QUANDO NOS TOCAMOS
BY DAMA 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, pertencem a Masami Kuramada e a Toei Animation.
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Capítulo 14: Onde o coração está.
.I.
Ao longe já podia ver o sol se pondo enquanto atravessava o campo localizado atrás da mansão, em dias normais ela já era barulhenta e cheia com boa parte dos cavaleiros vivendo ali, mas hoje, tudo parecia em excesso. Não que a presença dos dois cavaleiros de ouro recém-chegados lhe incomodasse, não, jamais seria isso, mas, agora que a tarde estava chegando ao fim, a ansiedade que conseguira controlar desde que Shun e Cora partiram, parecia querer eclodir de uma vez.
Alcançou o prédio no fundo da propriedade, embora o complexo da mansão fosse bem grande comportando até mesmo um ginásio onde os cavaleiros treinaram em seus primeiros anos, antes de serem enviados a locais remotos do mundo para disputarem as armaduras, o complexo ainda estava de pé, da mesma forma que o observatório que o avô construíra para que pudesse observar as estrelas dali.
Era estranho pensar em quanto tempo havia se passado, ou todas as coisas que haviam acontecido; ela pensou, digitado a senha no painel principal e esperando ouvir o barulho das trancas desativarem. Poucas pessoas tinham a senha daquele lugar e até mesmo ela, durante aquele ano todo relutara em entrar ali de novo, era como se aquele observatório pertencesse a uma outra Saori, em outra vida.
A trava liberou e assim que abriu as portas, as luzes foram acendendo automaticamente conforme cruzava o pequeno corredor, até onde o telescópio estava localizado. Talvez tivesse alguns minutos de sossego ali antes que Tatsume desse por sua falta na casa principal, então iria aproveitar um pouco daquela calmaria; ela pensou, aproximando-se da cadeira de encosto alto na frente do aparelho.
-Parece que eu estava certo afinal; uma voz conhecida soou vinda da frente da cadeira.
Estancou por um momento, olhando para os lados, pensando como recuar sem ser notada, realmente não queria interagir com ninguém nesse momento, por isso estava ali.
-Suspeitei que você fosse fugir do barulho e do Tatsume assim que tivesse uma chance; Seiya falou, girando a cadeira, até colocar-se de frente para ela.
-Seiya!? – Saori exclamou surpresa.
-Relaxe, não vou te delatar; ele brincou, levantando-se e acenando para ela se aproximar. -Acho que Ikki já parou de rosnar para você, não é?
-Um pouco; ela comentou, dando um pesado suspiro, enquanto o via ligar o computador ao lado do aparelho e iniciar o programa dele, que lhe permitiria buscar as coordenadas de qualquer estrela, planeta ou conjunto de abóbodas para determinar a direção que o telescópio ficaria.
Aquele era um dos muitos projetos que o avô encabeçara antes de morrer, a tecnologia do planetário era o que se tinha de mais avançado na área, a Fundação abrira uma série de bolsas para pesquisas em astronomia graças ao projeto principal que fora originado daquele. Pelo que ouvira de Tatsume enquanto crescia, o avô sempre se interessara em entender desde a origem do universo, até as forças que moviam o mundo e as pessoas, o que provavelmente fora o principal fator para que ele aceitasse a existência dos cavaleiros tão facilmente e hoje ela estivesse ali.
-Acredito que ele ainda vai rosnar por mais um tempo, Ikki é pior do que um cachorro que não quer largar o osso; Saori respondeu, tomando o acento cedido por ele.
-É engraçado; Seiya falou, encostando-se ao lado dela. – Ele é o único que não percebeu o quanto o Shun mudou nesse ano;
-Na verdade, ele percebeu; a jovem comentou com pesar. -Mas falar sobre isso, torna tudo muito real;
-Falei com Minu; o cavaleiro comentou, mudando de assunto, sentindo-a ficar imediatamente tensa.
-E?
-Ela me bateu, é obvio; ele resmungou indignado, apontando para o galo que tinha formado na lateral da testa.
-Provavelmente você mereceu, não posso culpá-la; Saori brincou, vendo-o ficar imediatamente emburrado.
-Você também tem culpa nisso; Seiya rateou, inconformado. - Aposto que ela virá falar com você depois;
-Eu sei; a jovem respondeu dando um pesado suspiro. Não queria ter escondido da jovem a identidade de Cora ao longo daquele ano, aliás, houve vários momentos que pensou realmente em contar a Minu, mas no fim, desistira quando viu que Cora havia se adaptado tão bem ao trabalho que exercia no 'Filhos das Estrelas' e que fizera bons amigos por lá. Provavelmente saber a verdade não mudaria a forma como Minu e as outras tratavam a Imperatriz, mas acreditou que aquele deveria ser um novo começo, onde Cora pudesse ser apenas ela mesma, sem os grilhões que a prendiam ao passado e a toda dor que vinha sentindo. -Era justo que uma hora Minu soubesse a verdade sobre Cora, fosse através de você ou de mim;
-Verdade; ele concordou. – Mas acho que você poderia ter contato, aposto que ela não teria batido em você como fez comigo;
-Quem sabe? – ela respondeu dando de ombros, com um fino sorriso nos lábios. -E o que mais ela disse?
-Que irá sentir falta dela, aliás, não só Minu, as outras garotas também;
-Acredito que a recíproca também é verdadeira, mas ... Chegadas e partidas fazem parte da vida; Saori comentou pensativa. Por mais que quisesse ter impedido, não cabia a si romper com um tratado firmado a séculos. Só esperava que Cora ficasse bem, independentemente de onde fosse ou com quem. -Mas e você, como ficou com tudo isso? -ela perguntou, voltando-se para ele.
-Tirando a parte que o marido dela trespassou meu coração com uma espada; ele começou afastando parte da gola da camisa, mostrando onde ainda era possível ver a cicatriz que cruzava seu peito. - Cora não é responsável pelas ações de Hades, duvido sequer que ela tivesse uma influência real sobre as decisões dele, minha única preocupação realmente é com Shun no meio disso tudo;
-Entendo e tenho pensado muito nisso nesses últimos dias; ela comentou, fitando um ponto vago a sua frente.
-É como se nossas vidas estivessem em suspenso até Cora realmente ir embora, não sabemos como Shun vai ficar ou reagir, isso me incomoda; Seiya comentou, vendo-a assentir. -E tem você também...; ele continuou.
-Eu? O que tem eu? – Saori perguntou surpresa, voltando-se para ele.
-O que tem passado dentro dessa sua cabecinha nos últimos anos? - ele comentou, cutucando-lhe de leve a cabeça.
-Hei!
-Você pode enganar muito bem o Tatsume e até disfarçar perto dos outros, mas você também tem passado por oscilações de humor e cosmo como o Shun, e para quem não passou pelo mesmo treinamento que a gente, isso deve ser enervante;
-Eu tenho me virado; Saori resmungou, desviando o olhar.
A verdade era que, ao longo daquele ano ficara aliviada que o foco de todos estivesse sobre o desenvolvimento do cavaleiro de Andrômeda, mesmo que fosse covarde de sua parte sentir isso, era quase reconfortante saber que não era o foco da especulação e escrutínio dos outros, já que tinha coisas demais com o que se preocupar.
Não que a Fundação ou as empresas administradas pelo Grupo Kido lhe preocupassem, seu avô antes de morrer nomeara ótimos administrados para ambos, profissionais excelentes e pessoas de sua máxima estima e confiança ocupavam esses cargos, tanto que hoje podia dizer que tudo funcionava tão bem quanto um relógio Suíço, mas não era essa parte de sua vida que lhe preocupava.
-Saori; Seiya falou em tom de alerta.
-É sério, Saga e Shaka tem me monitorado e está tudo em ordem; Saori apressou-se a explicar. – Não é como se eu fosse iniciar um big-bang só porque estou de TPM; ela completou aborrecida.
-Você sabe que nem tudo se resume a isso; o cavaleiro respondeu em tom sério. -Mas não vou te atormentar se você não quer falar;
-Poxa, vindo de você...Obrigada; ela completou com um leve sarcasmo.
-Eu sei quais batalhas eu posso ganhar e essa não é uma delas; ele completou dando de ombros. -Mas... E isso é um grande 'MAS', quando sentir que a hora de falar sobre esses últimos anos chegou, pelo menos converse com Saga, ele mais do que qualquer outra pessoa vai entender o que quer que esteja passando aí dentro da sua cabeça; o cavaleiro falou, cutucando lhe novamente.
Esquivou-se dele, vendo-o lhe lançar um sorriso malicioso. Sabia que Seiya não iria insistir naquele assunto, mas não queria dizer que em outro momento ele não voltaria a lhe pressionar, mas, não queria falar com ninguém sobre o que vinha passando por sua mente no último ano. Não porque achasse que alguém não fosse entender, como Seiya mesmo dissera, Saga entenderia, os outros não estava muito certa, mas o geminiano iria entender a sensação que tinha de não pertencer a nenhum lugar, de estar deslocada entre o tempo e espaço, como se fosse um visitante em seu próprio corpo.
Ao longo daqueles anos, travando guerra após guerra, seu cosmo foi despertando e com ele, lembranças de outros tempos, outras vidas, foi quando se deparou com a dolorosa verdade sobre si mesma, o quanto fora uma pirralha fútil e desprezível em seus primeiros anos e depois viera a vergonha e a agonia, como poderiam aqueles cavaleiros terem perdido a vida lutando em seu nome, quando sentia que não merecia aquela deferência e respeito todo. Onde começava e terminava a linha que separava Saori Kido de Athena, quem era ela agora que as guerras terminaram?
-Eu vou; ela respondeu, vendo-o assentir.
-Ótimo, agora acho melhor deixar para brincar com o telescópio outra hora. Tohma acabou de avisar que Tatsume só irá liberar o jantar quando você chegar; ele completou, indicando o aparelho celular que tirara do bolso.
-Você bem que poderia ir na frente e conseguir mais um tempinho para mim, por favorzinho? -ela pediu com um largo sorriso.
-Tudo bem; ele resmungou, dando-se por vencido. -Mas se Tatsume me atacar, não me responsabilizo;
-Ótimo, fico te devendo uma; a jovem respondeu, dando-lhe um soquinho no ombro.
-Fique certa de que eu vou cobrar; Seiya resmungou antes de se afastar, deixando-a sozinha no planetário.
Respirou fundo, vendo a porta se fechar novamente, deixando-a em completo silêncio. Suspirou cansada, antes de recostar-se na cadeira e puxar a estrutura do telescópio para si, sabia que não poderia fugir por muito tempo daquela conversa, seja com Saga ou até mesmo com o próprio Seiya, mas nesse momento não queria pensar em si mesma. Por pelo menos algumas horas queria deixar tudo aquilo de lado.
Apoiou o olho sobre a entrada da lente e deixou a íris correr pelas estrelas brilhantes a milhas dali, não se lembrava de um momento em que aquele planetário não fizera parte de sua vida. Sempre que podia escapava para o silêncio e tranquilidade que aquele lugar lhe trazia, fora doloroso ficar aqueles três anos afastada dali. Quando Seiya e os outros partiram, seu avô a havia enviado para um internato na Suíça, onde passara os próximos três anos, até que Tatsume lhe dera a notícia de sua morte e voltara para o Japão. Aquilo também parecia parte de outra vida, ou melhor, da vida de outra pessoa.
Deixou os dedos passarem levemente sobre os controles da lente, ampliando o ângulo e reajustando o alcance do telescópio, quando notou uma série de estrelas brilhando, como se fossem vagalumes piscando. Franziu o cenho levemente e olhou o computador a seu lado, notando os gráficos descritos na tela, indicando através de uma legenda para qual aglomerado de estrelas estava direcionado.
Voltou seus olhos para o telescópio novamente, mudando a direção da lente, notando outro agrupamento de estrelas apresentando o mesmo comportamento. Aquilo era um pouco estranho, apenas planetas mantinham uma luz constante, estrelas piscavam porque sumiam a milhões de quilômetros de distância, não ficavam surgindo e desaparecendo em um intervalo tão pequeno de tempo. Não que fosse alguma especialista no assunto, mas lembrava-se de ter estudado uma coisa ou outra sobre o assunto enquanto crescia.
Ainda incerta do que pensar, ajustou o computador para a primeira coordenada registrada e deu um print na tela, na sequência fez o mesmo com a segunda, mandando ambas as imagens para impressão. Conferiu se com isso, o efeito que vira sobre ambas não desaparecera, obviamente a impressão não teria a mesma fidelidade que a imagem principal, mas pelo menos conseguiria mostrar aquilo para Saga e quem sabe enviar para Shion. Talvez não fosse nada, mas não iria descartar nenhum detalhe se isso representasse a segurança de todos os cavaleiros; ela pensou tendo um pressentimento antes de desligar tudo e deixar o planetário em seguida.
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Haviam acabado de entrar no espaço aéreo da Turíngia, também conhecida por Estado Livre da Turíngia, sendo um dos dezesseis estados federais da Alemanha, tinha como capital a cidade de Erfurt, situada ao norte da Baixa Saxônia e ao sul da Baviera.
Controlando o pânico repentino que lhe acometera enquanto o avião passava por uma onda violenta de turbulência, sentiu os dedos gelarem ao apertarem firmemente as laterais da poltrona, já vira coisas piores ao longo dos séculos, mas a sensação de impotência quando a voz do piloto anunciara que passariam por dentro de uma perigosa nuvem de estática que poderia comprometer o controle da aeronave, lhe deu a real sensação de que a qualquer momento poderiam morrer.
-Aguente firme, logo passaremos por isso; Shun avisou, apertando o cinto de segurança na cintura dela, enquanto o comissário de bordo que lhes alertara mais cedo sobre o tempo, procurava um lugar para se sentar e ficar em segurança.
-Mas...; Cora balbuciou, desviando o olhar.
Essa serenidade do cavaleiro era enervante, ainda mais em um momento como aquele, a poucos segundos atrás simplesmente esquecera de onde estavam de tão envolvida que estivera com ele, estava prestes a mandar tudo às favas quando algo mudara nele em questão de segundos.
Não conseguira ouvir direito o que ele murmurara, mas sentiu seu afastamento, foi como se um muro invisível houvesse se erguido entre eles e as emoções do cavaleiro que antes chegavam até si como ondas do mar tocando a praia, desapareceram e logo depois o avião começara a chacoalhar.
Agora se sentia como uma sardinha dentro de uma lata, sendo lançada de um lado a outro, enquanto a voz do piloto soava insegura, pedindo que mantivessem a calma. Tinha dúvidas se ele queria dizer isso para eles e o resto da equipe a bordo, ou para si mesmo e o copiloto a seu lado na cabine.
-A equipe que trabalha para a corporação Graad é altamente capacitada, jamais nos colocariam em risco; o cavaleiro falou, voltando a recostar-se no acento. -Além do mais, não é como se pudéssemos morrer com facilidade; ele completou com um leve sorriso de escarnio.
-Por Zeus, Shun" - ela exclamou indignada.
-Recebemos permissão para pousar, por favor, certifiquem-se de estar com o cinto conectado corretamente; a voz do copiloto soou pelo alto-falante.
-Como disse, chegaremos no tempo planejado; o cavaleiro falou, pegando uma revista que jazia num suporte próximo a si. -Depois pegaremos um trem de Miden até Porta Westfalica, para o vilarejo mais próximo as colinas de Weser; ele explicou.
Longe de sentir aquela calma que aparentava, procurou firmemente mudar seu foco para qualquer outra coisa que não fosse a jovem a seu lado, antes que acabasse derrubando o avião; ele pensou trincando os dentes, enquanto desviava o olhar para a revista em seu colo. Respirou fundo, tentando controlar os tremores que corriam por seu corpo e o cosmo que ameaçava se descontrolar, detestava admitir, mas ainda bem que Cora estava mais apavorada com a turbulência do avião que não fora capaz de notar a parede que precisara erguer entre eles ou do contrário suas emoções iriam se misturar novamente.
-Droga; ele resmungou, apertando as páginas da revista com força entre as mãos.
Por uma fração de segundos, simplesmente deixara de se importar com o que acontecia no mundo a sua volta, quem eram, ou qual era o real objetivo daquela viajem, por milésimos de segundos deixou de se questionar quem realmente Cora via ao olhar para si, porém, a divindade poderia estar aquém de tudo, mas sua consciência não.
Cora ainda era esposa de Hades e ele, apenas um cavaleiro que perdera a conta de quantas vezes voltara do mundo dos mortos, fingir que eram pessoas diferentes não mudaria nada, ele pensou com pesar.
Desde que deixara a Fonte, vinha se perguntando o que tinha em comum com o Deus dos Mortos que houvesse facilitado para que as Deusas do Destino forjassem um laço que os atasse mesmo depois de tanto tempo, será que Saori, Mei* e Julian passaram por isso também? – Shun se perguntou.
Durante um tempo conseguira esconder até mesmo de Shaka aquelas mudanças que vinham ocorrendo em seu cosmo e personalidade, mesmo o cavaleiro desconfiando que algo estava diferente durante os treinos que faziam. Entretanto, não teve a mesma sorte com Mú, o ariano literalmente lhe destrinchara a alma, embora houvesse prometido não relatar ao Santuário o fato de que milagrosamente havia adquirido a 'habilidade' de se teletransportar por aí.
Mú concentrara seus esforços em ensiná-lo a controlar essa nova habilidade, além das outras que haviam surgido ao longo daquele tempo. Aprendera que a vida derivada do cosmo lhe conectava a todas as forças do universo, tudo era regido por uma troca equivalente - para se obter algo, era necessário sacrificar alguma coisa de igual peso e valor para se obter o que tanto almejava, não importava o que.
Essa forma que partia do cosmo, sofria influências do resto do mundo, pois o mundo é regido por vontades, a sua própria e a de tantos outros, além é claro, das vontades do mundo, que muitas vezes as pessoas atribuíam isso como – 'a vontade de Deus ou Destino'. Uma série de fatores aparentemente aleatórios, que resultavam em algo maior.
Cada vez mais sentia o peso que esse poder tinha sobre si e o medo de se corromper era forte, ainda não entendia porque vez ou outra tinha lapsos de consciência, lembranças iam e vinham em sua mente como partes fragmentadas de um filme, o que o fez ter ainda mais certeza de que fizera o certo ao afastar-se de Cora durante o treinamento, por mais que tenha doído e aquela dor embora inexplicável, fora também extasiante, enquanto sentisse dor tinha consciência de que era mortal e estava vivo, do contrário, só restaria o vazio - como quando esteve aprisionado em seu próprio corpo, pela vontade de Hades.
-O céu está clareando; a voz da jovem soou um pouco tremula em seus ouvidos, mas foi o suficiente para que desviasse a atenção de seus pensamentos e olhasse para a janela, notando que as nuvens negras desapareciam pouco a pouco no céu e revelasse ao longe a vista do vale de Barkhausen, onde o monumento de Kaiser Wilhelm I estava localizado.
Embora o monumento oficialmente houvesse sido erguido pela então província da Prússia, entre 1892 e 1896, somente os cavaleiros sabiam que aquela era a Torre de Hades, na qual os cento e oito espectros haviam sido aprisionados e durante o último século, Dohko vigiara através de Rozan, de forma que sua concentração jamais fosse quebrada, rompendo a ilusão de seu envelhecimento.
Agora só tinham mais dois dias até que Cora voltasse ao reino de Hades e o outono chegasse em muitas partes do mundo; ele pensou sentindo o avião dar uma guinada e lentamente perder altitude, agora faltavam poucos minutos para pousarem.
.II.
Recostou-se na poltrona, enquanto a brisa gelada do fim de tarde entrava pelas janelas esvoaçando as cortinas brancas, o bule de chá fumegava sobre uma mesinha a sua frente, enquanto as mãos delicadas embaralhavam com destreza um pacote de cartas. Os longos cabelos azuis caiam como uma cascata encaracolada pelas costas, enquanto os dedos finos e pálidos pareciam marcar cada uma das lâminas que tocava.
O treinamento de Shun em Jamiel terminara, permitindo que o jovem retornasse ao Japão, porém, bem sabia quantos caminhos tortuosos ainda o esperavam; ela pensou dando um pesado suspiro. Não precisava ser uma grande vidente para ter feito a conexão entre Cora, a doce jovem que se tornara companhia constante de Athena no último ano, com a Imperatriz do mundo dos mortos.
Provavelmente não fora a única pessoa a notar, mesmo porque, nenhuma das divindades fez questão de esconder o fato, mas quem melhor do que ela para entender o que motivara Cora a deixar o reino sombrio e tétrico que vivia após a morte do marido. Não era tola a pronto de acreditar que a relação entre os dois fosse um amor de contos de fadas, mesmo porque, isso nada mais era do que utopia, porém, era óbvio o quanto isso abalara Cora, obrigando-a a partir e buscar refúgio no Santuário, por mais irônico que fosse.
Aliás, ao longo dos anos aprendera que coincidência e ironia eram parceiras constantes em sua vida e na de muitos outros. Como naquele exato momento, era uma feliz coincidência que houvesse decidido pegar o baralho de tarô que deixara guardado em um baú nos últimos quinze anos justamente hoje. Já irônico era o fato de que a tempestade que sentia se aproximar, não seria causada por seu mau humor - dessa vez;
-Parece que o outono irá chegar mais cedo esse ano; uma voz masculina soou a suas costas.
-Pensei que não fosse adepto a especular sobre o futuro? – ela indagou, arqueando as finas sobrancelhas, sentindo a presença dele mais próxima de si agora.
-Não sou; o cavaleiro respondeu, inclinando-se a seu lado e com cuidado pegou o bule e começou a servir duas xícaras de chá. –Leite?
-Puro, por favor; a jovem respondeu, vendo-o sentar-se na poltrona a sua frente assim que lhe entregou a xícara. –Obrigada... Pensei que fosse ficar mais um tempo no Santuário agora que o treinamento de Shun acabou;
-Estou decidindo ainda e as coisas estão meio confusas por lá nesse momento; o cavaleiro respondeu, lançando um olhar contemplativo ao quadro sobre o aparador da lareira. Há quanto tempo visitava aquele lugar e aquela tela não deixava de sempre lhe surpreender; ele pensou nostálgico.
-Você diz isso por quê? Andou se estranhando com Shaka de novo? – Laura perguntou, antes de levar a xícara aos lábios, deixando o vapor quente roçar-lhe a face.
-Shaka é irritante, mas não é o problema agora; o ariano respondeu vendo-a colocar o baralho que tinha sobre o colo na mesa, espalhando as lâminas sobre o tampo de madeira, antes de acenar para que retirasse uma. –Não vou brincar com o destino, desista;
-Você não acredita em destino; ela o provocou com um leve sorriso malicioso sobre a borda da própria xicara. –E não é como se já não tivéssemos feito isso antes;
-Você fez... não me inclua nisso; Mú respondeu deixando a xícara de lado evitando aproximar-se das cartas, mais por precaução do que qualquer outra coisa.
-É tudo uma questão de vontade... As minhas vontades, as suas, a dos outros e... As vontades do mundo; a jovem de melenas azuladas falou em tom contemplativo. –Não estamos atribuindo poder algum ao destino, não que ele exista de fato; ela completou com os orbes violeta levemente rosados agora. –Entretanto, você não me disse por que as coisas estão tensas no Santuário? - Laura continuou em tom enigmático.
-Não tensas; ele corrigiu. –Apenas confusas;
-Tanto faz; ela deu de ombros. –O medo do desconhecido também percorre o mesmo caminho;
-Ontem pela manhã Shun deixou o Japão para escoltar Cora até Heinstein; Mú falou, vendo-a arregalar os olhos. –Antes disso, Saga e Aioros fizeram uma viagem relâmpago até Tóquio;
-Isso é inesperado; ela comentou um pouco surpresa.
-Não sei ao certo o que aconteceu depois que eles partiram, mas mestre Shion já os convocou de volta;
-Aioros e Saga?
-Athena voltou com eles também; ele completou.
-Surpreendente; Laura falou em tom pensativo. –Se existe alguma ameaça ao tabuleiro é normal trazer o rei para trás da torre, onde será bem protegido; ela comentou apontando para um jogo de xadrez posicionado em uma mesinha próxima a janela. -Suponho que você também tenha sido chamado?
-Fomos convocados por Athena nessa madrugada; o cavaleiro explicou. –Pouco depois do relógio de fogo acender, foi por pouco tempo, mas o suficiente para soar o alarme;
-Foi Shion? -ela perguntou, surpresa.
Quando Saori chegara ao Santuário com os cavaleiros de bronze e fora atingida pela flecha envenenada de Tremy, o relógio de fogo fora aceso, na época muitos não prestaram atenção nisso, mas fora seu cosmo que acendera as chamas em cada uma das horas, marcando o tempo que os cavaleiros tinham para chegar ao escudo no último templo.
Essa era uma das muitas recomendações que Shion havia lhe deixado quando estavam treinando, em caso de ataque o relógio serviria como farol, desta vez o Grande Mestre fora o responsável por acendê-lo.
-O que será que vem dessa vez? – Laura perguntou, franzindo o cenho.
Dois anos haviam se passado desde que os cavaleiros haviam retornado ao mundo dos vivos, após a destruição completa do Santuário pelas mãos de Artêmis e Apolo. Embora soubesse que nada poderia ter feito para evitar aquilo, ainda tinha ganas de matar as divindades gêmeas com suas próprias mãos. O fato era, naquele meio tempo, ninguém soubera explicar a verdadeira causa do retorno de todos os cavaleiros da ordem ou o que estava por trás da milagrosa forma como os templos zodiacais haviam ressurgido intactos, como se nunca houvessem sido destruídos.
Coisas demais haviam acontecido naquele meio tempo, que lhe impediu de estar mais inteirada sobre o que acontecia na Grécia, além do mais, por mais que gostasse de provocar o amigo, não iria se envolver nos problemas do Santuário somente para satisfazer seu faro de Sherlock Holmes; ela pensou ocultando o sorriso. Entretanto, não iria deixar de se preocupar com o bem-estar e segurança dele, caso uma nova catástrofe estivesse por vir.
–Uma estrela cadente cruzou as constelações de Gêmeos e Aquário, de acordo com Saga, parece que alguém está pedindo ajuda, algo relacionado a um conflito, você sabe aquela velha ladainha shakespeariana - vingança versus justiça, mas ele não parecia muito seguro do quanto essa previsão estava correta ou se era apenas um aviso subjetivo; ele explicou dando de ombros sem estar realmente preocupado com o alerta aos cavaleiros.
Todos os cavaleiros estavam de volta ao Santuário exceto por Dohko que estava em Rozan, confiava na liderança de Shion e no julgamento do mestre, mas achava tolice se preocupar com algo que nem acontecera ainda como os demais estavam fazendo.
Inclinando-se sobre a mesa e com dedos ágeis, virou duas cartas sobre as demais. Ergueu os olhos para o cavaleiro, enquanto apontava as lâminas. Sobre a primeira, viu a imagem de um homem, porém diferente de uma cena comum, o pobre coitado jazia com um laço de corda amarrado ao pescoço, que o prendia pendurado a um poste e a seu lado, na outra lâmina jazia um carro flamejante, como a carruagem de Apolo. Respectivamente, essas lâminas eram o Enforcado e o Carro, símbolos que representavam os signos de Gêmeos e Aquário, dentro da Roda do Tarô.
-Pelo visto Saga não está errado; Mú comentou, reconhecendo as lâminas e seu significado. –Talvez seja por isso que Shaka estava com os olhos abertos; ele completou.
-Isso sim é inédito; Laura respondeu em tom debochado, acomodando-se melhor na poltrona. –Entretanto, geminianos costumam ter boa intuição para ler estrelas, mas a questão é... Sobre quem essa profecia se refere?
-Duvido que até mesmo Athena saiba o que está acontecendo, já que ela apenas nos pediu que reforçasse a segurança no Santuário e ficássemos de sobreaviso; o ariano explicou. –A lâmina do Enforcado é a décima segunda dentro da roda, provavelmente o que virá, envolve todos os guardiões, não apenas Saga, Kanon e Kamus, isto é, se pudermos aceitar isso realmente como uma profecia, não é? – ele indagou, voltando-se para ela com um olhar de desafio, arqueando levemente as sobrancelhas finas.
Se realmente acreditasse que aquelas lâminas poderiam prever o futuro, fazia todo sentido que o Enforcado estivesse conectado ao signo de Gêmeos, ele representava tanto o autossofrimento como as angústias e jornadas individuais, o fato dela surgir agora mostrava que, independentemente de a quem ela se referia – Saga ou Kanon, levaria a um caminho de dor, erros, isolamento e a necessidade de abandonar os valores antigos para abrir novas portas. O Enforcado representava também a paciência e autocontemplação, o que fazia sentido no caso de Saga e Kanon, mas Kamus, não estava tão certo de que ele passaria intacto por isso.
O Carro representa o equilíbrio das forças opostas como autocontrole - não renunciar ao caminho que escolheu nem as decisões que tomou. Como podia ver no desenho, o carro era uma estrutura forte, estável e equilibrada, essa representação era encontrada não apenas em outros tipos de tarô pelo mundo, mas nas artes também, em quadros renascentistas e arquitetura clássica romana. Desde a carruagem de sol de Apolo na Grécia, ao carro de Osíris no Egito e até mesmo, a biga de Júlio Cesar na Roma Antiga. O significado era o mesmo para todas elas. Equilíbrio dentro do conflito, constância e fluidez, como a água quando vira gelo, ou quando se condensa virando nuvem.
-O quanto isso lhe lembra o Kamus? - Laura perguntou, voltando-se para ele.
-Não tenho nada contra ele; Mú respondeu dando de ombros.
-Não perguntei isso; ela reclamou, arqueando a sobrancelha.
-A meu ver, Kamus preocupa-se com os assuntos do Santuário de uma forma geral, mas habita seu próprio mundo. Gosta de silêncio e reclusão, pelo menos agora, mesmo que Milo viva o infernizando; Mú explicou, enquanto ponderava o quanto sabia sobre o cavaleiro. – Ele foi treinando por Aaron, então é um cavaleiro justo, de confiança, disciplinado, isso se reflete na forma como treinou Hyoga. Entretanto, como pessoa acho que essa disciplina toda dele em algum momento pode causar problemas, nesse aspecto ele é rígido demais; o cavaleiro concluiu em tom pensativo.
-O roto falado do rasgado; a jovem debochou, vendo-o arquear a fina sobrancelha. –É possível que, diante de uma situação extrema, diferente do que está acostumado a lidar como - o fim do mundo, deuses neuróticos e cavaleiros de personalidade duvidosa, ele possa colapsar até mais do que Saga ao se ver fora de sua zona de conforto; Laura falou.
-Por isso, não vejo por que me preocupar tanto com esse chamado de Athena. Se as coisas forem acontecer, vão acontecer de qualquer forma; ele completou dando de ombros.
-Bem, isso é uma atitude suspeita, não consigo acreditar que Athena com todos os seus poderes cósmicos e fenomenais, não saiba o que está por vir; Laura insistiu gesticulando, imitando uma fada com varinha de condão, sorrindo de forma sarcástica. –Mas se a ordem é proteger o Santuário, não que eu esteja reclamando, mas, você não deveria estar lá, em vez de estar aqui, irritantemente calmo como sempre? –ela indagou casualmente.
-Não preciso estar lá, para proteger o primeiro templo; ele respondeu, como se isso fosse a coisa mais óbvia do mundo, porque durante os dez anos que ficara afastado da Grécia, seu templo ficara lacrado e intocado, até mesmo para os demais guardiões, o que era verdadeiro motivo de irritação para eles, como ficara sabendo recentemente enquanto esteve na Grécia, pois durante anos os obrigara a tomarem longos desvios para cruzarem os dose templos sem passar por dentro do seu.
-Humilde; ela rebateu sarcástica.
-Com esse olhar, você está igualzinha ao Máscara da Morte infernizando o Saga; o ariano respondeu visivelmente aborrecido.
-Mal do signo talvez; Laura respondeu com um sorriso que estava longe de ser inocente. –Mas me admira você, não ficar aborrecido com a presença de Saga no Santuário? – ela indagou em tom especulativo.
-Por que eu estaria? – Mú respondeu, vendo-a arquear a sobrancelha. –Não tenho problema algum com Saga;
-Mas...; ela resmungou, lançando lhe um olhar como se dissesse – e não é obvio?
-Saga não pode controlar o que aconteceu quando Ares tomou seu corpo, da mesma forma que Shun não foi capaz de enfrentar Hades até se fortalecer o suficiente, mesmo se tratando de seu próprio corpo; o ariano explicou tranquilamente. –Se não fosse Saga, provavelmente seria outro a tentar matar Athena, pessoas que desejam a morte dela não são poucas, apenas calhou de ser ele, na hora certa e no lugar certo; ele completou indiferente.
-Mas e Ares? – a jovem indagou curiosa, referindo-se ao irmão de Shion.
-Estou falando que não tenho problemas com Saga, por mim, Ares pode continuar apodrecendo em qualquer um dos infernos no mundo inferior; ele completou com um olhar sombrio, levantando-se e recolhendo as xícaras vazias, deixando o cômodo com passadas pesadas e irritadiças.
Deu um pesado suspiro, lançando um breve olhar para a janela aberta ao seu lado, os brilhantes e calorosos raios de sol pouco a pouco desapareciam no céu e as costumeiras nuvens cinzentas, tão recorrentes do céu londrino voltavam a surgir mais nebulosas, quase como um reflexo do humor do cavaleiro.
Era besteira especular sobre coisas que já haviam passado, ou sobre o que talvez fosse acontecer, mas lhe acalmava saber que qualquer mágoa ou ódio que o amigo pudesse nutrir não era direcionada ao geminiano. Todos eles haviam sofrido tanto durante aquelas guerras, que somente cada um deles sabia o que pesava em seus corações. Não duvidava que todos os dias Saga carregasse a culpa por tudo que acontecera como punição por não ter sido forte o suficiente para combater Ares.
Inclinou-se sobre a mesa, virando a última das três lâminas, durante anos estudara a composição do tarô, até que conseguisse reconhecer cada naipe apenas pela energia que emanavam, ainda estava longe de descobrir como o destino se manifestava através de imagens e símbolos subjetivos, porém, desde que conhecera o ariano aquelas lâminas não haviam errado nenhuma vez.
Algo estava para acontecer e isso não envolvia apenas os treze cavaleiros, era algo grande, muito grande; ela pensou, vendo a imagem de um espectro de capuz segurando uma longa foice prateada projetar-se na última lâmina.
A Morte. Um ciclo terminava e uma nova era estava prestes a começar.
.III.
Pitoresco, possivelmente essa fosse a única palavra capaz de definir aquele vilarejo perdido no meio do nada, poderia jurar que o tempo parou ali; ele pensou, enquanto pendurava sobre o ombro a mochila que havia trazido consigo e pegava a única mala que Cora trouxera. Não havia sentido em levar um volume grande de bagagens, afinal não era uma viagem de férias. Pretendia ajudá-la a cruzar o portal e voltar para casa em seguida.
Desembarcaram na estação de trens local depois de uma viagem de uma hora, o campo de pouso mais próximo de Porta Westfalica ficava do outro lado de Minden, com o trânsito local de carro levariam cerca de três horas para contornar o distrito até a zona rural, porém de trem iriam em linha reta até o vilarejo mais próximo a Heinstein sem paradas.
-Pensei que a modernidade houvesse chegado a todo mundo mortal neste século? - Cora comentou, ainda se surpreendendo com as vestes simples das pessoas a sua volta, embora houvesse se acostumado a usar jeans e camisetas de algodão durante sua última estadia na Terra.
Arqueou a sobrancelha levemente, vendo a jovem lançar olhares curiosos a sua volta, quase perguntou se por acaso ela achava que estavam perdidos em Salem, mas provavelmente ela não iria entender a referência.
Mesmo com a modernidade e seus avanços tecnológicos, no mundo todo ainda existiam lugares que não haviam sido alterados, seja por motivos culturais ou socioeconômicos. Alguns lugares usufruem de uma estrutura mais clássica e rudimentar, como forma de preservar seu patrimônio e incentivar o turismo na região, já outras sofriam com a má gestão de seus governos, que os impediam de prosperar, obrigando seu povo a subsistir em condições precárias e miseráveis.
Pelo que Milo havia lhe contado certa vez, alguns lugares na Grécia também eram assim, pelo menos em algumas ilhas e fora capaz de comprovar isso durante o tempo que permaneceu treinando em Jamiel com Mú, pode conhecer o Tibet, parte da Índia e China, tradicionais.
Diferente de mestre Albion, ou até mesmo dos mestres de seus amigos, que durante o treinamento mantinham a todos em exilio em seus locais de treinamento, Mú fora o completo oposto. Forçara-o a sair da zona de conforto e a conhecer outras culturas e civilizações, buscando aprender com seus conflitos e história, ao mesmo tempo que aprendia a domar a si mesmo e seus novos poderes como forma de canalizar toda energia que tinha para gastar e que normalmente, não teria um escape adequado.
Ainda bem que não tivera que preencher nenhum relatório sobre aquele tempo em Jamiel, porque duvidava que os demais cavaleiros tivessem métodos semelhantes de treinamento do que o ariano e neste caso, queria evitar provocar mais uma das discussões épicas entre o virginiano e o guardião de Aries; ele pensou engolindo em seco.
-Será que falta muito para chegarmos? – Cora indagou, chamando-lhe a atenção.
-Não, daqui já podemos ver as torres do castelo; Shun respondeu, indicando a estrada a frente, provavelmente mais trinta minutos de caminhada chegariam lá se a subida não fosse muito íngreme.
-Estão indo para o castelo? – um senhor indagou, chamando-lhes a atenção.
-Sim senhor; Shun respondeu, voltando-se para ele.
-Eu tenho entregas a fazer no castelo, se esperarem, posso lhes dar uma carona; ele falou, indicando a caminhonete que estava atras de si.
-Só se não for lhe atrapalhar? – Cora indagou.
-Não, vou deixar essas caixas na pousada e podemos ir; ele falou, apontando para os caixotes de verduras na carroceria.
-Muito obrigada; a jovem gradeceu sorrindo.
-Eu ajudo; Shun adiantou-se, deixando a mochila em um canto do alpendre na entrada da pousada e seguindo até a carroceria da caminhonete. -Quantas irão para dentro? -ele indagou.
-Está e essas três da beirada; o senhor explicou, pegando uma das caixas pesadas e indicando as demais;
-Tudo bem; Shun respondeu, aproximou-se do beiral da carroceria e puxou cada uma das caixas de madeira, empilhando-as uma sobre a outra, antes de erguê-las e seguir atrás do senhor.
Evidentemente surpreso, o idoso deu a volta na lateral do prédio e seguiu para a entrada de trás. A cozinha estava movimentada naquele horário, embora o vilarejo não fosse muito grande, a pousada da Corinne sempre fora um ponto de encontro para os moradores e até mesmo estrangeiros que vinham a região para explorar as ruinas de Porta Westfalica.
-Arrumou um novo ajudante, Udo? – a voz de uma senhora soou atrás de uma pilha de panelas.
-Só por hoje; Udo respondeu com pesar, lançando um olhar de lamento para as três caixas nos braços do cavaleiro, em outro momento teria que ter feito mais três viagens para descarregar tudo, enquanto o rapaz trouxera as três de uma vez como se não pesassem mais do que um quilo de trigo.
-Pode deixar ao lado do freezer; Corinne avisou enquanto levava duas panelas vazias até o fogão mais próximo.
Seguiu a indicação dela e deixou as caixas no local, enquanto Udo colocava a sua sobre as outras, para em seguida retirar um papel do bolso traseiro da calça.
-Consegui quase tudo da sua lista, menos as ameixas amarelas; Udo explicou, entregando-lhe a lista. -Estão em falta no mercado de Porta, existem outros tipos se você quiser substituir, mas as amarelas não há previsão até o fim da temporada;
-É uma pena; Corinne lamentou. -A velha Franka terá de ficar sem sua torta dessa vez;
-Bom, se tiver mais alguma coisa que precise, pode fazer uma lista que depois passo buscar; Udo respondeu em tom de despedida. – Depois que eu deixar esse jovem no castelo, passo por aqui antes de voltar a capital;
-Quem seria louco de ir até aquele castelo mal-assombrado? – Corinne indagou surpresa.
-Corinne; Udo resmungou, lançando lhe um olhar entrecortado. Agora que o comércio local estava prosperando e os turistas estavam voltando, não era benéfico para nenhum deles assustar os forasteiros com histórias de fantasmas. Embora já houvesse ouvido alguns moradores comentarem sobre turistas realmente interessados em casas mal-assombradas da região, já que Porta Westfalica há décadas ganhou o nome de 'Portas do Inferno' por conta da Torre de Rhine, não deveriam usar isso como slogan de seu cartão postal.
-Eu sei que você leva mantimentos para o castelo, mas ninguém me tira da cabeça que ainda há fantasmas naquele lugar; ela continuou voltando-se para os dois, foi quando realmente olhou para o cavaleiro ao lado de Udo e notou que ele não era da região.
-São histórias que os anciões contam para assustar as crianças Corinne, você já está bem grandinha para levar isso tão a sério; Udo brincou com um sorriso nervoso.
-Isso é você quem está dizendo; ela resmungou contrariada, voltando as panelas. -Mas vou deixar a lista para você pegar na volta;
-Certo, até mais então; Udo respondeu, acenando e seguindo para fora. -Não ligue para Corinne, ela é da velha guarda;
-Como assim? – Shun indagou curioso, alguns passos depois já haviam contornado o prédio e seus olhos recaíram em Cora, que havia se sentado em um banquinho na frente da pousada, esperando por eles.
-Mesmo agora, ainda existem muitas superstições nessa área; Udo explicou, fechando o tampo da carroceria, enquanto a jovem de melenas negras se aproximava deles, carregando as duas malas. -Aqui minha jovem, deixei eu colocar na carroceria as malas de vocês;
-Obrigada, senhor; Cora agradeceu.
-Vamos, a viagem de carro não leva muito tempo, mas a estrada é um pouco acidentada, não existem muitos carros que sobem a montanha; Udo explicou, indicando a porta do passageiro.
Shun assentiu enquanto dirigia-se até a porta, abriu-a e notou que a cabine da frente comportava mais duas pessoas além do motorista, indicou a Cora para se aproximar e entrou, ficando entre ela e Udo.
-Deve ser ruim em dias de chuva? - Shun comentou, enquanto Cora segurava em seu braço para subir no carro e fechava a porta em seguida.
-Antigamente tínhamos tempestades terríveis, mas já tem pelo menos um ano que a única coisa que enfrentamos são algumas chuvas rápidas e neve no inverno; Udo explicou, enquanto engatava a marcha e começavam a se movimentar.
Era estranho pensar que a menos de três anos atrás o mundo se tornara um lugar insano de se viver, embora Porta Westfalica estivesse num local remoto da Alemanha, ainda tinham acesso as notícias de fora, enchentes e tsunamis haviam devastado muitas cidades, ondas de calor e frio insuportáveis desolando o planeta, principalmente em áreas mais remotas que acesso a saúde e saneamento básico eram escassos. E então, no meio disso tudo havia o Castelo Heinstein, embora não fosse a favor de Corinne espalhar histórias de fantasmas e folclore da região, tinha que admitir que havia algo mais acontecendo naquelas montanhas.
A cerca de dezesseis anos atrás quando a senhora do castelo anunciara sua segunda gravidez, todo povoado comemorara, uma criança era sempre um sinal de bençãos, mas ali essa notícia trouxera imensa alegria, porque a família Heinstein era muito amada em toda região. Entretanto, pouquíssimos dias antes do nascimento do bebê, uma nuvem negra desceu sobre o vale, aumentando a atmosfera de tensão e mau agouro. E quando lady Heinstein dera à luz a um menino um véu de morte e sombras varreu o vale, não apenas o casal Heinstein havia morrido, mas todos os empregados que trabalhavam no castelo perderam a vida, árvores e animais que viviam no entorno da montanha pouco a pouco foram definhando e morrendo, ao final de um mês não havia mais nada.
Por muito pouco o vilarejo não fora atingido, mas haviam passado meses antes que alguém se aventurasse montanha acima para tentar descobrir algo. A filha mais velha do casal e o bebê haviam desaparecido, no começo, todos pensaram que eles haviam morrido junto com os demais, mas a menos de dois anos atrás, numa noite sem estrelas, algo mágico acontecera.
-Acredito que isso favoreça bastante as plantações durante a primavera? - Shun comentou, trazendo-o de volta ao presente.
-Sim, embora algumas coisas ainda exportemos dos outros vilarejos ou até mesmo da capital; Udo explicou, enquanto trocava a marcha e começavam a subida da montanha. – Porta Westfalica tem estado cada vez mais popular no roteiro turístico da Alemanha, então Corinne costuma ser mais exigente quanto ao que serve na pousada;
-Que bom que o comércio local tem ido bem apesar de tudo, pensei que o vilarejo não tivesse tanto trânsito de pessoas por conta da distância com a estação de trem; ele explicou.
-A estação de trem, como vocês mesmos notaram, fica a menos de vinte minutos a pé em linha reta do vilarejo, então os turistas não têm dificuldade em acessar a vila, mas pelo menos duas vezes ao dia Corinne manda um dos rapazes descer a estação e transportar os turistas em uma van; ele explicou.
-Não vimos ninguém com carro quando chegamos; Cora comentou, lançando um olhar confuso ao cavaleiro a seu lado.
-É porque estamos perto do horário do almoço e a pousada fica mais movimentada, provavelmente um dos garotos deve ter descido a estação bem no começo da manhã, antes do horário que vocês desembarcaram por isso não o viram;
-Provavelmente foi isso; Shun concordou, enquanto prestava atenção no caminho. Lembrava-se de Pandora ter dito que toda vegetação aos arredores do castelo havia morrido quando Hypnos e Thanatos foram soltos, mas agora, olhando ao redor, ninguém diria que tudo aquilo acontecera.
-Mesmo assim, ainda temos algumas limitações na exportação, a região sempre foi muito rica no plantio de ameixas, de vários tipos, mas as nêsperas são as favoritas de Corinne e de todo vilarejo diga-se de passagem; ele comentou, sorrido. -Corinne tem uma receita de torta que passou de geração em geração na sua família, que levam principalmente nêsperas, mas as vezes não conseguimos encontrá-las em Minden; Udo explicou.
-Sempre houve essa dificuldade para obter suprimentos? – Shun indagou curioso.
-Não, muito do que consumíamos costumava ser fornecido pelo castelo que administrava toda rota do comércio e fazia uma distribuição justa, mas depois da peste que assolou a montanha, para sobrevivermos tivemos que buscar em outros lugares e isso aumentou muito o custo dos suprimentos; Udo comentou com pesar.
-Sinto muito; o cavaleiro murmurou.
Sabia ao que ele se referia, Hypnos e Thanatos haviam rompido o lacre da torre de Rhine e libertado o poder dos cento e oito espectros, o miasma aprisionado no templo em que eles haviam sido lacrados no castelo se dissipara e recaíra sobre a região, matando toda a vida que tocasse. Entretanto, agora que as guerras acabaram e os cavaleiros haviam voltado, provavelmente o terreno do castelo deveria ter sido restaurado também se o que estava vendo ao longo da estrada queria dizer algo.
-Foram tempos ruins, mas agora as coisas estão melhorando; Udo respondeu dando de ombros. – Vamos nos apegar a isso;
-Isso é bom; Cora murmurou pensativa. Quanto mais próximo do castelo se aproximavam, mas sentia o corpo ficar tenso em expectativa. Por um momento temeu que não fossem chegar a tempo em Heinstein, mas agora que estavam ali, uma inquietação perturbadora estava tomando conta de si, não sabia ao certo se era pela perspectiva de cruzar o portal ou de algo imprevisível acontecer até esse momento chegar. Poderia atribuir isso a sua intuição, mas sentia que não seria tão simples cruzar a barreira entre os mundos como planejara.
-Atualmente quem vive no castelo? – Shun perguntou, atraindo-a para fora de seus pensamentos.
-Então...; Udo começou hesitando, essa era a parte que ele gostaria de evitar de falar e justamente por conta disso Corinne tinha motivos para acreditar que Heinstein era habitada por fantasmas.
Há pouco mais de um ano atrás, quando o inverno terminara, a neve começara a derreter e a vida retornara aos arredores do castelo e de todo o vale. No começo ninguém acreditou que fosse possível, afinal, mais de quinze anos haviam passado que nem mesmo os pássaros sobrevoavam a área, todos temiam sequer se aproximar do castelo porque acreditavam que qualquer um que pisasse ali seria amaldiçoado pela mesma força que tirara a vida dos lordes naquela noite.
Foi quando Fran, irmã mais velha de Corinne, contrariando a vontade de toda a família dera um jeito de subir a montanha, mas a verdade era que Fran fora uma das poucas sobreviventes as mortes do castelo. Quando tudo acontecera, Fran estivera doente e afastada de suas funções, enquanto tratava de sua enfermidade passou seus dias com Corinne no vilarejo, provavelmente fora isso que salvara sua vida, mas quando se recuperou, a morte já havia caído sobre o vale e seus familiares a impediram de chegar perto do castelo e contrair o que quer que estivesse matando todos.
Mesmo assim, quinze anos depois Fran entrara no castelo e o que encontrou surpreendeu a todos que ao longo daquele ano decidiram subir a montanha também. As torres que antes haviam caído e paredes que foram destruídas, agora jaziam intactas como nos dias em que o castelo fora construído. Tudo parecia novo, como se todas aquelas tragédias jamais houvessem acontecido e dentro de um dos cômodos das torres, Fran a encontrou, quase como se estivesse em um sono enfeitiçado, porque mágica era a única coisa capaz de explicar a presença dela ali. Pelo menos quinze anos mais velha do que se lembrava, a garotinha mais velha da família Heinstein havia retornado e com ela, toda a vida aos arredores do castelo.
-Quando a família Heinstein faleceu sem deixar herdeiros - na região pelo menos, as pessoas tiveram medo de voltar ao castelo, vocês sabem, povoados como o nosso, a superstição é passada de geração em geração; Udo explicou com cautela. -Mas no último ano algo mudou, então as pessoas têm voltado, inclusive eu recebo encomendas do castelo agora;
-É normal se temer o que não se pode entender; Shun respondeu dando um pesado suspiro, as datas coincidiam com o fim das guerras, mas era estranho pensar em como encontraria o castelo agora, sem aquela atmosfera de morte e dor que viram pouco antes de enfrentar Radamanthys e cruzar o portal.
-Algumas coisas elevam o nível da superstição, principalmente se tratando do castelo; Udo resmungou, só esperava que os turistas não se assustassem com as histórias que fatalmente iriam ouvir sobre como a herdeira da família Heinstein era uma espécie de bruxa que voltara do mundo dos mortos, como se nada houvesse acontecido.
Embora em uma das suas viagens montanha acima, tivera a oportunidade de ver a garota junto de Fran que agora era governanta do castelo, parecia uma menina comum, como qualquer outra, entretanto existia algo realmente perturbador em seus olhos, havia muita dor e sofrimento ali, eram olhos de alguém que visitara o inferno e não voltara com a alma intacta, bem diferente das garotas de sua idade.
Pandora, como ouvira Fran lhe chamar, fora cortês e educada, tinha uma postura serena e tranquila, apesar de seus olhos tempestuosos. Haviam conversado sobre coisas banais naquele pouco tempo em que Fran conferia os pedidos que havia feito e por um momento ficou tentado a perguntar sobre a outra criança, afinal, se ela sobrevivera, o que poderia ter acontecido com o bebê? Talvez Fran fosse a única a saber a verdade e aos demais, restava apenas a curiosidade que permeava as rodas de conversas na pousada de Corinne ou nas fogueiras dos festivais da colheita que os aldeões ainda comemoravam.
-Falta muito ainda para chegarmos? – Shun perguntou tirando-o de seus devaneios.
-Não, só mais uma curva; Udo respondeu, acelerando um pouco mais na subida. Logo haviam passado por duas colunas de pedra que demarcavam o início do terreno do castelo e por entre os galhos das árvores já podiam avistar as torres de pedra.
Muito semelhante ao castelo de Neuschwanstein que ficava ao sudeste da Baviera, a poucos quilômetros de distância da fronteira com a Áustria, o castelo de Neuschwanstein fora construindo na metade do século dezenove, porém Heinstein remontava a séculos antes, ninguém sabia ao certo por quantas guerras ele passara e sobrevivera, no início do século dezenove quando o rei Luís II da Baviera viajando com sua comitiva pela região se abrigara em Heinstein, o monarca se apaixonara tanto pela arquitetura local que decidira construir Neuschwanstein na Baviera, copiando boa parte do projeto de construção de Heinstein, deixando-a ainda mais gloriosa e chamativa, fazendo com que Neuschwanstein servisse de inspiração para outros castelos mágicos na região.
-Aqui estamos; Udo falou, seguindo até onde poderia estacionar.
-Muito obrigado pela carona, se tiver algo que possamos fazer pelo senhor depois, me deixe saber, por favor; Shun falou, assim que desceram da caminhonete e foram pegar as malas na carroceria.
Deu um pesado suspiro enquanto lançava um olhar a sua volta, os jardins em frente ao castelo eram lindos, ressaltando ainda mais a imponência das torres e do caramanchão de entrada. O pátio abria-se a sua frente seguindo até uma escadaria longa, o sol do meio-dia batia sobre as janelas fazendo-as refletir o dourado por todo o pátio. Logo tudo aquilo ficaria coberto com a neve do inverno, mas ainda assim, seria um espetáculo lindo de se apreciar; ele imaginou.
-Vocês precisam que eu chame alguém? – Udo perguntou, lembrando-se agora que não perguntara o objetivo do casal ao subir a montanha, havia imaginado que eram apenas turistas, mas pensando bem, quando mencionara a tragédia que assolara a montanha, o rapaz não parecera surpreso.
-Shun; Cora sussurrou, enlaçando-lhe o branco quando notou muitas pessoas uniformizadas se aproximando com pressa, seguidos por uma senhora idosa.
-Fran, como vai? – Udo perguntou, acenando quando ela se aproximou.
-Muito bem Udo e muito feliz também; ela respondeu com um largo sorriso e surpreendendo o agricultor, voltou-se para o casal a seu lado. -Seja bem-vindo, Lorde Heinstein. Esperávamos ansiosos o seu retorno;
.IV.
Os longos cabelos violeta esvoaçavam conforme ela andava, seus passos eram fluidos e leves, quase como se ela planasse e mal tocasse o chão, ondas de calor e frio flutuavam ao seu redor, dia e noite brigavam por espaço conforme atravessava os campos densos e sombrios das prisões do mundo inferior.
Terra e cascalho caiam das paredes, as prisões foram destruídas junto com todos os templos que existiam naquele local, o mundo inferior poderia ser um labirinto infinito e mortal para qualquer desavisado que por ali ousasse se aventurar.
Aquilo fora o que pensou a pouco tempo atrás, a sensação de tempo e espaço eram ínfimas ali, não costumava comparar isso com o tempo dos mortais, porque lá fora, talvez um ou dois anos deveriam ter se passado desde que tudo acontecera.
Atravessou as ruinas rumo a um prédio parcialmente intacto, as colunas estavam destruídas em sua maioria, mas o teto e a abóboda pareciam inteiros. Os ventos convergiam a sua volta, vez ou outra seus cabelos ondulados agitavam-se ao seu arredor de maneira impertinente e incômoda, mas isso não iria lhe impedir.
Subiu os poucos degraus da entrada, afastou algumas teias de aranha penduradas na altura de seus olhos, lá dentro a escuridão era predominante. Serrou os orbes buscando pelo menos uma ínfima fonte de luz, até que a metros a sua frente um pontinho de luz surgiu. Seguiu o caminho calmamente, não precisava de iluminação para se guiar na escuridão, afinal ela era uma velha amiga.
-Como vai, irmã? -uma voz conhecida soou na escuridão.
-Vou bem, apesar de toda destruição ao nosso redor; Nyx respondeu em uma voz serena e melódica.
-E não é sempre assim? – ele indagou, assim que ela se aproximou do ponto brilhante este expandiu-se iluminando o cômodo a sua volta. - Séculos após séculos, nós nos mantemos estáveis enquanto tudo ao nosso redor se desintegra e se transforma;
-Provavelmente porque isso faz parte da razão da nossa existência; a divindade respondeu, estendendo-lhe a mão. -Mas é muito bom te ver, irmão; ela completou sorrindo.
-Obrigado por vir tão rápido quando te chamei, não estava certo de poder compartilhar o que tenho a dizer com mais ninguém, além de você; Érebo explicou, indicando o altar de pedras no fundo do cômodo.
Quando o universo dera seu primeiro suspiro, Caos deu a vida a duas crianças gêmeas, Nyx a noite sem estrelas e Érebo, a escuridão que emergia do vazio, ambos mantinham o equilíbrio no mundo inferior quando as guerras ameaçavam trazer destruição a todos os mundos conhecidos. O que muitos desconheciam é que Nyx detinha o real poder sobre vida e morte, enquanto seu gêmeo equilibrava a balança. As moiras teciam sobre o destino, mas nem mesmo elas poderiam fazer frente a Nyx, assim a divindade encontrou refúgio vivendo no mundo inferior, longe dos olhos cobiçosos de outras divindades que adorariam roubar esse poder para utilizar em proveito próprio começando pelo próprio Zeus. No mundo inferior havia silêncio e paz - de uma maneira estranhamente acolhedora. As duas divindades fizeram daqueles campos sombrios sua morada ao longa da eternidade.
Ali Nyx tivera seus filhos, Hypnos e Thanatos, que foram tirados de si na última guerra, mas isso, infelizmente já era esperado como das outras vezes, quando a balança perde o equilíbrio ameaçando favorecer mais um lado do que outro - das forças que regiam o universo, trocas deveriam ser feitas e a ordem restaurada. E era por isso que seu irmão a havia chamado.
Desde que Perséfone deixara aquele reino indo para a Terra, sabia que mais hora menos hora, alguma coisa iria acontecer, sentia isso vindo pelo vento, através dos sussurros de Eco, mesmo o Olimpo estando silencioso, a inquietação não poderia ser negada ainda mais depois que Harmonia cruzou os limites do domínio de Érebo indo até os confins do Tártaro atrás de Caos.
-Acredito que isso esteja relacionado a Troca Equivalente; Nyx comentou, sentando-se no banco de pedras ao lado do irmão.
-Você parece muito tranquila com algo dessa magnitude, irmã? – Érebo indagou, lançando um olhar de soslaio para ela.
-Desde que a guerra começou e dois de meus filhos, junto dos juízes lideraram os espectros naquela batalha absurda contra os cavaleiros de Athena, eu suspeitei que nem mesmo as Moiras seriam capazes de prever o futuro ou até onde iriam se entrelaçar os ramos que as teias do destino criaram; ela respondeu com serenidade. -Entretanto meu estimado irmão, por mais que eu sentisse que algo estava por vir, nunca pensei que veria isto acontecer; ela completou indicando o fundo do aposento.
-Muitas coisas não podem ser antecipadas irmã, nem mesmo por você com todo o seu poder; ele comentou em tom de reverência.
Embora fossem gêmeos, cada um controlava um tipo de força, ambos aumentaram seus poderes ao longo dos infinitos milênios humanos pelos quais passaram, mas a verdade era que, cada um tinha sua própria natureza e essa era a diferença na balança para torná-los mais fortes ou mais fracos um contra o outro e quando unidos eram imbatíveis, porém, Nyx possuía algumas habilidades especiais até mesmo entre outros deuses tão antigos quanto eles e a capacidade de ver o futuro com maior precisão do que as Moiras era um deles.
-Quando se trata da capacidade dos mortais de mudar o próprio destino, concordo com você irmão; Nyx respondeu tranquilamente. -Eu acreditava que depois de tanto tempo eu fosse capaz de prever o destino dos deuses com precisão, mas...;
-Mas? – ele instigou, sentindo-a hesitar.
-Não sei se fico agradavelmente surpresa com esse revés, ou preocupada com o que tantos fios soltos possam gerar no equilíbrio de nosso universo; ela explicou pensativa. -Eu vi como aquelas crianças enfrentaram Hades e os espectros nesta última guerra, eu senti em minha pele como a morte de cada um destes seres pesou sobre a balança do equilíbrio e sei que você também sentiu irmão; Nyx falou segurando a mão dele entre as suas. -Pensei que o coração da Imperatriz jamais fosse se curar e que nada poderia recuperar tantas vidas que se perderam, mas... e esse é um grande, MAS, os seres que habitam este universo, sejam deuses ou mortais, ainda possuem a capacidade de me surpreender; ela completou, com um fino sorriso nos lábios.
-Por isso você mencionou a Troca Equivalente? – Érebo perguntou curioso.
-Sim, as leis foram criadas para manter o equilíbrio no universo, porém a Troca é a única brecha capaz de mudar o destino, aliás, de qualquer destino; Nyx explicou com um olhar misterioso. -Quando aquela pequena criança tomou sua decisão e Caos permitiu que ela fosse em frente, abriu as portas para que os ventos das mudanças nos trouxessem até aqui, até este momento e lhe digo irmão, o que fizermos a partir de agora, mudará tudo o que sabemos sobre o mundo que aprendemos a conhecer ao longo de todos esses milênios;
-Então devemos seguir adiante; Érebo afirmou levantando-se e oferecendo apoio a ela para fazer o mesmo.
Qualquer outra divindade diante dessa constatação hesitaria em seguir adiante, porque o peso da responsabilidade sobre as ações que tomariam, poderia tanto trazer o caos quanto a ordem para aquele universo e eram poucos capazes de suportar realmente essa carga.
-Vamos; Nyx concordou, seguindo com ele até o fundo do cômodo. -Caos não o teria mandado para nós se não fosse o certo a ser feito;
Aproximou-se da cama de pedra observando o corpo que jazia ali, manchas de sangue seco cobriam sua testa e partes do corpo, a túnica antes impecável estava rasgada em vários pontos e nem mencionara a quantidade de pedaços que faltavam na armadura negra. Não havia pulso nem respiração.
Com um estalar de dedos de Érebo o ponto de luz se aproximou e pairou sobre o corpo inerte e sem vida. Nyx contornou o espaço, ficando de frente para o irmão, apenas separada pela cama de pedra.
-Ao que parece você tem uma nova missão, criança; ela murmurou passando delicadamente a ponta dos dedos sobre a franja endurecida pelo sangue seco e a poeira. -Não seja tolo como a maioria dos seus irmãos, aprenda com os erros cometidos;
-Essa é sempre uma esperança, irmã; Érebo brincou - a verdade era que tanto deuses como humanos eram imprevisíveis, por isso, cada ação que tomassem, envolvendo a natureza de seus poderes, teria um peso importantíssimo sobre equilíbrio de todos os mundos conhecidos.
-Esperança? Não, esta é uma certeza, irmão; Nyx respondeu, voltando os olhos violetas intensos para Érebo, enquanto estendia a palma da mão para a frente pegando a pequena fagulha de luz, colocando-a entre seus dedos. -Esta é uma certeza;
Deixou que a luz entrasse sobre o corpo sem vida e em pouco tempo ela foi se espalhando, preenchendo-o com calor, abraçando-o como uma velha amante. As feições desbotadas e inertes pouco a pouco ganharam cor e calor, a vida estava retornando graças a pequena fagulha de fé.
-Uma pequena centelha de esperança; Nyx murmurou, quando os olhos dele abriram-se revelando um verde intenso e cintilante como não o via a muitos séculos. -Bem-vindo de volta, Imperador;
Continua...
N/a:
Castelo Neuschwanstein – castelo construído ao sudeste da Baviera na segunda metade do século XIX. Ele serviu de inspiração para Wald Disney, para desenhar o castelo da Bela Adormecida e posteriormente, tornou-se símbolo da marca Disney, ao surgir na abertura de todas as suas produções.
Castelo Heinstein – Kuramada se inspirou em Neuschwanstein para o desenho de Heinstein, porém, adotei a versão de que, Heinstein existia bem antes de Neuschwanstein.
Neuschwanstein e Heinstein ficam nos limites de fronteira entre Alemanha e a Baviera. Embora Heinstein esteja localizada no distrito do 'Estado Livre da Turíngia' como é chamado, enquanto Neuschwanstein fica entre as cidades de Schwangau e Füssen.
Na obra canônica de Saint Seya, a torre onde os espectros foram selados localiza-se na Terra dos Enclausurados, que fica a mil quilômetros de distância dos picos antigos, por isso Dohko foi designado para vigiá-la. Mas através de algumas pesquisas descobri que a torre foi inspirada na Torre de Rhine, um monumento construído em Porta Westfalica na Alemanha e lendas locais afirmam que ela possui um 'portal' que conecta a Terra ao mundo dos mortos.
