Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Merline Lovelace, que foi publicado na série de romances "Clássicos Históricos Especial", da editora Nova Cultural.


Capítulo 17

- Acha que eles finalmente virão lutar ? - perguntou Finnick, a voz parecendo muito alta no silêncio da noite. Peeta assentiu com um murmúrio, os olhos e a mente atentos nas águas escuras da baía.

Naquelas mesmas águas, a não mais de dez quilômetros dali, estava a esquadra de Esparta. Fazia uma semana que os oponentes mantinham-se ao longo de suas respectivas costas, observando, esperando. Os espartanos e seus aliados passavam o tempo todo treinando, para assegurar-se que estavam de fato bem preparados para a batalha iminente, enquanto os atenienses esperavam com ansiedade profunda o reforço que não chegava.

Agora, no entanto, parecia que os espartanos tinham decidido que era tempo da espera terminar. Há menos de uma hora um pequeno barco a remo, para duas pessoas, que os atenienses tinham enviado para fazer um reconhecimento, chegara com a notícia de que o inimigo embarcara. Escondidos a segura distância, os espiões tinham conseguido ouvir os ruídos característicos dos barcos sendo levados para a água e de soldados embarcando.

Os olhos de Peeta deslizaram para as silhuetas dos marinheiros que trabalhavam no mastro principal do Tétis e para os outros, que preparavam os conveses para a luta. Eram todos bons homens e naquele dia lutariam a maior batalha de suas vidas. Voltou-se para os oficiais reunidos atrás dele no convés alto. Um sorriso frio, de predador, surgiu em seus lábios.

- Sim - respondeu por fim confirmando também com um movimento de cabeça - , acho que os espartanos finalmente virão lutar. Parece que teremos uma boa caçada hoje.

O homem do leme, grandalhão e musculoso, passou os dedos pelo alto do nariz.

- Nossas vinte embarcações quase destroçadas, contra setenta e tantos barcos novinhos em folha, com tripulações descansadas... - ele fez uma pausa e emitiu um gemido de satisfação, para acrescentar: - Se não conseguirmos dar voltas ao redor daqueles espartanos pesadões e de cabeça dura, eu juro que vou comer minha melhor túnica !

Outro oficial soltou uma risadinha:

- Se não fizermos círculos ao redor deles, você não vai sequer conseguir ser enterrado com sua melhor túnica !

Peeta ficou ouvindo a conversa sem consistência dos homens, sabendo muito bem que as palavras brincalhonas encobriam uma elevada coragem que já tinham provado possuir e que era temperada pelo reconhecimento sóbrio de que não havia muitas chances a favor deles. Por fim, achou que era hora de interferir e comandou:

- Tomem suas posições e assegurem-se de que todos os homens estão prontos. Vou fazer a libação e iniciar o ataque, assim que o almirante Cinna der o sinal. Finnick, quero falar com você.

Trocando murmúrios de boa sorte, os oficiais foram cuidar de seus afazeres. Por um momento, Peeta e Finnick ficaram sozinhos no convés.

- Estou contente por ter você comigo nesta batalha - disse o capitão.

- Não tão contente quanto eu por ter você novamente como meu comandante.

Peeta sorriu:

- Custou-me minha melhor adaga transferir você para o Tétis, mas valeu a pena. Parece que a luta vai ser boa.

- Sim.

Os olhos deles se encontraram. Os dois, ligados por parentesco, por um casamento e pelo vínculo que só guerreiros que combateram juntos podem ter entre si, seguraram um o antebraço do outro.

- Que os deuses cuidem bem de você, Finnick.

- E de você também, Peeta - emocionado, o tenente fez silêncio, depois limpou a garganta e pediu: - Se eu não voltar, cuide de minha mulher... pelas últimas notícias que recebi, Annie está bem.

O espectro que flutuava sobre a esquadra desde que tinham ficado sabendo da epidemia que assolava a cidade desceu para junto deles.

- Cuidarei de minha irmã se você cair - disse Peeta com determinação - E você fará o mesmo por minha filha e mãe, se elas sobreviverem à doença.

- Eu o farei.

- E vou lhe pedir mais uma coisa - os olhos azuis fixaram os verdes, do jovem oficial - , de irmão para irmão.

- Pode dizer.

- Se eu não voltar, leve Katniss para qualquer lugar que ela desejar ir.

- O quên ? Depois do que sua mãe passou para salvar a vida dela e casá-la com você, quer que Katniss vá embora ?

Os lábios de Peeta se ergueram.

- Não. Apenas quero oferecer a liberdade à pantera que aprisionei.

- Pois sim ! É mais provável ela me acertar de jeito a cabeça e fugir por conta própria. Mas sossegue. Se for preciso, farei o que está pedindo.

Peeta ficou no convés, sozinho, enquanto Finnick foi ocupar sua posição na proa. Envolto nos primeiros pálidos albores do dia que se anunciava, dedicou alguns momentos às preces pessoais e a revisar seus medos. Suas mãos apertaram com força a borda do barco enquanto pensava no longo caminho que percorrera para chegar àquele instante da vida. Nunca, nunca estivera tão dividido entre o dever e os anseios pessoais.

Como guerreiro, aguardava ansioso a batalha que se anunciava, determinado a honrar a si mesmo e à sua cidade. Mas como filho, como pai, como marido, queria erguer as velas no mesmo instante e voltar a toda velocidade para Atenas. O desejo de proteger suas mulheres era a essência do seu ser. Mas o dever para com a cidade o mantinha ali, longe delas. Não podia correr em auxílio da família, nem conseguira arrumar um modo de suas mulheres saírem da cidade num barco. Péricles requisitara todas as embarcações particulares para atenderem ao suprimento da cidade sitiada, e ordenara que todos os homens capazes fossem postar-se nas muralhas para repelir aos impetuosos e selvagens ataques do exército de Naxos.

As poucas notícias que chegavam à Frota Oeste indicavam que estrangeiros e até escravos lutavam nas muralhas, jogando pedras e piche fervente sobre os aríetes protegidos por couro e as odiosas catapultas.

Enquanto o inimigo criava confusão e ameaçava a cidade do lado de fora das muralhas, a morte grassava do lado de dentro. Estar ali, tão longe, enquanto suas mulheres lutavam com um inimigo ainda mais duro do que os espartanos o deixava angustiado e dividido. Muitos outros homens na frota sofriam do mesmo modo, torturados pela impossibilidade de providenciar a segurança de suas famílias e afligidos pelos poucos relatos que chegavam delas. Peeta recebera um pergaminho dobrado e sujo, cerca de uma semana antes, escrito apressadamente pelo escriba de sua casa, sob ordens de Katniss. Ela assegurava que Valerie estava bem, assim como sua mãe, apesar da senhora Cassandra ter emagrecido muito: estava que era quase só pele e ossos, no tremendo esforço de cuidar dos doentes o tempo todo. Enumerava rapidamente as perdas e terminava com uma mensagem enigmática: ela própria, afirmava, estava bem. Sentia-se forte e tinha decidido que não ia aceitar simplesmente os caprichos dos deuses.

A última sentença mantivera Peeta bem acordado durante os longos turnos de vigia da noite. Será que ela decidira voltar para Naxos ? Com Atenas naquele caos assustador, uma pessoa com a coragem e determinação dela poderia facilmente descobrir um jeito de passar pelas muralhas e chegar às linhas inimigas. Será que decidira repudiar o casamento, como ameaçara fazer ? Esta possibilidade... não, probabilidade, fez Peeta apertar com tanta força a borda do barco que suas unhas se enterraram na madeira. Apesar de ter pedido a Finnick para ajudar Katniss a reconquistar a liberdade, caso ele não sobrevivesse à batalha que travariam, a idéia de que talvez ela já tivesse ido embora de sua casa punha um doloroso vazio em seu coração.

Apesar disso, naquele momento, nas últimas horas antes da luta, talvez nas últimas da sua vida, ele reconhecia que não tinha direito de retê-la contra a vontade dela. Havia separado Katniss de tudo o que ela gostava, mantivera-a confinada num modo de vida restrito, que não lhe permitia extravasar sua energia vital, e fazendo isso acabara por colocá-la à mercê de uma doença mortal.

Enquanto os primeiros toques de vermelho surgiam no céu da manhã, postos pelo Sol que logo surgiria no horizonte, Peeta fez um juramento a qualquer deus que estivesse escutando: se sobrevivesse àquela batalha, se Katniss sobrevivesse à morte que a ameaçava, ele mesmo iria cortar o bracelete de ouro do pulso dela e a libertaria.

- O mastro principal e a vela principal estão na praia, capitão.

Peeta voltou-se, em sobressalto. Acabara o tempo para pensar em seus dolorosos problemas particulares. Indagou, com voz firme:

- Removeram todos os barris de água e baús de estocagem ?

- Sim, senhor. O Tétis está tão leve quanto uma pena de gaivota e voará tão bem quanto ela.

Peeta retribuiu a saudação do segundo oficial e desejou ao companheiro uma boa caçada. Em seguida, chamou seu ordenança, protegeu a cabeça com o capacete de visor pontudo e conferiu o cinto de couro que mantinha unidas as duas metades de sua couraça sem adornos. Ao contrário do traje cerimonial, marcante pelas cores fortes e brilhos, a armadura de combate não possuía ornamentação elaborada, era igual às armaduras de todos os soldados. Oficiais eram os alvos preferidos de arqueiros inimigos. Aqueles que tinham conhecimento de batalhas não viam razão para aumentar o risco alardeando seu posto, chamando a atenção dos inimigos com enfeites de ouro ou bronze polido.

Certo de que a couraça estava devidamente fixada e que a espada deslizava facilmente na bainha de couro lubrificada, Peeta ajoelhou-se para conferir o protetor das canelas. Não queria de forma alguma tropeçar em peças soltas de sua armadura, quando estivesse abordando um barco inimigo. Preparado, desceu pela abertura entre os conveses, para verificar a disposição da tripulação. Com a chegada da manhã e da batalha, as frustrações e medos que os havia dominado nas últimas intermináveis semanas tinham desaparecido. Os homens brincavam uns com os outros, contando vantagens sobre como matariam o inimigo e inflamando os ânimos para a luta. Cada qual procurava controlar a seu modo o medo de que, quem sabe, aquela fosse a última vez que sentava-se ao remo, antes de fazê-lo para atravessar o rio Styx.

Um orgulho vigoroso expandiu-se no peito de Peeta diante da demonstração de coragem de seus homens. Pelos deuses ! Iam encarar um inimigo quatro vezes mais numeroso, no entanto fariam o oponente sofrer como nunca. Uma luz fraca surgiu no barco do almirante. Assim que a percebeu, o capitão subiu para o convés da proa e atraiu a atenção da tripulação, com a voz poderosa:

- Escutem-me, homens do Tétis. Dentro de poucos instantes o almirante Cinna vai se dirigir à esquadra. Ele lhes dirá que somos poucos contra inúmeros e corajosos espartanos. Vai lhes dizer, também, que os nossos inimigos aprenderam uma boa lição com a derrota de seus aliados em Chalcis, portanto não usarão novamente a tática do círculo. Sabem que se o fizerem, cairemos sobre eles. Desta vez vão atacar, mas eu não sei dizer se virão direto para nós ou se tentarão nos atrair para as águas fechadas do golfo, onde nossa velocidade e tática seriam prejudicadas.

Sua voz se ergueu, acompanhada pelo eco das vozes dos outros capitães, que, em cada uma das outras dezenove naus, exortavam seus homens a lutar.

- Mas o que sei é que, seja como e quando for que os espartanos ataquem, nós acabaremos com eles ! Para cada flecha que os arqueiros deles dispararem, os nossos dispararão cinco. Para cada marinheiro que tentar saltar para nossos barcos, cinco dos nossos abordarão os deles. E para cada barco nosso que tentarem afundar, nós afundaremos cinco dos deles ! É isso o que espero de vocês, homens do Tétis. Cinco troféus ! Cinco vitórias !

A tripulação gritou, repetindo o número mágico cinco, como se fosse um talismã.

Uma estreita fímbria de Sol apareceu sobre as colinas, e Cinna tomou posição no convés plano de seu barco. Aos poucos as tripulações se calaram.

Como Peeta tinha previsto, o almirante não fez esforço algum para esconder o número elevado de inimigos. Em vez disso, falou da habilidade dos atenienses e pediu aos homens que rezassem por ventos fortes e mares agitados, a fim de confundir os espartanos. As experientes tripulações de Atenas sabiam lidar com qualquer tipo de mar que os deuses resolvessem produzir. Os espartanos, menos habilidosos, não conseguiriam o mesmo.

Peeta fez a libação. Os flautistas iniciaram um ritmo lento. Um a um os barcos deixaram a praia foram se afastando da terra, formando uma longa linha de esguios e mortais predadores, o Sol da manhã refletindo nas lanças metálicas de proa.


Pouco tempo depois, ficou claro que as preces dos atenienses não seriam atendidas. O vento permanecia fraco, enquanto o céu mudava de púrpura escuro para um tom rosado. Chegou a informação de que o inimigo erguera âncoras assim que o Sol tingira de dourado as águas do golfo. Em quatro longas colunas uma ao lado da outra, os espartanos e seus aliados seguiam pelos estreitos que levavam ao Golfo de Corinto e à base ateniense de Naupactus, logo após.

Cinna ordenou que seus barcos seguissem junto à costa norte, em fila, pedindo cada vez velocidade maior. Se não obrigassem o inimigo a lutar ali, em águas abertas, teriam de ultrapassá-los no golfo para proteger Naupactus. Na costa, os soldados com armamentos pesados faziam o possível para acompanhar a pé os barcos atenienses. Todos os homens a bordo esforçavam-se para enxergar ao longe: entre os promontórios que formavam os estreitos. E ali, a não mais de dois quilômetros, encontrava-se a esquadra espartana. Como se estivessem esperando que a primeira nau ateniense surgisse, a impressionante linha de barcos virou-se.

A coluna por quatro formou uma sólida falange de proas recurvas e bicos mortais, todos apontados e se aproximando com velocidade para as laterais dos cascos atenienses.

Peeta respirou fundo. Nunca imaginara que os espartanos fossem capazes de tal ousadia. Que atacassem ali, no ponto mais estrangulado dos estreitos. Era um movimento ousado, inesperado. Não havia espaço para os atenienses virarem e darem a volta neles; a única coisa que podiam fazer era tentar escapar de serem prensados pelos espartanos contra penhascos rochosos.

- Dobre o ritmo ! - gritou Peeta.

Conteve a respiração enquanto o oficial do tempo, acompanhado pelas notas agudas da flauta, aumentava o ritmo das batidas que ditavam a velocidade em que os remadores deviam trabalhar. No grupo que ficava mais ou menos na metade do barco, Peeta viu o sorriso de Thresh e uma mensagem passou de um homem para outro. Os músculos poderosos do enorme marinheiro esforçavam-se ao máximo, o suor escorria-lhe pela testa e fazia a pele brilhar. Atrás e abaixo dele, os outros remadores acompanhavam-lhe o ritmo. O Tétis avançou em velocidade pelo estreito, sendo o último barco da linha ateniense a escapar dos espartanos.

Olhando para trás, o capitão assistiu, com fúria selvagem e contida, os nove barcos que vinham atrás do Tétis ser empurrados pelos inimigos contra a costa rochosa. Guerreiros espartanos, com suas capas vermelhas, saltavam para os barcos atenienses, entrando imediatamente em combate. Diante do número muito maior de espartanos que os atacavam, vários marinheiros atenienses atiraram-se no mar e saíram nadando para a costa, onde poderiam lutar contra o inimigo em melhores condições.

A tripulação do Tétis observou, tomada pela raiva, os espartanos lançarem cordas nos cascos abandonados e começar a rebocá-los.

De súbito, quando os resmungos de ira e decepção se transformaram em gritos de encorajamento quando a infantaria ateniense entrou na água rasa, foi até às embarcações e subiu a bordo. Gritos e estranhos sons de metal contra couro foram levados pelo vento fraco até os que assistiam, enquanto o furioso combate corpo-a-corpo prosseguia.

Oferecendo aos deuses uma prece fervorosa pela infantaria, Peeta fixou a atenção nas embarcações inimigas que agora percorriam o estreito. Era fácil ouvir os remadores espartanos cantando, enquanto perseguiam o resto da esquadra ateniense.

Uma rápida olhada pelo golfo foi o bastante para o capitão compreender que a situação dos atenienses era desesperadora.

Não tinham espaço e nem tempo para manobrar. Os dez barcos adiante do Tétis eram impelidos furiosamente na direção do porto da base de Naupactus. Quando chegassem perto, com certeza iriam voltar-se de frente para o inimigo e defender a base a qualquer custo.

Estreitando os olhos por causa do reflexo do Sol da manhã na água, o capitão divisou um barco mercante solitário, bem na saída do porto. No tempo de uma batida do coração, decidiu: se conseguisse fazer os espartanos irem atrás dele, se os fizesse romper a fila, talvez os outros atenienses pudessem tirar algum partido da desordem que então se estabeleceria na esquadra inimiga.

- Ali ! - sem hesitar, ele gritou para o oficial do leme - Vá para aquele barco mercante.

O homem ficou imóvel por um momento, os ombros retesados pelo esforço de manter firmes as duas pás do leme, os olhos firmes nos do comandante, tentando entender o que acontecia.

Então, um sorriso surgiu no rosto vermelho e coberto pelo suor.

- Sim, capitão ! - berrou de volta, inclinando o corpo para o lado.

- Lado esquerdo, erguer remos ! - comandou Peeta. O segundo oficial repetiu o comando e as três fileiras de remos de bombordo, prateados por causa da água, ergueram-se alto no ar. O barco virou rapidamente para o novo rumo.

- Capitão - alguém disse, instantes depois - , a nau capitânia deles está nos perseguindo - diante dessas palavras exultantes do segundo oficial, Peeta olhou para trás. A proa metálica de um dos barcos inimigos virara na direção deles e em segundos foi imitado por uma fileira de outras naus. Estavam tão perto, a não mais de setenta e cinco metros, que Peeta podia ver o rosto do comandante espartano curvado para a frente, na proa. Era jovem, de traços bonitos, cabelos castanhos e forte. O enfeite vermelho de almirante tremulava ao vento, em seu capacete de bronze. Sentindo que sua energia redobrava, o capitão ateniense conscientizou-se, nesse momento, que ia enfrentar Cato, filho de Naxos, primo de Katniss, e teve certeza que apenas um deles iria sair vivo daquela batalha.

- Remem, homens ! - gritou, com voz retumbante - Remem com todas as forças !

Respondendo ao comando, a tripulação remou com mais energia, gemendo por causa do esforço. O Tétis cortava as ondas. O casco maciço do barco mercante erguia-se diante deles. Remos ergueram-se. Os conveses se inclinaram. O Tétis contornou a embarcação parada num ângulo impossível e em velocidade inimaginável. Cada homem a bordo conteve a respiração enquanto a água entrava pelos buracos dos remos.

Depois de longuíssimos segundos o barco se endireitou, terminou de contornar a nau mercante e dirigiu-se para o barco espartano. Ao comando de Peeta, os remadores deram mais um poderoso impulso e ergueram os remos. O Tétis aproximou-se do barco inimigo a toda velocidade. O aríete mortal acertou o casco do outro barco pela metade. Ao som de madeira quebrando e gritos dos marinheiros esmagados, juntaram-se os ruídos da batalha.


Katniss endireitou o corpo, apoiou as mãos nas costas para aliviar a dor que sentia na coluna e continuou a olhar por cima do ombro do mercador que trabalhava com o ábaco. Por fim, o som das pedrinhas de marfim batendo umas contra as outras, o homem terminou de fazer as contas e ergueu o rosto.

- Este total é menor que o de ontem - disse ele, com ar muito sério.

A espartana assentiu e os dois outros homens, de pé atrás dela, suspiraram em conjunto.

- É o quarto dia consecutivo em que o total baixa - comentou o mercador.

- Sim.

Um homem velho, cuja espinha recurva teimava em não obedecer à ordem de seu espírito vivo e ativo para endireitar-se, adiantou-se a fim de indagar:

- Qual é o número exato ?

- Menos de cinqüenta corpos hoje. Exatamente quarenta e três.

Enquanto uma frágil luz de esperança atrevia-se a brilhar nos olhos dos homens ao redor, Katniss deixou que a mesma emoção corresse em suas veias. Mas só por alguns instantes, e logo a reprimiu. Ainda era cedo demais para ter esperança.

Ainda havia lamentáveis pilhas de mortos a serem honrados, centenas de doentes que precisavam de atenção, mães chorando e crianças assustadas a serem amparadas e confortadas. Com tudo o que tinham de encarar, era cedo demais para acreditar que o terror estava chegando ao fim.

No entanto, era difícil o coração escutar a mente. Uma leve esperança firmava raízes em seu íntimo, enquanto ela observava seus valiosos "tenentes" e os via lutar contra as próprias emoções.

Era um grupo estranho, esse pequeno bando que se reunira para ajudá-la. Um velho orador, com pele sobrando no pescoço e braços; um mercador de rosto branco e olhos tristes, cujos cofres repletos de ouro não tinham sido suficientes para comprar a vida de seus dois filhos e seis netos, todos agora mortos; e o velho marinheiro de um braço só que a ajudara a organizar os jogos infantis há tantas semanas. Um grupo esquisito, reconhecia, mas eficiente.

- Minha patrulha encontrou mais três crianças hoje - dizia o mercador - , trancadas num quarto de segundo piso, com a mãe morta da doença e elas de fome. Anotei o nome do pai e os coloquei com uma família que perdeu os filhos.

- Ótimo, Woof.

Katniss sabia que nada poderia, jamais, curar as chagas que a perda da família abrira em sua alma, porém ajudar órfãos aterrorizados e famintos a encontrar abrigo nos braços de mães chorosas pelos filhos perdidos parecia estar suavizando, aos poucos, a dor que ele sentia.

- Os meus homens verificaram o cais - disse o velho marinheiro - Encontraram mais corpos, mas também sinais de esperança. Algumas das estalagens voltaram a funcionar.

Ele deu uma risadinha cansada, fazendo os outros sorrirem também.

- Alguma notícia da esquadra ? - perguntou o velho orador.

Katniss conteve a respiração. O último relatório oficial recebido em Atenas dizia que os espartanos estavam prontos para atacar e pedia desesperadamente reforços. O Conselho por fim mandara reforços, mas se tinham chegado a tempo para a batalha, ninguém sabia dizer.

- Não - respondeu o marinheiro.

Os ombros de Katniss declinaram. Não sabia se rezava para a batalha não acontecer ou se rezava para que já tivesse terminado.

Seu coração continuava dividido entre sua cidade e o marido.

- Logo teremos notícias - disse o orador, dando tapinhas confortadores na mão dela.

Ela fez força para sorrir, fitando-o agradecida, então notou os olhares de preocupação dos demais. Juntamente com a própria tristeza, todos compartilhavam do dilema pessoal dela. Katniss sentia amor e muito orgulho por seu pequeno bando, além de profunda admiração pelo incrível trabalho que tinham realizado.

Cansados e doentes como estavam, aqueles homens idosos tinham se erguido de modo espetacular contra a adversidade.

Cada um deles comandava de cinco a oito patrulhas, composta por homens adultos, também muito velhos ou com problemas físicos que os impediam de defender as muralhas, mas ainda capazes de prestar determinados tipos de trabalho. Cada patrulha verificava um setor da cidade, onde organizava e dava assistência aos moradores. Essas patrulhas ajudavam a recolher corpos para serem levados às piras, identificavam os doentes que estavam fracos demais para cuidar de si mesmos ou da família, as crianças que haviam ficado sem pais e precisavam ser recebidas num lar; faziam seus relatórios para os três "tenentes" que, por sua vez, os transmitiam a Katniss.

Nos raros momentos em que tinha tempo para pensar, ela ficava impressionada pelos resultados que sua organização informal vinha conseguindo. Quando informara a Péricles que faria alguma coisa, propunha-se apenas a recolher os mortos largados nas ruas próximas da casa de Peeta. Depois de muito insistir, conseguira a relutante autorização do estadista; então começara a recolher corpos e a levá-los para a praça da pira, com um carrinho de mão e meia dúzia de escravos assustados. Ao ver aquilo, outros sobreviventes haviam passado a ajudar ou a mandar para o trabalho, em seu nome, servos e escravos, como se precisassem agir de algum modo para amenizar a dor e terror que os dominava.

Logo os corpos que apodreciam nas ruas acima da Acrópole haviam sido removidos e o pessoal de Katniss começara a trabalhar na parte baixa da cidade.

No início os arcontes tinham enviado de vez em quando um hoplita para conferir o recrutamento de voluntários. O homem passava meia hora por dia com Katniss, verificando a organização e ia embora, até que certa manhã comunicara que não voltaria mais: ela controlava tudo muito bem, dissera o hoplita, curvando-se respeitosamente, e os serviços dele seriam mais úteis na muralha. Ela continuara o trabalho, ajudada primeiro pelo marinheiro de um braço só, depois pelo velho estadista de costas recurvadas e, por fim unira-se a eles o mercador triste. Em pouco tempo haviam constituído uma rede que envolvia a cidade inteira, todos os dias, e tinham terminado por eliminar o caos, dando alívio aos doentes e esperança aos desesperados.

Quantas e quantas vezes, na escuridão do quarto, sozinha na grande cama de Peeta, Katniss pensava no que tinha feito. Sua honra não permitia que auxiliasse de nenhum modo os atenienses na batalha contra Esparta, mas podia cuidar dos mortos e assegurar que fizessem a viagem para o submundo com o devido respeito. Esta era a obrigação pessoal de qualquer indivíduo, independente de que cidade fosse. Guerras eram comumente interrompidas e tréguas negociadas para permitir aos soldados de ambos os lados a sagrada obrigação de recolher e dar sepultura aos seus mortos. Os corpos mutilados em batalha, mesmo a ponto de não poderem ser identificados, eram honrados por qualquer dos lados que os encontrassem. Assim, Katniss raciocinava, não traía sua cidade honrando aqueles que jamais voltariam a enfrentar Esparta. Que seu esforço inicial tivesse se expandido muito além do que imaginara, devia-se à férrea determinação daqueles três homens maltratados pelos deuses.

Depois de feito o levantamento das últimas mortes causadas pela epidemia, o pequeno grupo se dissolveu, cada qual seguindo para sua casa.

Katniss caminhou pelas ruas desertas, o marinheiro de um braço só ao seu lado. Com o cair da noite e o cessar dos ataques dos espartanos, a cidade ficara silenciosa. Não havia sons de pedras colidindo com as muralhas, nem choros e lamúrias vindos de dentro das casas, com aquela continuidade enlouquecedora de antes. Era como se a cidade em si fizesse uma pausa no início da noite, para respirar em paz por um instante.

Ela entrou na casa de Peeta com uma profunda sensação de alívio e deu boa noite ao marinheiro. Cruzou o pátio e foi para o que chamavam de quarto-escuro, onde sabia que encontraria a senhora Cassandra. Ainda no princípio, tinham descoberto que a escuridão trazia algum alívio para as vítimas da doença, por isso tinham pendurado panos negros nas aberturas da grande sala de jantar, deixando-a na penumbra. Assim que seus olhos se acostumaram com o escuro, Katniss viu a matriarca ajoelhada, lavando os braços e o pescoço da mulher de um fazendeiro que havia sido atingida pela doença. A ateniense ergueu os olhos quando a nora entrou.

- Ficou fora por bastante tempo hoje, filha - comentou a senhora Cassandra.

Katniss se deixou cair num banquinho de três pernas, perto da velha senhora, e murmurou:

- Sim... - ela hesitou. Não queria criar falsas esperanças, mas precisava compartilhar a boa notícia - Contamos o total, depois refizemos a contagem duas vezes...

No rosto pálido da senhora Cassandra, os olhos fundos a fitaram implorando algum alívio, um modo de romper o ciclo de morte que os tomara a todos nas últimas semanas.

- Foram menos de cinqüenta mortos recolhidos hoje.

Juntando as mãos no colo, a senhora Cassandra sentou-se sobre os pés.

- Então quer dizer que está terminado ?

- Creio que sim - respondeu Katniss com cautela - Ainda temos novos casos surgindo todos os dias, mas são cada vez menos.

- Queira Zeus ! Acha que pode descansar agora, filha ?

Katniss fez que não e explicou:

- Posso descansar menos do que você, minha senhora. Tem trabalhado por mais tempo e mais duramente do que eu, a única diferença é que fica em casa, mas nem por isso descansa, não é ?

Seus olhos se encontraram e as duas mulheres sorriram, lembrando das rígidas regras da senhora Cassandra que proibiam qualquer mulher decente de sair de casa. Agora, essas preocupações pareciam pertencer a outra vida, outra era.

- Ainda assim, precisa descansar - insistiu a aristocrata ateniense - O bebê que cresce em seu ventre absorve muito das suas energias, apesar de você não notar. Está realmente muito, muito magra, criança.

Katniss cruzou os braços sobre a barriga, que ainda quase não se notava.

- Tenho dificuldade em comer, senhora. É o exercício que faço andando pelas ruas que me permite comer um pouco.

- É um milagre, não é ? - perguntou Cassandra, suavemente - Uma nova vida em meio a toda essa morte...

- Sim - suspirou Katniss.

Seus braços se fecharam de forma protetora sobre o ventre.

Naquele momento não lhe importava que seu bebê fosse de sangue misturado, que viesse a ser um pária tanto em Esparta quanto em Atenas. Tudo que lhe importava era que trazia uma vida dentro de si, um filho de Peeta. Se ele não voltasse para ela, pelo menos teria esse filho dele, o que era prova de que podia haver alegria mesmo nos momentos mais desesperadores.

- Alguma novidade da frota ? - perguntou a matriarca, como se tivesse lido a sua mente.

- Não, nada...

Diante do tom contido de Katniss, Cassandra tocou-lhe um braço e sorriu com doçura.

- Não se desespere, criança. Meu filho é cabeça-dura demais para morrer antes de resolver essa questão entre vocês dois.

- Não pode ser resolvida, mesmo que ele queira - respondeu ela, triste - Ele é de Atenas. Eu sou de Esparta. Não podemos negar nossas origens.

- A origem de alguém importa muito menos em tempos como o que vivemos. É o futuro que conta, filha, não o passado.

Ela apenas assentiu, não querendo discutir com aquela mulher que se tornara sua amiga e companheira querida. Endireitou o corpo, procurando soltar os músculos enrijecidos, enquanto a senhora Cassandra terminava de lavar a mulher doente. Distraída, começou a girar a pulseira de ouro no braço esquerdo; era um hábito que adquirira e repetia sempre. O bracelete movia-se com facilidade, solto, no pulso magro; seu brilho dourado era quente e reconfortante na sala escura, fazendo Katniss lembrar-se dolorosamente do homem de quem o recebera. Pelos deuses, como sentia saudade de Peeta !

Desejava demais passar os dedos nos cabelos dele, ver as ruguinhas que se formavam nos cantos dos olhos muito azuis, quando ele ria. Ansiava por escutar a voz profunda, dizendo coisas inesperadas e cheias de humor, recitando poesias. Precisava do contato do corpo dele, do seu cheiro, de sua proteção.

- Bem, está pronto.

A senhora Cassandra estava com as mãos no colo e observando, preocupada, enquanto a mulher que atendera entrava num sono agitado. Procurando ver melhor, inclinou a cabeça e o véu que lhe cobria o rosto deslizou para um lado. Katniss continuava girando a pulseira, quando por acaso olhou o pescoço da senhora Cassandra. Não conseguiu mais desviar os olhos e uma dor profunda apertou-lhe o peito a ponto de impedi-la de respirar.

Por mais que se esforçasse, não conseguia desviar os olhos das marcas vermelhas no pescoço da aristocrática ateniense.

Numa espécie de fúria gelada, conteve as lágrimas que lhe subiram aos olhos, fazendo-os arder intensamente. Um grito subiu-lhe do peito, parecendo dilacerar a garganta contraída e, para contê-lo, mordeu o lábio inferior com tanta força que um gosto de sangue espalhou-se em sua boca. A senhora Cassandra suspirou e çomeçou a se levantar. Com a mão trêmula, Katniss apressou-se a ajudá-la e nesse momento a pulseira desceu, passou com certa facilidade pela mão emagrecida e caiu no chão de mármore. Rápida, ela pegou-a, enfiou-a numa dobra da túnica e disse, gentilmente:

- Venha, mãe. Deixe-me ajudá-la.

A senhora Cassandra segurou-se na mão oferecida e se levantou com dificuldade. Uma luz quente e amorosa emanava dos olhos azuis, tão parecidos com os do filho que o coração de Katniss ameaçou parar.

- É a primeira vez que me chama de "mãe", criança... - disse a senhora, com voz embargada.

- Sim, eu sei.

A mão dela subiu para o rosto de Katniss.

- Isso é muito bom, filha.

- Fico honrada, mãe.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 18.