A tarde passava leve e solta, o vento correndo ligeiro por entre as folhas das árvores naquele final de setembro. Alphard levantou os olhos, observando o céu azul e claro. Com um meio sorriso, ele se deixou levar por seus passos a recantos mais distantes da escola. Embora estivesse agora no seu último ano em Hogwarts e precisasse se preparar para os NIEMs, naquela tarde preferia pegar um pouco mais leve.

Em um dos braços, ele trazia um pacote de Feijõezinhos de Todos os Sabores, no outro um livro sobre Fisiologia de Animais Míticos. Aquele sábado pareceu ao rapaz ideal para um piquenique e uma leitura relaxante.

Quando cruzou a orla da floresta, próxima ao lago da escola, em direção a um dos seus recantos favoritos, Black notou que seu paraíso particular não era mais imaculado.

Debaixo de um pessegueiro, havia uma figura feminina, praticamente imóvel, a ponto de se cogitar a ideia de que se tratava de alguma estátua ou mesmo uma boneca em tamanho real.

Alphard caminhou a passos leves em direção da árvore, em parte preocupado pela imobilidade da moça. Ao se aproximar, ele reconheceu de imediato a garota. Era Marguerith Black. Pelo movimento ondulatório do busto da morena, ele pôde notar que ela apenas dormia profundamente.

Inconscientemente, o rapaz deixou que seus olhos se fixassem mais um tempo na curva dos seios da moça, que se insinuava pela fresta da blusa do uniforme que ela usava. Ao perceber o que estava fazendo, Alphard desviou os olhos, sentindo as bochechas e as orelhas esquentarem abruptamente.

Refeito da situação, ele voltou a fitar Marge, mantendo sua atenção ao rosto dela. Fazia anos, desde a morte de Rosette, que ele não a via daquele modo. O semblante doce e suave, completamente livre e em paz. Nunca a prima lhe parecera tão linda. A perfeita essência da Bela Adormecida.

Ela sempre possuía uma expressão aparentemente distante, quase arrogante para algumas pessoas, mas ele percebeu que ela agia assim porque aquilo lhe era exigido a todos de sua família. De todas as pessoas da sociedade bruxa, era a própria Marguerith quem se exigia mais, que nunca baixava a guarda, nunca se permitia relaxar... A não ser quando estava com ele.

Era um alento para o rapaz vê-la tão serena. Alphard sentiu um forte desejo de proteger aquela paz que a moça tanto merecia. Ele sentou-se lado dela, pousando o pacote de doces lacrado na grama e o livro sobre o colo. Não deixaria que nada nem ninguém perturbasse o sono de Marguerith naquele momento.

Olhando para cima, notou o quão florido o pessegueiro estava, deixando que o seu perfume preenchesse suas narinas, percebendo, realmente, pela primeira vez o quanto Marguerith se tornara parte essencial de sua vida. Talvez esse sentimento estivesse dentro dele há anos, mas só agora tinha plena consciência que estava apaixonado por ela.


Alphard em si era uma imensa contradição, Marguerith pensava consigo. Ele era um rapaz tranquilo e divertido e ela percebia o quanto os demais colegas da Casa das Serpentes pareciam admirá-lo por essas características, mas ao mesmo tempo ela conseguia ver nele uma tenacidade que às vezes beirava à teimosia.

Envolvida pelo temperatura abafada da sala de comunal e pela voz suave de Alphard, Marguerith fechou os olhos e se deixou levar pela lembrança de um sonho que tivera na noite anterior… Ela não se recordava dos detalhes, mas ainda conseguia captar as nuances de sensações, quase como se ainda estivesse lá…

Ela e Alphard caminhando juntos por uma floresta… em dado momento as mãos deles se encontrando de relance… um calor reconfortante tomando conta de Marguerith… Algo que ela jamais sentira antes na vida… Mesmo em todos os anos que estivera ao lado dele... Algo que ela desejava e ao mesmo tempo temia…

- Marge? – a voz de Betelgeuse a fez voltar à realidade em um sussurro – Você está bem?

Ela virou-se para a irmã, piscando os olhos, ligeiramente desnorteada. Por fim, conseguiu tomar conta de si mesma, voltando à postura autossuficiente e imponente de sempre.

- Estou bem – a jovem de orbes verdes assentiu embora um olhar incrédulo pudesse ser visto no rosto de Bete. Ninguém além dela conseguia ler tão bem por baixo da máscara rígida da irmã caçula.

- Seus olhos estavam opacos e distantes – Betelgeuse falou, ainda em um tom praticamente inaudível para os demais colegas a não ser Marguerith, com quem dividia a poltrona.

-Não foi nada, apenas o calor… Minha pressão deve ter caído.

-Quer ir na enfermaria? – a mais velha das gêmeas perguntou, preocupada.

-Não precisa, já me sinto melhor.

Marguerith dirigiu seus orbes esmeraldinos novamente para Alphard, que estava finalizando a história que contava aos demais sonserinos do sétimo ano.


-Eu estou apaixonado! - Alphard lançou a informação de supetão, fazendo com que Bartemius se engasgasse com a cervejinha amanteigada e Abraham arqueasse de leve a sobrancelha.

Naquele momento o Três Vassouras estava tão cheio que duvidava que alguém pudesse escutá-los em meio ao murmurinho das conversas das outras mesas. Usualmente os três teriam ido ao Cabeça de Javali durante o passeio a Hogsmeade, porém desde que Abe começou a sair com Carmilla e Bart fizera o mesmo com Alicia, eles passaram a evitar o lugar que achavam pouco adequado para se encontrarem com as namoradas. Alphard, inclusive, pegou por um tempo nos pés dos amigos, brincando que eles estavam se transformando em chatos, e Abe em especial estava se tornando, finalmente, um corvinal certinho.

-Ok, e quem é a felizarda? - Abraham Reinfield perguntou, enquanto Bart ainda se recompunha da surpresa.

-Marge - ele respondeu, enquanto suspirava sonhadoramente.

Bartemius e Abraham se entreolharam com cumplicidade, como se esperassem aquilo fazia muitos e muitos anos.

-Não acredito que finalmente caiu em si! - o corvinal falou, sem esconder o entusiasmo - Sempre foi muito óbvio para a gente.

-Eu sou meio lerdo com essas coisas... além disso, nós crescemos juntos, o que me fez demorar a entender que o que eu sentia por ela não era nada fraternal.

Bart deu um gole em sua cerveja amanteigada antes de perguntar uma questão que julgava ser importante naquele contexto.

-Não te incomoda o fato de ela ser nossa prima?

Alphard balançou a cabeça em negativa.

-Se você parar para pensar, ela é mais prima sua, que é filho da prima Charis, que minha. Tem pelo menos uma geração de Black nos separando... Além do mais, nossa família nunca viu isso como um problema. Orion e Walburga vão se casar e são primos próximos. Aliás, quem não é parente de quem nas famílias tradicionais?

Abraham coçou a cabeça pensativo, Alphard tinha um ponto. Eram quase todos ligados por algum tipo de parentesco. Pelo menos os membros dos "Sagrados Vinte e Oito" - título que o corvinal achava demasiadamente pomposo e idiota, mas que ele sabia ser levado a sério por muitos bruxos.

-Ao que me consta, eu não tenho parentesco com nenhum de vocês dois. - ele disse, por fim.

-Não seja por isso - Alphard disse - Se eu e Marge tivermos um filho, talvez ele possa se casar com uma filha sua e da Carmilla.

Abraham sorriu, imaginando a situação.

-Uma filha minha se tornando uma Black? Não era algo que eu tinha pensando até o momento.

Bartemius balançou a cabeça, aqueles dois estavam irremediavelmente perdidos se já estavam pensando em filhos e casamento, apesar de ele próprio não se esquivar de sonhar em se juntar com Alicia depois de conseguir se formar na magistratura.

–Quando vai falar com Marguerith? - Bartemius perguntou, em um tom mais sério - Você sabe que tem dois obstáculos para esse namoro realmente acontecer...

-A donzela de gelo e o bicho papão? - Alphard riu. - Betelgeuse é difícil e sei que não gosta muito de mim, mas se ela vir que posso fazer Marge feliz vai acabar amolecendo... O problema mesmo é o velho Black, mas Marguerith logo vai ser maior de idade. Ela vai poder decidir a própria vida.

-Vai esperar ela fazer dezessete anos para se declarar? – Bart questionou novamente, pensando consigo que poderia ser uma opção melhor que enfrentar o gênio irascível do tio.

-É uma ideia... – ele disse, em um tom jocoso – Na realidade, eu quero ir preparando terreno. Eu já brinquei muito com Marge, falando que ela era minha musa inspiradora. Se eu não fizer do jeito certo, ela vai achar que eu estou brincando.

Abraham cruzou os braços, pensativo. Conhecia bem as personalidades de Alphard e Marguerith para saber como aquilo iria se desenrolar.

-Prevejo então que vai ser um trabalho bem árduo, meu amigo... – o corvinal afirmou.