Capítulo 3 - Lembranças…

Após obter êxito em sua primeira luta, Sorento sobrevoava a cidade em direção ao Templo de Nêmesis. As asas angelicais da nova Escama de Sirene deixavam um rastro de penas à medida que o jovem voava pelo céu, causando um efeito de beleza e admiração a quem observasse. Durante o trajeto, o Marina observa que não havia ninguém nas ruas, por mais que procurasse, assim como havia percebido tal fato com Io e Baian antes do início de sua luta com Terpsicore.

Voando por mais algum tempo, ele avista algo que chama a sua atenção. Pedras em forma de escombros e algumas crateras no chão, indicando que aquele lugar havia sido palco de uma batalha feroz há pouco tempo. Sorento então aterrissa, e passa a caminhar lentamente pelo local, observando qualquer detalhe que pudesse dar alguma pista sobre seus atuais inimigos. Ao caminhar por mais poucos metros, Sorento avista uma espécie de armadura dourada por baixo de alguns escombros, e se aproximando mais, afasta as pedras e se surpreende ao ver que se tratava de Isaak.

- Isaak! Está tudo bem? Você pode me ouvir? - fala impaciente, tentando reanimar seu colega, recebendo apenas alguns gemidos como resposta, até que ele volta a si após mais algumas tentativas.

- Sorento… o que aconteceu? - murmura olhando em volta, ainda tonto.

- Eu que pergunto. Acabei de te encontrar aqui debaixo de todas essas pedras. O que houve?

- Não me lembro direito… só sei que eu estava me dirigindo até o Templo de Nêmesis junto com Kasa e o desgraçado do Kanon, e quando percebi, os dois já não estavam comigo, e de repente fui atingido na cabeça fortemente pelas costas. - diz pensativo, ainda tentando se recuperar do choque.

- É verdade. Saímos das ruínas do Templo de Poseidon-sama todos juntos, mas fomos separados durante o trajeto. Isso com certeza foi por causa da ilusão da música de Terpsicore, e os comparsas dela devem ter se aproveitado disso para nos atacar pelas costas, como os grandes covardes que são. - o lilás conclui em tom de revolta.

- Aqueles malditos miseráveis... Mas o que houve com a sua Escama? Está bem diferente de antes. - pisca várias vezes ao observar a vestimenta de seu igual, que havia mudado drasticamente.

- Ah, era sobre isso que eu queria falar. Ao derrotar Terpsicore, eu elevei meu cosmo ao máximo e consegui despertar a verdadeira forma da minha Escama. Graças ao sangue de Poseidon-sama, todos nós poderemos despertar o verdadeiro poder de nossas Escamas para que ela recupere sua verdadeira forma da era mitológica. Foi o que Thetis me explicou.

- Isso parece ótimo. Será uma grande vantagem nesta guerra. Precisamos nos reagrupar e contar aos outros sobre isso o mais rápido possível.

- Concordo. Você consegue voar?

- Sim. Por sorte, as barbatanas da minha Escama não foram danificadas pelo maldito que me atacou, e poderei voar com elas sem problemas.

- Ótimo. Então vamos em frente.

O esverdeado assente, e os rapazes seguem voando pela cidade, até que pudessem se reunir novamente com os outros Marinas. O que eles não faziam ideia era que durante todo esse tempo estavam sendo observados de longe… muito longe…

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Em um vasto jardim, cujo chão era inteiramente coberto por uma variedade de flores multicoloridas, havia algumas pedras, onde podia-se ver facilmente lindas garotas a tocar os mais variados tipos de instrumentos. A paisagem era deslumbrante, com várias árvores, pássaros cantando e voando livres e felizes, e todas as meninas desfrutando de sua liberdade e do que mais gostavam de fazer, que era cantar e dançar. Não seria muito errado dizer que aquele lugar se tratava do céu ou do paraíso, para quem quisesse interpretar desta forma. Dentre as muitas musas que habitavam o local estava Terpsicore.

Sentada em uma das pedras, a Espírito se encontrava distante e pensativa. Não entendia o que estava fazendo ali, pois o mais lógico seria que ela fosse parar nos domínios de Hades após sua morte pelas mãos do General do Atlântico Sul. Na verdade, ela procurava reviver em sua mente todo o momento do clímax da luta, aquela batalha musical, na qual pela primeira vez ela conheceu a derrota.

Obteve sucesso.

O momento em que contemplou a melodia celestial de Sorento foi revivido em sua mente. Se morrer era tão bom assim, ela certamente não se importaria em repetir o processo. Ao se dar conta de que estava de volta em seu próprio mundo junto às outras divindades iguais, a bela mulher de cabelos roxos concluiu que o jovem humano não a matou. Terpsiore lembrou com clareza do momento em que a música da flauta do General ecoou diretamente em seu cérebro, chegando até o mais profundo de sua existência. Ela jamais havia sentido algo tão puro e doce. Era inexplicável. O que mais a impressionou foi o fato de tal feito ter sido realizado por um humano, seres que ela mesma tanto menospreza, inclusive, o próprio Sorento foi ridicularizado por ela várias vezes durante seu embate.

Como estava enganada…

Aquele humano de olhar honesto disse algo que a tocou sobremaneira. Ele acreditava que ela também amava a música e a arte tanto quanto ele. Em outras palavras, ele acreditava nela. Não queria admitir, mas aquelas palavras tocaram sua alma tão profundamente quanto a melodia quase divina de sua flauta. A música de Sorento era digna de ser ouvida pelos deuses. Ele havia superado ela mesma, e a mulher sorriu satisfeita sobre isso ao invés de sentir raiva.

Em seguida, lembrou-se de Sorento. Ela não poderia esquecer. A face do homem destemido que desde o início foi gentil a ponto de recusar apelar para um ato covarde de um combate de três contra um. Por mais que quisesse ignorar, a verdade é que ela admirou cada pequeno gesto de gentileza dele.

Sua reflexão agora viajou diretamente para o rapaz. Inconscientemente ela sorriu. "Céus, como ele é lindo!" - foi a única coisa na qual ela conseguia pensar. O rosto de traços delicados emoldurado pelas curtas madeixas lilases junto aos olhos de tons rosados davam a ele a aparência única de um verdadeiro anjo. Sua nova Escama com as asas imponentes apenas enalteceu tão notável característica. Os olhos do jovem músico tinham algo especial que sua outrora inimiga não conseguia esquecer. Era uma pureza rara e fora do normal. Isso somente era possível porque Sorento era um humano de coração extremamente puro, o que era refletido em seus olhos. Tal qualidade foi capaz de criar um verdadeiro milagre quando ele purificou a sua alma e fez Terpsicore perceber o grande erro que havia cometido ao se aliar aos propósitos malignos de Nêmesis. O fato de ela estar de volta ao seu local de origem apenas provou que Sorento nunca teve intenção de machucá-la, e isso fez com que a bela mulher sorrisse novamente enquanto observava o desenrolar da guerra santa do seu lugar divino.

- "Quero vê-lo…" - pensou ao fechar os olhos e sorrir novamente…

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Ainda de pé em frente às águas do Mediterrâneo, Poseidon continuava a emanar seu Divino Cosmo sobre as águas a fim de criar uma barreira contra os meteoros que cairiam sobre a superfície em um período iminente. Perto dele estavam Shina e Kiki, que observavam o Imperador dos Mares. Tudo estava aparentemente tranquilo depois que Krishna havia derrotado Belerofonte e deixado Poseidon aos cuidados dos servos de Atena. Tudo aquilo era muito estranho para os dois. De repente eles se viram na missão de proteger o Deus a quem outrora eles chegaram a guerrear. Com certeza eles virariam piada de todo o exército de Atena caso a notícia se espalhasse posteriormente.

Então, sem que os dois esperassem, sentiram uma forte pressão de Cosmo, bem como as águas do mar começaram a emanar um brilho que surpreendeu seus acompanhantes. Shina observou que a ânfora de Atena estava ao lado de Julian, e que o objeto sagrado começava a trincar, ao mesmo tempo em que podia sentir o imenso Cosmo de Poseidon se elevando cada vez mais, como se o seu espírito estivesse finalmente se libertando por completo daquela prisão que tanto limitou seus poderes durante a última Guerra Santa.

O corpo de Kiki tremeu sem que pudesse evitar, assim como Shina também se sentia completamente paralisada. Não demorou muito para que mais um exército de esqueletos enviado pelo inimigo cercasse os três, deixando os dois aliados de Atena apreensivos, entretanto, todos aqueles esqueletos se converteram em uma imensa pilha de ossos triturados tão somente com a pequena pressão de Cosmo causada por um simples piscar de olhos de Julian, que voltou a se concentrar em sua tarefa, enquanto o forte vento agitava os longos cabelos azuis, destacando ainda mais a imponência do belo Deus. Shina e Kiki se entreolharam em um misto de susto e admiração. Naquele momento, nenhum dos dois poderia afirmar com certeza se suas calças estavam secas…

...:::~X~:::...

Nêmesis parecia inquieta em seu trono enquanto balançava outra taça de vinho na mão esquerda, observando o líquido escuro se mover lentamente, acompanhando seu movimento. A deusa se pegou pensando em Terpsicore, e ainda custava a acreditar que ela havia sido derrotada. Mas quem? Qual dos sete Generais de Poseidon teria tamanho poder diante da técnica de sua mais fiel serva? Suas ilusões em combate e ofensivas usando a mente do inimigo contra eles eram formidáveis. Ela apenas não se conformava.

- Enéas!

- Sim, Nêmesis-sama?

- Quero que descubra agora mesmo qual daqueles sete insetos ceifou a vida de Terpsicore. Considerando as habilidades dela, sua derrota é algo preocupante.

- Eu já verifiquei isso. Ao que parece, um dos membros da elite de Poseidon também combate usando técnicas musicais. O General de Sirene a derrotou. - responde o Espírito prontamente.

- Sirene…? - pondera por alguns segundos, mexendo em seus longos cabelos - Se alguém capaz de derrotar Terpsicore faz parte do exército inimigo… isso significa que esse homem pode acabar representando um perigo em potencial. Como ele é?

- Esse é o mesmo garoto que invadiu nosso Templo e teve a audácia de afrontar Nêmesis-sama com suas perguntas imprudentes. É aquele garoto da flauta.

- Aquele garoto?! - exclama surpresa - Não pode ser! Ele pareceu um fracote patético quando esteve aqui. Não posso acreditar que ele tenha chegado tão longe.

Enéias apenas respondeu um aceno discreto, e a mulher continuou seu raciocínio em silêncio. Além deste fato, a verdade é que ela também não entendia o porquê de Poseidon não estar diante dela imediatamente, e apenas mandar seus Generais por agora. Era bem verdade que criar uma barreira defensiva utilizando a imensa extensão do mar era necessário, mas a mulher de cabelos levemente verdes pensava que deveria haver mais alguma forte razão para o Imperador dos Mares manter distância naquele primeiro momento. O que seria? Poseidon é um deus extremamente poderoso, ela bem sabia disso. Então porque ele não a enfrenta de uma vez? Enquanto olhava para um dos soldados em volta do enorme salão do Templo, ela se questiona em voz alta:

- Será que eu devo fazer uma visita a ele?

Continua…