QUANDO NOS TOCAMOS
BY DAMA 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, pertencem a Masami Kuramada e a Toei Animation.
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Importante!
Dama 9 e amigos incentivam a criatividade e liberdade de expressão, mas não gostamos de COPY CATS. Então, participe dessa causa. Ao ver alguma história ou qualquer outra coisa feita por fã, ser plagiada ou utilizada de forma indevida sem os devidos créditos, Denuncie!
Boa Leitura!
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Capítulo 11: Duas Caras.
.I.
No dia seguinte...
Deixou a sala da coordenadora com alguns folhetos nas mãos, embora ela houvesse explicado tudo sobre todos os cursos, ainda estava em dúvida sobre qual escolher. Provavelmente isso deveria ter ficado evidente, ou do contrário ela não teria lhe dado tantos folhetos.
-Quando você escolher qual curso irá fazer, posso te ajudar a estudar quando voltar da aula, se quiser? - Ikki ofereceu, acompanhando-o para fora da administração da faculdade.
Em menos de seis meses uma nova turma iria começar para todos os cursos e se ele fizesse o exame, poderia iniciar ainda naquele semestre.
-Não quero sobrecarregá-lo irmão. Então o horário que ficar melhor pra você, podemos fazer isso, assim você pode descansar do trabalho também; Shun respondeu.
-E se você tiver alguma dúvida sobre a apostila de estudo pode me ligar; o cavaleiro acrescentou.
-Obrigado; o irmão respondeu sorrindo, antes que os dois ouvissem uma voz feminina gritar.
-SHUNNNNNNNNN!
-Ah, não; Ikki exasperou pouco antes de June surgir no corredor e lançar-se sobre o pescoço do virginiano.
-Que surpresa encontrar você aqui; a amazona falou sorrindo largamente.
-Ahn... É bom vê-la também; Shun falou desconcertado.
Algo lhe dizia que em outro momento não se sentiria tão tenso com o afeto exagerado da amazona, mas agora ele parecia exatamente isso, exagerado demais e isso lhe incomodava.
-Você pretende estudar aqui? – June perguntou vendo os panfletos nas mãos dele.
-Ahn! Sim... Acho que sim;
-Que bom, posso ajudá-lo a estudar; ela continuou, animada.
-Não é nesc...;
-E quando você passar, podemos vir juntos para aula, vai ser ótimo; June o cortou, empolgada.
-Calma aí lagartinha; Ikki exasperou, colocando-se entre os dois, obrigando-a a se afastar do irmão.
-Se você não percebeu, estou falando com o Shun, não com você; ela rebateu irritada.
Com um suspiro cansado, Shun deu um passo para trás, deixando os dois discutirem, sabia que quando o irmão começava a falar, não havia quem o parasse. Balançou a cabeça para os lados, não queria ser motivo de desavenças entre ninguém, tampouco desejava que o irmão continuasse a lutar suas batalhas. Ele já fizera tanto, era injusto agora que deixasse isso continuar.
-Apenas admita que eles te aborrecem; uma voz sussurrou em seus ouvidos, vinda de algum lugar no fundo de seus pensamentos.
-Uhn? – Shun murmurou piscando e olhando para os lados, buscando a origem da voz.
-Não é problema seu que ela não queira aceitar a verdade;
-Não quero magoar June, mas...;
-Ninguém pode viver sempre em cima do muro. Cometemos erros, às vezes acertamos, magoamos e somos magoados;a voz continuou impaciente. –Como você quer lutar por si mesmo, se você se afasta ao menor problema?
- "Não era minha intenção agir assim"; Shun pensou preocupado.
-Por quanto tempo pretende mentir para si mesmo? Você é um franco! Ficar fugindo dos problemas não irá resolvê-los;a voz soou exasperada.
-Mas June...;
-DANE-SE A JUNE, admita de uma vez por todas que você vem fugindo de lutar por egoísmo próprio. É patético!
-Parem; o cavaleiro sussurrou.
-Quanto entusiasmo, tem certeza de que quer detê-los? –a voz ecoou de maneira provocadora em sua mente e ele poderia jurar que ouviu um riso ao fundo. –Você não quer falar a verdade para ela por medo de ferir a si mesmo, não ela. Admita!
-Parem; Shun falou um pouco mais alto, sentindo-se inquieto ao ver as pessoas começando a se aglomerarem por perto, para observar a discussão.
-Puff!
-Eu falei para você deixar de ser intrometida; Ikki reclamou.
-E você tem que parar de sufocá-lo; ela exasperou.
-AH! Vamos começar a falar sobre sufocar então? – ele rebateu irônico.
-Idiota...;
-Oras, sua...;
-PAREM! – ele gritou exasperado, liberando uma grande quantidade de cosmo, paralisando os dois e afastando-os alguns centímetros um do outro, embora a maioria das pessoas não houvesse notado esse deslocamento além dos dois.
-Shun? – June e Ikki falaram, voltando-se cautelosos para ele.
-Vocês perceberam como estão sendo ridículos? – ele falou em tom frio.
-Foi ele quem começou; June atacou, para em seguida engolir em seco diante do olhar dele.
-June, eu não vou discutir com você aqui, mas chega... A decisão que tomei antes de sair da Grécia ainda é a mesma, isso não mudou; o cavaleiro ressaltou tentando conter a onda de fúria que ameaçava emergir a superfície.
Empalideceu recuando um passo ao ver os orbes do cavaleiro perderem o brilho natural, tornando-se mais densos e frios. A aura em volta deles ficou mais pesada e até mesmo os espectadores que haviam parado para ver a confusão rapidamente se dispersaram.
–Agradeço a preocupação, mas não preciso que lute por mim, eu sei me virar sozinho; ele completou voltou-se para o irmão que tinha um olhar vitorioso, mas que logo se encolheu igual a amazona.
-Não era minha intenção te pressionar, Shun; June falou sorrindo sem graça ameaçando se aproximar, mas empalideceu ao perceber que não conseguia mover seu corpo.
-Shun, o q-...; Ikki deteve-se ao constatar o mesmo que ela, voltou um olhar confuso para o irmão, mas ele já lhes dava as costas.
-Nos vemos em casa; Shun respondeu, como se lesse a pergunta em seus pensamentos, antes de passar pelo corredor de pessoas que se abrira a sua frente.
.II.
Pouco a pouco o brilho do sol infiltrava-se por entre as árvores, deixou a ponta de seus dedos deslizarem pelas folhas da vegetação, sentindo as gotas de orvalho molharem sua pele. Aquele era um dos poucos momentos que tinha para si mesma, ultimamente estavam cada vez mais raros graças a sua mãe.
Mais alguns passos e deixou a proteção das árvores seguindo até as margens de um rio. Ali o calor do sol já era mais forte tocando sua pele, as vestes diáfanas e quase transparentes não ofereciam grande proteção dos raios dourados.
-Minha lady, que bom que chegou; ouviu uma voz melodiosa chamar-lhe a atenção.
Do outro lado da orla do bosque um grupo de deidades surgiu por entre as flores, ninfas de cabelos verdes e pele tão dourada quanto as areias da praia, o que lhe lembrava de que, em algum momento iria escapar para ver o mar, mesmo que tivesse que contrariar sua mãe para isso.
-Há quanto tempo? – ela perguntou, sorrindo quando o grupo se aproximou.
-Bastante; uma das ninfas respondeu retribuindo o sorriso. -Pensamos que só a veríamos depois do festival da colheita;
Sim, também pensara que só conseguiria voltar a Terra após o festival. Já havia algum tempo que a mãe lhe proibira de andar entre os mortais nos períodos de festividades, principalmente nos quais os mortais se aglomeravam nos templos para fazerem suas oferendas. Entretanto dessa vez era diferente.
-Minha mãe está prestes a dar à luz; ela explicou, diante do olhar surpreso das ninfas.
-Mil bênçãos a sua mãe, que a criança nasça com bastante saúde; outra ninfa saudou.
-Muito obrigada; a jovem respondeu, enquanto seguia com o grupo para se sentar na beira do rio.
-É sempre um bom pressagio das Deusas do Destino um nascimento durante a colheita; uma das ninfas comentou, enquanto outra sentou-se atrás dela e começou a pentear com os dedos os longos cabelos negros da jovem.
-Quem sabe agora ela afrouxe um pouco os olhos de harpia sobre você, minha lady; a jovem ninfa falou, com um sorriso acolhedor.
-Eu gostaria de acreditar nisso; ela respondeu, dando um pesado suspiro.
A verdade é que não tinha muita esperança disso acontecer, agora que atingira a maior idade a mãe tornara-se mais possessiva e superprotetora consigo. Quando ela concebera, realmente acreditara que ela ficaria distraída com a gestação e se tornaria mais amena e menos paranoica com sua segurança, mas não. Mesmo em seu templo, sentia a presença de alguém vigiando seus passos para onde quer que fosse.
Respirou fundo tentando relaxar, pela primeira vez em muito tempo decidira contrariar a mãe e vir ao reino mortal, mesmo que, quem quer que estivesse lhe vigiando a mando dela, não se importava que fosse lhe delatar. Precisava se afastar e viver além dos muros do templo.
-Deveria vir conosco ao festival, será divertido; a jovem ninfa comentou, entregando-lhe uma coroa de flores. -Ouvimos dizer que Apolo virá com as musas este ano;
Um suspiro coletivo foi ouvido entre as ninfas, a divindade de cabelos cor de fogo tinha uma certa fama entre as ninfas. Já ouvira falar de outros festivais em que Apolo e suas irmãs estiveram presentes, mas nunca realmente havia os encontrado no mundo dos mortais. Aliás, divindades como Apolo e Dionísio, sua mãe havia lhe ordenado que se mantivesse afastada como se eles tivessem alguma doença contagiosa, não que isso pudesse lhes atingir realmente.
-Talvez eu vá este ano; ela murmurou em resposta.
O dia estava lindo e o sol radiante, seria uma pena perder isso para os pensamentos sombrios que surgiam. Não gostava de brigar com a mãe, mas aquela incessante necessidade dela de lhe proteger era sufocante. Precisava se afastar dela e ir ao festival poderia ser bom no final das contas; ela pensou, sorrindo.
Não sabia explicar quanto tempo havia passado na beira do rio com as ninfas, mas algo lhe chamou a atenção, não era nada que elas houvessem notado, mas pode sentir uma energia diferente no ar que sutilmente surgiu formigando sobre sua pele.
-Mais linda do que Afrodite; o sussurro reverente chegou até si trazido pelo vento e um arrepio de antecipação subiu por sua espinha até o topo da nunca.
Ergueu-se de repente, afastando-se das ninfas. Ouviu alguém lhe chamar, mas pareceu um eco longínquo, como se estivesse presa em um sonho prestes a acordar. A água gelada do rio tocou sua pele, mas isso pouco fez para arrefecer aquela inquietação que lhe agitava o coração. Algo estava perto, muito perto.
A sensação de que a partir daquele momento sua vida jamais seria a mesma tornou-se pungente quando seus olhos cruzaram a distância do bosque para cravar-se na figura escura escondida entre as folhagens.
Não se lembrava do momento em que prendera a respiração, mas quando o ar voltou a seus pulmões, sentiu um zumbido em seus ouvidos, isolando completamente o som de tudo a sua volta. Seus sentidos estavam todos focados em desvendar a origem daquela energia que sentia chegar até si em ondas, ondas de calor que tocavam sua pele puxando-a como um imã em direção as folhagens.
-CORA! – os gritos angustiados das ninfas finalmente chegaram até si.
Virou-se em direção a elas, apenas para perceber a expressão aflita em seus olhos. Antes o céu que era azul e límpido foi tomado por nuvens acinzentadas e escuras, o vento mudara de direção, uma onda de estática estalava a sua volta criando pequenas chispas prateadas. A água do rio tornou-se turbulenta. Voltou seus olhos novamente na direção das árvores quando o som de cascos cavando a terra chegaram até si.
O relinchar de cavalos irrompeu do bosque, as ninfas gritaram - algumas tentando se aproximar e outras fugir, mas seu corpo simplesmente não se moveu, era como se o tempo houvesse parado e naqueles míseros segundos entre uma batida e outra de seu coração seus olhares se cruzaram. A figura escura entre as árvores materializou-se a sua frente, seu corpo era grande e forte, oculto por uma túnica negra destoante daquele cenário, segurava com firmeza as rédeas dos garanhões negros que bufavam vapor cinza, antes que pudesse se afastar evitando ser pisoteada pelos cavalos, o braço livre dele passou por sua cintura, suspendendo-a do chão e lançando-a sobre seu ombro.
Um grito ficou preso em sua garganta, enquanto a biga saia em disparada, seus cabelos voaram sobre seus olhos, impedindo-a de ver qualquer coisa a sua volta, seu coração batia desenfreado. Corriam tão rápido que o pouco que via das árvores se limitava a um borrão verde e disforme, era como se as rodas da biga mal tocassem o chão. Ao longe ouviu um raio, o som foi tão alto que poderia jurar que onde houvesse caído, iria abrir um buraco sobre a terra, mas aquela não era uma tempestade comum.
A terra se abriu formando uma passagem escura sobre o chão, os cavalos correram mais rápido, instintivamente segurou-se nas vestes negras quando cruzaram o portal, depois veio o silêncio. Silêncio absoluto. Sentiu seu corpo cair e pouco a pouco a escuridão lhe abraçar como uma velha amiga.
-Cora, terra chamando; uma voz chamou despertando-a em um rompante. Levantou-se da cadeira, derrubando-a no processo. Seu coração batia desenfreado enquanto olhava para os lados até deter-se na jovem de melenas azuis.
-Desculpe, não queria te assustar; Minu se desculpou, abaixando-se para levantar a cadeira.
-Eu... sinto muito, acho que acabei cochilando; Cora respondeu com a face corada. Lançou um rápido olhar para o berçário do outro lado, o local já estava vazio, onde foram as crianças? – ela pensou preocupada.
-Você parecia tão cansada, que as garotas levaram as crianças para tomar sol lá fora, assim você poderia descansar; Minu explicou acalmando-a.
Fazia um ano e meio que a jovem chegara ao lar Filhos das Estrelas, quando Saori a levará pela primeira vez ao orfanato, não estava certa se daria certo Cora trabalhar como voluntária ali, ela tinha uma aura um pouco hostil e ouriçada, não queria que as crianças fossem afetadas por isso, mas depois de conversar com Saori, a jovem herdeira pedira que tivesse paciência e orientasse Cora da melhor forma que pudesse, se ao fim de um mês, a jovem não se adaptasse ao trabalho, ela estaria livre pra partir.
Fora estranho no começo, porque ela parecia não saber fazer a maioria das coisas comuns, ficara receosa em deixar que ela cuidasse das crianças por conta disso. Realmente pensou que Cora iria embora até o dia que Ayame quase se machucou.
A garotinha estava correndo com as demais crianças no campo gramado atrás do orfanato, era fim de tarde quando haviam se reunido com as crianças menores para que elas pudessem brincar. Ela, Cora e mais duas voluntárias estavam conversando e esporadicamente lançavam olhares para as crianças que corriam atrás de uma bola de um lado a outro do campinho, foi quando Ayame tropeçou em uma pedra.
Não sabia ao certo como ela se movera tão rápido, mas no segundo que ouviram a criança gritar, Cora já não estava mais ao seu lado e sim, segurando a menina entre os braços. Algo mudara depois daquele dia, parecia que a capa de gelo que envolvia o coração da jovem havia se rompido graças a criança. Cora havia se tornado mais aberta e comunicativa e o limite de um mês passara a dois e no fim, um ano e meio se passou.
-Desculpe, eu acabei cochilando enquanto ouvia Suzume contar uma história para os pequenos; ela explicou, arrumando as roupas que ficaram amarrotadas durante o tempo que ficou sentada.
-Não tem problema; Minu respondeu sorrindo. -Espero que você pelo menos tenha descansado nesse meio tempo? – ela completou.
-Sim, um pouco; Cora mentiu, desviando o olhar.
A verdade era que, passara a noite em claro depois de encontrar o cavaleiro no dia anterior, pensara realmente que estava preparada para vê-lo caso isso ocorresse ao longo daquele ano, mas a verdade não poderia estar mais distante. Além disso, não era nada fácil lidar com os sonhos que vinha tendo nos últimos meses, eram poucas as noites que dormia e podia se desprender completamente de qualquer sonho ou lembrança.
O tempo estava passando, as estações estavam mudando novamente, sabia que logo teria de voltar para o castelo, mas agora, algo lhe dizia que faria isso mais cedo do que o planejado.
-Deve ter sido uma loucura ontem na mansão, não é? – Minu comentou, enquanto seguiam até o refeitório.
-Por que diz isso? – Cora perguntou, confusa.
-Shun voltou, não é? – ela explicou, sem notar como a jovem se retesou a seu lado. – Seiya passou uma semana falando nisso;
-Ah sim, ele chegou ontem à tarde; Cora comentou casualmente.
-Os rapazes estavam animados esperando por isso; ela continuou. -Imagino que saíram todos para comemorar?
Entraram no refeitório e seguiram até uma mesa onde uma garrafa de café estava posicionada, pegou duas xícaras e entregou uma delas a jovem de melenas negras.
-Sim, mas só os rapazes foram. Ouvi Seiya falar alguma coisa sobre reunião do clube do bolinha, mas não sei o que isso quer dizer; Cora respondeu, dando de ombros.
Deu um baixo suspiro, as Deusas do Destino estavam cada vez mais sádicas, havia esquecido de tudo no dia anterior quando estivera com o cavaleiro, por uma fração de segundos deixou-se levar pelo calor de seus braços e a sensação de paz que lhe abraçava sempre que estava com ele, aquele vazio que surgira em seu coração ao longo daquele ano e meio parecia escorrer como água por entre seus dedos.
- "Você não estava lá"; a voz dele ainda ecoava em sua mente.
Por um momento, por um ínfimo momento quis esquecer quem era, aliás, quem ambos eram e se deixar levar pelo que estava sentindo, mas a voz do cavaleiro de Pégaso soou no corredor, chamando por Shun. Pode ver em seus olhos o quão contrariado ele estava e com relutância haviam se separado.
-Bem típico do Seiya; Minu falou, chamando-lhe a atenção.
-Saori falou algo assim também; ela completou, enquanto levava a xícara com o líquido fumegante aos lábios.
Um silêncio tranquilo recaiu sobre elas, não era incomodo e tenso como no começo, não era mais aquele silêncio cheio de expectativas. Era estranho pensar o quanto se sentira cômoda vivendo entre os mortais ao longo daquele ano, tampouco todos os amigos que fizera estando ali. No final, mesmo que não admitisse a Athena, deixar a Grécia e se desconectar de tudo, deixando parte do passado para trás lhe fizera bem, mesmo que agora, confrontar a realidade fosse eminente.
-Minu; Cora começou chamando-lhe a atenção.
-O que foi?
-Preciso de um favor; ela explicou.
-Claro, do que precisa? – a jovem indagou, notando o olhar solene da jovem.
-No final de semana voltarei para minha casa; Cora explicou, vendo o olhar surpreso da jovem.
-Mas já? – Minu perguntou surpresa. Sabia que ela era estrangeira, não apenas por sua aparência, mas porque ela viera da Grécia com Saori, embora a jovem houvesse dito que a estadia dela ali não seria permanente, achou que ela no fim poderia mudar de ideia depois de passar tão bem aquele tempo.
-Há muitas coisas que preciso resolver e não posso adiar mais; Cora explicou, enquanto tirava um envelope do bolso da calça. -Gostaria que você compartilhasse essa carta com as garotas;
-Mas...;
-Por favor, sei que é covardia da minha parte, mas prefiro fugir das despedidas; ela completou dando-lhe um sorriso triste.
-Tudo bem; Minu respondeu, pegando o envelope entre as mãos. -Suponho que amanhã você já não estará entre nós;
-Não; ela respondeu. Era melhor começar a se fastar agora, ou tornaria tudo mais difícil quando a hora chegasse.
Deixou a xícara de lado e levantou-se da mesa, puxou a jovem de melenas negras para um forte abraço.
-Já te disse isso antes, mas nunca se esqueça; Minu falou, sentindo-a retribuir o abraço. -Sempre estaremos aqui para você;
-Sou muito grata por tudo que você e os outros fizeram por mim; Cora respondeu com os olhos marejados. -Não há ouro ou joias no mundo todo que paguem por isso; ela completou fitando a jovem com gratidão.
As Deusas do Destino eram sádicas e o futuro era incerto, entretanto era hora de seguir seu caminho para onde quer que ele fosse lhe levar e só tinha a agradecer a força que todas as pessoas que conhecera ao longo daquele tempo na Terra, haviam lhe dado, tornando seus dias mais leves e suportáveis, afastando a dor e a escuridão. Jamais os esqueceria.
.III.
Ao longe ouviu o autofalante anunciar o número do voo, ajeitou a alça da mochila sobre o ombro, enquanto lançava um olhar impaciente por cima do ombro.
-Vamos logo Saga, estão anunciando nosso voo; Aioros falou agitado, acelerando o cavaleiro.
-Estou indo; o geminiano respondeu aborrecido.
Maldita hora que sugerira ao amigo fazer aquela viagem ao Japão. Sabia o quanto ele andava inquieto com a ausência de Saori naquele último ano no Santuário, embora a jovem sempre ligasse nos finais de semana para dar notícias e se atualizar sobre o Santuário, ela costumava conversar mais consigo e com Shion.
Nunca pensou que ele fosse ficar tão aborrecido por não ser incluído nas conversas, mas pelo que vira na noite anterior não era apenas isso que vinha lhe incomodando.
-Mais rápido; Aioros falou, segurando firmemente a passagem e o passaporte que tinha nas mãos.
Se ao menos Mú não tivesse deixado o Santuário logo depois de deixar o relatório, poderia ter evitado aquela perda de tempo de viajar por meios normais, com menos do que um estalar de dedos o ariano poderia tê-los levado a mansão Kido.
-Porque é que você não trouxe o Milo, mesmo? – Saga indagou num resmungo.
Quando falou para ele sobre viajar, havia sugerido que o Escorpião lhe fizesse companhia, mas não sabia muito bem como as coisas haviam desandado tanto durante a noite que acabou sendo ele a acompanhar o sagitariano.
-Passagens, por favor; um atendente pediu assim que os viu se aproximarem da área de embarque.
Entregaram os documentos e depois de alguns segundos foram liberados para embarcar na aeronave.
-Finalmente; Aioros resmungou, enquanto tomavam seus acentos depois de colocarem as malas de mão no bagageiro.
-Vai ser um longo voo; Saga resmungou enquanto se acomodava.
Se ao menos o amigo fosse mais honesto, como o ariano mencionara antes, assumiria de uma vez porque sentia essa necessidade desesperada de atravessar o oceano indico e ir para o Japão, mas a realidade era bem diferente, provavelmente o próprio Aioros não havia se dado conta do porquê ainda.
Reclinou o acento para se ajustar melhor, estava curioso para ver o que viria a seguir quando chegassem a mansão Kido; ele pensou com um fino sorriso malicioso nos lábios, enquanto ouvia uma comissária de bordo dar as primeiras instruções de segurança ao mesmo tempo em que o avião começava a taxiar na pista.
.IV.
Caminhou para longe do campus, tentando colocar os pensamentos em ordem, preocupado com a oscilação de seu cosmo, não deveria permitir que essas coisas acontecessem na frente de pessoas comuns.
Não poderia deixar as coisas seguirem daquela forma também, não queria ser cruel e ferir os sentimentos de June, mas antes de deixar a Grécia havia sido sincero com ela, não iria voltar a Andrômeda e quanto ao irmão, Ikki precisava entender de uma vez por todas que não era feito de vidro, como se todas as guerras pelas quais havia passado e sobrevivido não tivessem sido suficientes para provar que, não apenas era capaz de se virar sozinho como de não morrer.
Respirou fundo, detendo-se em frente a uma das muitas árvores que jaziam espalhadas pelo local, embora o campus estivesse silencioso naquele momento, em breve haveria mais uma troca de aulas e as pessoas passariam frenéticas por ali.
Foi quando notou uma sombra aos pés da árvore, incompatível com a forma de seus galhos, ao lançar um olhar para cima surpreendeu-se ao ver cair uma pena prateada. Segurou-a entre as mãos com o cenho franzido, quando se lembrou a quem aquilo pertencia.
-Valentine!?
-Cavaleiro de Athena; a voz do espectro soou a suas costas, em tom de saudação. Virou-se rapidamente, mas não havia ninguém ali.
Deveria ser apenas uma peça pregada por sua imaginação; ele pensou aliviado, voltando-se para frente novamente, mas saltou um passo para trás ao ver-se frente a frente com o espectro de cabelos prateados.
-Venho em paz Cavaleiro de Athena; o espectro falou ao sentir o cosmo dele oscilar novamente
-Mas eu pensei que...;
-Estivéssemos todos mortos? Sim... Durante um tempo estivemos realmente; Valentine confirmou calmamente. –Entretanto, as coisas são diferentes agora; ele completou de maneira enigmática.
-O que quer na Terra, Valentine? –Shun indagou, mal notando que espremia com força a pena entre os dedos.
-É quase outono...; Valentine respondeu calmamente.
-Como? – ele indagou, sem entender a princípio.
-Minha missão aqui é de escoltar a Imperatriz, seu tempo aqui na Terra já terminou e a promessa deve ser mantida; o espectro explicou.
-Imperatriz? – Shun perguntou confuso.
-Athena tentou romper o acordo trazendo-a para este país, mas ela deve retornar antes que o equilíbrio seja comprometido;
-Perséfone está na Terra com Athena; Shun murmurou, para congelar em seguida. –É claro... Cora!
-Ela já passou tempo demais entre os mortais, é hora de voltar; Valentine continuou insistente.
Sempre soube que aquele momento chegaria, havia passado o último ano e meio fingindo para si mesmo, mas lá dentro sabia quem ela realmente era. Uma parte de si queria se iludir, acreditando que a bela jovem de cabelos negros fosse apenas uma ninfa, mas sempre soube que não, e as Deusas do Destino eram realmente sádicas por terem cruzado seus caminhos.
-Eu entendo; Shun respondeu, voltando-se para o espectro. -Mas você pode retornar, eu irei acompanhá-la até a passagem; ele completou, enquanto os olhos verdes límpidos e tranquilos tornavam-se opacos e frios.
-Eu sou o mensageiro, Cavaleiro de Athena. É minha a missão de levá-la; Valentine insistiu impertinente, porém no segundo seguinte uma revoada de pássaros assustados alçou voo no céu como se sentissem a mudança de energia, um vento forte chocou-se contra Valentine, lançando o espectro contra as árvores e foi como se milhares de agulhas perfurassem sua pele, prendendo-o a madeira.
-Qual parte do que eu falei você não entendeu, Valentine? – Shun indagou em tom frio.
Aquele não se assemelhava em nada ao cavaleiro que haviam enfrentado no castelo de Hades, seu cosmo estava mais intenso e havia uma força bruta por trás dessa energia que não estava lá antes. Conteve um gemido de dor quando a sensação das agulhas desapareceu, porém o ardor sobre sua pele permaneceu, como um lembrete do limite que havia cruzado.
-Eu entendo a sua vontade, mas você também sabe que não posso descumprir as ordens que me foram dadas; o espectro respondeu, embora se sentisse encolher diante da opressão que o cosmo dele fazia sobre si, quase o forçando a se ajoelhar.
-Você não poderá cumpri-las se estiver morto, não é Valentine? – o cavaleiro indagou, vendo-o recuar instintivamente alguns passos. -Foi o que pensei. Você veio até mim porque sabe que Cora deve retornar ao mundo dos mortos, se fosse para entregá-la a Deméter, jamais estaríamos tendo essa conversa;
-Bem...;
-Desapareça Valentine! Eu sei o que precisa ser feito; ele completou em tom exasperado e em um estalar de dedos o espectro havia desaparecido, não por escolha própria obviamente.
Por todos os céus! – ele praguejou em pensamentos. Por mais que quisesse negar, sempre soube que aquele dia chegaria, embora houvesse uma pequena fagulha de esperança de que em outro universo, Cora seria apenas Cora, uma ninfa dos bosques de sorriso encantador e olhos brilhantes, mas era estupido sonhar com isso agora, porque não importava quantos universos pudessem existir, em todos eles aqueles dois estavam destinados a ficarem juntos.
Com seus pensamentos tão conturbados como estavam deixou o bosque, seguindo de volta para a mansão, embora se alguém lhe perguntasse, jamais poderia explicar como realmente chegara lá.
.V.
Entrou calmamente no quarto, suspirando relaxada, o dia fora tão tranquilo e agradável, jogou-se na cama enquanto tirava os sapatos, virou-se de lado acomodando melhor a cabeça sobre o travesseiro. Entretanto, um arrepio gelado cruzou suas costas quando notou no nível de seus olhos uma pena acinzentada, quase prateada.
Sentou-se rapidamente pegando a pena nas mãos. Aquilo não era possível. Afastou os travesseiros olhando para todos os lados, para ter certeza de que a pena não saíra de nenhum deles.
-Deve ser minha imaginação; Cora falou levantando-se da cama e indo até o banheiro, jogou a pena no lixo.
Era impossível que aquela pena fosse de Valentine de Harpia, o cavaleiro que servia de mensageiro de Hades. Por dois grandes motivos. Hades estava morto e Valentine também; ela pensou tremendo.
-Com licença, Cora-san; Yume falou, abrindo uma frestinha na porta.
-Oi; ela respondeu fechando rapidamente a porta do banheiro e voltando até o quarto.
-Saori-san pediu que lhe trouxesse um lanche; a garota respondeu, indicando a bandeja que tinha em mãos. -Ela está terminando uma conferência online, mas assim que terminar gostaria de falar com a senhorita no escritório;
Hoje Saori passara o dia todo na mansão, normalmente após o almoço ela sempre verificava o grupo Kido ou a fundação, hoje ela decidira trabalhar em casa, poderia ser só impressão a sua, mas talvez isso tivesse relação com a chegada de Shun na tarde anterior. Embora todos tivessem mantido a rotina como sempre faziam havia uma tensão no ar, começando por Ikki e June.
-Pode deixar ali em cima; Cora pediu indicando a mesa próxima as portas balcão da sacada.
-Se precisar de algo, só me chamar; Yume completou, antes de sair.
-Obrigada; ela agradeceu. Infelizmente o que ela mais precisava agora, ninguém poderia lhe conseguir... Mais tempo!
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Aproximou-se da janela, cruzando os braços. Uma brisa fria entrou no cômodo, avisando-a de que em breve o outono chegaria e com ele, o inverno. Decisões importantes precisavam ser tomadas, por mais difíceis que fossem.
Sobre a mesa de trabalho estavam os documentos que deveria revisar depois da reunião que tivera com o gerente administrativo do grupo Kido, em breve teriam que decidir quais empresas ainda continuariam trabalhando em parceria com eles, começando pelas transportadoras.
Tinham um acordo firmado com uma empresa do oeste europeu para o transporte dos materiais que exportavam, como muitas áreas são remotas, ainda utilizavam transporte ferroviário e a New Land na Irlanda fora capaz de atendê-los. Agora precisava decidir se voltaria a trabalhar com a DeSiren e Solo ou fecharia com a Elytis Company que fazia transporte marítimo e era bem recomendada pela Coliseu na Itália. E essa era só a cereja do bolo; ela pensou, levando uma das mãos a nuca, sentindo a tensão de acumular formando 'nós' ali. Daria tudo por uma massagem agora.
-Saori, tem algo lhe incomodando? – Aioros indagou, observando-a do outro lado da sala. Ela estava mais tensa que as cordas de um violino e isso estava lhe preocupando.
-As estações estão mudando de novo; a jovem falou distraída.
Mais cedo sentira uma variação bem sutil de cosmo vindo de dentro da mansão, não precisara de muito para identificar a quem pertencia àquela energia. Aliás, no último ano e meio muitas coisas aconteceram, entre elas o aumento de sua capacidade de sentir e classificar cada cosmo, conseguindo reconhecer e associar com uma imagem isso. Shaka havia lhe dito que isso poderia acontecer depois que seu cosmo atingira o oitavo sentido ao cruzar a Giudecca.
A um ano e meio atrás comprara uma briga considerável com duas divindades irritantes para conseguir trazer Cora consigo para o oriente, fora arriscado e isso provavelmente teria um preço a ser pago, mas não se arrependia da escolha que fizera. Agora isso levantava outra questão, Valentine de Harpia estava vivo, um espectro de Hades e o outono estava chegando.
-O que tem isso? – o cavaleiro indagou, intrigado.
-O acordo deve ser mantido; ela murmurou em tom sombrio como se isso fosse o bastante para ele entender.
-Que acordo?
-Com licença; Cora falou, os interrompendo ao abrir uma frestinha na porta.
-Entre; Saori falou, voltando-se para ela.
-Algum problema, Cora? – Aioros indagou, vendo a jovem pálida, se aproximar hesitante depois de fechar a porta atrás de si.
-Saori, eu...;
-Eu sei; a jovem a cortou, com uma expressão serena. Afinal, já aguardava aquele momento a bastante tempo.
Não sabia ao certo todas as ramificações que a Troca Equivalente tomara ao longo daquele ano, tivera esperança de que a chegada de Nikki e Asclépio a Fonte pudesse lhe trazer mais informações do panteão que esclarecessem qual fora o catalizador que trouxera os cavaleiros de volta a vida e como eles ficariam com relação a tentativa de tomada de poder executada por Apolo e Artêmis ao Santuário, mas não, nenhum deles tivera nada a dizer sobre isso. Era como se os deuses houvessem feito um voto de silêncio sobre o assunto.
Logo depois Cora surgira, no começo teve ganas de enforcar a Imperatriz por tudo que havia acontecido, mas Nikki encarnara a voz da sabedoria e lhe fizera ver que, nem mesmo a Imperatriz teria esse poder sobre as vontades de
Hades e ela estava tão ferida, que até mesmo sua raiva fora substituída por pena ao lembrar-se que Cora não tinha exatamente para onde ir.
O castelo fora destruído, os espectros estavam mortos, embora Nyx e algumas entidades estivessem mantendo o equilíbrio entre os mundos, sem o companheiro, Cora havia perdido o propósito.
Sabia muito bem qual era a sensação, não pertencer a lugar algum, não ser completamente mortal para poder viver entre os humanos que em sua inocência nada sabiam sobre as batalhas que travavam contra os deuses pelo equilíbrio do universo, em contra partida, não era completamente um ser divino que existisse alheia ao tempo vivido pelos mortais, por isso sugeriu que Cora ficasse sob a supervisão de Nikki e ajudasse na recuperação dos cavaleiros, quem sabe isso pudesse lhe dar algum propósito, a única coisa que não contava era o que iria acontecer quando ela encontrasse com Shun e tudo que viria depois.
-Acho que estou perdendo alguma coisa aqui? – Aioros falou confuso, chamando-lhe a atenção.
-Quando Perséfone desapareceu da Terra, sendo levada aos Elíseos por Hades, Deméter ficou furiosa com o sequestro da filha, ela correu o mundo incendiando os campos e colheitas com a intenção de iluminar os lugares mais escuros e recuperar Perséfone, mas isso não adiantou, até que através dos sussurros de Eco, soube que Hades havia levado sua preciosa filha para seu castelo além das terras sombrias do inferno; Saori contou, voltando-se para as janelas, cujas cortinas se agitavam com o vento agora. –Deméter foi a Zeus, exigindo que ele em sua onipotência, obrigasse Hades a lhe devolver a filha ou os mortais pagariam por isso. Hades desejava Perséfone e pouco lhe importava se os mortais iriam sofrer com a ira da deusa, ele não pretendia devolvê-la;
-Mas...;
-Zeus os chamou para conversar, Hades deixou Perséfone sozinha nos Elíseos em meio a um campo repleto das mais belas flores e árvores frutíferas que se possa imaginar, avisando que não deveria comer nada daquele reino, ou jamais poderia deixá-lo; Saori explicou, vendo de soslaio Cora enrubescer.
-Eu conheço essa lenda; Aioros comentou.
-Não é apenas uma lenda Aioros... Você mais do que ninguém, deveria saber que estas não são apenas histórias tiradas de um livro de fadas e magia...; a jovem de melenas lilases respondeu em tom de reprimenda.
-Pelo que lembro, Perséfone ignorou esse aviso e acabou comendo algumas sementes de romã; o cavaleiro falou desviando do assunto, envergonhado pela alfinetada.
-Ignorou? Não diria que foi bem assim...; Cora murmurou, voltando-se para o cavaleiro de ouro com os orbes estreitos em sinal de aviso. -A vida é feita de escolhas... Eu fiz a minha, cavaleiro. Selei meu destino naquele dia. Enquanto para os mortais há o início do outono, eu deixo a Terra e retorno ao castelo, voltando apenas quando a primavera chegar, trazendo para o mundo dos mortais a graça de Deméter de uma boa colheita.
-Conseguimos interromper esse ciclo nos últimos anos. Entretanto...; Saori comentou, optando por não revelar como exatamente conseguira aquele ano de 'salvo conduto' para Cora.
-Agora é diferente; Cora concordou. –Também não sei por que Caos permitiu que eu ficasse afastada durante tanto tempo, porém já recebi o sinal de Valentine. Pensei que ele havia morrido, mas acredito que alguns espectros podem ter sobrevivido a última guerra no final de contas; ela explicou, confirmando as suspeitas de Saori.
Detestava admitir como se sentira tão cômoda na Terra durante aqueles dois anos, tão confortável que simplesmente tinha apagado de sua memória o que havia acontecido antes de deixar o castelo, ou com quem encontrara antes de partir. A Troca Equivalente havia acontecido e o preço estava sendo cobrado.
-Impossível, Shaka se certificou de que isso não acontecesse; Aioros afirmou, lembrando-se que o virginiano havia usado o rosário de cento e oito contas para aprisionar a alma dos espectros e impedi-los de voltar a vida.
-Aioros, nem sempre as coisas acontecem da forma como planejamos; Saori respondeu, lançando um rápido olhar a Cora.
Shaka realmente colocara todo seu poder na criação das contas e durante a batalha entre o Inferno e os Elísios elas realmente cumpriram seu propósito, mas Caos tinha outros planos que ninguém realmente sabia e destruir o selo de almas criado pelas contas em cada um dos espectros mortos, era apenas um detalhe. Embora não pudesse compartilhar essa informação com Aioros, contara apenas a Shion suas suspeitas, como Grande Mestre ele deveria saber e estar preparado caso algo saísse fora de controle.
-Eu preciso partir, o mais rápido possível; Cora avisou interrompendo qualquer questionamento do cavaleiro.
-Tudo bem, vou pedir que alguns cavaleiros a acompanhem de volta a...;
-Não; uma outra voz soou na sala.
Os três instantaneamente viraram-se para a porta, mas surpresos não encontraram ninguém ali.
-Aqui; Shun avisou, afastando as cortinas que oscilavam na janela e entrou no cômodo, através da sacada.
-De onde você veio? – Aioros perguntou surpreso.
-Shun! – Cora falou assustada ao vê-lo, durante todo aquele tempo temera o que poderia acontecer quando chegasse o momento de contar ao cavaleiro que era esposa do homem que quase tirara-lhe a vida e destruíra o mundo, aliás, sua e de todos que amava.
-Não é necessário mobilizar tantos cavaleiros Saori; ele avisou, lançando um olhar intenso sobre a jovem de cabelos negros.
-Mas...
-Posso muito bem acompanhar Cora até a entrada do Castelo, em Heinstein; ele avisou.
-Não sabemos como estão às condições naquela região depois da guerra, Shun. Não acredito que seja inteligente irem sozinhos; Aioros explicou.
-Não me subestime Aioros, ao contrário do que você pensa, posso muito bem cuidar dela; ele rebateu em tom frio, lançando um olhar cortante ao cavaleiro, enquanto a atmosfera no cômodo tornava-se tensa e sombria.
-Aioros não quis dizer isso, Shun; Saori respondeu prontamente, tentou aproximar-se do virginiano, mas deteve-se quando o mesmo voltou-se para ela, por alguns segundos as írises de um cálido verde azulado tornaram-se mais escuras e opacas e um arrepio de medo cortou suas costas.
-Está tudo bem, Saori; Cora adiantou-se, rapidamente colocando-se entre ela e o cavaleiro que ainda estava na defensiva pela forma hostil que olhava para Aioros.
Aquilo era totalmente anormal, Shun não era de brigar, tampouco agir daquele jeito com outras pessoas; Aioros pensou confuso. Entretanto, ele tinha razão em um ponto, não o conhecia o suficiente, o que sabia sobre ele resumia-se apenas aos meses que ele passara no Santuário em recuperação e treinando com Shaka, fora isso, o que Saori e os demais falavam sobre ele. Seria tolo da sua parte presumir que ele se limitava apenas a ser o cavaleiro gentil e tranquilo que todos falavam, afinal, Shun já passara por muitas guerras para ainda permanecer o mesmo de quando tudo aquilo começara.
-Caso vocês tenham esquecido, eu já estive lá uma vez, conheço a região; Shun falou chamando-lhe a atenção, num tom que não admitia contestação.
-Tudo bem, talvez seja melhor assim... Chamaremos menos atenção dessa forma; Saori concordou, embora sua vontade fosse bem diferente. Mesmo que soubesse por que ele estava agindo daquela forma ainda assim ficou surpresa ao ver o cavaleiro passar o braço em torno da cintura de Cora e puxá-la mais para perto de si, de maneira protetora.
-Ótimo, saímos ao amanhecer ... Penso que seja tempo suficiente para que esteja pronta e descanse, não? – ele indagou baixando os olhos na direção da jovem.
-S-sim...; Cora balbuciou, sentindo a face aquecer.
-Vamos, então...; ele completou, antes de puxá-la em direção a porta.
-Shun; Aioros chamou, fazendo-o deter-se a um passo de sair.
-O que?
-Apenas tomem cuidado, imprevistos podem acontecer a qualquer momento; ele respondeu depois de hesitar alguns segundos, ainda sentindo ondas de hostilidade vindas do cavaleiro em sua direção.
Sem sequer lhe dirigir a palavra, Shun deixou a sala levando Cora consigo.
-Saori...;
-Não me pergunte Aioros; ela cortou-o. –Por um momento eu...; Saori hesitou, engolindo em seco. –Só espero que Caos saiba o que está fazendo; ela completou com um suspiro melancólico, porque agora nada impediria que Shun começasse outra guerra e duvidava que ele fosse se preocupar com o equilíbrio ou qualquer outra coisa que não fosse Cora.
.V.
A cada passo que dava pelo corredor, sentia o coração bater desenfreado no peito, nem mesmo a mensagem de Valentine lhe deixara tão agitada quanto o que sentira dentro daquela sala no momento que o cavaleiro entrara pela sacada.
Aliás, seria impossível ignorar esse fato, talvez Saori não desse importância a isso, acreditando que essa nova habilidade de teletransporte, o cavaleiro houvesse aprendido durante seu treinamento em Jamiel, mas ela já o vira usar isso antes, quando ele lhe tirara da Fonte pouco antes de deixar o Santuário.
Agora conseguia sentir um novo poder emanando dele, algo mais espesso, quase palpável, por isso colocara-se entre ele e Aioros, lembrava-se de Hades agir assim no passado também e pouco sobrava para contar história quando seus poderes se manifestavam em totalidade. Talvez Shun não fosse como o marido nesse aspecto, mas não queria colocar isso a prova, porque era provável que nem mesmo ele soubesse qual seu real potencial agora que ultrapassara o sétimo sentido e as guerras terminaram.
-Obrigada por me acompanhar Shun; ela falou, voltando-se para ele quando chegaram em frente a porta de seu quarto.
-Não por isso; ele murmurou, lançando lhe um olhar tranquilo, delicadamente afastou alguns fios de cabelo de sua testa.
-Eu... realmente agradeço, mas não quero te trazer mais problemas; Cora continuou hesitando. Não havia como evitar aquela conversa, por mais que quisesse, em algum momento teriam que falar sobre o fato de quem ela realmente era.
-Isso não vai acontecer, não tem com que se preocupar; Shun responder, distraidamente trazendo uma das mexas ao nariz e aspirando o perfume tão conhecido, que lhe assombrara em sonhos durante o último ano.
-Mas...;
-Por favor, não me subestime; ele murmurou, voltando-se para ela com os olhos verdes ainda mais intensos do que antes. -Você não... por favor;
-Nunca; ela respondeu em tom de promessa, colocando a mão sobre a dele, sentindo o calor emanado por sua pele lhe aquecer.
-É melhor você entrar agora, precisa descansar; ele falou, afastando-se um passo, dando um pesado suspiro como se houvesse lembrado de algo.
-Shun, preciso te dizer uma coisa;
-Haverá tempo para isso depois; ele a cortou, abrindo a porta do cômodo e indicando para ela entrar. Ainda relutante, afastou-se dele, entrando no quarto. Embora quisesse adiar aquele momento por mais um tempo, sabia que realmente não poderia.
Esperou que Cora entrasse e fechasse a porta, antes de seguir para seu próprio quarto. Lançou um olhar sobre a cama, onde havia deixado a mala para desfazer mais cedo, com a ida a faculdade e os problemas entre Ikki e June acabara deixando de lado isso. No fim, era bom que não precisaria organizar nada para a partida ao amanhecer.
Aproximou-se do guarda-roupas e pegou um conjunto de moletom antigo e dirigiu-se ao banheiro para um banho. Sabia o que Cora queria contar, aliás, tivera muito tempo para juntar as peças daquele quebra-cabeças, entretanto nem mesmo saber quem ela realmente era fora capaz de tirá-la de seus pensamentos.
Apoiou as mãos sobre o mármore branco da pia, sentindo a pele absorver o frio da pedra. Fechou os olhos firmemente, apoiando a cabeça sobre o espelho a sua frente. Respirou fundo pelo menos três vezes, relembrando o confronto com Aioros, a sensação de raiva que subira dentro de si quando o cavaleiro questionara sua capacidade de protegê-la, por muito pouco não deixara sair aquele poder denso e escuro que vinha crescendo dentro de si nos últimos meses, um poder que não poderia ignorar por mais tempo.
Quando fora para Jamiel, não estivera realmente preparado para tudo que descobriria sobre si mesmo ao longo do treinamento. Embora tenha aprendido muito com Albion durante seu treinamento em Andrômeda, a vida na ilha era mais uma questão de sobrevivência do que de ter realmente a chance de explorar seu verdadeiro potencial, agora com o ariano fora além, não apenas com relação ao equilíbrio de seu cosmo, como também ao aprender a lidar com a sensação de que muitas vezes não era ele mesmo habitando seu próprio corpo, aquela sensação de afastamento, como se o tempo estivesse se movendo a sua volta, porém estivesse alheio a tudo e todos. Também sentira seu cosmo crescer e com isso, o nascimento de algo mais sombrio e denso, como a raiva que sentira se erguer contra Aioros naquele momento. Suas emoções estavam mais intensas e potencializadas, coisas que antes conseguiria ignorar e abstrair, agora eram bombas prestes a explodir.
Céus, o que estava acontecendo?
-Droga; ele praguejou, afastando-se e abrindo os olhos, mas sentiu o costumeiro choque e seguido de calafrios ao deparar-se com um par de olhos verdes glaciais a olhar de volta para si através do espelho. Aquela era uma das coisas que mais tentara ignorar no último ano, não deveria mais ficar surpreso com isso, porém toda vez que isso acontecia, sentia seu coração falhar uma batida.
-A morte é apenas uma parte da jornada, cavaleiro de Athena; a voz grave ecoou pelo cômodo vinda através do reflexo ou seria de sua própria mente? Talvez jamais descobrisse.
Continua...
