QUANDO NOS TOCAMOS

BY DAMA 9

Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, pertencem a Masami Kuramada e a Toei Animation.

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Importante!

Dama 9 e amigos incentivam a criatividade e liberdade de expressão, mas não gostamos de COPY CATS. Então, participe dessa causa. Ao ver alguma história ou qualquer outra coisa feita por fã, ser plagiada ou utilizada de forma indevida sem os devidos créditos, Denuncie!

Boa Leitura!

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Capítulo 8: A Fonte da Vida.

(...) Eu não posso deixar você partir

Quero você em minha vida (...)

.I.

Pouco a pouco a luz da manhã recaia sobre seus olhos, fazendo-a despertar. Inquieta, notou que não estava mais em seu quarto, tampouco no templo de peixes, lembrava-se vagamente de ter corrido de lá e encontrara uma garota no caminho que lhe abrigara.

-Que bom que acordou, espero que esteja se sentindo melhor? - Cora falou entrando no quarto com uma bandeja de café nas mãos.

-Ah! Sim; June murmurou, sentando-se na cama. -Obrigada;

Naquela noite tentara matar o cavaleiro de peixes, àquela fora a maior loucura que fizera em sua vida, mas no momento pareceu certo vingar seu mestre e exigir uma reparação pelas vidas que ele tinha tirado. Afrodite de Peixes não era como imaginara, embora jamais fosse admitir o quanto às palavras dele a magoaram, principalmente com relação aos sentimentos que tinha por Shun, aquele idiota não sabia de nada; ela pensou apertando as mãos em torno da xícara que Cora lhe entregara sentindo-se tomada por sentimentos contraditórios em relação ao cavaleiro de ouro.

-É melhor tomar um pouco de café antes que ele comece a esfriar, você vai se sentir melhor; a Imperatriz falou, vendo as mãos dela tremerem quase derramando o líquido quente em seu colo.

-Obrigada; June falou timidamente. –E me desculpe por ter dado tanto trabalho;

-Não se preocupe com isso; Cora respondeu calmamente. –Todos temos dias ruins. Por isso não vou perguntar o que aconteceu, mas se quiser conversar, fique à vontade; ela completou gentilmente.

-Obrigada; a amazona respondeu grata por não precisar entrar em detalhes agora, enquanto a dor ainda estava muito crua e na superfície para que pudesse lidar.

.II.

Deu um pesado suspiro enquanto sentia a brisa suave da manhã acariciar-lhe a face, debruçou-se no beiral da janela, enquanto fitava distraidamente a paisagem verde lá fora. Aquela era a primeira vez que estava em Jamiel, mas já ouvira muito Seiya e Shyriu mencionarem algo a respeito daquele lugar, principalmente dos perigos que uma pessoa comum passava para chegar ali e muitas vezes, alguns não sobreviviam.

Jamiel ficava no ponto mais isolado entre a China e a Índia. Era um vilarejo tão antigo quanto o tempo, cheio de mistérios que eram poucos aqueles que podiam afirmar conhecer uma ínfima parte.

O castelo de arquitetura oriental fora construído a mais de três séculos atrás pelo que Mú contara. O castelo já existia quando Shion iniciara o treinamento para se tornar cavaleiro e isso já tinha pelo menos duzentos e cinquenta anos. Os móveis dos cômodos eram rústicos - quase espartanos - feitos de madeira entalhada, em vários pontos da construção encontrou esculturas e quadros representando antigas divindades, livros e outros itens históricos que arremetiam a idade do lugar. Mesmo com as guerras nas províncias da fronteira o castelo não fora afetado, graças as formações montanhosas em volta que o isolavam até mesmo dos vilarejos mais próximos, ao longo dos séculos a fama de que aquela área era povoada por fantasmas e demônios que se escondiam entre os escapados também ajudaram a manter visitantes indesejados afastados.

O clima era sereno e convidativo, embora não conseguisse se imaginar vivendo ali a maior parte de sua vida, era um bom lugar para se "estar".

-Shun; Mú chamou dando uma batida na porta para chamar-lhe a atenção.

-Sim?

-Vou até o vilarejo buscar alguns suprimentos que encomendei, mas volto logo; o ariano avisou.

-Quer que eu vá junto? –ele indagou.

-Não precisa, fique à vontade para explorar a casa e se acomodar; Mú completou antes de se afastar.

Assentiu, sentindo o cosmo do cavaleiro desaparecer em seguida, afastou-se da janela e foi sentar-se na beira da cama. Haviam saído do Santuário antes do sol nascer, mas não pregara os olhos desde que tomara aquela decisão. Embora soubesse que essa era a melhor escolha, algo em si se rebelava contra a ideia de ir.

-Cora; ele sussurrou lembrando-se da jovem.

Nunca sentira algo tão inexplicável e intenso por alguém quanto o que ela despertava em si desde que a vira pela primeira vez. Queria ter falado com ela antes de ir, mas a razão dissera para não o fazer porque senão, desistiria de partir.

Suspirou pesadamente enquanto deixava o quarto, estava começando a se sentir enclausurado ali dentro. Pelo que Mú explicara, estavam instalados no terceiro andar do castelo. Sendo o primeiro - a oficina das armaduras e o segundo - as dependências básicas como cozinha e sala, enquanto no terceiro e quarto andar estavam os quartos, a biblioteca do Grande Mestre e algumas salas vazias, que de acordo com o ariano estavam fechadas a mais de vinte anos, porque ele mesmo nunca as abrira.

Lançou um rápido olhar a escada, restava saber agora como sair dali, sendo que não haviam portas no primeiro andar que o levassem para fora do castelo; ele pensou. Se ao menos Kiki estivesse ali, poderia pedir ao garoto que lhe levasse lá para fora usando telecinese, mas ele chegaria apenas no final da tarde vindo de Rozan.

-Você já fez isso antes; a voz do ariano soou em sua mente, fazendo-o se sobressaltar.

-Mú?

-Você já fez isso antes; ele repetiu. -Você deixou a Fonte usando seu cosmo, faça de novo;

-O que? –Shun indagou confuso, a voz do ariano não se manifestou novamente. Lançou um olhar para todos os lados, mas não sentiu mais a presença dele.

Deu um pesado suspiro e desceu até o primeiro andar, diferente do que imaginara ser uma oficina, o espaço utilizado pelo ariano estava limpo e organizado, tudo metodicamente colocado em seu devido lugar. Nenhuma grama de poeira era vista sobre os móveis e ferramentas, para um lugar que estivera fechado por tanto tempo, parecia que alguém andara cuidando de tudo por ali na ausência do cavaleiro.

Olhou a sua volta e novamente não encontrou nenhuma porta, passara pelo segundo andar e não vira nenhuma também. Aquilo não era possível, se alguém cuidava do castelo na ausência do cavaleiro, por onde entrava? – ele se perguntou aborrecido.

A sensação de claustrofobia estava aumentando, suas mãos estavam começando a tremer e uma fina camada de suor começava a acumular-se sobre sua pele. Precisava sair dali antes que o ar ficasse mais pesado e se tornasse difícil de respirar.

Subiu as escadas novamente até o segundo andar e aproximou-se de uma janela, abriu-a rapidamente e sentiu o ar preencher seus pulmões, lançou um olhar para baixo calculando quais eram as probabilidades de pular dali e não se machucar.

Respirou fundo, balançando a cabeça para os lados, sentindo a mente clarear, lembrou-se do que o ariano dissera, realmente, havia deixado a Fonte, mas não sabia ao certo como havia feito, tanto para sair quanto para voltar ao Santuário, estivera mais focado em Cora e nas emoções turbulentas que emanavam dela que simplesmente tomou-lhe a mão e a tirou dali.

Naquele momento havia sentido a necessidade de sair do Santuário, tirá-la de lá e levá-la para um local onde poderiam se afastar de todos, onde pudessem ficar apenas os dois e mais ninguém. Entretanto, agora que tinha de sair daquela torre, não fazia a mínima ideia do que precisava fazer; ele pensou inquieto.

La fora, o vento gelado das montanhas tremulava as árvores, quando o sol baixasse, uma camada de nevoa branca iria cobrir todo o vale. Não sabia há quanto tempo o ariano saíra e ele ainda estava preso ali. Foi quando notou um movimento entre as árvores, cerrou os olhos tentando enxergar melhor, quando eles captaram uma massa de cabelos pretos se mover entre a vegetação.

-Cora? – ele murmurou surpreso e no segundo seguinte suas pernas afundavam levemente no chão gramado do lado de fora.

Lançou um olhar assustado para a torre do castelo, vendo a janela que deixara aberta. Voltou-se para a floresta a sua frente novamente, não enxergando mais a cabeleira preta. Sentiu seu corpo estabilizar agora que estava do lado de fora e a sensação de claustrofobia não lhe sufocava mais.

-Mas como? – ele murmurou confuso. Como fora parar ali? Não era possível, deu alguns passos incertos e notou as pegadas marcarem a grama.

-Muito bem; a voz do ariano soou atrás de si.

-Mú? – indagou surpreso por não o ter sentido se aproximar. Aliás, pensando bem, já tinha um tempo que não sentia o cosmo dele. Pelo visto, só era capaz de senti-lo quando o cavaleiro assim o queria, como isso era possível?

-Como a magia, com o tempo você vai aprender que o cosmo responde as suas emoções, sejam elas boas ou más; o ariano continuou estendendo para ele algumas das sacolas que tinha nas mãos. -Mas diferente do que Shaka andou ensinado para você, o controle dessa energia não se resume a aprisioná-la em um pote e largá-la de lado, simplesmente fingindo que ela não existe; ele explicou indicando o castelo.

-Shaka me disse que seria mais seguro assim; Shun respondeu confuso.

-Claro, se você estiver pensando em uma granada ou ogiva nuclear; o ariano comentou com sarcasmo. -Você pode fazer muito com o cosmo se souber como aplicá-lo; ele completou indicando a frente do castelo.

Viu o cavaleiro aproximar-se da estrutura e tocar o concreto, no momento seguinte sentiu o cosmo dele se manifestar, um alo dourado formou-se a volta do cavaleiro e foi se expandindo, das pontas de seus dedos linhas douradas começaram a surgir sobre o concreto.

-Uma porta! - Shun exclamou surpreso, quando do desenho formado pelas linhas douradas materializou-se completamente a sua frente.

-No fim...; Mú começou - girando a maçaneta que se projetara da parede e abrindo-a, para revelar a entrada da oficina que ele estivera anteriormente. - Cosmo, magia e ciência podem parecer exatamente a mesma coisa, se você aprender a usá-los corretamente; o ariano completou de maneira enigmática, dando-lhe passagem para entrar novamente no castelo.

.III.

Em algum lugar do mundo, o vento refrescante do final da primavera tornava o dia de alguém bastante agradável, criando um clima nem muito quente, nem muito frio, ideal para um dia tranquilo de trabalho ou um passeio no parque. Lógico, em algum lugar que não era Rodório ou o Santuário.

Sempre que estava ali sentia o calor pesado chegar em ondas até si, ainda mais quando se aproximava do meio do dia e o sol ficava a pico. Provavelmente a única época do ano que o calor não era intenso dessa forma, eram nas últimas duas semanas de dezembro, que as vezes por milagre costumava nevar no inverno, mas no geral, o calor ali era sempre intenso e somente para os fortes que se mostravam capazes de suportar aquela temperatura.

Sentou-se em um canto afastado da arquibancada, enquanto observava de longe as demais amazonas treinarem, no dia anterior falara com Athena, Shina e Afrodite, mas talvez aquilo não tivesse sido suficiente para prevenir o pisciano das confusões que June poderia armar agora que sabia a verdade.

-Nossa, que expressão carregada logo cedo; uma voz conhecida soou a seu lado, fazendo-a corar levemente.

-Aiolia; ela falou surpresa voltando-se para o leonino.

-Bom dia; ele falou com um sorriso tão radiante que seria capaz de iluminar as águas profundas do Aqueronte.

-Bom dia; Marin respondeu engolindo em seco. Por momentos como esse, que sentia falta da máscara, era inquietante sentir que o cavaleiro enxergava mais do que gostaria de mostrar, apenas olhando para si.

-Então? –Aiolia começou esperando-a falar.

-Então, o que? –Marin indagou piscando confusa diante do olhar curioso dele.

-No que estava pensando para ficar tão seria? –ele falou sentando-se ao lado dela.

-Ah! Nada importante; ela tentou desconversar. Um problema com uma amazona, deveria ser resolvido entre amazonas.

-Você nunca foi boa mentirosa, Marin; Aiolia falou balançando a cabeça levemente para os lados. –Mas não vou te atormentar para saber, se você não quiser contar; ele falou, tentando demonstrar calma, embora uma pontada de decepção fosse perceptível em sua voz.

-Nossa! Que evolução; ela deixou escapar, desviando o rosto para conter o riso.

-O que disse? –ele perguntou desconfiado ao vê-la corar ainda mais.

-Estava pensando alto; ela falou, enquanto ele estreitava os olhos, vendo-a corar ainda mais.

-Então você não vai se importar de repetir esse seu "pensamento" alto para mim, não? –ele falou cruzando os braços em frente ao corpo.

-Bem...; ela balbuciou.

-Marin; Aiolia falou denotando impaciência, mas com uma pitada de rebeldia.

Era como se aquele Aiolia jovem que conhecera, rebelde e impulsivo, quisesse lhe exigir uma resposta, enquanto o mais adulto e experiente, mantivesse a cautela, lhe dando tempo para confiar ou não nele e lhe confidenciar seus pensamentos. Era curioso como as pessoas mudavam ao longo dos anos, aquele Aiolia a sua frente, pouco lembrava o garoto rebelde de cabelos cor de fogo que conhecera na adolescência.

-Estava pensando em como as coisas mudaram de uns tempos para cá; ela falou vendo-o ficar ainda mais emburrado com a sua demora em lhe dar uma explicação.

-Uhn?

-Você mesmo, pouco lembra aquele moleque impulsivo de treze anos atrás; ela começou apoiando os braços sobre os joelhos e fitando distraidamente a arena.

-Você está mudando de assunto; ele falou perspicaz.

-Não, eu tinha pensado nisso também; Marin admitiu. –Mas também estou preocupada com a chegada da June ao Santuário;

-A namorada do Shun? –ele indagou curioso.

-Eles n-... de qualquer forma; a amazona continuou. Não queria ter de explicar esse tipo de coisa para ele, mesmos porque, Aiolia não entenderia. -Ontem, Shina e eu falamos com Athena e Afrodite, posso ter me precipitado, mas June agora sabe que o responsável pela morte de Albion não foi Milo e sim Afrodite. E como todos os cavaleiros de ouro estão de volta ao Santuário, isso pode ser um problema; ela explicou.

-Mas...;

-Uma mulher com desejo de vingança equivale a um exército de homens armados, é tolice subestimar suas motivações; a voz do Escorpião sou ao lado da amazona, enquanto o cavaleiro sentava-se na arquibancada.

-Milo; Aiolia falou surpreso por não o ter sentido se aproximar.

-Por mais que ela saiba que matar o Afrodite não vá trazer Albion de volta, June ainda vai querer descontar sua dor e frustrações em alguém; ele continuou vendo a amazona assentir, concordando com ele.

-Foi o que eu disse a ele ontem, mas Afrodite não nos levou muito a sério; Marin falou contrariada.

-Eu, se fosse você, não me preocuparia tanto com o Afrodite; Milo continuou dando de ombros. –O mínimo que ela pode fazer é afiar as garras nele; ele completou com um sorriso malicioso. –E a gente ainda pode se surpreender com isso;

-Duvido muito; Aiolia adiantou-se, serrando os olhos de forma perigosa para o outro cavaleiro, vendo-o perto demais da amazona. –Por mais motivada que esteja, June não tem chance contra o Afrodite;

-Isso não facilita as coisas; Marin resmungou. Talvez Afrodite pegasse leve com ela caso se encontrassem e a amazona tentasse algo para se vingar, mas no calor do momento as coisas poderiam sair do controle.

-Por falar nisso, e o Shun, como ele está? –Aiolia perguntou, lembrando-se que ele era o único cavaleiro de bronze a permanecer no Santuário.

-Pelo que Athena falou, ele está se recuperando bem e seu cosmo está quase completamente estabilizado de acordo com Shaka; Marin explicou, tendo falado recentemente com o virginiano sobre isso.

-Ouvi dizer que ele foi para Jamiel com Mú, hoje antes do sol nascer; Milo comentou.

-Talvez tenha sido melhor, esse não é um bom momento para ele ter de se preocupar com a June também; Marin falou pensativa. –Apesar de ser um cavaleiro, Shun é um garoto muito sensível e toda essa pressão pode fazer mais mal do que bem a ele;

-Eu hein! Eu é que não queria ser taxado assim; Milo falou torcendo o nariz com desprezo. –Cavaleiro mais sensível... Eca!

-É, não combinaria com você; Aiolia provocou, abafando o riso.

-O que tem? Não vejo mal algum nisso; Marin defendeu, lançando-lhes um olhar enviesado. –Ser sensível e carinhoso não o torna menos homem do que você ou Aiolia; ela completou voltando-se para o Escorpião, irritada por ver ambos subestimarem o cavaleiro.

-Uhn! Agora que você falou... Como não pensei nisso; o escorpião murmurou, como se não tivesse ouvido nada do que ela acabara de falar voltou-se para a amazona com um sorriso cheio de segundas intenções.

-Ah não! Conheço essa cara e não gosto dela; Aiolia falou ficando sério.

Conhecia aquele artrópode de rabo torto a tempo suficiente para saber que coisa boa não vinha quando ele sorria daquele jeito.

-Marin, minha deusa ruiva... Aceita jantar comigo na Toca do Baco essa noite? –ele perguntou curvando-se numa mesura exagerada, segurando as mãos da amazona entre as suas, fazendo-a fitar-lhe diretamente.

Arregalou os olhos num misto de surpresa e choque, já vira Milo paquerar outras amazonas, via-se que não passava de um flerte dissimulado, mas o olhar intenso do cavaleiro lhe prendia de forma que, tudo a sua volta fosse esquecido e isso era extremamente perigoso.

-O que me diz? –o Escorpião perguntou acariciando-lhe a mão faceiramente.

-Eu...;

-MARIN! – Shina gritou, chamando-a.

-Com licença, tenho que ir; a amazona falou esquivando-se rapidamente dele. -Até mais...; ela completou fugindo descaradamente.

-Escorpião! – Aiolia falou furioso.

-O que foi? –ele indagou inocentemente, voltando-se para o leonino, mas mal teve tempo de se esquivar quando ondas elétricas o atingiram.

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-RELÂMPAGO DE PLASMA! – ela ouviu a voz de Aiolia, mas continuou a andar em direção a amazona de Cobra, definitivamente Milo era a antítese da Caixa de Pandora. Era impossível saber o que ele iria aprontar.

Mesmo que soubesse que a caçada era apenas um jogo para o escorpião, não gostaria de estar em sua mira, Milo tinha o magnetismo de uma naja para encantar suas presas e não duvidada que qualquer uma fraquejaria diante da sedução desse cavaleiro, quando ele estivesse realmente focado nisso.

Entretanto, esse era apenas um dos fatores que o tornavam tão perigoso, cavaleiros como o escorpião, Mú e até mesmo Máscara da Morte e Afrodite, viviam sobre as próprias regras, ninguém podia ao certo afirmar que os conhecia completamente. Eles eram imprevisíveis e indomáveis.

No caso de Milo, ele sempre mostrava ao mundo uma fachada lasciva e despreocupada, sempre acostumado a ter todos se curvando ao seu redor, mas essa era apenas parte da máscara que ele mostrava ao público, bastava olhar um pouco mais de perto para saber que o verdadeiro Escorpião era bem diferente.

-Pronta para treinar? –Shina perguntou quando ela se aproximou.

-Sim, mas antes queria saber... Você teve alguma notícia de June?

-Fui ao último templo assim que amanheceu, parece que ela e Afrodite já andaram se encontrando; a amazona respondeu.

-Jura? – ela indagou, preocupada.

-Vamos, no caminho eu conto; Shina respondeu, encaminhando-se para o Coroa do Sol, onde levariam um novo grupo de aspirantes para iniciar o treinamento.

.IV.

Desolada, observou a esteira vazia, a horas caminhava a esmo pelo jardim não querendo acreditar no que ouvira na noite anterior. Shun havia realmente partido; ela pensou suspirando pesadamente.

-Com licença; June falou chamando-lhe a atenção.

-Sim; Cora respondeu, voltando-se para a amazona que se aproximara, hesitante.

Depois que a deixara pela manhã, havia seguido direto para o jardim na esperança vã de ver o cavaleiro, mas encontrará apenas a esteira vazia.

-Você por acaso viu um cavaleiro por aqui hoje? –June perguntou ansiosa.

-Não são muitos os cavaleiros que ainda estão por aqui, a maioria está treinando no Templo da Coroa do Sol esta manhã pelo que ouvi; Cora explicou.

-Eu... Bem, estou procurando por um em especial; a amazona continuou.

-Quem?

-Shun... Shun de Andrômeda. Ele estava aqui ontem; June falou, sem notar a palidez de Cora.

-Não, não o vi hoje; a jovem respondeu, tentando manter a calma.

O que aquela menina tinha a ver com Shun? A menos que ela fosse a June que ele parecia tão preocupado em encontrar na noite anterior; ela pensou inquieta.

-Talvez Athena saiba de seu paradeiro; Cora sugeriu.

-Ahn! Acho melhor continuar procurando então; June respondeu sem graça, evidentemente querendo evitar a jovem de melenas lilases. –Obrigada;

-Disponha; ela respondeu vendo-a partir. Estranho, por que ela não quisera falar com Athena? –Cora se perguntou.

-Cora?

-Uhn! –ela murmurou, virando-se ao ouvir o chamado e notou Nikki se aproximando.

-Estive falando com Athena e já não restou mais nenhum cavaleiro na Fonte; a divindade começou.

-E?

-Hoje antes do amanhecer, o último partiu; Nick explicou confirmando todos os temores da jovem. –Aquele rapaz que você estava cuidando foi embora, pelo que Athena falou, ele irá continuar o treinamento que fazia com Shaka de Virgem em Jamiel com o cavaleiro de Áries;

-Verdade? – ela murmurou, sentindo o coração afundar.

-Você já pode voltar para casa se quiser; Nikki completou lhe lançando um olhar terno.

-É, parece que chegou a hora; Cora respondeu vagamente.

Em outros tempos passaria o verão e a primavera nos arredores de Elêusis, mas dessa vez, quando as guerras terminaram, não sentira que lá fosse seu lugar mesmo que a princípio o marido desejara que fosse ficar com sua mãe, já que seria o local mais seguro para se estar. Quando surgira na Terra, vira-se vagando perdida até se encontrar em Atenas, as portas do Santuário respondendo ao chamado de Aurora e Nikki.

-Basta apenas avisar Athena quando partir, eu e Asclépio iremos ao anoitecer; Nikki completou, referindo-se ao filho de Hermes que lhes auxiliara no tratamento dos cavaleiros desde o final das guerras.

-Eu vou; Cora respondeu.

-Fique bem! – a divindade desejou antes de desaparecer.

Voltar! Voltar para onde? –ela se perguntou enquanto caminhava pelo jardim. Não queria ir para o templo da mãe e suportar seus olhares piedosos. Tampouco queria voltar ao castelo, mesmo vivendo nos Elíseos, sentiria-se padecer no inferno cada vez que se lembrasse dos momentos vividos ali com o marido. Se ao menos houvessem tido mais tempo, ou aquela guerra estúpida tivesse sido evitada.

De qualquer forma, não poderia mudar mais nada e só lhe restava seguir em frente; ela pensou, deixando o jardim e dirigindo-se ao templo principal.

.V.

Sentou-se em frente à cachoeira, sentindo o vento gelado açoitar-lhe a face, se olhasse no relógio, veria que mal haviam se passado trinta minutos desde que saíra do castelo oriental para refugiar-se ali.

Mú fora ao vilarejo e Kiki estava estudando na biblioteca. A rotina ali era bem simples, embora o treinamento com o ariano exigisse empenho e concentração. Recostou-se numa árvore e fechou os olhos, precisava se distrair com alguma coisa ou sucumbiria aquela ânsia inexplicável de voltar ao Santuário. Mú havia lhe alertado sobre isso, que nos primeiros dias teria essa ânsia de voltar correndo, mas deveria aprender a trabalhar isso.

Tentou concentrar-se no som da água caindo e o pio das águias que habitavam os picos nublados, lembrava-se de ouvir Seiya comentar que as harpias que habitavam aqueles picos protegiam uma fonte de águas cristalinas, que de acordo com uma lenda local, possuía propriedades mágicas capazes de curar qualquer enfermidade de quem bebesse de suas águas e fora dessa fonte que ele trouxera a água que dera a Shyriu na esperança de que o dragão recuperasse a luz de seus olhos.

Suspirou pesadamente e pouco a pouco deixou-se relaxar, adormecendo em seguida.

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Deixou as folhas sobre a mesa, enquanto recostava-se na cadeira de couro, sentia uma presença hesitante do lado de fora e embora não pudesse vê-la, sabia que Cora estava ali, já imaginava que ela lhe procuraria depois que Nikki anunciasse sua partida.

Agora esse era o momento para colocar parte de seu plano em prática, talvez fosse errado interferir naquela história, mas não pretendia ficar de braços cruzados enquanto alguém sofria.

-Pode entrar Cora, não estou ocupada; Saori falou.

-Com licença; a jovem falou abrindo cautelosamente a porta.

-Fique à vontade, por favor; ela falou indicando-lhe a cadeira em frente a sua mesa.,

-Obrigada; Cora respondeu, sentando-se. -Agora de pouco falei com Nikki; ela começou.

-Eu imaginei;

-Então sabe que é hora de eu partir; Cora falou com certo pesar.

-O que pretende fazer agora? –Saori perguntou, curiosa.

-Voltar para o castelo, imagino que Nyx tenha se encarregado de reconstruir tudo. Não vou ter muito o que fazer, mas é melhor do que voltar para o templo de minha mãe;

-Ou você pode seguir outro caminho; Saori sugeriu casualmente, enquanto ela se sentava a sua frente.

-Qual? – Cora perguntou intrigada.

-Vir comigo para o Japão; ela falou calmamente.

-Japão?

-Sim, Shion e Saga irão cuidar de tudo aqui na minha ausência, além do mais, preciso resolver algumas coisas da empresa e da fundação;

A verdade era que também precisava de um tempo longe do Santuário, muitas coisas haviam acontecido nos últimos anos, algumas que ainda não aprendera a administrar e como Shun, precisava de tempo e espaço para isso.

Não que, não se sentisse bem ali, mas por onde andava no Santuário as pessoas ficavam observando cada um de seus passos, como se esperassem que fogos de artificio brotassem de suas mãos, ou quem sabe, mais uma cabeça surgisse em seu pescoço. Ultimamente ali era tudo muito barulhento, precisava de silêncio e tranquilidade, sem aquela carga de expectativas sobre si.

Não que fosse escapar disso mudando de país, mesmo que voltasse ao Japão, sabia da carga de responsabilidades que lhe esperavam lá como única herdeira da família Kido e os erros que cometera também não ajudavam, mas evitar enfrentar seus demônios não iria fazê-los desaparecer, por isso precisava voltar.

-Mas o que eu faria lá? –Cora indagou chamando-lhe a atenção, enquanto considerava a possibilidade de aceitar.

-Tem algumas casas de apoio mantidas pela fundação que precisam de voluntários. Você poderia experimentar, se não gostar, pode tentar outra coisa ou ir embora caso não se sinta bem... Não vou forçá-la a ficar se não quiser, Cora; Saori explicou.

-E por quanto tempo seria isso? –ela perguntou, pensando nas possibilidades.

-O tempo que você quiser;

Talvez essa fosse sua chance de não ter de voltar ao castelo, não sabia ao certo como lidaria com os humanos que encontrasse, mas seria uma experiência nova. Durante toda sua vida fora superprotegida, ou por sua mãe ou por Hades, agora se sentia sufocada só de pensar na mãe e Hades, bem... Estava morto. Era doloroso, mas tinha que aprender a seguir em frente.

-Eu vou...;

-Ótimo, amanhã sairemos para comprar algumas coisas que você precisara para a viagem e partiremos antes do fim de semana; Saori falou, não dando margem para que ela pensasse demais e desistisse.

-Obrigado; Cora agradeceu, levantando-se. -Antes que eu esqueça;

-O que?

-Ontem eu encontrei uma mocinha no corredor, ela estava chorando e bastante transtornada, talvez fosse bom você falar com ela; Cora comentou, omitindo a parte em que encontrara novamente com ela no jardim.

-Deve ser June; Saori falou estreitando os orbes.

-Ela me perguntou sobre o paradeiro de Shun e eu disse para ela lhe procurar; Cora explicou. –Ela pareceu um pouco perturbada e disse preferir procurar por ele sozinha. Não sei o que ela tem, mas ela parecia bastante desnorteada;

-É uma situação complicada; a jovem respondeu em tom neutro, não querendo dar mais detalhes a ela sobre o assunto.

-De qualquer forma, fique atenta, não é um bom sinal se ela está evitando você. Pessoas assim causam confusão quando menos se espera; a jovem completou despedindo-se.

-Eu vou; Saori respondeu, dando um pesado suspiro. –June! June! O que você está aprontando?

.VI.

Distraidamente caminhou pelos campos floridos, não sabia ao certo como chegara ali, mas sentia-se bem - em casa - como a muito não sentia. Uma brisa suave acariciou-lhe a face, a cada passo sentia os pés afundarem na grama e o corpo relaxar. Era como se não houvesse mais problemas ou preocupações, poderia morrer feliz naquele lugar; ele pensou sorrindo.

-Finalmente você apareceu, já estava pensando que não viria mais; uma voz feminina soou a seu lado e ele sentiu um solavanco no braço, como se as mãos da jovem houvessem lhe enlaçado.

Virou-se de soslaio e notou uma silhueta esfumaçada. Franziu o cenho, passando uma das mãos pelos olhos, tentando vê-la melhor.

-Venha logo, o dia está tão lindo; a jovem falou sorridente.

Embora não pudesse vê-la, sentia que ela sorria de alegria e puro contentamento, como se estivesse ansiosa por sua chegada. Deixou-se guiar até a beira de um lago de águas cristalinas que refletiam os raios do sol, sentou-se ao lado dela, sentindo-a aconchegar-se em si e o calor de seu corpo espalhar-se em sua pele.

-Senti sua falta; ela murmurou.

Frustrado, estreitou os braços em torno da cintura delicada, queria vê-la, mas seus olhos pareciam embaçados e se recusavam a colaborar. Aspirou profundamente, sentindo a suave essência de lírios emanado das melenas negras.

-Esse lugar me lembra a primeira vez que nos vimos... Parece que foi ontem; ela comentou inclinando-se para frente e tocando a água com a ponta dos dedos.

Entreabriu os lábios para falar, mas sua voz não saiu, franziu ainda mais o cenho enquanto a ouvia rir e se levantar, tentou segurar-lhe a mão e pedir que ficasse mais um pouco a seu lado, brindando-o com sua presença calorosa e o sorriso contagiante, mas ela já erguia a barra da saia e entrava no lago.

Suspirou pesadamente... Raios! Que lugar era aquele e o que estava acontecendo consigo? – ele se perguntou, inclinando-se para frente, vendo seu reflexo pouco a pouco surgir na superfície da água.

Sentiu-se congelar ao deparar-se com um par de orbes verdes frios lhe fitando intensamente. Seu coração disparou e o pânico ameaçou sufocá-lo, quando notou os cabelos antes esmeralda, tornarem-se negros com mechas avermelhadas.

Olhou para si mesmo, vendo a túnica tão escura quanto a noite cobrir seu corpo do pescoço aos pés, tornando-o um personagem totalmente inadequado para aquele cenário harmonioso. Ergueu os orbes para cima e assustou-se ao ver a face da jovem, que acenava e sorria para si. Cora!

-Venha Hades; Cora chamou sorrindo, entendendo os braços em sua direção.

Recuou um passo, sentindo o corpo tremer, aquilo não era real, não era ele; Shun pensou em desespero. Tentou falar, mas a voz não saia. Recuou mais um pouco e sua mente foi engolfada por uma nuvem negra. Sentiu-se cair pesadamente e não havia nada em que pudesse se segurar.

-Shun!

Ouviu alguém lhe chamar e debateu-se com mais força, até sentir que lhe seguravam os braços.

-Abra os olhos!

Piscou aturdido quando a luz do sol bateu sobre as águas da cachoeira de Jamiel e enviou uma réstia para seus olhos afastando completamente a escuridão, voltou-se para quem lhe chamara e deparou-se com o olhar preocupado de Mú e Kiki sobre si. Sentiu a presença de uma terceira pessoa ali, mas não sabia ao certo quem era, ou se isso era apenas uma impressão sua.

-O que aconteceu? –ele perguntou tremulo, ainda sentindo o coração bater aos saltos.

-Parece que você estava tendo um pesadelo; Kiki comentou hesitante.

-Pensamos em deixá-lo dormir mais um pouco, mas quando vimos que você estava agitado, viemos lhe chamar; Mú explicou. –Como se sente?

-Um pouco enjoado; ele respondeu tentando se levantar, mas teve de se apoiar na árvore a suas costas.

-É melhor irmos para casa; Mú falou.

-Eu o levo, mestre; Kiki adiantou-se, lançando-lhe um rápido olhar.

O ariano assentiu, vendo o pupilo ajudar o cavaleiro a se manter em pé e um segundo depois os dois já haviam desaparecido, indo surgir no terceiro andar do castelo. Suspirou pesadamente enquanto lançava um olhar demorado a cachoeira.

-O vento mudou de direção; ele falou como se para o nada.

-Normalmente isso é um prenuncio de tempestade; uma voz feminina soou a seu lado e no momento seguinte, sentia um braço delicado contornando sua cintura e a cabeça da jovem descansar em seu peito. -As linhas do destino estão mudando de novo; a jovem de melenas azuis comentou.

-Não sei se gosto disso; Mú respondeu, afagando-lhe os cabelos.

-Não é algo que possamos interferir; Laura respondeu calmamente. –Mas os caminhos desse menino vão ser um pouco tortuosos daqui pra frente;

-As batalhas terminaram, é uma pena que eles não possam ter ao menos um pouco de paz; ele lamentou.

-Você bem sabe que as maiores batalhas não são aquelas travadas entre milhões de guerreiros; Laura falou brincando distraidamente com uma mecha de fios lilases que caia sobre o ombro dele, rente a seus olhos. –Qualquer batalha, seja grande ou pequena, trás crescimento e evolução, mesmo que o processo seja doloroso;

-Crescer nunca é fácil; ele falou contemplativamente. –Mas ainda não consigo entender o porquê!

-Do que? –ela indagou.

-Porque Hades o escolheu?

Essa era uma pergunta que muitos ainda faziam, porque sendo Shun um cavaleiro tão sensível e incapaz de tratar alguém com crueldade, fora escolhido para ser o hospedeiro do Imperador naquela Era?

-Isso é fácil de responder; ela respondeu abrindo um largo sorriso ao vê-lo serrar os olhos em sua direção. - Shun é tudo o que ele jamais se permitiu ser;

-Como assim?

–Ninguém é totalmente bom ou totalmente ruim, lógico existem algumas exceções... Raras, mas existem; Laura explicou, divagando por um momento. -Apesar de toda dor e sofrimento, Shun não se revoltou contra o destino que lhe foi imposto. Não odiou, não matou por vaidade ou por orgulho. Ele passou por tudo isso e ainda não se corrompeu. Não perdeu a fé em si mesmo, em seus amigos e no mundo - de que pode sim, ser um lugar melhor se ele lutar para conquistar isso, mesmo quando as pessoas pediram para que ele desistisse;

-Mas...;

-Shun é gentil, benevolente e inocente... Entenda bem, inocente não ingênuo. Ele sabe reconhecer o mal quando o vê e se solidariza com a dor alheia, sentindo-a na pele como se fosse sua, mesmo sendo algo vindo de um "inimigo". Ele não é egoísta, não sente inveja. É uma anomalia dentro do mundo que vivemos hoje, chega a ser irônico que exista realmente uma pessoa tão pura assim, mas é a verdade, alguém com uma alma assim só aparece uma vez a cada Era; ela explicou, lembrando-se de outra pessoa que conhecera e era assim, também tivera o destino alterado pelos deuses da mesma forma alguns séculos atrás.

-Então?

-Acredito que podemos encarar um problema mais friamente quando não estamos emocionalmente envolvidos, imagino o que Hades deve ter visto ao olhar para os mortais e enxergar apenas as injustiças e sofrimento;

-Isso é questionável; ele adiantou-se.

-Não quando se está acostumado a só ver coisas ruins, é difícil enxergar onde estão as boas; ela o lembrou. –Ele perdeu a fé de que as coisas seriam diferentes e acredito que Hades deve ter pensado que para termos uma chance, somente se a Terra começasse do zero novamente ou se aqueles que sobrevivessem, seriam a prova de que eram merecedores de continuarem a existir;

-Mas destruir o planeta? Sério isso? - o ariano comentou, contrariado.

-Coloque-se no lugar dele Mú; Laura falou, se afastado e ficando de frente para o cavaleiro. - Deixe os preconceitos de lado e realmente se coloque no lugar de Hades; ela insistiu, tomando-lhe as mãos nas suas. -Me diga se você faria diferente? –Laura indagou, voltando-se para ele com os expressivos orbes rosados analisando os cantos mais longínquos e sombrios de sua alma.

Suspirou pesadamente, encolhendo os ombros. Era inútil confrontar a lógica de Laura, além do mais, ela lhe conhecia melhor do que ele próprio. Obviamente sabia qual seria sua resposta antes mesmo de ter formulado a pergunta.

-Viu, não foi tão difícil; ela provocou, sorrindo faceiramente.

-Já me conformei a perder todas as discussões para você; Mú respondeu com ar cansado. –Mas me diga, vai ficar conosco hoje? –ele perguntou mudando de assunto.

-Infelizmente não; Laura falou vendo-o evidentemente decepcionado. –Tenho algumas coisas para resolver em Londres, mas volto no fim de semana;

-Tudo bem...; ele concordou com um resmungo.

Não gostava muito da ideia de deixá-la sozinha, mas era obrigado a admitir que estava sendo exageradamente superprotetor, Laura poderia pulverizar um exército de gigantes - vendada e com os punhos amarrados, mas ainda sim, seu subconsciente insistia em protegê-la numa redoma de vidro, cercando-a de fossos repletos de crocodilos e de preferência, com um exército de dragões protegendo todas as entradas por céu e terra.

-Não se preocupe, prometo não aprontar nada... Por enquanto; ela brincou para tranquilizá-lo.

–Se cuida; ele falou abraçando-a fortemente.

-Você também; ela completou antes de dar-lhe um beijo estalado na bochecha e desaparecer.

Balançou a cabeça levemente para os lados, era hora de voltar para a casa e planejar como poderia ajudar Shun. Aquele pesadelo que ele tivera apenas reafirmara o que já sabia. Só esperava que ele conseguisse controlar a ânsia que o puxava de volta para Cora, pelo menos, até que fosse capaz de diferenciar os próprios sentimentos; o cavaleiro pensou, retornando ao castelo.

.VII.

Baixou os olhos sobre a lente do telescópio e franziu o cenho, estranho, muito estranho; ele pensou.

-Algum problema, Saga? – uma jovem de longos cabelos prateados indagou se aproximando, vendo o cavaleiro entretido com o aparelho.

-Não sei ao certo; o geminiano respondeu, passando uma das mãos nervosamente pelos cabelos, enquanto a amazona parava a seu lado.

-Faz horas que você está aqui, por que não vai descansar e volta depois? –Yuuri sugeriu, notando a série de papéis espalhados pela mesa.

-Tenho que terminar isso aqui primeiro; o geminiano falou indicando as folhas azuis que ainda precisavam ser preenchidas numa prancheta em suas mãos.

-Por que tantos mapas estelares? –ela indagou, curiosa.

-Também não sei, mestre Shion apenas pediu que eu fizesse o mapeamento das estrelas para essa estação; Saga respondeu, recostando-se melhor na cadeira, deixando o telescópio de lado. –Acredito que seja apenas uma rotina, porque se ele quisesse realmente saber de algo, teria ido a Star Hill pessoalmente;

-Entendo, mas sendo importante ou não, é melhor você descansar. Faz três dias que você está vindo aqui todas as noites para preencher esses mapas. Se não descansar agora, você vai estar imprestável amanhã; ela completou preocupada.

-Tudo bem, você me convenceu; o geminiano brincou sorrindo, enquanto guardava suas coisas numa bolsa e se levantava. –Nossa, precisava mesmo disso; ele murmurou alongando os braços para cima.

-Ultimamente você e Aioros vem trabalhando que nem loucos no último templo, se não se cuidarem, vão acabar ficando doentes; ela alertou.

-É que temos muitas coisas para atualizar e colocar em dia; Saga explicou, embora soubesse que no caso do amigo, os motivos para mantê-lo tanto tempo no décimo terceiro templo eram outros, embora ele jamais fosse admitir. –De qualquer forma, eu já vou indo... Boa noite;

-Para você também; ela respondeu, dando-lhe passagem.

Balançou a cabeça levemente para os lados, vendo o geminiano partir, era curioso como as coisas haviam voltado ao normal no Santuário após as guerras. Se fosse uma outra pessoa, provavelmente acharia aquilo tudo muito bizarro. Cavaleiros mortos nas guerras voltavam a vida como que por mágica, um Santuário destruído pelos Espectros de Hades, cujas ruínas haviam sido usurpadas por Ártemis e Apolo, retornaram do nada, belas e impecáveis como quando foram construídas a milênios atrás.

Isso daria uma boa história; Yuuri pensou sorrindo. Entretanto, não tinha a menor intenção de contá-la. Como Saga mesmo dissera, havia coisas demais para colocar em ordem e arrumar, não apenas no último templo, mas ali também; ela pensou com desgosto.

Desde sua "morte", durante a batalha contra os titãs, quando os cavaleiros de bronze enfrentaram Tífon e seus cavaleiros, o observatório ficara praticamente abandonado e fora um verdadeiro milagre ele não ter sido destruído com a invasão dos espectros de Hades, mas agora que estava de volta, era hora de recuperar o tempo perdido; ela pensou, dando um suspiro cansado.

-x-

Subiu as escadas equilibrando as folhas nos braços, iria para casa dormir um pouco e assim que amanhecesse, levaria os papéis até o último templo. Levou uma das mãos aos lábios, contendo um bocejo. Céus! Não havia notado o quanto estava exausto até começar a subir as escadarias dos templos.

Se ao menos Mú estivesse no primeiro templo pediria uma carona, mas o cavaleiro além de nunca estar em casa, provavelmente lhe diria "Se você tem pernas, use-as...", balançou a cabeça levemente para os lados. Ele não estaria errado, mas também, não tornava as coisas mais fáceis; Saga concluiu, dando de ombros.

Depois de alguns lances de escada, pode avistar a entrada do Templo de Gêmeos, mais um pouco e estaria em casa; ele pensou, mas franziu o cenho ao ver alguém lhe esperando na entrada.

-Shaka; ele falou surpreso ao reconhecer o virginiano.

-Desculpe vir procurá-lo à essa hora; o cavaleiro adiantou-se vendo-o se aproximar.

-Aconteceu alguma coisa? –Saga indagou preocupado.

-Preciso conversar com você. Bem... É um assunto delicado, que precisa de muita descrição; Shaka completou com cautela.

-Vamos entrar; ele respondeu, indicando-lhe o templo.

Assentiu, seguindo o cavaleiro para dentro de Gêmeos. Durante todo o dia pensara numa forma de abordar o cavaleiro e contar sobre as suspeitas que tinha a respeito de Cora e a conexão entre ela e Shun. Mesmo depois de falar com Mú, ainda não estava certo de como abordar o Grande Mestre e explicar sobre o cosmo diferente que sentira pairar sobre o Santuário.

O único em que fora capaz de pensar que poderia entender aquilo era Saga, ele também seria capaz de lhe dar uma luz sobre as possíveis mudanças de personalidade e humor de Shun, pouco antes da partida. Embora desconfiasse que Mú sabia de algo, não iria pedir mais detalhes para aquele insolente. Não! Iria descobrir de outra forma.

Continua...