QUANDO NOS TOCAMOS

BY DAMA 9

Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, pertencem a Masami Kuramada e a Toei Animation.

-x-

Importante!

Dama 9 e amigos incentivam a criatividade e liberdade de expressão, mas não gostamos de COPY CATS. Então, participe dessa causa. Ao ver alguma história ou qualquer outra coisa feita por fã, ser plagiada ou utilizada de forma indevida sem os devidos créditos, Denuncie!

Boa Leitura!

-x-

Capítulo 9: Próximo passo.

(...) Seus braços são meu castelo,

seu coração é meu céu

Eles afastam as lágrimas quando eu choro (...)

.I.

Aquele poderia ser descrito como um dia perfeito, o céu estava incrivelmente azul, o calor do sol abraçava-lhe o corpo como uma segunda pele, Zéfiro soprava através dos bosques agitando a vegetação.

Depois daquele dia, quando olhasse para trás, não iria descrevê-lo mais de forma tão simples, não, 'perfeito' era um adjetivo muito parco para definir o dia que sua vida dera uma guinada e jamais voltaria a ser como era antes.

Os orbes verdes abriram-se lentamente, eram raros aqueles momentos que conseguia caminhar pelas campinas e saborear a brisa e o calor do sol, embora em seu reino pudesse fazer isso também, era obrigado a admitir que caminhar ali lhe dava uma sensação de paz e liberdade que não sentia em muito tempo.

Através do vento, chegou a seus ouvidos o som de um riso doce e cristalino, inocente e puro. Quanto mais andava, mais próximo o som se tornava, curioso afastou-se da sombra das árvores que buscara descanso e seguiu o som.

Poucos passos à frente ouviu o som de água corrente e notou que se aproximava do leito de um rio, do outro lado da água notou meia dúzia de jovens a banharem-se.

O primeiro pensamento que teve foi dar meia volta e evitar interromper aquele momento, mas algo lhe chamou a atenção, no leito do rio em volta daquelas deidades de melenas esverdeadas estava a jovem mais linda que jamais vira.

-Mais linda do que Afrodite; viu-se murmurando com reverencia.

Os longos cabelos negros estavam sendo trançados com flores por mãos ágeis e delicadas, uma túnica transparente que pouco lhe cobria o corpo lhe diferenciava das demais que não estavam nem um pouco incomodadas com sua nudez, mas ali, ela era a única a se destacar.

- Quem é ela? – ele se perguntou, mantendo-se afastado da margem e oculto nas sombras.

Não sabia quanto tempo havia permanecido ali, aliás, não estava nem certo de estar respirando, porque o ar escapou bruscamente de seus pulmões quando a jovem se ergueu das margens do rio e afastando-se das demais ninfas, virou-se em sua direção como se atraída por seu olhar.

Sabia que ela lhe vira, podia sentir isso da mesma forma que sentia aquela corrente de estática formar-se no ar e seguir em linha reta até ela. O vento parou de soprar e por um instante, sentiu como se o tempo houvesse congelado. Seus olhares se encontraram e era como se aquela camada de gelo que envolvia seu coração, tivesse acabado de trincar e o mundo como o conhecia até agora jamais voltaria a ser o mesmo.

-x-

Dezoito meses depois…

Era difícil de acreditar que tanto tempo havia se passado. Agora, quando olhava para as águas calmas que corriam aos pés da cachoeira, tinha de admitir que Jamiel não era um lugar tão difícil para se viver, não depois que aprendera a ter calma e disciplina.

Obviamente que os primeiros dias haviam sido um tormento regado a mudanças de humor, aflição e uma ansiedade que beirava a loucura. Depois, como o mar após uma tormenta, se acalmou.

Mú fora muito compreensivo ao perder tanto tempo consigo, principalmente porque o cavaleiro tinha tantas outras coisas para resolver; ele pensou.

Alongou os braços antes de massagear a nuca, durante sua estadia em Jamiel, aprendera a contar a passagem de tempo pelas visitas de Shaka. Dois dias de cada mês ele aparecia para saber como estavam as coisas e conferir seu desempenho. Além é claro de atormentar Mú...

Sempre pensou que todos os cavaleiros fossem grandes amigos por compartilharem um passado juntos - como ele, Seiya e os outros, mas olhando com mais atenção agora, o ariano mudava quando Shaka estava por perto. Não que Mú mudasse da água para o vinho, mas ainda conseguia sentir um pouco de hostilidade e desconfiança pairando entre os dois cavaleiros de ouro. Isso era intrigante, porque o ariano que conhecera naqueles dois anos de batalhas, era bem diferente do que via agora, que conviviam dia a dia.

-Hora de uma pausa para um lanchinho; uma voz feminina soou a suas costas.

Sorriu ao virar-se, vendo uma jovem de longas melenas azuladas se aproximar, os raios de sol caiam sobre os fios formando um alo dourado a sua volta, os orbes rosados eram límpidos e encantadores, poderia ficar olhando para ela a vida toda, sem piscar ou se cansar; ele pensou, sentindo imediatamente que enrubescia, quando ela sorriu pra si.

-Não precisava ter se incomodado; Shun falou, ajudando-a a colocar a cesta no chão.

-Já estou acostumada, às vezes Mú fica tão concentrado no que está fazendo, que se eu não o interromper, ele esquece de se alimentar direito; Laura falou sorrindo.

-É difícil imaginar o Mú tão dependente assim de alguém; ele brincou.

-Não é dependência; ela respondeu prontamente com uma leve pontada de tensão na voz, fazendo-o se encolher instintivamente sabendo que havia falado algo errado. –Não posso negar que parte da culpa no fato dele ter tantas responsabilidades é minha, mas procuro ajudá-lo da melhor forma possível... Bem, é o que os amigos fazem; ela completou suavizando a expressão.

-Faz tempo que vocês se conhecem? –Shun indagou, mais cauteloso agora com o que falava.

Laura poderia ser um doce de pessoa, mas às vezes a tensão que emanava dela era tão forte, que sentia todos os pelos do corpo se arrepiarem em alerta. Ela apenas tinha aquela aparência frágil, mas seus olhos eram intensos, como se já tivesse visto o inferno de perto.

-Aproximadamente quinze anos; ela respondeu pegando uma garrafa térmica de dentro da cesta e xícaras, para servir o café.

-Uma coisa que eu ainda não entendo é porque ele te chama por três nomes diferentes? Confesso que no começo não dei muita atenção, mas estive pensando sobre isso esses dias; ele confessou envergonhado.

-É uma história complicada; Laura falou estendendo-lhe a xícara e apontando os lanches que trouxera em vários potinhos diferentes, para que ele se servisse.

-Desculpe, não queria ser intrometido; ele adiantou-se.

-Não foi, mas é uma história complicada mesmo; Laura respondeu sorrindo tranquilamente. –Mas para resumir, meu nome também é muito comprido;

-Como assim? –Shun indagou confuso.

-Meu nome de batismo é Laura Ariel De Siren; a jovem explicou calmamente. -Mas, onde eu nasci tinha-se por tradição tirar o nome da família e adotar o do marido quando você contraísse matrimonio, então, ao me casar, meu nome passou a ser Laura Ariel Solo; ela explicou.

-Mas...;

-As vezes até me esqueço que me chamo Laura, quando era solteira me acostumei tanto a usar a alcunha de Ariel De Siren, que é estranho quando ouço alguém me chamar de Laura; a jovem explicou com um sorriso, mas aos poucos seu semblante tornou-se sério. -Alguns anos atrás pessoas importantes para mim tiveram alguns problemas e isso me levou a manter dessa forma, mas meus amigos, aqueles que realmente me conhecem, me chamam de Bel, ou só Laura;

-Entendo; ele murmurou, embora algumas coisas ainda não estivessem claras sabia que se ela quisesse, um dia lhe contaria sua história. –E o Mú?

-Digamos que ele não seja lá muito bom em demonstrar tudo que sente, ele sabe lidar bem com os sentimentos das pessoas, mas em matéria dos seus, enfim...; Laura continuou gesticulando levemente com uma das mãos. –Mas é fácil saber o que ele está pensando quando ocorrem essas variações;

-Como?

-Ele me chama de Bel quando está triste ou inquieto. Laura, quando está ansioso ou irritado. Ariel, quando está nervoso ou preocupado;

-E você sabe disso só pelos nomes? –Shun indagou mais confuso ainda.

-Não, pelo tempo que convivemos. Com o tempo você aprende a ver por trás da máscara de controle e seriedade; ela completou piscando-lhe um olho de forma atrevida.

-Mas...;

-No começo tivemos momentos difíceis, algumas brigas, desentendimentos, enfim... Até aprendermos a respeitar os limites um do outro e nos conhecermos melhor;

-Entendo;

Começou a comer o lanche, enquanto pensava. Laura tinha uma aura tranquila agora, que lhe deixava a vontade para conversar e relaxar. Graças à presença dela, não deixara Jamiel correndo de volta para o Santuário. Durante aquele ano recebera a visita de vários amigos, mas as mais perturbadoras eram as do irmão, que insistia para que voltasse logo para o Japão, mas devido a Shaka e Mú proibirem a permanecia de Ikki em Jamiel se continuasse lhe aborrecendo, ele havia parado.

Obviamente Ikki odiou isso, principalmente quando tentara convencer os cavaleiros a deixarem-no ficar ali até o fim do treinamento. Shaka ameaçara jogá-lo em um dos infernos de virgem, já Mú, não precisou dizer nada. Bastou um olhar do ariano para que ele se fizesse entender e Ikki aceitara visitar o irmão por três dias a cada dois meses, enquanto se correspondiam por cartas.

Graças aos amigos, ficara sabendo que Saori estava vivendo no Japão agora, cuidando da Fundação e das empresas Kido, sabia o quanto isso era importante para ela, mas parecia ser o único a compreender que ali não era o lugar dela. Saori pertencia à Grécia, não ao Santuário, mas a pátria que lhe fora negada pelas circunstâncias, mas que cuja cultura ainda permanecia viva em sua alma. Entretanto, ela também tinha que seguir seu próprio caminho para se encontrar e perceber isso sozinha.

-Mú disse que você vai partir na próxima semana; Laura falou chamando-lhe a atenção.

-Sim, o treinamento terminou, ele e Shaka acham que já posso me controlar bem sozinho e que preciso apenas fortalecer meu corpo daqui para a frente; o cavaleiro respondeu.

-Isso é um bom sinal; Laura concordou.

-Espero que sim; ele falou hesitante.

Ao longo daquele ano andara tendo uma serie de sonhos intensos, alguns mais perturbadores do que outros, mas aprendera a administrar o que sentia e canalizar o cosmo de forma que pudesse tirar melhor proveito de sua nova condição.

-Já tem planos para quando voltar ao Japão? –ela indagou.

-Tenho conversado com Ikki sobre isso, pretendo estudar, com os treinamentos não pudemos completar os estudos. Quando completamos seis anos e meio, fomos mandados para fora do país tendo apenas o básico para sobreviver. Tudo que aprendi foi bem parco e graças ao que meu mestre ensinou; o cavaleiro explicou.

-É uma ótima ideia, estudar nunca é demais, mas você tem ideia de que área quer explorar? – Laura perguntou, curiosa.

-Eu gosto bastante de antropologia, mas acho que vou optar por algo voltado para os recursos humanos, quero lidar com pessoas, ajudá-las de alguma forma e isso parece mais adequado, pelo menos no momento; ele explicou.

-...; ela assentiu.

-Obrigado pelo lanche; Shun agradeceu ao terminar. –Acho que vou dar um mergulho antes de voltar;

-Vou indo então, até depois; Laura falou se afastando.

-Até; ele respondeu vendo-a partir.

Deu um pesado suspiro, era bom que ele aproveitasse aqueles momentos de paz, que quando ele deixasse Jamiel, as coisas não seriam mais tão fáceis; ela pensou, lhe lançando um último olhar, antes de voltar ao castelo com a cesta nos braços.

.II.

Um fino sorriso formou-se em seus lábios ao ouvir o riso infantil atrás da cortina, o tecido caia até o chão, mas podia avistar um par de pezinhos agitando-se ali.

-Uhn! Onde será que está a Ayame? –Cora falou olhando por cima do ombro, como se esperasse que a garotinha surgisse a suas costas. –Tive a impressão de vê-la por aqui;

Os pezinhos se agitaram mais e a cortina tremulou.

- O que será que temos aqui? –Cora falou antes de pegar nos braços a garotinha risonha que se preparava para correr.

-Me pegou tia; a criança de três anos falou rindo.

-Sim, peguei você espertinha; Cora brincou, fazendo-lhe cócegas na barriga, antes de carregá-la até o berço.

Suspirou melancolicamente, Ayame era uma criança alegre e ativa, seu sorriso brilhante era capaz de aquecer o coração mais frio, mas como a maioria das crianças ali, não tinha família ou fora abandonada ainda bebê pelos pais.

Era uma pena que quem desejava tanto ter um filho não conseguisse ou não pudesse, agora aqueles que conseguiam abandonavam seus bebês por não terem algum tipo de condição seja financeira, moral ou emocional. Ayame ainda naquela semana deixaria o orfanato, um casal de Nagoya iria adotá-la, mas ela era uma entre muitas.

Muitos casais preferiam adotar bebês, aqueles com mais de dois anos tinham as chances de serem adotados quase reduzidas a zero e muitos viviam ali até se tornarem adultos e alguns tinham de deixar o abrigo muitas vezes sem nem ter certeza de que conseguiriam se manter por conta própria no mundo lá fora.

-Está na hora de dormir; Cora falou acomodando-a sobre o colchão.

-Tia, conta uma história? - ela pediu com olhos brilhantes, começando a bocejar.

-Qual você quer?

-Aquela do príncipe que roubou a fada e se apaixonou por ela;

Cora sorriu, sabia bem que história era aquela, puxou uma cadeira para perto do berço e começou a contar, até ver os olhinhos se fecharem.

-Não conhecia essa história; uma voz sussurrante soou atrás de si.

Virou-se, deparando-se com a jovem de melenas azuis acenando e sorrindo para si da porta do quarto. Relutante, afastou-se de Ayame para seguir Minu para fora do quarto, até o jardim.

-Queria falar comigo? –ela indagou.

-Não quis atrapalhar, você e Ayame se dão muito bem; ela comentou sorrindo tranquilamente.

-Ela é uma criança encantadora;

-Sim, por isso fico feliz que ela tenha conseguido uma família tão boa;

-...; Cora assentiu, embora não compartilhasse totalmente dessa alegria.

Durante o tempo que estivera trabalhando ali se apegara muito a menina e saber que ela partiria, era doloroso, mas diferente das outras perdas em sua vida, estava feliz que ela tivesse encontrado uma boa família que iria cuidar dela, mas acima de tudo, amá-la.

-E você também vai nos deixar em breve, não é? – a jovem comentou.

-É hora de voltar para casa; Cora respondeu com uma pontada de melancolia.

-Saori já havia me comunicado que você só permaneceria um ano aqui; ela falou.

Sim, não duvidava disso. No começo quando Saori lhes apresentara e explicara qual seria seu trabalho ali, não pode voltar atrás na promessa que fizera por isso decidiria ficar apenas um ano.

Entretanto, passado a hostilidade inicial, passara a amar o trabalho que fazia com as crianças, elas eram encantadoras e mesmo que se repreendesse por isso, acabara se apegando a elas, era como se conhecesse cada uma desde seu nascimento.

Ali conhecera pessoas novas, aprendera um pouco mais sobre a vida e os humanos, trabalhar com crianças lhe dera um novo horizonte e o que era para ser apenas um ano, estendera-se por mais duas estações. Agora, por mais que quisesse prolongar sua estadia, tinha responsabilidades a assumir no castelo que não poderia protelar mais, deixando tudo sobre as costas de Nyx.

-Eu queria que soubesse...; Minu começou. –Que as portas do "Filhos das Estrelas" sempre estarão abertas para você;

-Obrigada; Cora respondeu com a voz embargada.

-E que se um dia precisar, você tem para onde voltar; ela completou

Cora assentiu, recebendo de bom grado o abraço acolhedor da amiga que aprendera a gostar como uma irmã durante aquele ano.

.III.

Distraidamente ajeitou os óculos meia-lua sobre a ponta do nariz, virou mais uma página do livro enquanto ouvira o som de passos atrás de si, arqueou a sobrancelha levemente, poderia jurar que se ele continuasse desse jeito por mais uma hora, iria abrir um buraco no tapete.

-Ikki; Saori chamou, porém ele continuou andando e resmungando como se não tivesse se dado conta da sua presença ali.

Apoiou um dos braços no encosto do sofá, enquanto com a outra mão, marcava a página que estava lendo no livro.

Como os outros cavaleiros de bronze, Ikki aceitara viver na mansão 'por um tempo' como ele dissera no começo, já que não desejava perder sua fama de 'lobo solitário'. Entretanto, nesse momento ele mais se assemelhava a um leão enjaulado do que qualquer outro animal. Ele se preocupava muito com Shun e estava contrariado com a decisão de Shaka e Mú de mantê-lo longe de Jamiel até o fim do treinamento.

Mesmo que ele não compartilhasse o que estava lhe perturbando, a proibição de Shaka e Mú não fora o único motivo para deixá-lo daquele jeito. Há uma semana ele recebera uma carta, a princípio achou que fosse de Shun, mas quando o cavaleiro telefonara, discretamente lhe perguntara se ele havia enviado algo para o irmão pelo correio e ele respondera que não.

Então, parte das preocupações de Ikki tinham a ver com a carta que recebera e que não era de Shun, mas de quem seria então? –ela se perguntou intrigada.

-Ikki; Saori chamou de novo.

Ele continuou a andar, bem, continuou até o momento que o livro que ela tinha em mãos foi arremessado certeiramente em seu joelho, fazendo-o perder o equilíbrio e cair de cara no chão.

-FICOU MALUCA, SAORI! – ele berrou cuspindo felpas que haviam entrado em sua boca ao se chocar contra o tapete.

-Finalmente notou que estou aqui; ela respondeu sarcástica, nem um pouco abalada por sua explosão. –Estava começando a achar que você iria abrir um buraco no chão, mas aconselho você a pegar um avião, não vai conseguir chegar ao Brasil desse jeito; ela escarneceu.

-Engraçadinha; o cavaleiro resmungou sem um pingo de humor.

-Por que esta desse jeito? –Saori perguntou casualmente.

-Semana que vem Shun volta para casa; ele respondeu, indo sentar-se em uma poltrona próximo a ela.

-O que tem isso? – ela indagou calmamente, embora soubesse por que ele estava incomodado com aquilo.

Não que Ikki não quisesse o irmão de volta ao Japão, mas através dos outros cavaleiros ele soubera que algo surgira entre Cora e Shun durante a estadia dele no Santuário, outro fator de tensão também era a presença de June na mansão.

Pelo menos eles tiveram o bom senso de não mencionar nada na frente da amazona, ou teria que lidar com uma nova guerra santa dentro da mansão caso ela resolvesse ter uma crise de ciúmes e confrontar Cora. Embora a Imperatriz tenha passado a maior parte do tempo no orfanato trabalhando com Minu e Eiri, sabia que as coisas poderiam ficar bem ruins se elas se estranhassem, já que Cora não era nenhuma flor frágil e seria bem capaz de estripar alguém que lhe irritasse levando-a ao limite.

Entretanto, em algum momento aqueles três iriam se cruzar, não havia como evitar isso e o resultado era simplesmente imprevisível.

-E você ainda pergunta? –ele exasperou chamando-lhe a atenção.

-Já faz um ano e meio que Shun está em Jamiel, é normal que ele volte agora que concluiu seu treinamento; ela comentou casualmente.

-Claro, mas você sabe o que vai acontecer quando June souber disso, não é? – o cavaleiro insistiu.

Ponderou por um instante, a amazona estava vivendo no Japão desde que deixaram a Grécia, ela decidira esperar o retorno de Shun ali. Sem saber o que fazer para dissuadi-la de se iludir com o retorno dele, Saori sugerira que ela começasse a estudar.

Durante aquele tempo ela parecera mais controlada, mas já ouvira ela conversando com Yume pelos corredores da casa dizendo que mal esperava Shun chegar para convencê-lo a voltar para Andrômeda com ela. June não queria aceitar que, o que o cavaleiro sentia por ela era apenas amizade e que a 'casa' dele não era na ilha de Andrômeda e o que supostamente viveram lá, agora pertencia a um passado que ele desejava esquecer.

Até chegara a conversar com um psicólogo sobre isso e ele dissera que ela tinha que chegar a essa conclusão sozinha, qualquer um que tentasse destruir a utopia que ela criara, June simplesmente ignoraria. Embora tivesse suas dúvidas, quem sabe agora que Shun pretendia se estabelecer no Japão ele conseguisse deixar claro para ela suas vontades.

-Acho que só ele para resolver isso; Saori respondeu.

-Eu sei, mas não quero ele magoado por causa disso;

-Mas...;

-Conheço meu irmão Saori, ele vai ficar com pena e achar que a culpa é dele por ela estar sofrendo, vai acabar cedendo; Ikki exasperou, levantando-se e voltando a andar em volta da sala. - Para que June não sofra mais, ele vai deixar os próprios sentimentos de lado e se prender a uma pessoa como ela, você sabe Saori, ele é assim;

-Tem razão; a jovem concordou. Shun era o tipo de pessoa que deixaria de lado a si mesmo se isso fosse proteger alguém que lhe era querido.

-Mesmo ele tendo mudado bastante nesse último ano; ele completou num resmungo contrariado.

-Imagino que conviver com Mú tenha causado isso; ela brincou. –Mas nós sabemos que isso iria acontecer após as guerras, ainda mais depois de tudo que passou; ela completou, deixando o resto pairar no ar, sem querer realmente contar a ele que não eram apenas esses dois fatores a desencadearem as mudanças no amigo, mas Ikki tinha razão nos pontos que apresentara. -Por hora, vamos apenas ter fé em Shun e confiar que ele tomará a melhor decisão; Saori completou, vendo o olhar descrente dele. -Se não der certo, mandamos Tatsume despachá-la para o triângulo das Bermudas e não falamos mais nisso; ela completou com um olhar sombrio, fazendo o cavaleiro estremecer sem saber ao certo se ela estava brincando ou não.

Aliás, ultimamente notara que não era apenas o irmão quem estava mudando, mas desde que passara a conviver mais tempo com a jovem de melenas lilases, as lembranças que tinha da pirralha mimara e irascível que conhecera quando criança haviam desaparecido, não conseguia associar mais aquela imagem a Saori. Desde que ela voltara da Grécia e assumira a fundação e o grupo Kido notara uma energia diferente nela.

Não era apenas relacionado ao cosmo, as vezes sentia as ondas de poder que estalavam em volta dela como nuvens invisíveis de estática, ou quando o inferno astral se aproximava e ela se distanciava de todos. Sentira esse tipo de cautela vindo do irmão também, mas Saori amadurecera ao ponto de aqueles que conviviam diariamente com ela agora, não a reconhecerem mais. Por isso não tinha realmente certeza se ela estava apenas blefando ou, se no caso de as coisas fugirem do controle ela não tomasse alguma atitude drástica para colocar tudo de volta ao eixo.

.IV.

Recostou-se no tronco da árvore, enquanto uma brisa suave erguia do chão as pétalas rosadas que caiam sobre a grama, formando um tapete macio e perfumado a sua volta. A tarde caia sobre o Santuário, mas ali dentro, era como se o tempo não passasse nunca, pelo menos, não da forma que passava para os outros; ele pensou fechando os olhos.

Era difícil de acreditar que podia finalmente apreciar a tranquilidade daquele jardim, passara quase quinze anos ali sem nem ao menos dar valor para a vida que pulsava naquelas árvores, para a suavidade das flores ou a paz que lhe abraçava o coração cada vez que entrava ali.

-Hoje os tempos são outros; ele sussurrou para si mesmo.

Também não sabia prescindir quanto tempo se passara desde a primeira e última vez que vira aquele anjo de asas brancas e olhos dourados ali mesmo, entre as árvores de Twin Sall. Gostaria de saber o que aconteceu com ela agora que as guerras acabaram.

-Espero não estar atrapalhando; uma voz conhecida soou as suas costas.

-Não, aproxime-se Saga; Shaka falou abrindo os olhos. –Estava esperando você chegar, mas confesso que me distrai e não senti sua presença;

-Você? Distraído? –o geminiano indagou evidentemente surpreso. –Está preocupado com algo?

-Não diria que é uma preocupação; o virginiano respondeu dando de ombros. –Mas de onde está vindo?

-Acabei de chegar de Delfos e Kanon avisou que você queria falar comigo; ele respondeu olhando por sobre o ombro dele, notando as duas figueiras gêmeas completamente floridas, era incrível como aquelas árvores pareciam alheias ao próprio tempo e dentro daquelas paredes sempre fosse primavera.

-Sim, mas porque foi a Delfos? –o virginiano perguntou curioso.

-Nada importante, visita de rotina as ilhas. Mestre Shion enviou alguns cavaleiros para verem a situação das ilhas após as guerras e reportarem os possíveis reparos a serem feitos. Acredito que logo Milo retornará da ilha de Milos e Aiolia de Kinaros.

-Por isso o Santuário está tão silencioso, Milo e Aiolia saíram em missão; Shaka comentou pensativo.

-É, quando aqueles dois estão por aqui, dificilmente temos um dia de tédio; Saga brincou.

-Tédio ou paz? Porque aqueles dois juntos, podem colocar o Santuário abaixo; ele resmungou, enquanto o cavaleiro apenas ria.

-De qualquer forma, o que queria comigo? –Saga indagou.

-Queria saber se surgiu alguma previsão nova em Star Hill? –ele indagou curioso.

-Shaka, sabe que mestre Shion não me autorizou a falar sobre isso; o geminiano respondeu um pouco incomodado.

Desde que haviam voltado, recebera do mestre a incumbência de ajudar nas previsões de Star Hill, com a condição de que não as divulgasse a ninguém, a menos que Shion ou Athena autorizassem.

-Sei, mas não quer dizer que eu concorde; o virginiano respondeu casualmente, vendo-o sorrir largamente. –O que foi?

-Está falando igualzinho ao Mú agora; Saga brincou, vendo-o fechar a cara imediatamente. –Pelo visto, nem mesmo o treinamento do Shun serviu para amenizar a tensão entre vocês dois; ele comentou com pesar.

-Isso não tem nada a ver com você, Saga; Shaka falou prontamente.

-Mas não deixa de ser em parte culpa minha; o geminiano respondeu. –Mesmo que mestre Shion diga o contrário, sei que é por isso também que ele não vive no santuário como os outros, preferindo ficar em Jamiel.

-Não é uma questão de culpa Saga, acredito que ele saiba que você não teve escolha quando tudo aquilo aconteceu; o virginiano explicou. –Quanto as nossas desavenças, são por culpa única e exclusiva daquele pirralho impertinente; ele completou em meio a resmungos.

-Mas...;

-O fato de eu não aprovar os métodos pouco ortodoxos dele agir, não tem nada a ver com você; Shaka continuou taxativo, tentando encerrar aquele assunto.

-Como assim? –Saga perguntou confuso, frustrando a esquiva do virginiano.

-Desde o começo ele teve essa mania de jogar sobre as próprias regras. Não gosto disso; ele respondeu como se aquilo resumisse tudo.

-Não entendo; o geminiano falou balançando a cabeça levemente para os lados. Não conseguia se lembrar de quando o conflito entre os dois começara, antes da invasão ao Santuário sua consciência ia e voltava o tempo todo, eram poucos momentos que tinha clareza em seus pensamentos e conseguia bloquear a influência de Ares, então não se recordava do que fora o estopim para essa hostilidade entre eles, talvez devesse investigar isso melhor e descobrir o que os outros tinham a dizer sobre o assunto.

-Desista Saga, entender o Shaka é uma das coisas mais difíceis do mundo; a voz do sagitariano soou atrás deles. –Se Freud tivesse que escolher entre analisá-lo ou dançar com um crocodilo, certamente o crocodilo ganharia; Aioros brincou.

-Puff; o cavaleiro resmungou, cruzando os braços empertigado.

-Mas podemos resumir da seguinte forma. Os dois são como água e óleo, não se misturam, nem que você bata os dois em um liquidificador; Aioros completou sentando-se ao lado dos amigos.

-Vendo por esse lado; Saga deu de ombros, decidindo deixar o assunto de lado por hora, embora não fosse desistir de investigar isso em outro momento. –Mas porque quer saber das previsões Shaka? –ele indagou.

-Bem...;

-Vamos, não hesite só porque estou aqui; Aioros falou como se já esperasse por isso, afinal, ele não teria se dado ao trabalho de garantir que Kanon pedisse que Saga passasse por Virgem assim que ele chegasse de viagem, antes de ir falar com o Grande Mestre.

-Andei investigando algumas coisas; ele começou chamando a atenção dos dois.

-Que tipo de coisas? –o sagitariano quis saber.

-Vocês sabem que o hospedeiro de Possêidon ainda está vivo, não é?

-Sim, ouvi dizer que Julian Solo se mudou recentemente para a Itália e vem viajando pelo mundo desde então, ajudando as vítimas das inundações que ele mesmo causou; Saga falou.

-Há um tempo senti uma energia diferente sobre ele; Shaka explicou.

-Como assim? –Aioros indagou, surpreso.

-Shun me disse que depois que destruímos o muro das lamentações, quando eles precisaram, as armaduras foram enviadas até os Campos Elíseos para ajudá-los. Isso só seria possível com o cosmo de um Deus;

-E?

-Os rapazes não tinham certeza, mas suspeitavam que havia sido o cosmo de Possêidon que retirou as armaduras dos escombros do Santuário e as fez cruzar a barreira entre os mundos. Não duvido disso, porque ele mais do que qualquer um, não iria querer que Hades saísse vencedor onde ele mesmo fracassara; o virginiano explicou.

-Então, você acredita que Possêidon não foi lacrado completamente? –Saga perguntou preocupado.

-Não, ele foi lacrado. Kanon e Afrodite estiveram recentemente nas ruínas do Santuário do Mar e confirmaram que a ânfora está lá - ainda intacta - com o selo de Athena; ele continuou. –O que me preocupa é que as lembranças dele possam continuar despertas;

-Como assim? – Aioros indagou confuso.

-Se Julian tiver acesso à lembrança e consciência de Possêidon, quer dizer que Shun também pode ter algo de Hades; ele falou dando vazão a suas preocupações.

-Você não acha que ele pode... Bem...; Saga começou, sem saber ao certo como elaborar.

-Não, mas acho que isso explica a mudança de personalidade que ele teve pouco antes de deixar o Santuário; Shaka continuou. –Acredito que esse seja também, um dos fatores que fizeram o cosmo dele ficar totalmente fora de controle;

-É possível, desde o término das batalhas o cosmo de Saori vem se desenvolvendo muito mais rápido também; Saga falou chamando a atenção de Aioros.

-Como assim? – ele perguntou surpreso.

-Às vezes ela também sofre com mudanças de humor quando o inferno astral se aproxima, por isso normalmente ela se isola das outras pessoas até essa fase passar; o geminiano explicou com simplicidade.

-Você sabia disso? – Aioros perguntou surpreso voltando-se para Shaka, que assentiu, ciente da informação. -Por que ninguém me disse isso antes? – ele exasperou.

-Porque já estávamos cuidado disso; o geminiano respondeu dando de ombros. –Mas a questão aqui é o Shun; ele falou mudando de assunto. –Shaka, imagino que isso tenha a ver com o treinamento que ele está fazendo em Jamiel, não?

-Em partes; Shaka falou.

-Como assim?

-Foi só uma vez, mas acredito que a mudança de personalidade no Shun se devia a presença daquela menina que chegou pouco tempo após a reconstrução do Santuário, para ajudar a cuidar dos feridos na fonte; ele explicou.

-Que menina? –Aioros indagou, embora já desconfiasse da resposta.

-Talvez vocês não se lembrem, mas é a mesma que foi para o Japão com Saori; ele explicou.

-Cora! Se não me engano ouvi Saori chamá-la de Cora; Saga falou pensativo.

-Sim, foi esse o nome que Milo me deu; Shaka concordou.

-Milo? –os dois perguntaram.

-Sim, foi ele que me contou sobre a mudança de personalidade. Todos imaginávamos que após a batalha contra Hades, Shun sofreria algumas mudanças, isso é inevitável ao término de qualquer guerra, mas a mudança do cosmo e de humor foram além de qualquer inferno astral; ele explicou. –Atualmente, com o treinamento que está fazendo em Jamiel, ele aprendeu a canalizar o cosmo de outra forma e não o reter como o ensinei antes. Entretanto, algo além disso me preocupa; ele completou, tentando não transparecer o quanto a última parte ainda o irritava.

-Não entendo, se você diz que ele ter as lembranças de Hades não é um problema e que o cosmo dele está entrando em equilíbrio com o treinamento, por que está tão preocupado? –Saga perguntou.

-Porque diferente de Julian, ele e Hades podem ainda estar ligados;

-Mas Seiya e os outros mataram Hades nos Campos Elíseos; Aioros falou.

-Mas...;

-Só para variar, você continua caçando pelos em ovos, Shaka; a voz do ariano ecoou pelo cômodo, quando os três o viram se materializar na entrada do jardim.

-Mú; Saga e Aioros falaram surpresos ao vê-lo ali.

-Se Hades estivesse mesmo vivo, ou aspirasse uma nova guerra aproveitando a possível 'ligação' entre ele e Shun, isso já teria acontecido há muito tempo. Mesmo porque, quer período melhor para isso do que, enquanto as forças do Santuário ainda estavam fracas, após a tomada de Apolo e Ártemis; ele falou caminhando calmamente até eles.

-Nesse ponto Mú tem razão; Aioros concordou franzindo o cenho em seguida, ao ter a impressão de ouvir Shaka rosnar.

-É de bom tom bater na porta antes de entrar na casa dos outros; o virginiano reclamou.

-Verdade? –Mú rebateu em tom falsamente inocente. –Não estou enxergando nenhuma porta aqui por perto, ou tem alguma dentro dessa sua cabeça obtusa, Shaka? –ele indagou em tom de provocação.

-Oras, seu...; ele rosnou, colocando-se imediatamente em pé, tendo cada um de seus braços presos por Saga e Aioros.

-Calma; Aioros pediu, embora tentasse não rir abertamente da situação. Mú era o único capaz de fazer Shaka de Virgem sair do eixo e perder a calma. O que, pelo tempo que conhecia o virginiano, não era nada ruim, principalmente porque era sempre bom lembrar de vez em quando a Shaka que ele também era humano.

-Como é você que vai ter de fazer o relatório para o Grande Mestre, passei para avisar que o treinamento de Shun terminou e no fim de semana ele vai voltar para o Japão; Mú avisou lhe lançando um olhar frio. –Tudo que ele precisava saber para se controlar ele já sabe, à parte do condicionamento físico ele vai compensar com academia e treino constante.

-Você poderia ter enviado o relatório em vez de vir aqui; Shaka reclamou, soltando-se dos dois.

-E perder a oportunidade de lhe dar algo mais para fazer do que ficar sentado à toa aqui o dia todo? –o ariano indagou dando de ombros vendo-o ficar ainda mais irritado do que antes. –De qualquer forma, não vou me demorar no Santuário, tenho mais o que fazer; ele falou antes de lhes dar as costas.

-Grande novidade; Shaka resmungou indignado, lembrando-se que essa era sempre a desculpa que ele usava quando queria expulsá-lo de Jamiel.

-Saga, Aioros... Até mais; ele despediu-se cordialmente dos dois, antes de desaparecer.

-Moleque impertinente; o virginiano exasperou, mas parou em seguida ao ouvir os dois cavaleiros rirem tanto, que estavam incrivelmente vermelhos. –O que foi? –ele perguntou entre dentes.

-Precisava ver sua cara; Saga falou.

-Da próxima vez vou tirar uma foto, isso não é algo que vemos todos os dias; Aioros continuou.

-Do que estão falando? –Shaka indagou, sendo ele a ficar vermelho agora, mas de raiva.

-De você obviamente, o Grande Shaka de Virgem; Aioros continuou dando ênfase no grande. –Sendo facilmente provocado. Afinal, para que servem as longas horas de meditação que você faz, se é só o Mú chegar e você só falta voar no pescoço dele? –ele provocou.

-Não tenho culpa desse moleque adorar me atormentar; ele reclamou.

-Você que cai muito fácil nas provocações dele; Saga falou calmamente. –Mas ele não deixa de ter razão;

-No que? –Shaka quase gritou indignado.

-Se existisse mesmo essa ligação entre Hades e Shun, supondo que Hades ainda estivesse vivo, o tempo para atacar o Santuário e sair vencedor já passou. Agora, mesmo que ele quisesse, não iria conseguir; ele falou ficando sério.

-Não mesmo; Aioros concordou.

-Talvez; Shaka falou a contragosto, ainda relutante em levar o que Mú dissera a sério, principalmente porque não tinha muita fé em toda aquela confiança dele. Ele não poderia ter absoluta certeza de que Hades, se vivo, não iria querer começar uma guerra contra Athena e destruir a Terra novamente.

Havia outra coisa também, a presença da Imperatriz no Santuário, aquela era a versão deles para 'dormindo com o inimigo', por mais que ela houvesse ajudado na Fonte e estivesse sob a supervisão de Athena, não estava seguro de que ela não seria um problema, mesmo Mestre Shion garantindo que isso não tinha perigo de acontecer.

-Talvez você só esteja se preocupando demais, Shaka; Aioros completou, para no segundo seguinte desviar do rosário de cento e oito nenjus que o cavaleiro lançara em sua direção com uma dose de violência pouco ortodoxa da parte dele.

-x-

Observou as águas do mar ricochetearem nas pedras e a areia molhada brilhar como ouro, os raios solares pouco a pouco adquiriam tons magenta e vermelho que cobriam o céu, trazendo-lhes a noite, era como se pudesse ver Apolo correndo pelos céus com sua carruagem de fogo e Morfeu a seu lado, jogando sobre a abobada celeste seu manto de estrelas.

-Estava me perguntando quando você iria aparecer novamente para me aborrecer; Mú falou, colocando as mãos no bolso, enquanto firmava os pés na areia.

-Alguém já lhe disse o quanto você é impertinente garoto? –a voz do homem de longos cabelos negros soou a suas costas.

Às vestes longas caiam sobre o chão, seus passos eram tão leves ao se aproximar que não deixavam marcas na areia, como se ele flutuasse.

-Já; o ariano respondeu dando de ombros. –Mas o que faz aqui Caos, uma visita de rotina ao mundo dos mortais, ou algo mais? –ele indagou, sabendo que a presença dele ali nunca era sem um motivo oculto.

-Talvez um pouco dos dois; a divindade suprema respondeu com um fino sorriso nos lábios. –Mas diga-me garoto, como vai o treinamento daquele cavaleiro?

-Já terminou e você sabe disso; Mú rebateu com expressão entediada.

-Não seja chato! Até mesmo eu mereço algum divertimento às vezes; ele reclamou emburrado. –Saber tudo o que vai acontecer é um pouco cansativo;

-Imagino; Mú respondeu irônico. –Então?

-Então o que? –Caos falou casualmente.

-O que quer me dizer? Afinal, você não perderia seu tempo sem um bom motivo;

-Não, não perderia; Caos falou dando de ombros. –Mas achei que fosse gostar de saber que suas suposições estão certas;

-Como? –ele indagou arqueando a sobrancelha.

-Sobre Hades ainda estar vivo e quanto ao fato dele não pretender mais entrar em guerra contra Athena, tampouco destruir a Terra; Caos explicou.

-Imaginei; ele falou dando de ombros. –Só isso?

-Você é mesmo um desmancha prazeres; Caos reclamou. –Mas deixe-me lhe dizer uma coisa, a partir daqui aquele garoto segue sozinho, não quero interferências suas no caminho dele. No passado já tive problemas demais para restaurar o equilíbrio que você rompeu, agora esteja avisado de que não vou tolerar suas interferências no destino dos mortais; ele completou.

-Se houvesse mesmo um destino Caos, eu não poderia interferir, não concorda? – o cavaleiro falou pausadamente, enquanto os olhos verdes adquiriam um brilho matreiro. -Por que senão, você já saberia que isso iria acontecer? O que foge ao propósito eu acredito; Mú rebateu voltando-se para ele sem esconder a provocação implícita. –Não pretendo me meter no que não me diz respeito, mas não vou deixar de proteger os meus por conta disso; ele completou em tom de aviso.

-Mas dá no mesmo; a divindade exasperou.

-Que seja; o ariano rebateu, antes de desaparecer.

-Santa mãe Réia, onde eu estava com a cabeça, para deixar vir ao mundo uma criatura tão parecida comigo? –Caos exasperou, erguendo as mãos para o céu irritado. Embora ele fosse o primeiro a saber que nenhuma resposta fosse vir de lá.

Continua...