Shun falou desanimado. –E agora tem Cora;

-Como? –Mú indagou, por um momento imaginara que ele iria falar sobre June.

-Eu nunca a tinha visto antes no Santuário, mas sempre que eu durmo sonho com ela e acordado eu...; Shun falou com um olhar perdido para a xícara já vazia. – Não sei explicar, é como se eu a conhecesse a vida inteira. Quando a vejo, sinto como se o mundo parasse e meu coração bate tão forte, como se fosse sair do peito; ele falou suspirando pesadamente. –Eu... Não sei bem de onde vem isso, mas chega a doer quando não a sinto por perto;

Suspirou pesadamente, sentindo o chá descer gelado pela garganta com um leve gosto amargo, sabia que as coisas só ficariam piores para Shun agora, não apenas por saber que toda a tensão que ele sentia eram por conta das coisas que haviam acontecido enquanto ele estivera inconsciente e Hades estivera no controle de seu corpo, mas também porque isso gerara transformações que ele não era capaz de entender ainda, mesmo que ele e Hades fossem pessoas diferentes, ainda existiam coisas que os uniam. Do contrário, não seria possível que Hades usasse-o como um hospedeiro mortal.

Embora Shaka não soubesse explicar o que estava acontecendo com Shun, tudo lhe levava a crer que começara no momento que a Imperatriz surgira no Santuário.

Nas últimas guerras, dificilmente um hospedeiro de divindades sobrevivia, então não se sabia em detalhes sobre o que acontecia com o 'ser humano' – corpo e mente – após as batalhas. Agora que voltaram, estavam tendo a oportunidade de estudar isso com Saori e Shun, até mesmo com Julian Solo, que embora não representasse problema algum como reencarnação de Possêidon, ainda era monitorado por alguns agentes do Santuário fora da Grécia, apenas para ter certeza de que não viria nenhuma surpresa por parte dele.

Shaka era muito bom em identificar mudanças de energia mesmo a longa distância, a sensibilidade que ele desenvolvera ao longo dos anos pela privação dos sentidos estava lhe sendo útil agora e o tornava diferente até mesmo do Grande Mestre. Shion não notara o cosmo diferente que pairava sobre o Santuário, porque provavelmente atribuíra isso ao cosmo de Nikki, Asclépio e as ninfas enfermeiras que se juntaram as divindades na Fonte de Athena para ajudar na recuperação dos cavaleiros, mas quando Cora chegara o equilíbrio dessas energias mudara. Era uma mudança bem tênue, mas o suficiente para chegar ao cavaleiro mesmo inconsciente.

Naquele momento Shun estava experimentando o que chamaria de dissociação de personalidade, a sensação de desprendimento da própria consciência, não era como se ele estivesse despertando um distúrbio de esquizofrenia embutido em sua cadeia genética que estava emergindo por conta de tudo que havia passado, mas sim, existiam dois estados de personalidade brigando em seu subconsciente. Agora que o selo das lembranças fora destruído com a morte de Pandora e Hades, as semelhanças entre os dois iriam se manifestar com mais força, até que ele não soubesse onde a consciência de um começava e a do outro terminava.

Ninguém além do próprio Shun poderia saber o que se passava dentro das prisões de sua própria mente, a personalidade gentil e apaziguadora do cavaleiro poderia ter nascido apenas pela necessidade de suportar o caos a sua volta e agora que tudo emergia, sua verdadeira natureza poderia estar brigando contra seus dogmas para vir a superfície.

Isso acontecera com Athena também, quando o cosmo de Saori se manifestara completamente trazendo de volta todo o conhecimento adquirido em suas vidas passadas e das batalhas travadas. Embora ela fosse melhor em esconder isso dos demais cavaleiros, sabia que Shaka também a mantinha sob um olhar atento por conta disso.

Sentia as oscilações no cosmo de Shun e mesmo o treinamento de Shaka não seria suficiente se ele entrasse em catarse. Ademais, ninguém poderia dar as respostas que ele buscava, apenas ele poderia encontrá-las em si mesmo e compreender por que ainda existia uma ligação com Hades.

Havia algo que os conectava mesmo após a morte do Imperador, era como se uma parte de Hades ainda vivesse nele e a presença de Cora no Santuário apenas reafirmava a hipótese de que Shun precisava de um tempo longe de qualquer influência, seja de Cora ou June. Do contrário, iria chegar um momento que ele não saberia mais que sentimentos eram seus e acabaria deixando-se levar pelos sentimentos das duas mesmo que inconscientemente, acabando por se perder completamente.

Mesmo que Cora não fosse consciente dessa influência sobre ele, não poderia dizer que ela não acabaria por usufruir disso ao se dar contar, June não seria diferente também. Em outro momento Shun seria totalmente capaz de lidar com isso, mas não agora. Ele precisava de espaço e tempo em um terreno neutro.

-Essa semana pretendo retornar a Jamiel; Mú falou depois de alguns minutos de silêncio.

-Sério?

-...; ele assentiu. –Quero completar o treinamento de Kiki, ele já está com quatorze anos e por conta das guerras, o treinamento dele acabou atrasando;

Isso era estranho, pelo que sabia da história do Santuário, quando um pupilo completava o treinamento e assumia o lugar do mestre, o cavaleiro se retirava. Mesmo com tudo que acontecera durante as guerras, Mú sempre fora uma figura constante de apoio para ele e os amigos no Santuário, por mais que gostasse de Kiki e soubesse que ele era capaz de substituir o mestre, não conseguia imaginar outra pessoa protegendo o primeiro templo, que não o ariano.

-Seria bom se você viesse comigo, talvez se afastar daqui e passar um tempo longe do Santuário lhe faça bem; Mú continuou. –Espairecer um pouco e respirar outros ares;

-Faz sentido; ele concordou.

-Você será bem-vindo, se quiser vir conosco;

-Quando pretende ir? –Shun indagou, ponderando a possibilidade.

-Amanhã cedo;

-Mas tão de repente? –ele indagou assustado. Antes que pudesse continuar sentiu uma pontada trespassar-lhe o coração quando a imagem da jovem de cabelos negros surgiu em sua mente, o pensamento de deixá-la era doloroso e estranho.

Em outro momento, não pensaria duas vezes em aceitar prontamente, talvez sua consciência até lhe alfinetasse ao pensar que Ikki e June iriam se preocupar consigo, mas nesse momento os dois não poderiam estar mais longe de seus pensamentos.

-Não posso perder muito tempo, mas se você não quiser ir tudo bem... Só pensei que fosse lhe fazer bem; o ariano falou casualmente, chamando-lhe a atenção ao perceber que sua mente se dispersara quando mencionara a data da partida.

-Não... Eu vou. Não tem problema; Shun viu-se respondendo, confuso pela agonia que sentira ao pensar em deixar o Santuário. Não, aquela dor não era por deixar o Santuário e se fosse bem sincero, lhe assustava o sentimento de perda que se apoderará de si ao pensar em deixar Cora e isso, por si só, já era motivo suficiente para lhe fazer ir com o ariano para Jamiel.

-Ótimo, faça as malas e avise Saori e o mestre Shion que você irá comigo; Mú falou levantando-se e levando as xícaras para a pia.

-Certo, obrigado pelo chá Mú;

-Não por isso; o ariano falou sorrindo amigavelmente. –Agora vá e descanse um pouco, o dia começa cedo amanhã;

-...; ele assentiu se despedindo.

Observou o cavaleiro ir embora e encostou-se na pia, como imaginara - o que desencadeava a mudança no cosmo dele era mencionar Cora, as duas consciências estavam entrando em choque, precisava ficar atento para quando as lembranças fossem desbloqueadas completamente e ele a reconhecesse.

Não sabia ao certo como Shun iria reagir ao descobrir que a mesma Cora pela qual estava encantado, era a jovem que aparecia nas lembranças que pertenciam a Hades, como sendo sua adorável companheira. Não seria fácil, mas se ele quisesse seguir em frente, teria de aprender a lidar com isso, por mais doloroso que fosse.

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Subiu as escadas correndo, mal vendo o caminho a sua frente pelas lágrimas que lhe turvavam a visão, cegamente atravessou os corredores até o quarto que Saori lhe preparara, mas acabou por chocar-se contra alguém no caminho.

-Desculpe; June murmurou com a voz embargada.

-Tudo bem; Cora respondeu sorrindo, mas tal sorriso se apagou quando viu a expressão desolada da jovem. –Você está bem?

-...; June negou com um aceno.

-Você esta toda molhada, o que aconteceu? –ela perguntou preocupada.

-Eu...; a amazona balbuciou, não conseguindo encontrar as palavras para descrever tudo que acontecera, enquanto a voz de Afrodite ecoava em sua mente de maneira perturbadora, repetindo cada uma das palavras cruéis que lhe dissera.

-Seu quarto fica nesse corredor?

-Acho que sim;

-Venha comigo, você não está em condições de ficar sozinha; Cora falou guiando-a até o próprio quarto. –Tome um banho e se acalme, vou pegar um chá para você;

-Desculpe, não quero lhe incomodar; June falou com a voz embargada ao ser guiada até o pequeno banheiro anexo ao quarto.

-Não se preocupe, eu estava sem sono mesmo; ela falou sorrindo, lembrando-se que acordara no meio da noite depois de um pesadelo no qual perdia o marido novamente e a agonia do sonho acabara por lhe tirar o sono. –Agora vá, antes que pegue um resfriado;

-...; June assentiu.

Encostou a porta e deixou o quarto, respirou fundo enquanto se recuperava do susto que levara ao chocar-se contra a jovem. Pobrezinha, estava tão abatida, não conseguia imaginar o que causara todo aquele transtorno nela; Cora pensou seguindo para a cozinha.

Passou por vários corredores, por sorte Athena lhe explicara o caminho direito ou do contrário acabaria perdida ali; ela pensou vendo uma luz acessa ao fim do corredor. Athena deveria estar na biblioteca agora, era melhor ir até lá e avisá-la sobre a garota em seu quarto, talvez ela a conhecesse; Cora pensou. Mal havia se aproximado da porta ouviu vozes conhecidas vindas lá de dentro.

-Tem certeza de que é isso que deseja, Shun? –Shion indagou.

-Sim, já conversei com Mú e realmente quero passar um tempo em Jamiel;

-Bem, não temos objeção, você decide o que é melhor para você; o Grande Mestre respondeu, embora estivesse intrigado com a recente partida do pupilo. Com tudo que vinha acontecendo no Santuário nos últimos meses não tivera oportunidade de conversar direito com Mú e agora que as coisas haviam se acalmado tinha essa intenção, mas tinha a leve impressão de que o pupilo estava se esquivando disso embora não soubesse o porquê. -Quando vocês vão?

-Amanhã cedo;

-Quando pretendem voltar?–Saori perguntou, vendo o olhar surpreso de Shion.

-Como Mú pretende retomar o treinamento de Kiki, não acho que ele tenha um tempo estipulado, mas eu sinceramente preciso me afastar um pouco de tudo. Então não sei te dizer quando voltarei ao Japão; Shun explicou voltando-se para ela.

-Não sabia que o Mú pretendia retomar o treinamento de Kiki tão cedo; Shion comentou confuso. Não que isso fosse um problema, mas esperava que o ariano lhe contasse caso pretendesse deixar o Santuário ao nomear seu sucessor.

-Gostaria pelo menos de me despedir da June e saber como ela está; Shun continuou desviando a atenção do mestre.

-Não se preocupe com ela agora, com o tempo June irá entender que esse afastamento é o melhor para ambos; Saori falou lhe lançando um olhar enigmático. -Alias, nesse momento, acredito que todos precisamos de tempo para exercitarmos nossa resiliência. Então, vá tranquilo, eu cuidarei dela;

-Obrigado; ele agradeceu.

Afastou-se rapidamente da porta antes que alguém lhe visse, Shun estava partindo, indo embora para longe dela; Cora pensou encostando-se em uma parede, sentindo-se atordoada. Como era possível que ele partisse? Não! –ela pensou enquanto os orbes esverdeados marejavam.

Deveria ser outra pessoa; Cora tentou se convencer enquanto retomava o caminho para a cozinha. Ele não iria partir, ainda era cedo demais; ela pensou embora não soubesse dizer por que se sentia tão agoniada com isso.

O melhor que tinha a fazer agora era cuidar daquela mocinha que estava em seu quarto, pela manhã iria perceber que fora apenas um pesadelo, ou o que quer que fosse aquilo que ouvira, mas ao amanhecer iria encontrá-lo na Fonte como sempre fazia e tudo continuaria como deveria ser.

Continua...