Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Merline Lovelace, que foi publicado na série de romances "Clássicos Históricos Especial", da editora Nova Cultural.
Capítulo 6
O olho dourado do Sol flutuava acima do barco que cortava as águas verdes do golfo, enquanto entravam no porto. Para o trajeto através do golfo o capitão ordenava que a vela quadrada fosse erguida. Katniss segurava-se no corrimão baixo do convés de popa e o vento que vinha de trás jogava-lhe os cabelos no rosto. Tentou controlar o medo nervoso que lhe revirava o estômago à medida que a marcha ondulante no horizonte ia crescendo até revelar uma porção de construções brancas. Atenas brilhava junto ao mar. A base do inimigo. A cidade da tribo cuja capacidade de se locomover pelo oceano lhe permitia comandar um vasto império e ameaçava a liberdade de Esparta.
Ao chegarem mais perto do porto, a silhueta majestosa da cidade dominava o horizonte. Acima das construções rodeadas pela muralha dupla erguia-se a Acrópole, sobre um rochedo longo, em formato de barco, circundado por maciça muralha fortificada e construções pintadas de branco erguiam-se sobre ele. Recortado contra o céu estava o fabuloso Partenon, para a construção do qual os atenienses haviam extorquido todo o ouro dos aliados. Com o imponente perfil de cem metros e seqüências de colunas dóricas, a construção era, de fato, tão impressionante quanto as descrições que Katniss ouvira, mas tratou de esconder a admiração quando o capitão se juntou a ela, explicando:
- Ali você pode ver o capacete de Atena e a ponta da lança dela. A estátua ainda não está pronta, mas já se tornou um marco, um símbolo de boas-vindas para os nossos barcos.
Olhando para onde ele apontava, Katniss notou o orgulho em sua voz. No entanto, determinada a não se mostrar impressionada, procurou ver o que ele indicava. Sim, lá estavam o capacete dourado e a lança erguida no ar. Apesar do que se propusera, não conseguiu conter uma exclamação. Não era de admirar que a deusa protegesse a cidade que a homenageara adotando seu nome e erguendo aquele fabuloso monumento em sua honra. Relutante em demonstrar a profunda admiração, ela virou-se de costas para a vista que empolgaria qualquer um.
- Ouvi dizer que seu administrador do Estado, Péricles, está construindo essa estátua tanto como um tributo a si mesmo quanto para a deusa - comentou, em tom de escárnio - Vocês tiraram todo o dinheiro de seus aliados para fazer esses adornos e com isso criaram vários conflitos. Seria melhor cuidar mais das muralhas, ateniense.
Os olhos do capitão deixaram a cidade e voltaram-se para ela:
- Nossas muralhas são mais do que eficientes, minha pequena.
- A força delas provavelmente irá ser testada, não demora muito.
- Elas resistirão.
A segurança que vibrava na voz dele a fez ranger os dentes. Depois, controlando-se ela afirmou:
- Não vão conseguir manter Esparta do lado de fora, quando atacarmos.
A risada que já conhecia tão bem se fez ouvir novamente.
- Minha preocupação agora é que mantenham uma certa espartana do lado de dentro ! - exclamou ele, quando parou de rir.
Katniss pensou nos calabouços escuros e úmidos onde o tio mantinha reféns políticos e sentiu um arrepio. Erguendo o queixo, encarou o capitão.
- O que eles vão fazer comigo ? - perguntou, pronta para ouvir o pior.
- Eles ? "Eles" não farão nada. Eu vou cuidar de você.
O coração dela bateu mais rápido diante do arrogante tom de posse na voz dele, mas sentiu um súbito alívio. Apesar das palavras corajosas, temia ser entregue aos estranhos dessa cidade. Já conhecia o seu captor, quer dizer, conhecia o pouco dele que conseguia compreender.
Algo do que sentia devia ter se espelhado em seu rosto, porque Peeta ergueu a mão para afastar uma mecha de cabelo que lhe caíra sobre os olhos. Os dedos fortes, cálidos, demoraram-se em sua face e depois deslizaram para o queixo.
- Não tenha medo, pequena. Vai ficar protegida na minha casa, aos cuidados das mulheres de minha família, enquanto seu destino será decidido.
Os olhos cinza aumentaram, temerosos, mas antes que ela pudesse falar qualquer coisa o oficial de proa gritou, dizendo qual era a profundidade do local em que se encontravam.
Peeta voltou a atenção para as manobras de entrada no porto.
- Baixar as velas, preparar-se para remar - disse ao segundo oficial.
O homem assentiu e distanciou-se para transmitir as ordens.
- Espere até apartarmos - pediu ele a Katniss.
Em seguida, fez um aceno rápido e deixou-se envolver pela agitação que se espalhou pelos conveses, com os homens se preparando para aportar. As enormes velas de linho desciam e os remadores assumiam posição nos bancos, enfiando os remos no mar pelas portinholas. Katniss agarrou-se com força na murada. "Aos cuidados das mulheres de minha família !" As palavras do capitão ecoavam em sua mente e somavam-se às outras emoções, fazendo seu estômago rebelde revirar-se ainda mais.
As mulheres da família dele. A esposa, era óbvio !
Tinha certeza que ele era casado. Todos sabiam da lei ateniense que determinava três requisições básicas para os capitães das trirremes. Tinham de estar com menos de cinqüenta anos, possuir terras, casa, ter filhos nascidos na cidade e vivendo nela. Assim, com a posteridade assegurada, os capitães não temeriam a morte ao partir em seus barcos, para as guerras. Tal lei era em grande parte responsável pela imensa audácia dos comandantes atenienses em combate, o que os tornara famosos.
No entanto, saber que o capitão tinha uma esposa era uma coisa, encontrá-la cara a cara era outra... Katniss deu de ombros, dizendo a si mesma que não se importava que ele dividisse a casa e a cama com uma mulher. Sem dúvida já dormira com muitas mulheres, pensou com desdém. A língua ágil e o rosto atraente com certeza tinham virado muitas cabeças. Mas não a dela, nunca !, determinou, com altivez. As palavras sedutoras da noite anterior, que haviam feito seu sangue ferver com a promessa de um apaixonado encontro de amor, mostravam-se despidas de atrativo à luz do dia. Não era uma virgem frágil e inexperiente para se deixar levar pela conversa doce de um homem. O capitão não conseguiria prazer com ela, jurou a si mesma, e poderia esperar até o dia da morte, que não iria ouvir seu nome pronunciado pelos lábios dela.
Com o estômago dolorosamente apertado pelo nervosismo que se recusava a demonstrar, Katniss observou os marinheiros que guardavam a entrada do porto; eles retiraram as correntes e ficaram em posição de sentido, saudando as embarcações que entravam. Ela passou as mãos pela túnica suja, toda manchada, e conteve um suspiro de tristeza ao pensar em seu aspecto maltratado. Tratou de lembrar-se de que era uma filha da tribo mais corajosa que havia e ergueu o queixo, orgulhosa.
Assim permaneceu durante a confusão da atracação, durante os sacrifícios oferecidos em agradecimento pelo retorno das naus e durante o trajeto de dois quilômetros do porto até a cidade propriamente dita. Desdenhando o carrinho de duas rodas que o capitão lhe ofereceu, Katniss foi andando ao lado dele pelo caminho largo que ligava Atenas ao porto. Conheceu, então, os famosos Longos Muros, as maciças rampas de pedras, separadas cerca de cem metros umas das outras, que iam do porto até o caminho que levava aos portões da cidade. Seria muito difícil um exército ocupar Atenas enquanto essa ligação com o porto existisse.
Apesar do aspecto impressionante das rampas, foi a quantidade de estrangeiros andando por elas que despertou maior admiração em Katniss. Na sociedade fechada de Esparta as visitas de pessoas vindas de terras distantes eram desencorajadas, por isso raramente via-se estrangeiros por lá. Mas a cosmopolita Atenas, um agitado porto de comércio, atraía gente de mares distantes.
Fascinados, os grandes olhos cinza fixavam-se nas barbas encaracoladas dos fenícios, com anéis nas orelhas; em seguida voltavam-se para os egípcios cuidadosamente barbeados, em suas amplas e esvoaçantes roupas de linho branco. Imensos negros núbios, com tatuagens decorando os rostos e ombros, caminhavam ao lado dos carrinhos carregados com fardos de produtos animais.
Envolvida pelas estranhas visões, ela mal notou quando o pequeno grupo do capitão, em que se encontrava, entrou na cidade de fato. Depois de passar os portões duplos, viraram à esquerda num ângulo fechado, diante da "proa" da Acrópole.
As ruas estreitas e inclinadas subiam, passando por casas de estuque, com teto plano, e alguns templos. Chegando no alto, as ruas se alargavam, as casas tornavam-se maiores e o ar mais fresco. A certos intervalos, havia estátuas e imensas fontes públicas, no centro das quais a água jorrava de enormes estátuas de mármore. Esposas, que não podiam pagar para que alguém fizesse o trabalho por elas, e escravos recolhiam água nas fontes, trocando mexericos enquanto os jarros enchiam.
Com os olhos fixos num pequeno templo, não notou que o capitão havia parado diante de uma alta porta de madeira maciça e colidiu com ele. Peeta amparou-a para que não caísse e ao mesmo tempo bateu a aldrava de bronze. Ela mal teve tempo de notar a estátua de Apolo, guardião das ruas, que havia num pequeno nicho, junto à entrada. Ouviu o ruído de uma tranca sendo aberta e a porta se abriu.
- Mestre ! Ouvimos dizer que tinham visto seu barco ! Bem vindo à sua casa !
Peeta entrou, caminhando pelo chão de mármore.
- Obrigado, Plutarch - agradeceu, sorrindo.
O homem mais velho sorriu também, de forma radiante, enquanto o capitão se curvava para soltar as sandálias. Quando Katniss entrou no hall, os olhos de Plutarch se arregalaram e ela sentiu que ficava vermelha por ser vista naquelas condições de sujeira e desleixo, mesmo por um escravo. O desconforto cresceu quando uma mulher jovem, com maravilhoso penteado, surgiu de uma passagem e correu para se atirar nos braços do capitão.
- Peeta ! Até que enfim você voltou ! Fiquei com tanta saudade !
Tensa, com o rosto rígido, Katniss ficou de lado observando o alegre reencontro. Um odor levemente almiscarado vinha da mulher que ria, feliz, nos braços dele.
- Você demorou muito ! Oh ! O que aconteceu com o seu rosto ? Está parecendo a parte de baixo de um traseiro !
- Annie ! Que vergonha ! Que linguagem ! E deixe Peeta entrar em casa para que todos possamos cumprimentá-lo como se deve !
Katniss percebeu de imediato que a matrona que surgira do outro lado do hall de entrada era a mãe do capitão. Apesar de ser uma cabeça mais baixa do que o filho e ter mais cinza do que dourado no cabelo, os olhos azuis e as feições patrícias eram os mesmos. A expressão calma desapareceu quando fitou o rosto do filho.
- Grande Hera ! - exclamou a senhora, avançando para segurar o braço dele e levá-lo para a luz do pátio, no centro da casa.
De repente, Katniss descobriu-se sozinha na entrada, pois até mesmo o homem que abrira a porta juntara-se ao grupo que rodeava o dono da casa, no pátio. Ficou parada, sem jeito e um tanto frustrada, pois não estava acostumada a ser ignorada.
Relutava em juntar-se aos outros. Tirou as sandálias, sentiu com prazer o frio do mármore nos pés descalços e esperou.
- Não, mãe, não me incomoda - dizia Peeta, depois de permitir que a mãe o examinasse - É verdade ! Incomoda muito menos do que parece.
- É ! Seria impossível, mesmo, doer do modo horrível que essa feia aparência sugere... - disse, sorrindo, a jovem, ainda agarrada a um braço dele.
Seu rosto pálido parecia iluminar-se quando ela olhava para Peeta, com evidente adoração.
- Tonta ! - brincou ele, abraçando-a com profundo carinho.
Um torvelinho de emoções desencontradas percorreu Katniss ao observar a cena. Era evidente a intimidade entre os dois. Ignorando a estranha dor no coração que esse fato causava, ela tratou de se concentrar na repulsa que se insinuava em seu espírito. Era revoltante o capitão ser capaz de abraçar e beijar a esposa, quando trazia para casa uma mulher que prometera seduzir ! Sentiu-se ferver de raiva, enquanto a jovem tornava a abraçar Peeta com entusiasmo.
- E o que você me trouxe dessa viagem, além da sua cara destruída ? O pente de outro e mármore que prometeu ?
- Annie !
O tom da mulher mais velha mostrava a Katniss que ela estava acostumada a controlar a esposa do filho.
- Não se zangue com ela, mãe ! - pediu ele - Na verdade, eu lhe trouxe um tesouro bastante incomum, Annie.
Peeta retirou o braço da cintura da beldade e voltou-se para a mulher que esperava no hall.
O corpo inteiro de Katniss enrijeceu diante daquele ultraje.
De todos os destinos que imaginara, ser dada de presente à esposa mimada do capitão não fazia parte da lista ! Se ele esperava que uma filha da linhagem real de Esparta servisse de escrava para aquela vagabunda de olhos verdes, ia ver só uma coisa !
A emoção que os pensamentos lhe provocavam devia ter ficado claro em seu rosto porque Peeta estacou abruptamente à sua frente.
- Desculpe-me por tê-la esquecido por alguns instantes - disse, confundindo a causa do aborrecimento dela.
Para controlar-se, foi preciso que ela contraísse com força os músculos das mandíbulas quando ele a segurou por um braço e levou-a ao pátio. Os pequenos punhos achavam-se rigidamente fechados e escondidos nas dobras do que sobrara da túnica.
- Mamãe, Annie, quero que conheçam a senhora Katniss. Ela é de Esparta.
Os olhos de Katniss lançavam faíscas ao contemplar os rostos surpresos com que as mulheres a fitaram.
- Uma espartana, Peeta ? - indagou Annie, impressionada - Você me trouxe uma escrava espartana ?
Diante do olhar assassino de Katniss, a jovem calou-se e sua rósea e delicada boca arredondou-se, numa exclamação muda.
Os dedos dele cravaram-se no braço de Katniss, e ela não saberia dizer se era para contê-la ou adverti-la.
- Não, não como escrava - explicou ele, calmo - Ela veio como refém para garantir a segurança do nosso retorno e ficará aqui em casa durante sua estada em Atenas.
A senhora aproximou-se, observando-a como se ela fosse uma criatura estranha e atemorizante.
- Acha que é sensato, meu filho ? Uma espartana, aqui ? Se apenas metade do que me disseram for verdade, você a quer mesmo aqui, com Annie ? E com Valerie ?
Katniss cruzou os braços.
- Não comemos carne humana no café da manhã - declarou, friamente - Só no jantar.
A mãe fitou-a com espanto e recuou um passo, enquanto Peeta balançava a cabeça, ocultando um sorriso.
- A senhora Katniss está brincando, mãe. Gostaria que atendesse às necessidades dela e lhe preparasse o quarto ao lado do meu.
A mãe franziu o cenho:
- O quarto ao lado do seu, Peeta ? Isso não é adequado, nem mesmo para uma espartana. Ela deve dormir na ala das mulheres.
- Esta dama é uma hóspede relutante. Quero que permaneça onde eu possa garantir que vá ficar.
A mãe parecia querer dizer mais alguma coisa, mas ficou evidente que preferia não discutir com o dono da casa diante de tão grande e atenta audiência.
- Como quiser - assentiu, com um suspiro.
- Obrigado, mãe. Então, deixo-a em suas mãos, enquanto vou ver minha filha. Depois devo ir prestar contas ao Conselho e, quando voltar, eu conto tudo o que aconteceu.
Peeta se curvou e beijou o rosto da mãe, em seguida cruzou o pátio com largas e felinas passadas, subiu um lance de escadas e desapareceu numa das portas do segundo andar que davam para o pátio.
Um silêncio nada agradável baixou sobre os que permaneceram. Katniss ficou imóvel, em silêncio, rodeada por um circulo de escravos auxiliares. A matrona avaliou-a por um momento antes de oferecer relutantes boas-vindas.
- Sou a senhora Cassandra e esta é minha filha, Annie. Como é desejo de meu filho, você vai compartilhar de nossos corações e da nossa casa enquanto estiver em Atenas.
Katniss não escutou o restante do gélido discurso. A mente corria, assimilando o fato de que a bela jovem de olhos verdes não era esposa, mas irmã do capitão. Então, onde estaria a esposa ? Por que não viera cumprimentar seu senhor ? Como que em resposta à pergunta, a senhora Cassandra deu um olhar de dó aos seus trajes:
- A esposa de meu filho era pequena como você, apesar de ser mais cheinha. Guardei as roupas dela quando morreu, há alguns anos. Talvez lhe sirvam... - comentou. Bateu palmas e imediatamente os nervos se agitaram - Esquentem água para banho e tragam-me as chaves do depósito. Annie, leve a... senhora Katniss ao quarto de banhos.
A hesitação deliberada da altiva senhora patrícia não passou em branco para Katniss, assim como o fato de que considerava a hóspede alguém que não merecia respeito. O orgulho da refém era muito evidente e antes que pudesse formular um revide adequado, a matriarca se afastou, deixando-a só com a irmã do capitão.
- Se quiser vir comigo... - disse a jovem, hesitando, num tom muito diferente, sem a alegria com que falava antes.
De rosto fechado, Katniss seguiu Annie até uma pequena sala quadrada, perto da cozinha. O quarto de banhos continha torneira, jarros de bacias rasas para se lavar, coisas que ela conhecia, e mais uma imensa banheira de mármore. Ficou olhando a banheira, relembrando as histórias que escutara sobre a decadência de Atenas. Para os atenienses não bastava um mergulho rápido numa correnteza fria ou um banho de mar. Não ! Eles tinham banhos, particulares e públicos, pelo que ouvira. Agora sabia que era verdade. Observou enquanto escravas enchiam a banheira com água quente que traziam da cozinha e acrescentavam óleos aromáticos. De repente, sentiu uma vontade incontrolável de livrar-se da sujeira e do sal que lhe cobriam toda a pele. Esperou, impaciente, ignorando os olhares furtivos de Annie, enquanto a banheira era enchida lentamente. Quando, por fim, a água chegou quase à borda, soltou de uma vez as faixas douradas que prendiam a túnica à cintura.
- Pelos deuses, como foi que se machucou tanto ? - afligiu-se Annie, observando-lhe os pulsos.
- Seu irmão me amarrou.
- Peeta lhe fez isso ? Nunca ! Não acredito !
- Nem eu - disse a senhora Cassandra em tom frio, entrando na sala com roupas nas mãos - Meu filho não trataria uma mulher desse modo.
- Seu filho não é mais do que um homem. E é ateniense - disse Katniss, como se isso explicasse tudo.
- E você é de Esparta - reagiu a senhora, com calma controlada - Nós não acreditamos no que sai dos lábios de um espartano.
Cassandra colocou toalhas e roupas sobre um banco, em seguida apontou a banheira.
- É melhor entrar, menina, antes que a água esfrie.
Furiosa, Katniss deixou cair a túnica e ergueu as sobrancelhas diante dos olhares que as duas mulheres lançaram aos seus tornozelos feridos. A senhora percebeu a atitude altiva e ficou vermelha, enquanto falava:
- Se meu filho a tratou dessa forma cruel, é porque você deve tê-lo forçado a isso. O que fez para que ele a prendesse assim ?
- Eu ? Não fiz nada - disse Katniss, deslizando para dentro da banheira - Não fiz nada, exceto protestar quando ele resolveu me seqüestrar.
- Ele fez isso ? Está dizendo que meu filho... a seqüestrou ?
- Duas vezes. E quase me violentou uma vez.
A declaração não era completamente verdadeira, mas Katniss sentiu um prazer selvagem ao ver o rosto da senhora Cassandra perder a cor. Como se tivesse ficado sem forças, ela sentou-se pesadamente numa banqueta ao lado da banheira.
- Violentou ? - repetiu Annie, a incredulidade estampada no rostinho bonito - Meu irmão nunca faria isso com ninguém !
Katniss lançou um olhar de pena para a jovem. Ela devia viver fechada num casulo se pensava que um homem que velejava pelos mares não tirava prazer das conquistas que fazia.
- Fique quieta, Annie - comandou a mãe, recuperando tanto a cor quanto a voz - Não é adequado você discutir sobre o seu irmão com essa... essa mulher !
- Mas, mãe, ela está dizendo que Peeta a trouxe contra sua vontade !
- Sim, ele e aquele triplamente amaldiçoado tenente ! - Katniss recostou-se no mármore morno.
Sentia-se deliciada com o banho, descontraindo-se, e não estava preparada para o modo como Annie a olhou.
- Finnick ? Finnick tomou parte nisso ? O meu Finnick ? - exclamou ela, as lágrimas enchendo os olhos meigos e descendo pelo rosto.
A raiva e o ressentimento da jovem espartana desapareceram diante da evidente dor da moça. Nunca recuara de nenhuma competição, mas ficava evidente que aquela jovem não era uma adversária à sua altura. Engoliu a vontade de dizer a Annie que o "seu" Finnick atacara uma mulher pelas costas, depois ficara insistindo com o capitão para que a matasse e a jogasse no mar.
- Não, o tenente não ajudou a me ferir - decidiu-se a esclarecer, por fim.
- Annie, vá dizer aos escravos que preparem o quarto ao lado do quarto de seu irmão. Nossa... convidada vai querer descansar assim que terminar de se lavar e comer.
Trêmula, a jovem assentiu e deixou a sala. A mãe esperou até que a porta estivesse fechada para dirigir um olhar glacial a Katniss.
- Não sei o que há entre você e meu filho ou por que ele trouxe alguém como você para nossa casa. Se deitou com você, só pode ter sido porque o tentou, apesar de eu não compreender como - os olhos azuis percorreram o esguio corpo levemente amorenado de Katniss - Mas não vou permitir que fale dessas coisas diante da minha filha. Ela foi muito bem educada e deverá se casar em duas semanas. Você não vai assustá-la, nem encher seus ouvidos com mentiras sobre o pretendente dela.
- Se está prometida ao tenente - rebateu Katniss - , ela vai descobrir logo que tipo de homem ele é.
- Criatura imprudente, ousa discutir comigo ?
A senhora Cassandra se levantou, as delicadas narinas do longo nariz aquilino arfando. Era um nariz muito parecido com o do capitão, Katniss notou. Pelo menos era, antes de Naxos mudar-lhe a forma.
Pensar no tio fez Katniss recordar o modo como fora jogada aos pés do ateniense. De súbito caiu em si: estava sozinha ali, na cidade do inimigo, à mercê deles, até que pudesse retornar a Esparta ou até o tio reclamá-la.
Com um cansaço que lhe dominava o corpo todo, ela acabou cedendo à dama ateniense. Afinal de contas, não havia honra alguma em brigar com uma velha senhora, na casa dela.
- Não - sua voz era quase um murmúrio - Não estou discutindo com a senhora.
- Ótimo. Termine seu banho e vista-se. Terei peixe e carnes à sua espera quando sair.
P. S.: Nos vemos no Capítulo 7.
