Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Merline Lovelace, que foi publicado na série de romances "Clássicos Históricos Especial", da editora Nova Cultural.

Aviso: Este capítulo terá uma cena NC-17 e, por isso, a partir daqui a classificação desta adaptação passa a ser Rated M. Bem, o aviso foi dado a todos...


Capítulo 11

Katniss acordou com a luz do Sol no rosto e o som de pombas arrulhando na gaiola. O arrulhar grave das aves penetrava em seu cérebro como o impacto de um martelo na pedra. Gemendo, sentou-se e levou a mão à testa, que doía. Mesmo à distância, os ouvidos sensíveis escutaram pés descalços movimentando-se num outro quarto.

Fechou os olhos: mesmo aquele suave som vibrava em sua cabeça como o ronco longínquo de um trovão. Flutuando numa nuvem cinza, deixou-se cair novamente sobre as almofadas.

- Ah, então finalmente acordou.

Com imenso esforço, ela abriu um olho. Uma mulher alta, elegante, com cabelos tingidos e penteados em ondas intrincadas achava-se aos pé da cama.

- Quem é você ?

- Sou Aspásia.

Katniss forçou o outro olho a se abrir também. Só então percebeu o quarto amplo, arejado e inundado pelo Sol.

- Onde estou ? - indagou num murmúrio, depois de um momento.

- Na minha casa - disse a mulher, sorrindo, com pena da confusão mental em que ela se encontrava - Peeta a trouxe aqui ontem à noite. Você estava sofrendo de uma... irritação indelicada.

A nuvem na mente de Katniss moveu-se e tentáculos de névoa ondularam na paisagem marinha de sua mente, deixando-a perceber imagens vagas, distantes. Forçou-se a pensar, a concentrar-se e as imagens ficaram mais nítidas. Lembrou-se de ruas de cidade, escuras e varridas pelo vento.

- Eu me perdi - ela começou a falar, hesitante.

As lembranças foram surgindo por si mesmas, em cenas rápidas. Um grande grupo de gente ameaçadora, gritando. Um sujeito mal-encarado, de hálito ruim, que a derrubara. Uma velha cuja boca se retorcia num arremedo de sorriso enquanto derramava um líquido em sua garganta. Uma cabeça dourada brilhando na noite, quando ela enfrentara a turba assanhada. A mesma cabeça dourada colada em seu peito enquanto ela gemia, se contorcia e implorava por alívio. Uma cama larga e macia, uma confusão de braços e pernas...

Katniss saltou da cama, os olhos horrorizados voltando-se para os lençóis amarrotados e cheios de manchas; então voltaram-se para Aspásia, num movimento muito rápido da cabeça que a fez cambalear, atordoada.

- Não, não tente usar suas forças ainda, senhora Katniss - avisou a bonita mulher - Vai precisar de muitas horas até o afrodisíaco deixar completamente seu organismo.

- Afrodisíaco !

Katniss gemeu, sabendo agora que as imagens confusas tinham sido reais, que não se tratava de criações de sua mente descontrolada.

- Sim. O que lhe deram é um particularmente forte. O capitão mal conseguia segurá-la quando chegaram aqui.

Com outro gemido, Katniss ocultou o rosto com as mãos, enquanto a risada alegre de Aspásia ressoava no quarto:

- Vamos, senhora, não é tão ruim ! Se alguém tem de sofrer os efeitos indignos de tal beberagem, que companhia melhor do que um homem como Peeta ?

Com esforço, ela levantou a cabeça e encarou a mulher:

- Você o conhece bem ?

- Se conheço o pênis dele, é isso o que quer saber ? - Aspásia riu novamente, deu o braço para a espartana e levou-a aos banhos, na sala ao lado - Não. Para minha tristeza, eu não tive esse prazer. Sou a amante de Péricles, o mentor de Peeta, e só entretenho o capitão em minha sala de visitas ou no salão de festas. As mulheres de minha casa falam muito bem de suas qualidades físicas, no entanto, e de como ele sabe usá-las.

Ela fez um sinal para as servas ajudarem Katniss e sentou-se num divã baixo para observar. Confusa e impressionada com aquela mulher tão bonita, elegante e sofisticada, Katniss permaneceu imóvel enquanto as escravas cobriam-lhe o corpo com macias toalhas mornas, para suavizar a pele. Em seguida, esfregaram-lhe vigorosamente o corpo com esponjas, a fim de livrá-lo do sono e do suor.

- E você, acha que minhas meninas têm razão ? - perguntou Aspásia, com um meio sorriso - O capitão é mesmo como elas dizem ?

- Eu... eu não lembro ! - foi a resposta de Katniss, cheia de frustração.


Peeta tratou de encaminhar-se de volta à casa de Aspásia pouco antes do Sol alcançar o zênite. Deixara Katniss dormindo profundamente e fora conversar com a mãe, para acalmá-la e garantir-lhe que estava tudo bem. Feito isso, tivera dificuldade em controlar o impulso de voltar correndo para junto de Katniss e de ir para a cama com ela.

Disse a si mesmo que não havia qualquer motivo para se apressar: provavelmente ela continuava inerte, como um pedaço de madeira boiando na água, a boca bonita apenas entreaberta e a respiração pesada por causa da droga que ainda tinha no sangue. Sorriu ao lembrar de sua pequena Tétis; deixara-a deitada, nua, no calmo abandono do sono, sobre os lençóis de linho de Aspásia. Imaginou se ela iria recordar tudo o que houvera entre eles naquela noite, quando por fim acordasse.

Quanto a si, ele sabia que nunca esqueceria.

- Que os deuses lhe garantam um bom dia, capitão. Minha senhora pede que se reúna a ela no solário.

Peeta deu uma moeda ao porteiro e atravessou o pátio. Depois de passar pelo salão principal, entrou na ampla varanda que dava para o maravilhoso jardim e o gentil cumprimento que ia pronunciar congelou-se em seus lábios.

Katniss estava reclinada num divã, vestindo uma túnica diáfana que exibia a suave pele bronzeada, mesmo através das dobras transparentes. Suas unhas se haviam tornado douradas, como os sininhos presos na bainha da túnica. Pulseiras e braceletes prateados e dourados decoravam os pulsos finos e os braços, quase à altura dos ombros. A brancura do alvaiade cobria-lhe o rosto, ressaltando os lábios vermelhos. Os cabelos negros, com brilhos azulados, achavam-se contidos por correntes e fitas douradas.

- Você voltou rápido, Peeta - comentou Aspásia.

Ele teve que fazer força para afastar os olhos da surpreendente visão e fitar a cortesã, que se ergueu de outro divã com lânguida graça, e foi ao encontro dele.

- Demorei o suficiente, pelo que parece - nunca a voz do capitão soara tão fria - Acredito que você seja a responsável por essa notável transformação.

- Não inteiramente - Katniss falou antes da cortesã - Eu também ajudei.

Enquanto falava, ela se levantou, mas não tão graciosamente quanto Aspásia. Um de seus pés prendeu-se nas dobras da túnica longa e teve que chutar o tecido para equilibrar-se, o que fez os sininhos soarem. Com andar inseguro, chegou até diante dele. Peeta percebeu uma raiva gelada nos olhos cinza e seu coração se expandiu: sob toda aquela pintura e perfume ainda existia a sua beligerante Katniss. Tinha quase certeza de saber por que havia tanta fúria naqueles olhos, mas decidiu que era melhor deixar que ela desabafasse e fizesse suas reclamações em particular. Tomou-a por um braço e inclinou-se cortês, mas brevemente, para a dona da casa.

- Se nos der licença, gostaria de conversar com a senhora Katniss no quarto que tão bondosamente lhe cedeu, Aspásia.

Katniss tentou livrar-se da mão dele.

- Vamos conversar aqui mesmo, ateniense. Não quero retornar àquele quarto...

- No entanto, é o que fará - determinou ele, impassível.

Rígida, ela foi quase arrastada do solário pelo salão. Quando chegaram ao quarto, debateu-se mais uma vez e ele soltou-a. Fuzilando-o com o olhar, Katniss mal conseguiu falar, de tanto ódio:

- Se continuar me puxando e empurrando desse modo vai acabar perdendo o uso desse seu braço, ateniense porco e arrogante !

Peeta fez as servas deixarem o quarto com um aceno, trancou a porta, cruzou os braços e encostou-se nela.

- Não foi bem disso que você me chamou ontem - sorriu, calmo.

Ela virou-lhe as costas, mas não tão depressa que ele deixasse de notar que seu rosto ficara vermelho por baixo da pintura.

- Não lembro do que o chamei ontem à noite ! - tentou reagir.

- Lembra, sim. Foi antes da droga dominar sua mente e aquecer seu corpo. Você disse meu nome, implorou para que eu a ajudasse.

- Não fiz isso !

Peeta assentiu com a cabeça, antes de afirmar:

- Fez sim. Tenho Thresh como testemunha, se não acredita em mim.

- Sei ! Aquele homem ?! Ele é capaz de jurar que qualquer coisa que você diga é verdade. Não vale como testemunha.

Depois de pensar um pouco no que dizer, Peeta falou, com expressão solene:

- Há também a velha bruxa, Sae... acho que é esse o nome. Se eu lhe der as moedas que ela planejava ganhar vendendo o seu corpo, tenho certeza que dirá como foi que me chamou.

- Se der moedas a ela, vai dizer qualquer coisa que você queira !

Peeta não conseguiu mais conter o riso. Cruzou a distância entre eles, parando a milímetros dela.

- E o marinheiro bêbado, aquele cuja orelha você mordeu. Se procurar na frota, tenho certeza de que acharei alguém sem um pedaço de orelha e tenho certeza que ele vai jurar que você me chamou pelo nome.

Katniss enfrentou os olhos que a faziam pensar na luz do Sol refletindo-se na água do mar num dia de verão e teve que esforçar-se para se controlar. Como ele fazia aquilo ? Como era possível que aquele brilho divertido, alegre, nos olhos dele conseguissem dissolver toda a raiva e a dor que lhe oprimiam o peito, como um médico removia os tumores malignos do sangue ?

- Ou aquele outro que sentou em cima de você - continuou ele, sorrindo - Não duvido que ele tenha ficado com cicatrizes eternas como recordação daquele breve encontro e, assim, poderá ser localizado com facilidade. Ele pode falar por mim.

Katniss balançou a cabeça, desconsolada:

- Pelos deuses, ateniense ! Eu me vesti como puta e pintei o rosto para mostrar a que me reduziu e em vez de mostrar vergonha ou um mínimo de remorso por ter feito isto comigo, você me provoca !

O sorriso dele se alargou e ela enfureceu-se ainda mais:

- Não é caso para risadas ! Perdi minha honra !

Ele estendeu os braços, enlaçou-a pela cintura e puxou-a para si.

- Escute-me, Katniss - seu rosto se tornara sério - Você não perdeu nem a honra, nem a dignidade. Nós só nos deixamos levar e dançamos a música que os deuses fizeram para nós, a música que começou na primeira vez em que a vi surgindo das ondas. Podemos chorar o nosso destino ou rirmos, felizes com ele.

- Oh ! Pelo amor de Zeus ! Eu devia saber que você ia fazer alguma porcaria de poesia depois que me tivesse nos braços ! - a proximidade era tanta que ela sentiu a gargalhada se formando no peito dele.

- É assim que as odes são feitas, pequena Tétis.

- Hum... acho que até eu poderia fazer uma... se lembrasse alguma coisa do que aconteceu !

A risada explodiu, vibrando no quarto, e ele a ergueu nos braços:

- Desta vez vai lembrar, querida. Eu garanto.

Enquanto a carregava no colo, os olhos de Katniss mergulharam nos dele e ela soube que estava perdida. Aquele brilho diabólico, muito azul, a chamava para juntar-se a ele na dança com o destino. Era um desafio. Katniss atendeu ao chamado e aceitou o desafio, indo contra a própria determinação, contra tudo o que tentara preservar bravamente naqueles dias turbulentos, confusos e frustrantes. Um sorriso suave, relutante, curvou-lhe os lábios quando ele a colocou sobre a cama e juntou-se a ela. "Pelos deuses, como é gostoso !", maravilhou-se, encantada, da perspectiva ao amor à luz do dia, com as pombas arrulhando e som do riso alegre de um homem. Enquanto soltava as correntes e fitas que lhe prendiam os cabelos, Peeta murmurava descrições extravagantes da beleza dela. Tudo acontecia sem pressa, sem agitação, lenta e docemente. Com uma habilidade que ela julgou resultante de muito treino, ele a despiu primeiro e depois tirou a própria roupa. De súbito, o ar da tarde que entrava pela janela alta provocou arrepios ao tocar-lhe a pele nua; os mamilos enrijeceram, atraindo a imediata atenção de Peeta, que se apoiou num cotovelo e explorou-os com lábios que tinham suavidade de pluma.

Katniss deixou-se ficar deitada de costas e observou-o entre os cílios. Os raios do Sol colocavam um contorno de ouro nos braços e peito bronzeados. Satisfazendo um desejo há muito reprimido, ela ergueu a mão e passou os dedos pelas clavículas salientes, depois pelos ombros e braços. Os músculos dele vibravam ao seu toque e o corpo dela correspondeu com uma gostosa sensação no ventre. Quando a mão máscula envolveu um seio, ela respirou fundo.

- Tem idéia de quanto desejei fazer isto ? - murmurou ele.

Desceu um pouco a loira cabeça e acariciou o mamilo endurecido com os lábios.

- Tanto quanto ansiei que o fizesse - respondeu ela, a voz trêmula, quase um gemido.

A doçura deu lugar à pura sensação erótica. Agulhas de fogo manifestavam-se em partes do corpo que ela nunca soubera que tinham ligação com os seios. O prazer lânguido, insidiosamente calmo que ela sentia começou a aumentar de intensidade. Quando ele mordeu o mamilo com delicadeza, o corpo esguio arqueou-se por conta própria, em imediato reflexo.

- Mãe sagrada dos deuses ! - balbuciou ela, toda trêmula.

Ele meio riu, meio gemeu, e sugou primeiro um dos pequenos e macios montes que elevavam-se sobre o corpo dela, depois o outro.

Quando Peeta passou um braço pela cintura dela e a ergueu, de forma a poder beijá-la, Katniss já se encontrava em chamas. Sentia o fogo do contato dele alastrar-se dos pés à garganta, continuando a arder em todos os pontos intermediários. Ansiosa, passou os dois braços pelo pescoço dele e foi ao encontro do beijo faminto, que se confundiu com a fome que ela também sentia. Todos os pensamentos sobre doçura, arrulhos de pombas, poesia, sumiram de sua mente. Existia apenas Peeta, os lábios dele colados aos dela, o gosto dele apoderando-se de todos os recessos da sua boca. Tinha consciência apenas de seus corpos delirantes e de uma grande mão, áspera e ao mesmo tempo delicada, descendo por suas costelas, estômago, ventre, até chegar ao ponto de união das coxas.

- Abra-se para mim, pequena - pediu Peeta, arfante.

O corpo macio ondulou, moveu-se, e sua mão sentiu as pernas sedosas se abrirem completamente. Foi invadido por um triunfo elementar, primário: ela abria-se para ele como uma flor, oferecia-se ao seu toque, queria senti-lo e que a sentisse. Os dedos trêmulos pela emoção e desejo separaram as dobras de carne quente e encontraram a umidade que indicava que ela estava pronta para recebê-lo. Ofegando de urgência, ele obrigou-se a se conter e acariciou-a mais. Katniss mexeu a cabeça de um lado para outro, com surdos gemidos escapando pelos lábios entrecerrados, e seu corpo passou a tremer com uma folha ao vento, a respiração tornou-se curta e rápida. Ele deslizou dois dedos para dentro dela, enquanto o polegar acariciava e apertava o pequeno botão. O corpo bonito contorceu-se e, entre curtos gemidos, ela foi mais ao encontro da mão dele e fechou fortemente as coxas. Enquanto os espasmos abalavam-na da cabeça aos pés, ela chamou, num grito sufocado:

- Peeta !

Com um gemido rouco, ele se colocou sobre ela. Então, o poeta e o guerreiro tornaram-se um só, transformando-se no macho determinado a fazer sua aquela mulher, a se perder nela, no corpo amoroso sacudido pelas convulsões do prazer. As mãos dele seguraram-lhe o rosto para beijá-la, enquanto seus joelhos mantinham as coxas dela bem separadas, até que mergulhou na intimidade quente e contraída de prazer.

Foi uma união completa, que parecia querer consumir os dois num fogo divino. Seus membros se entrelaçavam, Katniss arqueava-se, erguendo o ventre contra o dele de modo a recebê-lo mais, todo, e mexia-se, estimulando-o a movimentar-se mais e mais rápido.

Ela gritou o nome dele muitas e muitas vezes ou, talvez, Peeta imaginou que gritara. Não podia ter certeza por causa dos próprios gemidos, que ecoavam em sua cabeça quando chegou ao inefável gozo final.


- Acha que vai lembrar desta última vez ? - perguntou ele mais tarde, muito mais tarde. Estava deitado de costas, a cabeça apoiada no braço, olhos fechados, esperando que o Universo se colocasse em ordem de novo.

- Sim - murmurou ela, com preguiçosa satisfação - Desta e da outra vez, há uma hora. E da outra vez antes daquela.

Peeta deu uma risada:

- Você feriu meu orgulho ao dizer que não lembrava de nada de ontem à noite.

- Ontem à noite nós, realmente...? Eu estava...?

Ele começou a rir.

- Sim, você "estava".

- Porco ateniense - atacou Katniss, sem muito calor na voz - Não teve vergonha de aproveitar de mim desse modo ?

- Não, meu bem. Foi você quem se aproveitou de mim. Fiquei surpreso por ter forças para enfiar meu remo na água hoje.

A risada relutante dela acabou por se unir à dele.

- Mas o fez com bastante competência, ateniense, e com energia.

O silêncio, raro e tranqüilo, envolveu-os com suavidade. Por alguns momentos nenhum som perturbou a calma solene, exceto o som distante das vozes dos servos de Aspásia.

- Peeta ?

- Sim ?

- Vou ficar aqui - disse Katniss. traçando um caminho com o dedo no peito dele, onde se percebia claramente restos da pintura branca presos nos pêlos dourados - Falei com Aspásia quando você saiu esta manhã, e ela não se importa.

- Claro, podemos ficar mais algum tempo - concordou ele.

Abriu os olhos, que haviam se cerrado num delicioso cansaço, e fitou a doce mulher apoiada em seu peito. Os lábios, livres da pintura, naturalmente vermelhos, exibiam um sorriso satisfeito. "Essa é a verdadeira aparência dela", convenceu-se ele: a de uma mulher feliz, beijada e satisfeita. Ergueu a mão e tirou um restinho de pintura branca da têmpora dela, escutando com metade da mente o que Katniss dizia:

- Não. Estou falando em ficar aqui definitivamente. Bem, pelo menos enquanto eu estiver em Atenas. Você pode deixar Thresh comigo, se assim ficar mais sossegado. Ele certamente vai gostar.

Peeta despertou de vez, sem qualquer resquício da preguiça que o tinha envolvido.

- Do que está falando ? - ele perguntou, com a testa franzida.

- Estou falando em vir morar aqui, com Aspásia.

- Não seja ridícula. Claro que não vai morar aqui.

- O que há de ridículo nisso ? - surpreendeu-se ela.

- Você sabe muito bem que Aspásia, apesar de toda a sua inteligência, elegância e beleza, é uma cortesã.

Os olhos de Katniss, tão suaves momentos antes, emitiram um brilho duro:

- Está querendo dizer que é uma puta ?

Peeta escolheu com cuidado as palavras:

- A profissão dela é honesta. Mas você não é uma das garotas de Aspásia e não vai ficar aqui - ele compreendeu que tinha de se preparar para uma batalha quando a viu jogar os cabelos para trás, com um movimento rápido, e distanciar-se dele.

- Não sou ? Não sou uma puta, exatamente como Aspásia, ou seja lá qual for o rótulo educado que se dê a ela ?

- Pela grande barba de Zeus ! - ele sentou-se entre as almofadas espalhadas - O que está querendo, mulher ? Momentos atrás se retorcia debaixo de mim, cheia de gozo, agora age como uma gata raivosa !

- É o preço que tem a pagar, ateniense - a voz de Katniss soava fria, cortante - As putas dão um momento de prazer, mas não ficam quietas e mudas depois, como esposas bem treinadas e obedientes.

- Quer parar com essa história de putas ?

Peeta afastou os lençóis e se levantou. Com os punhos nos quadris, ficou olhando para a mulher brava e revoltada.

- Isso é algum jeitinho que imaginou para escapar de mim ? - perguntou, desconfiado - Depois do fracasso de ontem, vai tentar daqui ?

- Não ! - protestou ela.

Desgostoso, ele procurou livrar-se da irritação crescente. Ali estava, sugado de toda a energia que possuía, e ela ainda continuava hostil. Depois do intenso prazer que tinham compartilhado ! Bom, nesse momento não tinha disposição nem energia para lidar com o espírito rebelde dessa espartana teimosa.

- Vista-se - ordenou - Vou levá-la para casa.

Ela sentou-se na cama de pernas cruzadas sob o corpo e cruzou os braços no peito.

- Não, não é minha casa. Não quero voltar para lá.

- Vista-se.

- Não. Vou ficar aqui - os olhos cinza soltavam chispas - Aspásia dirige a casa dela, entretém quando e quem quiser, anda pela cidade quando bem entende, tem uma liberdade com a qual suas pobres mãe e irmã jamais sonharam.

A surpresa de Peeta não tinha limites quanto a fitou, mudo por alguns segundos.

- Minhas pobres mãe e irmã ? Elas fazem tudo o que querem, elas... elas são honradas e adoradas.

- Mesmo ? O mundo delas gira ao seu redor e segundo os seus desejos. Jamais saem de casa sem a sua aprovação explícita, não falam se você não permitir. São criaturas dóceis, amansadas... domadas. E eu não sou assim.

- Nisso, pelo menos, você está certa - concordou ele.

- Eu vou ficar aqui - reafirmou ela - Você pode vir se quiser me usar. Se tenho de viver como uma puta...

- Se disser essa palavra mais uma vez, juro que bato em você - Peeta perdera a paciência e ela percebeu - E, se não se vestir neste instante, eu a levo nua mesmo.


Percorreram o curto trajeto até a casa dele em silêncio. Pela primeira vez o bom humor de Peeta o abandonara. Imaginara que depois de fazerem amor, depois de Katniss ter dito seu nome e se entregado a ele, se tornaria parecida com as mulheres às quais estava acostumado: mais gentil, mais... mais dócil. A palavra que ela mesma escolhera surgia em sua mente para troçar dele.

Afinal, o que pretendia ?, perguntou a si mesmo, irritado. Queria que ela se mostrasse ardorosa e selvagem nos seus braços; submissa e suave fora deles ? Com as sobrancelhas franzida numa carranca zangada, olhou a cabeça de cabelos negros e macios ao seu lado.

Não, reconheceu, não queria que ela se tornasse dócil, mas um pouco menos de agressividade até que seria bem-vinda.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 12.