Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Merline Lovelace, que foi publicado na série de romances "Clássicos Históricos Especial", da editora Nova Cultural.


Capítulo 12

Peeta bateu a aldrava, cumprimentou o porteiro quando abriu a porta e empurrou-a para dentro. Depois de uma noite e um dia extenuantes, precisava da paz e serenidade de sua casa para restaurar o equilíbrio, antes de levar aquela mulher cabeça-dura e irritante para a cama novamente.

Entrou no pátio e no mesmo instante ouviu soluços.

Zeus sagrado, o que seria agora ? Quem estava chorando ?

Avançou pelo pátio, com Katniss logo atrás.

- Bem ! Já era hora de você voltar para casa ! - exclamou a senhora Cassandra. Então, deu um olhar irado para Katniss: - E você também, criatura incansável ! Annie, pare de chorar e diga ao seu irmão o que fez.

Peeta piscou várias vezes em rápida sucessão diante das palavras ásperas da mãe, então fitou o rosto inchado da chorosa irmã. Ela o fitou por um instante, em suspense, e recomeçou a chorar mais alto.

- O que houve com ela ? - perguntou Peeta.

Uma terceira pessoa surgiu. Era Finnick, com expressão furiosa.

- Parece que ela não quer casar - disse, com voz irritada.

- O quê ?

- Pelo menos não quer casar comigo - acrescentou o tenente.

Chocado, Peeta fitou-o como se ele tivesse tomado muito vinho sem água.

- Que besteira é essa ? - indagou, impaciente. Cassandra balançou a cabeça, desgostosa, depois explicou, com evidente esforço:

- Essa menina tola e idiota disse a Finnick que queria o controle de seu dote.

- Só de uma parte ! - gritou Annie - Da metade, não do meu dote todo.

Sentindo-se como se estivesse numa peça de teatro onde todos conhecem o texto e sabem o que vai acontecer, menos ele, Peeta olhou atentamente o rosto da mãe e depois o do tenente, à procura de uma pista para a explicação daquela loucura.

Enquanto isso, Katniss colocou-se ao lado da corajosa, apesar de soluçante, Annie, e passou-lhe um braço protetor pelos ombros.

- Pare de chorar, Annie - consolou-a e apoiou - Você só está exigindo os seus direitos.

O queixo de Peeta caiu, mas ele recuperou-se de imediato.

Era o que faltava para seus olhos se acenderem de fúria:

- Você tem alguma coisa a ver com isto, Katniss ?

- Se está perguntando se conversei com ela sobre casamento, sim.

Finnick olhou para a espartana sem conseguir acreditar, e mal pôde comentar:

- Eu devia ter imaginado ! Annie era doce e gentil, até você chegar nesta casa.

Katniss retribuiu o olhar dele, que se tornara rancoroso:

- Ela tem o direito de saber o que está levando para o casamento e ao que terá direito, no caso de se divorciar.

- Divorciar ! - exclamaram três vozes ao mesmo tempo.

Fora de si, Peeta avançou para ela:

- Você não tem o direito de falar com minha irmã sobre essas coisas !

Annie ergueu para o irmão os olhos molhados, mas desafiadores:

- Não a recrimine por ter feito o que era o seu dever, meu irmão !

Foi a gota d'água para Peeta. Num tom duro e frio que raramente usava, mesmo no barco, ele garantiu sua autoridade:

- Senhora Katniss, quero que se retire.

O olhar que lhe dirigiu avisou-a para não ousar dizer uma palavra.

- Mãe, leve Annie para cima e restaure-lhe a compostura. Falarei com ela mais tarde.

Sério, voltou-se para o tenente:

- Aconselho que saia e arranje uma boa vara. Vai precisar dela se ainda quiser ter minha irmã como esposa.


- Estou lhe dizendo, Peeta, Annie não tem sido a mesma nestas últimas semanas, desde que você levou a espartana para casa.

A voz baixa de Finnick mal se ouvia em meio ao grande número de pessoas reunidas na ampla sala de jantar enfeitada com flores. Peeta fitou friamente o tenente, por cima da borda de uma taça de vinho.

- Nenhum de nós é mais o mesmo - disse, por fim.

- Ela nada tem a ver com a moça que escolhi para ser minha esposa - insistiu Finnick, com uma ruga de preocupação na testa lisa.

Uma risada feminina atraiu a atenção dos dois para um grupo de mulheres no extremo da sala. Como era adequado, um véu cobria a maior parte do rosto de Annie e escondia seus cabelos. Mas nada disfarçava o intenso brilho nos olhos verdes da noiva.

- Bem, devo admitir que Annie está entrando neste casamento com mais conhecimento e segurança do que a maioria das mulheres - assentiu Peeta.

- Sim - concordou Finnick, o rosto atraente muito sério sob a coroa de murta.

Com um sorriso, Peeta exortou:

- Ânimo, homem ! Pelo menos você vai ter uma mulher como esposa. A tímida menina com que me casei chorou ao colocar seus brinquedos no altar de Ártemis; chorou de angústia e vergonha quando os sacerdotes nos lavaram na fonte sagrada, e quase me afogou com lágrimas quando eu, por fim, tive coragem de me aproximar de sua cama.

- Ah ! Se sua espartana puder dar palpite, eu não vou sequer poder olhar para a cama da minha mulher - lamentou-se o noivo - , a menos que concorde em entregar a ela os aluguéis das fazendas ou com alguma outra exigência absurda dessas.

Mordendo os lábios para não rir, Peeta concordou, com a cabeça. Na verdade, sentia mais pena de Finnick do que demonstrava.

Annie mostrara-se incrivelmente obstinada quando tentara mostrar-lhe os erros em seu novo modo de pensar. Tinham sido várias conversas irritadas, tempestuosas, com muitas lágrimas da jovem e pedidos que ele fizera, zangado, para a mãe intervir e fazer a irmã recuperar o que chamava de bom senso e compostura, que compreendesse o que podia e o que não podia controlar em seu dote.

Contrariado, Peeta vira-se descrevendo nos mínimos detalhes no que consistiam as propriedades, móveis e jóias que eram só dela e do que poderia dispor quando e do modo que desejasse. Em outra ocasião, tivera que lhe dar os números exatos de escravos e talentos de prata que seriam entregues a Finnick para assegurar seu conforto e segurança na vida de casada.

Mais de uma vez, Annie saíra da sala de trabalho dele com um sorriso, para conferenciar com Katniss, e pouco depois retornara com mais perguntas. A constante visão dos cachos castanhos da irmã ao lado da cabeleira negra da espartana, as duas sentadas num dos bancos do jardim, geralmente com Valerie entre elas, o divertia e preocupava, ao mesmo tempo.

Olhou para Katniss, que se encontrava, tranqüila, a certa distância do agitado grupo de mulheres, com a pequena Valerie no colo. Mantinha-se perto o bastante para ela e a menina participarem da festa, mas não perto demais, de modo que a perninha doente não corresse o risco de levar um esbarrão. Peeta teve uma estranha sensação na boca do estômago, enquanto olhava as duas mulheres que dominavam sua vida, tão diferentes e tão próximas, apesar disso.

A mãe lhe contara sobre as sessões de massagem entre Katniss e Valerie. O fato da mulher que mantinha prisioneira usar seus conhecimentos para aliviar o sofrimento de sua filha fazia com que sentisse uma estranha humildade. E mais: sentia-se agradecido. Porém não agradecido o suficiente para deixá-la ir embora, como ela pedia com regularidade. Nem agradecido o bastante para não lhe dedicar suas atenções lascivas, como ela as denominava.

Peeta sorriu de leve: pretendia dedicar à sua pequena Tétis mais atenção lasciva naquela noite, como fazia todas as noites, há semanas, desde que tinham voltado da casa de Aspásia.

A cada manhã repetia tudo com desejo redobrado, assim como nas tardes em que conseguia escapar da obrigação de acompanhar a construção de seu novo barco.

Pelos deuses, ela fazia seu sangue ferver e o mantinha em constante estado de desejo. Depois de ter se entregado uma vez, Katniss não lhe negava mais nada. Apesar do ressentimento com a situação, apesar de viver repetindo que seria melhor se morasse com Aspásia, continuava tão apaixonada e feroz no amor como ele soubera que seria, desde o momento em que a vira pela primeira vez. O sorriso se alargou e ele ergueu a taça, para tomar um gole de vinho. Do outro lado da sala, Annie puxou Katniss e Valerie para o meio do grupo animado em que se encontrava e começou a falar, com o jeito de estar fazendo uma pergunta.

- Oh, não ! - gemeu Finnick - Provavelmente ela está perguntando se a senhora Katniss conhece algum remédio para as doenças que afetam o desempenho masculino na cama. Sabia, Peeta, que Annie teve, ontem, a audácia de me perguntar se eu era limpo ? - Acrescentou, enquanto Peeta engasgava com o vinho: - E, se não era, que medicamentos tomava ?

- Talvez uma única vara não seja o bastante, Finnick.

O jovem fez um gesto entre irritado e divertido:

- Se eu tocasse num só fio de cabelo da sua irmã, você me quebraria os dois braços, as duas pernas e deixaria minha masculinidade exposta para as gaivotas comerem ! Mas, se você não o fizesse, a maldita espartana se encarregaria disso. Quanto tempo acha que ela ainda vai ficar aqui, nos atazanando ?

O sorriso de Peeta sumiu.

- Não sei - respondeu, procurando esconder a ansiedade - E não sei se vou conseguir deixá-la ir embora.

Finnick olhou-o com profunda atenção:

- Katniss é sobrinha do rei de Esparta, Peeta ! Sabe que o Conselho a considera uma refém política. Se ele exigir que ela volte, eles a entregarão em troca da paz.

Com o rosto fechado, Peeta fez que não com a cabeça:

- Naxos não quer a paz, quer guerra. Todas as informações que recebemos do sul dizem que ele está reunindo mais e mais homens e incentivando os aliados a construir mais barcos.

- Ouvi dizer que o próprio Péricles vai a Corinto - comentou Finnick - , numa última e quase desesperada tentativa de convencer os coríntios a não lançarem sua frota ao lado da frota de Esparta.

- É verdade, ele parte amanhã.

- Espero que seja bem-sucedido. Não quero voltar da lua-de-mel e encontrar nossa cidade em guerra.

Peeta sacudiu os ombros, demonstrando impaciência, como se assim pudesse afastar as nuvens negras que as palavras deles tinham trazido ao ambiente festivo.

- Vamos, Finnick ! - exclamou, procurando parecer alegre e despreocupado - Isto é uma festa de casamento. Os escravos já terminaram de tirar as mesas do banquete e chegou a hora da cerimônia. É melhor você decidir logo se quer mesmo incluir na sua vida essa jovem turbulenta que é minha irmã.

Finnick colocou a taça de vinho numa pequena mesa e, com os olhos brilhantes, procurou a figura de Annie entre as convidadas. A expressão sombria e séria do jovem rosto deu lugar ao encantamento do amor e a um sorriso.

- Sim, capitão - respondeu, com firmeza - Eu quero essa menina...

Enquanto Finnick se encaminhava para o meio da sala, Peeta foi para junto de Katniss. Pegou Valerie do colo dela e colocou-a nos ombros. A menina soltou gritinhos, deliciada, agarrando o cabelo do pai com as duas mãos, para se equilibrar. Um murmúrio alto ergueu-se entre os convidados elegantes quando os servos trouxeram os bolos de casamento, que consistiam em tortas baixas, feitas de farinha, mel e gergelim.

Depois de todos compartilharem desses símbolos de abundância e fertilidade, a senhora Cassandra levou Annie até o noivo e, sorrindo, colocou a mão da filha na de Finnick. Então, o tenente falou, dominando a custo a emoção que transparecia em sua voz:

- Diante de todos que estão aqui, testemunhando: eu a declaro minha esposa, Annie.

Com estas simples palavras, estava feito.

Assim, rápido, a irmã deixou de ser responsabilidade do irmão e tornou-se responsabilidade do marido.

Peeta suspirou, achando ótimo livrar-se dela: Finnick que se arrumasse, daí por diante, com as lágrimas e exigências de Annie. Mas seu coração dizia que sentiria falta das risadas alegres, do seu jeito carinhoso, das recepções ansiosas, sempre que ele voltava de viagem, e do jeitinho triste da irmã sempre que ele partia. Tratando de engolir o nó que se formou na garganta, adiantou-se para levar Annie, agora esposa de Finnick, à carruagem que conduziria os dois ao novo lar de Annie.

Convidados, erguendo bem alto as tochas nupciais, escoltaram a carruagem, ao som de flautas e liras, tocadas pelos inúmeros músicos que os acompanhavam. Pessoas alinhadas dos dois lados das ruas saudavam os recém-casados, jogando em seu caminho grãos e frutas, dedicados aos deuses, para garantir sua fertilidade. Quando o cortejo chegou à casa de Finnick, a mãe dele veio recebê-los e os levou ao quarto nupcial, repleto de flores. Enquanto dois marinheiros, amigos do noivo, montavam guarda à porta, os convidados cantaram a canção de Safo para o Hímen.

"Erga alto o teto, oh, Hymenaios,
Para que um poderoso noivo,
Tão forte quanto Ares, tão viril quanto Poseidon,
Entre aqui, oh, Hymenaios !"

Peeta engoliu em seco quando a pesada porta de madeira fechou-se, ocultando sua irmã e o marido.


Katniss ficou em silêncio no trajeto de volta à casa de Peeta. Andava quase arrastando os pés e de vez em quando erguia o rosto para o céu estrelado. Enquanto as pessoas ao redor falavam da festa maravilhosa e da beleza da noiva, ela só escutava os cantos que vinham dos templos e o latido distante de cachorros na ágora. Aquela era a primeira vez que saía da casa de Peeta, desde a noite em que fugira e se perdera nas ruas da cidade. Era a primeira vez em semanas que sentia no rosto a brisa que vinha do mar.

Peeta continuava se mostrando irredutível na questão do confinamento, tanto pela segurança dela, quanto pela reputação. Apesar de Katniss dizer que restava pouca reputação com a qual se preocupar, ele não cedera, assim como a senhora Cassandra não a apoiara, dizendo que mulheres atenienses respeitáveis apareciam em público só em casamentos, nascimentos ou funerais. E, por mais estranho que parecesse, também para participar dos rituais frenéticos e orgiásticos oferecidos a Dionísio, a cada dois anos. A frustração de Katniss pelo confinamento fazia-se sentir a cada movimento de sua respiração. Mas em vez da sensação muito próxima do desespero que sempre a acompanhava, ultimamente vinha tendo apenas uma irritação surda. Franzindo a testa, tentou descobrir o que teria diminuído o peso de seu cativeiro.

Mas sabia a resposta antes mesmo de ter formulado a pergunta. O capitão, é claro. Voltou os olhos para ele. Caminhava ereto com a filhinha nos ombros, o cabelo tornado em prata, em vez de ouro, pelo luar. Só de olhá-lo seu coração bateu mais depressa.

Logo estariam em casa, pensou, e Valerie iria imediatamente para a cama. A senhora Cassandra estaria cansada da festa e sem dúvida triste por causa da partida de Annie. Iria deitar-se cedo, imaginou Katniss, o coração disparado. Molhou com a ponta da língua os lábios subitamente secos. Acelerando o passo, tratou de se misturar aos convidados que caminhavam, alegres, pelas ruas escuras.

Quando Peeta retornou, depois de ter ido pôr Valerie para dormir, Katniss sentia-se em chamas. Talvez fosse o vinho que tomara na festa que a fazia querer tanto o corpo dele. Ou o fato de ver Finnick levar a noiva para o quarto enfeitado com flores. Ou os ombros largos de Peeta, quando tirara a túnica e se voltara para ela. Fosse o que fosse, sentia um avassalador desejo, uma fome incontrolável por esse homem, e se assustava com a intensidade de seus sentimentos. Aproximou-se dele, para abraçá-lo.

- O que foi, pequena ? - ele ergueu-lhe o queixo, o polegar acariciando o contorno do rosto - Que nuvem é essa nos seus olhos ?

Ela balançou a cabeça, sem poder controlar o corpo, que tremia de desejo.

- Diga-me o que a perturba - insistiu ele, suave.

- Não, não quero falar esta noite. Nada de palavras ou poesias entre nós, hoje.

- Então, o que você quer ?

- Isto. Apenas isto.

Erguendo-se na ponta dos pés, ela passou os braços pelo pescoço dele e puxou-lhe o rosto para si. Se ficou surpreendido com a violência do beijo, ele não demonstrou. Foi Katniss que tirou a própria túnica e a jogou longe. Quando chegaram na cama, também foi ela quem se colocou sobre ele. Suas mãos o percorriam, carinhosas, as palmas explorando o peito largo, acompanhando as cicatrizes de batalha que o marcavam. Quando mal conseguia respirar de tanta excitação, ele passou a gemer baixinho, as mãos férreas apertando a cintura fina que quase envolviam completamente; ela curvou-se para a frente e esfregou as ardentes pontas dos seios no peito dele. Em seguida, curvando-se ainda mais, beijou-o, enquanto sua mão deslizava entre os corpos frenéticos de paixão e envolvia o membro ereto dele.

Deliciando-se com a textura acetinada, no entanto rija e quase agressiva, Katniss acariciou, provocou e o atormentou, como Peeta fizera tantas vezes com ela. Teve uma maravilhosa sensação de triunfo quando percebeu uma gota de líquido denso surgir na ponta do pênis e ele gemeu seu nome. Descobrir o poder que tinha sobre aquele homem forte, enorme, foi como uma faísca que a incendiou por inteiro. Escorregando ao longo do corpo musculoso, beijou-lhe a boca com uma paixão sem limites.

- Katniss - gemeu Peeta, quando seus lábios separaram-se por poucos instantes - Pare, docinho, ou vou terminar antes de você estar pronta.

- Eu estou pronta - ofegou ela.

E, de imediato, viu o quanto suas palavras eram verdadeiras. Estava pronta, mais do que pronta para recebê-lo dentro de seu corpo, da mesma forma que já o tinha dentro do coração.


Katniss ainda dormia quando Peeta saiu, na manhã seguinte. Assim que acordou, sentiu o cheiro dele nos lençóis e a sensação de seus líquidos secos entre as pernas. Por um momento ficou imóvel, combatendo um desespero que, estranhamente, ameaçava envolvê-la. Fora o casamento de Annie, disse a si mesma, que a deixara nesse estado. Ficara profundamente emocionada ao ver a mocinha dar a mão ao marido e juntar sua vida à dele, enquanto tivera a clara certeza de que nunca seria a figura central de uma cerimônia como aquela. Nenhum espartano a aceitaria agora, depois de saber que dormira com um inimigo. Naquele dia em Limera, na ágora, pudera jurar inocência porque dizia a verdade e provocara dúvidas mesmo no inabalável tio, que decidira levá-la de volta para casa. Mas agora não poderia jurar mais nada. Não depois de perder a honra e a si mesma nos braços de um ateniense. Peeta podia se recusar a ver como a vida dela tinha mudado. Podia se opor quando ela dizia que devia ir morar com Aspásia, que seu lugar era lá. Podia ignorar os olhares de censura da mãe. Mas Katniss sabia que, fosse o que ela fosse antes de conhecer esse fascinante capitão do mar, agora era diferente. Na verdade, tornara-se menos senhora do que era, porém se tornara mais mulher. Muito mais ! E não lamentava esse fato, pois achava que, apesar de tudo o que perdera ao entregar-se a Peeta, no fundo saíra ganhando.

Rolou na cama e afundou o rosto ardente numa das almofadas que ainda tinham o cheiro dele. E apesar do desespero, apesar do medo que tinha do futuro, ela sabia que não agiria de modo diferente se tivesse a possibilidade de começar tudo de novo.

Quando Peeta sorrisse para ela, convidando-a para compartilhar dos prazeres de sua cama, correria para os braços dele, como fizera na noite anterior e nas noites antes desta. Em seus braços ela daria, e receberia, todo o prazer que pudesse, antes dos deuses rolarem os dados e jogarem outra vez com seus destinos.


Porém os deuses lançaram os dados bem antes do que ela esperava. Estava com Valerie no pátio, quatro dias depois, trabalhando os músculos da menina, quando Peeta surgiu, inesperadamente. Ergueu-se e foi recebê-lo.

- Esparta vem marchando para Atenas - disse ele, a voz baixa e tensa - Todos os capitães devem comparecer à ágora neste momento. Assim que a tripulação estiver completa, vamos partir.

Katniss sentiu o sangue sumir do rosto. Acontecera. O momento que mais temia havia chegado. Sua cidade e a dele tinham entrado em guerra. Sentiu uma dor lancinante atravessar-lhe o peito. Agora iria pagar pela intensa felicidade que conhecera nos braços do inimigo. Fechou os punhos, sentindo as unhas se cravarem nas palmas macias das mãos:

- E eu ? O que faço agora ? - indagou, num fio de voz.

- Vai ficar aqui - respondeu ele, firme - Vou deixar Thresh para protegê-la, e mandei uma mensagem para Finnick voltar imediatamente da viagem de casamento. Ele vai ficar aborrecido por perder a partida do barco, mas cuidará de você, de minha mãe e de Valerie.

Katniss respirou fundo:

- E se meu tio vier aos portões de Atenas, para exigir que eu seja solta ?

- Você acha que ele fará isso ?

- Não.

- Eu também não, caso contrário não a deixaria aqui - disse ele segurando-a pelos braços - Mas se Naxos nos surpreender, exigindo você como preço da paz, saiba que não a entregarei. Esteja onde estiver, eu voltarei para reclamá-la. Você é minha, Katniss.

O coração dela disparou. A expressão implacável no rosto dele a deixou sem fala e qualquer coisa que pudesse dizer, caso conseguisse falar, se perderia porque nesse momento a senhora Cassandra surgiu, vindo da cozinha.

- O que houve, Peeta ? Por que voltou tão cedo, hoje ?

Assim que a mãe ouviu a notícia, a casa foi tomada por um frenesi de atividade. Os servos pessoais de Peeta embalaram os poucos pertences que o amo levaria, enquanto ele conversava com a mãe e o chefe dos escravos sobre o que fazer com as pessoas, bens das fazendas e negócios que possuía fora da cidade.

Katniss ficou sentada num banco do pátio, fraca como se a vida se tivesse esvaído de suas veias, assistindo à agitação com profunda tristeza. Thresh, claramente infeliz por não fazer parte da ação, juntou-se a ela na observação silenciosa.

- Pelos deuses - murmurou, por fim, com estranho tremor na voz máscula - , eu detesto não partir com o barco.

- Por causa das batalhas que enfrentarão ? - perguntou Katniss, a dor e incerteza baixando sua voz a quase um sussurro.

- Não, não haverá batalhas, não batalhas de verdade. Os desajeitados coríntios e os limerenses de joelhos trêmulos mal sabem como remar um barco. Nossas tripulações podem aprisioná-los, fazendo círculos ao redor deles - quando Katniss lançou-lhe um olhar cético, o sorriso largo surgiu no rosto do rude marinheiro: - O que mais lamento é perder minha parte na pilhagem - explicou, piscando os olhos com malícia - , apesar do capitão ter prometido me dar um pouco da parte dele. Não vai ser guerra, minha dama, vai ser como tirar tortas de mel de criancinhas !

Ela não pôde deixar de ficar impressionada com essa atitude.

Em Esparta, guerra era um assunto sério ! Os jovens eram ensinados a matar com todas as armas do arsenal e também com as mãos nuas. Em algumas companhias militares, um jovem não era promovido ao grau de guerreiro enquanto não caçasse um escravo fugido, ou um condenado que escapasse da prisão, e o matasse com as próprias mãos. Katniss ouvira histórias de prisioneiros libertados apenas para este propósito. Os homens espartanos partiam para a guerra não com pensamentos parecidos com os de Thresh, mas determinados a massacrar o inimigo ou morrer com honra.

Será que algum dia poderia compreender os atenienses ? , perguntou-se. Mesmo o capitão mantinha uma expressão serena e o sorriso ao deixar a mãe e a filha, prometendo trazer-lhes maravilhosos diademas e brincos de ouro que com certeza lhe caberiam como parte da pilhagem.

Quando Peeta se aproximou dela, Katniss sentia-se como se um punho gigantesco lhe apertasse o coração, dolorosamente.

Com a espada na cintura e uma faixa de couro na testa para manter os cabelos longe dos olhos, ele era de novo o soldado que a capturara. Peeta estendeu-lhe a mão e a fez erguer-se do banco, com um sorriso diabólico no rosto.

Thresh se afastou para lhes dar o mínimo de privacidade que um pátio cheio de gente ansiosa e atenta permitia.

- Que os deuses a protejam, pequena Tétis, até o momento em que me receberá de volta em casa.

Katniss engoliu em seco e respondeu ao desafio nos olhos dele:

- Se me chamar por esse nome desagradável de novo, ateniense, sua recepção de volta ao lar será bastante desagradável.

A risada que ela aprendera a amar ecoou em seus ouvidos quando Peeta a abraçou. Com o rosto mergulhado na macia curva do pescoço delicado, ele falou com os lábios quase colados à pequena orelha:

- Vai sentir minha falta, Katniss ?

- Como um asno sente a falta da carga - reagiu ela, lutando contra a emoção que quase a sufocava.

- Espero ter sido mais do que isso para você...

Consciente dos espectadores ao redor, ela sentiu o rosto ficar vermelho.

- Porco ateniense, eu...

- Não, não me deixe ir embora com o eco dessas palavras ruins no coração - pediu ele, baixando a voz até tornar-se uma suave e íntima carícia - Diga. Diga meu nome.

Katniss molhou os lábios e apertou-os numa linha fina, para impedir-se de obedecer.

- Diga, meu amor - insistiu, murmurado amorosamente.

Com um suspiro resignado, os olhos cinza ergueram-se para ele e a voz dela soou, densa como veludo:

- Que os deuses o mantenham em segurança, Peeta.

O beijo foi longo e quase doloroso. Era como se ele quisesse deixar sua marca nela, como um sinal para todos que assistiam soubessem que essa mulher era dele. Quando, por fim, ergueu o rosto, ela ofegava e tinha os olhos brilhantes de lágrimas.

- Você é minha, a minha Katniss - disse, compreendendo como aquela demonstração era cruel para uma espartana - Agora e para sempre. Lembre-se disso.

Saudando a mãe e a filha, ele partiu.


Se até então os dias de confinamento tinham parecido muito longos para Katniss, depois da partida do capitão eles se estenderam até o infinito. Sem a exigente presença de Peeta na cama, para aliviar seus desejos, diminuir a frustração da vida vazia que levava e consumir suas energias, ela voltou a ficar irritada. E à medida que os refugiados vinham para a cidade, com relatos da aproximação do exército de Esparta, debatia-se entre lealdades conflitantes. Queria orar para que sua cidade vencesse, mas também não queria desejar mal para a família do capitão.

Pouco depois da partida dele, o Conselho colocou guardas armados na casa, declarando a mulher espartana uma refém.

Absorvida pelas crescentes exigências dos refugiados das fazendas de Peeta, a senhora Cassandra ignorou a presença dos soldados, mas Katniss sentia os olhos deles em si a cada passo que dava.

Para se distrair e afastar o medo, aumentou o tempo das sessões de massagem com Valerie. No pátio, agora coberto para abrigar refugiados e animais, fora separado um canto sossegado para as duas. Em meio ao barulho e à agitação, ela conversava com a menina e trabalhava os músculos da perna doente com profunda concentração.

Uma semana, ou pouco mais, depois da partida do capitão, certa tarde, a senhora Cassandra se juntou a elas. A pesada obrigação de cuidar de todos os dependentes e escravos de Peeta vindos de fora da cidade fizera marcas de cansaço surgir no rosto antes quase moço da matriarca. Katniss bem que gostaria de ajudá-la, mas não podia. Qualquer ajuda que desse aos atenienses seria um ato de traição aos exércitos de Esparta.

O que mais a surpreendia é que a majestosa patrícia parecia compreender essa situação, mesmo sem terem trocado uma única palavra sobre o assunto e demonstrava, sempre que podia, seu contentamento com a atenção que Katniss dava a Valerie, enquanto ela cuidava dos refugiados.

- Como estão indo ? - perguntou a senhora, com um sorriso amoroso, porém cansado, para a netinha.

Os grandes olhos azuis de Valerie se iluminaram:

- Agora não dói muito, vovó. Katniss diz que fez os músculos relaxarem.

A senhora Cassandra ergueu uma sobrancelha.

- Senti algum movimento na perninha dela, ontem - contou Katniss.

- Mesmo ? - exclamou a avó, com um súbito brilho entre esperançoso e assustado nos olhos azuis, ainda bonitos.

- Mesmo.

- Mesmo, mesmo ! - repetiu Valerie, alegre - Katniss disse que se eu for corajosa e fizer todos os exercícios que ela manda, talvez possa estar de pé para receber o papai quando ele voltar para casa. Ela disse que acha que minha perna poderá me sustentar. Nesse...

Por cima da cabeça da menina, o olhar ansioso da ateniense pedia uma confirmação do que ouvia.

- Pode ser, de fato - assentiu Katniss, com cautela.

- ...dia eu vou vestir minha linda túnica cor-de-rosa - continuou a menina - E vou ficar bem na frente da porta, assim vou ser a primeira pessoa que papai verá ao entrar. Katniss disse que ele vai...

Ela foi parando de falar, confusa com a sonora risada que a avó soltou. Era algo tão inesperado, raro e tão sem precedentes que tanto Valerie quanto Katniss ficaram olhando, surpreendidas, para a senhora Cassandra.

- Ah, Valerie ! - exclamou ela, por fim, enxugando os olhos com uma ponta da túnica - Não estou rindo de seus planos maravilhosos, querida. Só me lembrei de como, uma vez, orei para Héstia me dar paciência para cada "Papai disse" que saísse de seus lábios. Agora me vejo o dia todo esperando pelo próximo "Katniss disse"...

A espartana, sem jeito, endireitou o corpo, lançando um olhar magoado para a patrícia ateniense:

- Não foi minha intenção roubar a devoção que Valerie tem pelo pai... - começou, com voz incerta.

A senhora a fez calar-se, pondo a mão em seu braço.

- Você não poderia fazer tal coisa, criança, assim como não pode ficar entre meu filho e eu. São coisas muito diferentes, entre ele e nós, entre você e ele. Mas devo admitir que houve ocasiões, nestes últimos tempos, em que orei para conseguir fazê-lo ouvir minha opinião, como ouvia quando era um menino... - hesitou, então completou, ficando vermelha - Por causa do modo como ele a estava usando.

Em seguida, sorriu diante da surpresa de Katniss e depois de um olhar rápido para Valerie, escolheu as palavras com cuidado, antes de prosseguir:

- Conversaremos mais tarde, senhora Katniss. Mas lembre-se, meu filho não passa de um homem. Mais esperto do que a maioria, é verdade, porém estúpido como todos os outros quando se trata de uma mulher.

A senhora Cassandra se levantou, ajeitando a túnica:

- Vamos, criança, não fique tão chocada - sorriu, sem ocultar a emoção - Basta ver o rosto dele quando pega sua mão e o seu quando...

Batidas fortes da aldrava a interromperam.

- Oh, não, mais refugiados ! - suspirou, olhando na direção da porta - Já enchi nossa casa, a de Finnick e até acomodei um grande grupo no templo do outro lado da rua. Não sei onde colocar mais gente.

No entanto, não foi para apavorados viajantes que Thresh abriu a porta. Tratava-se de uma patrulha pesadamente armada, com um hoplita mais velho e cheio de cicatrizes de batalhas no comando.

Mesmo naquela ocasião tensa, a senhora Cassandra não perdia sua dignidade. Retirou dos ombros a echarpe, no mesmo tom da túnica, colocou-a sobre a cabeça, para velar o rosto, e foi atender o comandante.

- Meu filho está no mar, com a frota - disse-lhe, depois dos cumprimentos.

O oficial remexeu-se, inquieto, então declarou:

- Não é o capitão que procuramos, minha senhora. Viemos por causa da mulher espartana.

- A senhora Katniss ? - a orgulhosa patrícia não demonstrou que um arrepio gelado lhe percorrera a espinha - Por quê?

- O rei Naxos atacou a vila de Cilene esta manhã e matou todas as pessoas que estavam do lado de dentro das muralhas. Em retaliação, o Conselho decidiu executar essa mulher inimiga.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 13.