Hoje não foi um bom dia para ela.

Sakura soube no momento em que o relógio na parede do escritório bateu duas horas da manhã e ela ainda estava fazendo essa maldita papelada!

- Eu poderia dizer para você descansar, mas sei que vai fingir que não me ouviu, ojou-chan.

- Não estou com sono e você realmente não se importa com meu horário de descanso.

- Fria como sempre - Kyoko murmurou enquanto enchia um copo de saquê em seu lugar no sofá confortável - Você parece um pouco irritada.

- Apenas sua imaginação.

- Não, não acho que seja - Kyoko expressou com um sorriso malicioso nos lábios - O motivo seria o amiguinho loiro que fez alguns meses atrás ?

Olhos esmeraldas frios e com uma escuridão sombria fitava a mulher morena deitada no sofá.

Um arrepio passou pelo corpo de Kyoko. Parece que a criança estava crescendo para sempre a surpreender, não era algo ruim, mas com certeza fascinante e bom para permanecer vivo no Distrito do Clã.

- Não me olhe assim, essa informação eu não consegui fazendo perguntas para as outras crianças do Distrito que frequentam a academia - Embora, Kyoko tenha tentado tirar alguma informação delas - Por coincidência, eu vi você brincar com ele no parque algumas vezes.

Os olhos esmeraldas continuavam a observá-la, exigindo saber mais.

- Não se preocupe, pelo que notei, você adquiriu mais do que respeito nos últimos tempos - Kyoko informou com um sorriso satisfeito - Principalmente das outras crianças Harunos.

- Por que ?

- Porque… querida ojou-chan. Você conquistou o respeito, a curiosidade e admiração deles. E eu sei que já percebeu isso.

- Tanto faz, vamos deixar esse assunto de lado e começarmos a trabalhar. Conseguiu o que eu tinha pedido ?

Kyoko só pode olhar com diversão e um pouco de carinho para a criança que não conseguia esconder as bochechas vermelhas de vergonha. Ojou-chan não trabalhava apenas para manter os negócios funcionando, ela também usava o dinheiro que ganhava para melhorar a vida de muitas famílias no Distrito, principalmente as crianças órfãs, as mesmas que frequentavam a academia.

Algo que não passou despercebido por alguns Harunos, os deixando curiosos pela garota que protegeu os seus derramando o sangue de seus próprios pais que quebraram as leis do Clã. Fazendo que a atenção deles estivesse sempre focada nela, a garota que rapidamente continuava subindo na estrutura de poder entre eles.

- Eu nunca deixo de comprir nenhuma ordem sua, hime-chan.

- Pensei que era ojou-chan ? - Sakura indagou curiosa com a mudança de endereço da sua pessoa.

- A informação que me pediu me deixou bem curiosa para saber o motivo… - Kyoko ignorou a pergunta da sua chefe, mas parece que a mesma deu o troco com seu silêncio e olhar vazio. Que criança mesquinha! - Os comerciantes de Konoha se baseiam mais em seus produtos feitos no País do Fogo, muito do que é produzido é vindo dos grandes Clãs. Os estabelecimentos mais ricos também. Já os civis, sobrevivem com venda entre eles e arriscando em viagens fora da vila, embora sejam poucos. O preço por proteção shinobi é caro, assim como muitos dos materiais de maior qualidade são vendidos, unicamente, aos shinobis. O resto das informações estão nesses papéis ao lado de sua atual papelada.

- Muito bem, vou analisar para verificar se encontro o que quero.

- E o que seria isso, Hime-chan ? - Kyoko perguntou com verdadeira curiosidade, mas sua pergunta foi ignorada outra vez. A criança sabe guardar rancor!

- Além dos bordéis que tenho, também há outros negócios, certo ?

- Sim, é verdade, mas eles são bem pequenos comparado ao lucro que os bordéis ganham - Kyoko ainda não conseguia entender onde sua querida chefe queria chegar.

Sakura continuou a ignorar a mulher morena e pegou alguns papéis em sua gaveta, os jogando na direção da pessoa que era seu braço direito nos negócios.

- Preciso que você encontre pessoas no Clã com essas características.

- Por que, Hime-chan ?

- Porque… é um segredo até você completar essa ordem.

Tão cruel! Kyoko só ficou mais animada para saber o que sua Hime-chan tem planejado em sua cabecinha.

- Nesse caso, vou cumprir suas ordens o mais rapidamente possível. Boa noite, Hime-chan! Tente dormir um pouco.

Sakura observou a mulher se despedir e sair da sala com a elegância de uma rainha. Sakura às vezes tem a impressão de que Kyoko foi uma princesa de algum lugar antes de vim parar em Konoha ou uma shinobi aposentada.

Eu não duvido, Outer.

Você andou sumida, Inner.

Sempre estou aqui, mas estive ocupada tentando formar estratégias sobre o que tínhamos pensado.

Sim, desculpa por ter esquecido. Kyoko fez seu trabalho muito bem, aqui não tem somente informações sobre a forma de funcionamento dos estabelecimentos comerciais de Konoha. Ela também incluiu alguns podres escondidos deles.

Isso é perfeito, cai bem com o que temos planejado.

Você realmente acha que é uma boa ideia colocar em andamento nosso plano, agora ?

Se deixarmos para o futuro, podemos não ter a mesma oportunidade como agora. Muitas das pessoas do Clã estão de olho em cada movimento seu. O que pode ajudar a colocar nosso plano em prática.

Você tem razão. Precisamos mudar as coisas se desejamos sobreviver tanto no campo de batalha, como no campo político da vila.

Isso mesmo, Outer. A única maneira é com dinheiro. Mesmo que o Clã Haruno tenha mais liberdade comparado aos outros, essa liberdade pode nos matar. Somos descartáveis para o Hokage e os anciãos, assim como para o resto da Vila. Precisamos ganhar poder.

Mas, também precisamos jogar as peças do tabuleiro com cuidado, Inner. Nada apressado ou com brechas para serem exploradas por futuros inimigos.

Sakura continuou discutindo com Inner sobre o que estavam planejando e não notou o tempo passar. Era domingo, não tinha academia, mas tinha prometido a Naruto que iria almoçar na casa dele. Ah, ter que suportar a presença do loiro duas caras vai ser cansativo.

São apenas duas da manhã. Sakura ainda tem tempo de finalizar algumas coisas e depois tomar um banho antes de ir para a casa de seu amigo.


Andar pelo distrito Haruno e ter olhos afiados a observando em todas as partes, se tornou uma rotina diária para Sakura. Embora não queira dizer que ficou contente com esse fato.

A papelada e os assuntos que teve que resolver no bordel, demoraram mais do que tinha previsto. Só daria tempo de ir em casa e tomar um banho rápido. O que não demorou a chegar em sua casa. Sakura entrou com cansaço, não tinha dormido por dois dias e o silêncio dessa casa a deixava sempre em alerta.

Principalmente, quando sentia a presença de duas pessoas em sua sala.

Calma, Outer. Precisamos saber quem são essas pessoas, elas com certeza já sabem que você chegou e parece que estavam te esperando. Caso contrário, eles já estariam tentando fugir ou teriam atacado.

Sakura sentiu suas emoções se acalmarem por Inner.

Seus passos seguiram tranquilamente em direção a sala. Não tinha pressa. Sua mão já estava próxima da kunai que escondia em suas roupas, uma precaução sempre necessária.

Dois Harunos.

Tinha dois membros de seu Clã em sua sala.

Eles com certeza eram gêmeos, sendo a única diferença o penteado que usavam para se distinguirem um do outro. Eles tinham cabelo de um rosa claro na raiz e escuro nas pontas, olhos dourados que se assemelhavam ao de um felino. Enquanto o primeiro tinha o cabelo liso com franja, vestia roupas escuras de ninja. O segundo tinha seu cabelo ondulado e bagunçado, como também vestia roupas similares às de seu gêmeo.

Contudo, não foi isso que chamou a atenção de Sakura. Mas, sim, o sangue que encharcou suas roupas e parte do rosto e cabelo. Antes que qualquer pânico ou medo de possíveis inimigos dentro de sua própria casa tomassem conta de sua mente, Inner acalmou com força essas emoções, mantendo elas sobre controle e permitindo que Sakura analisa-se a situação com mais calma e cautela.

- Não me lembro de ter convidado em minha casa.

Os dois apenas a observaram com semblantes vazios. Sakura iria dizer outra coisa, mas antes que sua boca abrisse para proferir suas palavras, o Haruno de cabelo cacheado estava a centímetros de seu rosto ao mesmo tempo que sua mão segurava o pulso de Sakura com uma kunai apontada para seu pescoço.

Um sorriso começou a surgir em seu rosto, assim como seus olhos dourados adquiriram um tom mais brilhante como ouro derretido. Embora a loucura selvagem dentro deles deixasse Sakura com mais cautela ainda. Ela tentou se afastar do possível psicopata a sua frente, contudo, uma presença em suas costas fez questão de marcar sua aparição. Perto o suficiente para estar quase tocando.

- Estava curioso para saber quem era a pessoa que tem movimentado as coisas no Clã, enquanto eu e meu irmão estamos fora por alguns anos. Imagina minha surpresa quando descubro que é uma pequena criança, isso me deixou ansioso para saber como ela seria.

Sakura continuou mantendo sua atenção na pessoa a sua frente que ainda tinha um sorriso feliz no rosto. O problema era que esse sorriso dava uma sensação ruim para ela. Sua atenção voltou a focar em seu entorno quando o gêmeo em sua costas começou a falar.

- Meu irmão tem razão. Ficamos um pouco curiosos para saber quem deixou esse Clã menos tedioso e decidimos conhecer essa pessoa assim que voltamos para a vila.

- Sim, e parece que superou nossas expectativas!

Sakura manteve sua mão firme segurando a kunai.

- Como já saciaram sua curiosidade, podem ir embora da minha casa - Sakura tentou se mexer, mas seu queixo foi segurado pelo Haruno a sua frente, não com força, mas com delicadeza e ao mesmo tempo firmeza que a mantém seu rosto em seu total foco.

- Uma personalidade atrevida, pequena - O Haruno comentou enquanto segurava o rosto da criança a sua frente, ela tinha olhos esmeraldas muito bonitos, cheios de um fogo que consumia o que se aproximava - O que me deixa mais animado para conhecer e passar algum tempo com você.

O gêmeo atrás de Sakura pegou uma mecha de seu cabelo e aproximou seu rosto dela.

- Isso mesmo, afinal, somos uma família, não é mesmo ? - O Haruno atrás de Sakura se despediu com um beijo em sua bochecha - Nos vemos logo, Hime-chan!

- Tchau, Tchau, Hime-chan! - O Haruno a sua frente exclamou com um rosto feliz - Antes que me esqueça, eu sou Akira e o meu irmão é Arata.

Os dois sumiram rapidamente de sua vista sem deixar vestígios de sua presença na casa. Sakura esperou alguns minutos para confirmar se eles não iriam voltar.

Eu não gosto deles. Os dois dão uma sensação ambígua de suas verdadeiras intenções, Outer.

Sim, eu também concordo com você, mas tenho o pressentimento que não vão nos deixar em paz.


O som de uma batida na porta fez os dois inquilinos se apressarem para arrumar as coisas.

- Sakura-chan! Você realmente veio! - Naruto exclamou feliz por sua amiga ter comprido a promessa de almoçar na casa dele. Ele estava tão contente que queria abraçá-la, mas sua amiga não gostava de ser tocada.

- Eu prometi, não foi ? - Sakura disse enquanto entrava no pequeno apartamento.

- Sim! Mas… mas você estava demorando e pensei que não iria vir mais - Naruto mirou um pouco debatido por ter confessado que sua melhor amiga não iria cumprir sua promessa.

- Houve um… inconveniente.

- Ah… então vamos logo para a mesa! Minato faz a comida mais deliciosa de Konoha e só perde para o ramen - Naruto mudou de assunto, ele não queria que sua amiga percebesse que não sabia o que significava "incoveniente". Deve ser algo muito grande ou de garotas.

Os dois foram em direção a pequena cozinha. Minato já estava carregando os pratos e pediu ajuda para carregar a comida em direção a pequena mesa baixa no meio do apartamento.

Os três se sentaram para comer e Naruto começou a falar sobre as pegadinhas que tinha feito durante a semana na academia. Sakura prestou atenção na conversa, mas não deixou de notar que o irmão de seu amigo estava calado no canto, apenas observando Naruto falar sobre tudo.

- … ai eu usei um papel de explosão para explodir a tinta e derramar em todos os instrutores!

- Não sabia que alunos da academia tinham permissão para comprar esses selos, pensei que era apenas para genin - Sakura perguntou curiosa, selos como esse eram caros e precisava ter dinheiro e o status de ninja para poder comprar.

- É porque Minato fez os meus! Ele é incrível, não é ?! - Naruto colocou atenção em seu irmão.

Minato sentiu suas bochechas ficarem vermelhas com os elogios de Naruto que o olhava como se fosse um Deus de presentes.

- Você os fez ?

Minato virou em direção a garota de cabelo rosa, era a primeira vez que ela iniciava uma conversa com ele. Ficou tão surpreendido que não conseguiu responder a pergunta. Naruto logo entrou na conversa para ajudar seu irmão antes que Sakura-chan perdesse o interesse sobre um possível assunto que ligava ela a Minato.

- Sim! Minato os fez ele mesmo e muitas outras coisas, certo Minato ?

- Ah, sim.

- Como você aprendeu sobre selos ?

Essa foi a pergunta que deu início a uma longa conversa sobre selos e depois sobre livros. Naruto só observou como Sakura-chan falava livremente com Minato, isso não o deixava mais com medo ou outra coisa, apenas ficava feliz que tinha as duas pessoas mais importantes para ele se dando bem e criando uma amizade.

O tempo começou a passar e já era tarde da noite, Sakura acabou ficando para jantar. Ela tinha que ir embora, seu corpo doía e tinha certeza que seus olhos não ficarão abertos por mais que uma hora no máximo.

Eles já estavam no corredor, em frente a porta do apartamento dos loiros.

- Você tem que ir agora, Sakura-chan ? - Naruto perguntou triste e cabisbaixo, a tarde que tinham passado foi maravilhosa e divertida, ele não queria que sua amiga fosse embora.

- Naruto tem razão, já está tarde para ir para casa sozinha - Minato apontou enquanto a seguia até o lado de fora de sua porta, ele não queria se despedir ainda - Você pode dormir aqui com a gente, que tal ?

Antes que Sakura pudesse responder o convite que parecia muito tentador para seu estado de sono, duas vozes atrás dela interromperam a conversa.

- Não se preocupe, loirinho - Akira os surpreendeu aparecendo do lado de Sakura.

- Sim, nossa Hime-chan não vai sozinha para casa - Arata declarou colocando uma mão no ombro da pequena criança Haruno, mantendo firme lá.

- Ei! Não toque na Sakura-chan! - Naruto gritou com os dois garotos de cabelo rosa que pareciam ter quinze anos.

Enquanto Naruto continuava gritando com os gêmeos a sua frente que eram sem dúvidas do Clã Haruno. Minato observou como eles mantiveram suas figuras bastante próximas, praticamente tocando Sakura. Pela aparência, olhos afiados escondidos por olhares divertidos e seu instinto dizendo que eram perigosos, Minato manteve sua guarda levantada, assim como sua curiosidade controlada.

Não era segredo que os membros do Clã Haruno, por mais que sejam leais e protetores entre os do Distrito, não andavam juntos ou interagiam um com o outro.

Sakura Haruno sempre foi uma caixa de mistério, desde o primeiro encontro deles. Não apenas as crianças Harunos da academia a vigiavam e estavam sempre em seu radar, como também agora tinha dois gêmeos vindo buscá-la e ficando a poucos centímetros de distância. Um feito praticamente inédito para o tipo de pessoas que são conhecidas.

Minato parou seus pensamentos quando o gêmeo Haruno de cabelo liso colocou seus olhos dourados em sua direção, o analisando. O sorriso não está mais presente no rosto.

A discussão unilateral entre Naruto e os dois recém chegados acabou pela própria garota de cabelo rosa e olhos esmeraldas.

- Chega! Naruto, tenho que ir para casa e estar ficando tarde - Sakura anunciou interrompendo a tensão entre todos - Conversamos na academia.

- Mas… m-mas Sakura-chan… você pode dormir aqui e não precisa ficar perto desses dois pinks esquisitos! - Naruto gritou, ele queria ficar com sua amiga.

Sakura apenas suspirou com o insulto que também era dirigido a ela sem que seu amigo percebesse. Ela também tinha cabelo rosa! Ah, um dos motivos que Sakura gostava de Naruto era porque ele falava o que realmente pensava, era cativante e ao mesmo tempo irritante.

- Nos vemos na academia, Naruto.

Naruto iria dizer mais algumas coisas para impedir que sua amiga saísse com esses dois, eles davam uma sensação ruim, mas os olhos esmeraldas que o fitavam com força, o mantém calado. Naruto apenas acenou com a cabeça igual a um cachorro que foi repreendido pelo dono.

Quando Sakura já estava se virando para ir embora, ela também se despediu do outro loiro no corredor.

- Também te vejo na academia, Minato.

O garoto loiro, prodígio reconhecido e conhecido como garoto de ouro, tinha seus olhos arregalados pela despedida também ser dirigida a ele.

Enquanto Naruto reclamava baixinho por sua amiga ter ido embora, Minato só podia segurar um pouco o sorriso que começava a crescer em seu rosto, assim como o brilho vitorioso em seus olhos de safira.

Ter a ajuda de seu irmão para conquistar a atenção de Sakura foi melhor do que ele imaginava. Naruto estava certo, Minato nunca teria chegado perto de chamar a atenção dela se continuasse a interpretar o garoto perfeito, mas mostrar parte de quem realmente é, fazia maravilhas para seus planos de tê-la.

Seu irmão sempre seria o mais importante para Minato.

Eles eram uma família, uma verdadeira família compartilha tudo, não é? Sendo assim, é compreensível que Sakura Haruno seja dele tanto quanto é de Naruto. Porque Minato não acha que vai conseguir controlar certas partes de sua personalidade, como ele também não quer que sejam controladas.

O que começou com um leve interesse por algo que chamou sua atenção, estar se transformando em uma pequena obsessão. Minato só espera que Naruto não tenha puxado essa parte dele também.


O distrito estava movimentado como sempre, vivo de cores e estabelecimentos abertos. Sakura tomou um caminho pouco movimentado e onde só havia os velhos do clã. Os mesmos que tinha seus olhos seguindo cada passo que ela dava em direção a sua casa, principalmente devido a companhia que não a abandonou por nenhum segundo.

Suas emoções estão à flor da pele por causa desses dois bastardos, eles não podiam ser iguais ao resto dos membros de seu clã, esse que era famoso por cada um cuidar da sua própria vida ?!

A sorte de Sakura era que ela tinha a Inner para manter suas emoções sob controle, o lado ruim era que não conseguiam interagir nessas situações.

A porta de sua casa se aproximava mais rápido do que desejado, antes que sua mão fosse levantada para abrir e poder entrar, assim como se livrar de seus dois psicopatas, uma mão maior abriu por ela, infelizmente.

- As damas são primeiras, Hime-chan - Arata falou divertido enquanto abria a porta e fazia uma reverência.

Sakura não se dignou a responder ou olhar para a atuação à sua frente, ela apenas entrou com a cabeça erguida e passos calmos.

- As crianças de hoje em dia são tão fofas, Arata!

- Tenho que concordar com meu irmão, Hime-chan.

Sakura ignorou ambos e se dirigiu para sua sala.

Os gêmeos só puderam compartilhar um sorriso entre eles, era divertido mexer com a pequena Haruno. Eles a seguiram até a sala e observaram como ela simplesmente sentou na poltrona como se fosse um trono e com brilhantes olhos esmeraldas.

Akira se divertiu com a imagem que essa ação proporcionou em sua mente distorcida e maluca, não tinha dúvidas que seu irmão imaginava o mesmo.

O silêncio que tinha assumido o comando foi interrompido pelo som de um papel sendo desdobrado.

Sakura observou o Akira tirar um papel do bolso e desdobrar, assim percebeu certa semelhança com uma certa folha que ela tinha entregado a Kyoko de madrugada.

- Não sabia que tinha membros do nosso clã que roubava entre nós - Sakura não estava preocupada com o conteúdo do papel, ela estava preocupada do porquer eles o pegaram.

- Mas, nós não roubamos ele, Hime-chan! Apenas pegamos emprestado por um tempinho - Akira exclamou com olhos dourados brilhando com um pouco de loucura.

- Meu irmão está certo, Hime-chan - Arata continuou - Só ficamos interessados nele.

Sakura não acreditava em nenhum deles dois e tinha um mal pressentimento sobre isso.

Akira se aproximou da pequena garota que não demonstrou nenhum medo em seus fascinantes olhos de fogo verde. Ele parou diante dela e se ajoelhou para poder ficar na mesma altura. Colocou o papel em seu colo e permaneceu olhando para aquelas poças de esmeraldas tão encantadoras. Ele queria ver de perto a reação dela depois de dizer o porque eles estarem aqui e terem o papel.

- Você ver… só queremos avisar que esse papel não tem mais serviço e propósito. Afinal, eu e meu irmão decidimos que a partir de hoje iremos te ajudar.

Sakura ainda não entendeu onde eles queriam chegar e ela mostrou isso os questionando.

- Não vejo como isso faz do conteúdo desse papel, algo que não tem mais utilidade.

- O que meu irmão Akira quer dizer é, que as pessoas que você procura com essas habilidades para ajudar em qualquer coisa que esteja tramando, não são mais necessárias, Hime-chan - Arata explicou calmamente ao aparecer atrás da poltrona, com os braços descansando no topo.

Sakura ficou em silêncio diante da ousadia desses dois, ela estava com raiva, mas Inner estava controlando suas emoções e impedindo que elas aumentassem. Sakura pensou na situação que se encontrava. Para a forma que alguns de seu clã olharam para esses dois no caminho para casa, eles não eram qualquer um. Os gêmeos devem ser uns dos poucos que estão no topo da hierarquia do distrito.

Suas pequenas mãos pegaram o papel em seu colo, nunca deixando de ver o gêmeo a sua frente ou esquecer a presença do outro em suas costas.

Ela tinha que jogar com cuidado.

Domine e manipule a situação ao seu favor, Outer.

Ouvir a voz de Inner e seu conselho nesse momento acalmou o estado de Sakura, trazendo memórias antigas sobre os testes que seus pais faziam com ela.

Vamos jogar um joguinho com papai e mamãe, meu anjo, vai ser divertido.

Sakura ainda se lembra, assim como sente mãos fantasmas em seus ombros, as vozes mortas de seus pais dizendo como intervir no jogo e manipular seu adversário.

Seus olhos esmeraldas adquiriram um brilho malicioso e um sorriso divertido começou a surgir em seu belo rosto de boneca. Sua voz era macia e delicada ao iniciar a conversa com os dois possíveis psicopatas.

- E como vou saber que não tem membros do Clã mais eficazes do que dois desconhecidos adolescentes ? Ao meu ver, o que garante que vocês dois têm as características e habilidades escritas nesse simples papel ?

Os dois gêmeos tiveram seus sorrisos congelados, eles esperaram tudo, a criança chorar com medo deles, a criança aceitar rapidamente e até mesmo ela fugir. Porém, eles não esperaram a ousadia e postura de alguém que os está desafiando para um jogo.

Seus sorrisos ganharam um toque mais verdadeiro de diversão. Assim como seus olhos de ouro brilharam em loucura.

Sakura ficou tensa quando Arata, o gêmeo em suas costas, envolveu seu pequeno pescoço com uma mão forte. Contudo, Sakura não foi abalada e manteve seu olhar firme a pessoa a sua frente, mesmo quando sentia a respiração próxima de seu ouvido e a mão apertando seu pescoço.

Akira só pode olhar com alegria doentia para a criança que mantinha a postura de alguém que não daria por vencida, mesmo com uma mão que pode quebrar seu pescoço em segundo. Akira olhou para seu irmão, ele tinha um olhar de loucura dirigido a criança também.

Sakura Haruno era muito mais do que eles esperavam.

Akira se aproximou do rosto da pequena, seus olhos não mostravam nenhum medo ou derrota. Ele pegou uma mecha de seu cabelo rosa claro, lembrava as flores de cerejeira. Ele cheirou, tinha cheiro de rosas. Ele imagina esse cabelo coberto de sangue de inimigos mortos, uma imagem maravilhosa.

Estou decidido! Sakura Haruno é deles! Ela é perfeita para os dois, como eles são tudo familia, é justo ficarem juntos. Pelo calor passado pela marca de alma ligada ao seu irmão gêmeo, ele também concorda com seu processo de pensamento.

Vai ser tão lindo ver de perto a criança à sua frente se transformar em um monstro sanguinário no futuro! Sua mente explode com centenas de corpos sem vida a rodeando, uma alegria toma conta de sua imaginação.

Além da mão em seu pescoço e a respiração em seu ouvido, o gêmeo a sua frente agora tinha uma mão segurando seu queixo. Antes que ela fosse puxada para frente, a mão em seu pescoço sumiu e a presença em suas costas sentou no braço da sua poltrona.

Os rostos de Akira e Sakura estavam a três centímetros de distância. Com movimentos lentos, sem deixar sua mão direita abandonar o queixo da pequena, Akira pegou a pequena mão e a beijou gentilmente.

Arata, de seu lugar no braço da poltrona, pegou a outra mão livre da pequena criança e depositou um leve beijo também.

Confusão e cautela podia ser vista nas belas esmeraldas.

Arata e Akira sorriam com isso.

Depois de ter ambas suas mãos beijadas, Sakura sentiu o leve puxão em seu queixo e o roçar dos lábios de Akira no seu. Foi leve e delicado. A mão em seu queixo soltou, mas outra a puxou para o lado e logo ela sentiu outro roçar em seus lábios. Esse foi mais ousado e deu uma leve mordida em seu lábio inferior.

Sakura congelou com isso, mas antes que ela pudesse fazer alguma coisa, os dois a frente desapareceram como sombras.

Que merda?!

Sua mão limpou sua boca, aqueles bastardos! Sakura sentiu uma dor de cabeça chegando, não ajuda pelos gritos de indignação de Inner em sua cabeça. Ela suspirou com cansaço, seus pés a levaram direto para o caminho de seu quarto, passando pelo quarto vazio e trancado que pertencia a seus pais, algo em seu peito apertava toda vez, mas ela ignorava a e afastava o sentimento.

Sua preocupação agora era dormir quatro horas antes do início de seu treinamento e a academia, seria bom dormir no horário inicial da aula. A imagem de gêmeos foi esquecida de sua mente, ela lidaria com os dois psicopatas depois.