Tóquio, Japão - 1980
Takeshi tinha dificuldade para prestar atenção na cena. Não lembrava exatamente como começou.
Achava que depois da chegada dos órfãos, não veria mais isso. Talvez a história de que eles estariam ali como pretendentes de Saori fosse mesmo um engano.
Se Junko, do outro lado do cômodo, pudesse ler seus pensamentos, riria dessa hipótese pueril que os amigos de sua filha inventaram. Ela, no entanto, direcionava o olhar para baixo.
Ao lado de Takeshi, estava Mii, que, ao contrário dos dois, conseguia manter um postura impassível, como se nada estivesse ocorrendo. Saori estava um pouco a frente deles, virada para as visitas.
— Lamento, mas eu não quero casar.
— Senhorita Kido, veja, nossa família é uma das mais tradicionais e respeitáveis do Japão. Um casamento entre você e o meu filho mais novo seria um ganho para todos.
— Com todo respeito, senhor Kishi, falho em ver qualquer necessidade de me comprometer neste momento.
— Você ainda é jovem. Podemos apenas arranjar um noivado. Em breve, você perceberá que é também o melhor para você.
— Posso manter isso em mente, mas acredito que será mais produtivo se retormarmos essa conversa em alguns anos. Quando eu tiver percebido, quem sabe.
A cena era vergonhosa. Um homem de mais de 40 anos e uma garota de 7 discutindo noivado e casamento, e a menina parecia ser a mais sensata. Ali também estava um rapaz que deveria ter uns 15 anos, cujo semblante não deixava esconder o desconforto, mesmo que permanecesse quieto.
Takeshi, só um ano mais velho que Saori, tinha mais dificuldade com ela. Por mais que Hideki fosse arredio, ele conseguia perceber quando ela estava menos disposta. Hikari então nem se fala, dos três era quem sabia lidar melhor com a Kido. Mesmo a garota nova por vezes pedia ajuda para eles com isso.
Mas quando o assunto era casamento, até ele percebia que a atmosfera em torno dela mudava. Apesar da voz calma e da etiqueta, podia sentir que Saori rejeitava esses pedidos com a alma.
— Senhorita Kido, reflita bem–
Takeshi já não ouvia mais. Esse tipo de situação era estressante. Todos os pedidos pareciam iguais. Depois da chegada dos órfãos, as visitas e eventos na mansão Kido diminuiram. Isso porque, agora, eles montavam uma operação para que os visitantes não soubessem dos meninos. E como esconder 100 garotos? Takeshi e Junko estavam lá para ajudar a garantir que essas visitas não vissem o que não deviam. Mas, é claro, a coordenação de tudo era sempre de Tatsumi.
Ele preferia que a história de Hideki fosse verdade. Pelo menos não teria mais que ver essas cenas cansativas. Sua também já estava em outro lugar, até que…
— Takeshi?
De novo, a mente dele tinha voado longe dali. Foi o sussuro de Mii, e a leve puxada que ela deu nele que o trouxeram de volta. Mas, o "convidado adulto" da senhorita Saori estava o encarando. Isso era ruim.
— Você não vai responder, garoto?
Garoto. Mesmo naquela casa, só duas pessoas o chamavam assim. Nenhuma delas estava no recinto.
— Desculpe, senhor, eu não ouvi.
— Pff, Mitsumasa precisa fazer alguma coisa. Se não vai parecer que qualquer imigrante ilegal entra aqui.
— Eu não sou um imigrante, nem um imigrante ilegal.
— Garoto, você faz ideia com quem está falando?
— Senhor Kishi, isso não vem ao caso agora…
— Senhorita Kido, me desculpe, mas vocês precisam ensinar a criadagem direito.
— Claro, claro… mas, o senhor não devia se importar tanto com algo pequeno assim.
— Ora, a criadagem também serve como cartão de visitas. Eles precisam saber como tratar os convidados. Espero que pense bem nisso e na proposta que fiz hoje, senhorita Kido.
— Aah… vou manter isso em mente.
— Agora, tenho que ir, infelizmente. Vamos, Kouji.
— Sim, papai. Até mais, Saori.
— Eu vou acompanhar vocês.
— Ah, que velho chato!
— Calma, senhorita…
— Calma nada, Mii! E ele ainda acha que eu vou querer casar com o filho dele! "O melhor pra mim"?! Eu não quero saber se a família dele tem tradição na política!
Takeshi ainda estava no quarto quando a menina voltou, ajudando Junko a arrumar tudo.
— Senhorita Saori.
— Hm?
Ele abaixou a cabeça.
— Me desculpe pelo ocorrido agora há pouco.
— Ah! Ele é chato mesmo! Não liga pro que ele fala não… só é bom tentar não dar sorte pro azar.
— Tá…
Então estava tudo bem?
— Ele queria mesmo era me provocar porque não gostou da resposta que teve… mas ninguém dá muita trela pra ele, não! Ele dá um jeito de reclamar de tudo sempre!
— Senhorita Saori, seus professores já disseram que não é de bom tom falar assim… — Mii seguia tentando acalmar ela.
— Ahh, mas eu não consigo! Infelizmente não posso evitar o convívio.
— Takeshi, ela pode ser um pouco complicada, mas uma coisa é verdade.
— Hã?
— Ninguém leva aquele homem a sério e nem gosta dele. Ele gosta de humilhar os outros. Não ache que o problema é você. E você é tão japonês quanto a família dele.
— … É. Obrigado, dona Junko!
— Ei, não sou velha pra você me chamar assim!
— Desculpa, desculpa.
— Vamos. Acho que essa semana não tem mais convidado para aparecer aqui. Dá um sempre um nervoso por causa daqueles meninos.
— É…
Takeshi estava acostumado a ouvir esse tipo de coisa na escola, e às vezes nas festas ilustres daquele lugar. Saori nunca exatamente os defendia, mas ela também nunca usou isso como provocação. Ao contrário do Hideki, ele sentia que tinha um pouco de paz no dia-a-dia naquela casa. Mas ele também tinha mais cara de hafu. Ou talvez sequer tivesse cara de japonês. Mas uma cara não-japonesa diferente dos traços europeus de Saori que todos os membros da elite japonesa se faziam de cegos.
Sempre parava para olhar o alojamento dos tais órfãos quando passava por ali. Ele não entendia bem o que acontecia ali, apenas ouvia o que Hikari, Hideki e algumas outras pessoas falavam. Alguns meninos ali eram mais parecidos com ele, e isso o deixava curioso.
Mas até ele conseguia perceber que havia algo esquisito em tudo que era ligado àqueles meninos. As empregadas ficavam esquisita, o Tatsumi era diferente, Saori tinha algum problema com eles, e o Mitsumasa era alheio, diferente da forma como ele se envolvia com outras questões. Até a Hikari andava diferente.
As coisas são como são.
Esse saiu na força do ódio!
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