10. A Decisão
Eu acordei com um barulho vindo do banheiro. Pulei da cama assustada e demorei um pouco para me lembrar onde estava.
Respirei fundo, eram quase nove horas.
O lençol de Edward estava dobrado ao meu lado. Pensei que nem conseguiria dormir a noite, mas tinha dormido sem nem perceber e muito bem.
Eu procurei uma roupa para vestir. Edward saiu do banheiro, já arrumado com um terno preto.
Ele ficava tão bem vestido daquele jeito.
— Oi, bom dia.
— Bom dia, por que não me acordou?
— Estava planejando fazer isso com um balde de água fria. — respondeu me encarando e lembrei que estava só com um shortinho e uma blusa fina.
Eu bufei e passei por ele me trancando no banheiro.
Tomei banho e me arrumei ali mesmo, secando meu cabelo.
Vesti um conjuntinho branco de calça e blazer. E a blusa de dentro de um azul bem clarinho. Meus saltos também eram um scarpin branco.
— Nós vamos agora atrás do Steven?
— Sim, ele trabalha em um clube que é 24 horas. Porém, seu expediente é mais tarde. Podemos comer com calma e ir atrás dele depois.
— Nós podemos ir na casa dele, se não o acharmos lá.
— Apesar de ter conseguido descobrir onde ele está trabalhando, não descobri o endereço. Ele parece não ter um lugar fixo.
Eu suspirei e peguei minha bolsa.
— Tudo bem então, podemos ir.
Ele assentiu.
Saímos do quarto e caminhamos pelo elevador.
A porta se abriu e tinha um casal se beijando dentro dele.
O homem vestia um terno, a mulher usava um vestido curto branco e um véu na cabeça.
— Desculpa — a mulher disse rindo, agarrada ao homem.
Eu e Edward nos olhamos, mas entramos.
— Eu vou casar, olha — ergueu sua mão para mim me mostrando a aliança com anel solitário que tinha ali.
— Ah, parabéns! — Falei sem saber o que dizer.
Ela deu um risinho.
— Vocês também vão? Seu terninho é tão bonito! Deixa eu ver seu anel.
Meus olhos se arregalaram e percebi que deve ter achado por causa da minha roupa branca.
— Ah não. Não vamos nos casar — expliquei rápido.
— Tá perdendo tempo cara, melhor se casar logo antes que alguém roube sua mina — o homem falou para Edward.
— Nós não… — o elevador chegou no andar e eles saíram.
A mulher parou e se virou para a gente.
— A vida é só uma, se fosse vocês aproveitavam a oportunidade. O hotel está com uma promoção surpresa e dando 40% de desconto para os hóspedes.
— Vem logo, mulher — o homem saiu a carregando em direção a recepção e ela riu.
Nós saímos do elevador.
— Não consigo acreditar que eles vão realmente se casar aqui — comentei.
Edward deu de ombros
— Eu achei legal, eles parecem realmente apaixonados. Quando você ama alguém, acho que não importa muito fazer uma festa para todos verem, só estar com aquela pessoa.
Balancei a cabeça, ele podia estar certo, mas…
— Mamãe me mataria se eu casasse e não desse uma festa.
Ele riu.
— E a tia Sue esconderia seu corpo.
Eu ri concordando.
— Mas isso nunca vai acontecer, nem sei se alguém um dia iria querer casar comigo.
Falei de uma maneira casual sem querer mostrar como aquilo me machucava por dentro. O que eu tinha de tão errado para não achar ninguém que gostasse de mim de verdade?
Ele abriu a boca para falar, mas a fechou.
Eu continuei andando para onde iríamos tomar café da manhã.
Quando estávamos chegando um homem passou pela gente nos encarando muito firme.
Mesmo que não nos tocássemos senti Edward um pouco tenso do meu lado.
— Sr. Cullen, o senhor se lembra de mim?
— Ah não, desculpe.
— Nos encontramos em um jantar beneficente em Nova Iorque e…
— Desculpe, acho que está me confundindo.
O homem franziu o cenho e depois olhou para mim.
— Se nos der licença temos que ir — Cara Azeda empurrou meu braço passando pelo homem.
— Quem é ele?
— Não sei, deve ter me confundido. — deu de ombros, mas eu sabia que ele mentia.
— Vamos comer — sorriu, mas ainda mantinha o braço em mim.
…
— Nossa! Acho que comi demais — falei terminando de comer.
— Você nem experimentou essa torta doce. Acho que é a melhor que já comi na vida.
— Não sei se aguento.
— Ah, vai abrir a boca — estendeu o garfo.
Meu peito deu um solavanco. Eu abri e ele me alimentou.
Acho que a última vez que alguém tinha me dado comida na boca foi minha mãe doente e o que senti dessa vez foi bem diferente.
Eu saboreei lentamente, sob seus olhos atentos. Observei ele engolindo em seco. Como um pomo de adão podia ser tão sexy?
— E aí? Gostou?
Eu assenti, seus olhos verdes brilharam. Com o mesmo garfo, ele comeu outro pedaço, antes de me oferecer de novo.
Era a melhor sobremesa que comia na vida.
…
Por incrível que pareça o clube estava movimentado. Era escuro e com luzes brilhando, ninguém ali dentro poderia saber se era dia ou noite e percebi que aquele era o objetivo por isso o nome Clube Sem Fim.
Nunca acabava ou parava.
Nós tínhamos andado um pouco pelo hotel, enquanto esperamos a hora que Steven começaria no seu trabalho.
Eu fiquei morrendo de inveja das pessoas na piscina se divertindo, mal lembrava da última vez que havia tirado umas férias para viajar.
—Você está vendo ele?
— Não, acho melhor nos separarmos para procurá-lo. Aqui a foto dele — me estendeu a imagem.
O homem ali era alto, forte, negro e careca.
— Tem razão. Vai por esse lado e eu pelo outro, dez minutos a gente se encontra aqui, se não conseguirmos contato.
—Ok — concordou.
Estávamos nos virando para cada lado, quando tudo ficou escuro e a luz do palco se acendeu, focando no locutor.
— Chegou a hora que estávamos esperando: com vocês a nossa querida, a maior, a sensacional Celestina!
Uma mulher entrou no palco, usava um collant brilhoso, meias grossas, um salto enorme, uma peruca com um cabelo rosa, toda maquiada e cantando.
Eu arfei, olhando com atenção para o rosto que apesar de todo maquiado, conseguia reconhecer.
— É ele — falei.
— Onde?
— No palco.
Edward olhou com atenção a Drag Queen e percebeu sua feição surpresa quando reconheceu.
As pessoas se amontoaram assistindo ao show e fiquei mais próxima dele, sentindo seu corpo quente atrás do meu.
Assistimos a apresentação, que foi espetacular. Ele tinha uma presença de palco envolvente e cantava muito bem a música, além de dançar naqueles saltos enormes.
Eu e Edward batemos palmas com o pessoal e ficamos mexendo a cabeça assistindo a apresentação.
No final aplaudimos.
— Vem comigo — pegou minha mão, segurando-a com firmeza.
Nós passamos pelas pessoas e apertei sua mão, com medo de ser empurrada. Mas ele me protegeu com seu corpo não deixando ninguém encostar em mim.
— Olá, senhor — se aproximou do locutor que estava em um canto. — Como podemos falar com a Celestina?
— Vocês não querem roubá-la de mim, querem? — estreitou os olhos para a gente.
— Não, não. É um assunto pessoal — garanti.
— Podem encontrá-la no camarim três.
Nós agradecemos e andamos por um corredor. Eu bati na porta três e Celestina abriu, estava sem a peruca, mas ainda toda maquiada.
— Quem são vocês?
Eu e Edward nos olhamos.
Ele começou:
— Desculpe, nós queríamos perguntar uma coisa e…
— Eu não faço programas, ok?
— O que? — foi a primeira vez que vi Edward chocado.
— Sei que pode ser meio cringe, mas sou monogâmico gato e só faço performance. Vocês são um casal lindo e exalam tesão, mas não curto esse lance e já aviso logo que sou passivo… mas tem alguns contatos que fazem isso, tenho certeza que consigo achar um amigo para te enrabar, bonitão.
Os olhos de Edward se arregalaram e eu não aguentei explodir em risadas.
— Não… não não é nada disso — ele mais gaguejou que disse.
— Ai desculpa isso é muito engraçado — falei me curvando e colocando a mão em minha barriga que doía de rir.
— Cala a boca e me ajuda, Swan! — me encarou mortalmente.
Eu tentei controlar as risadas.
— Desculpe… nós somos advogados, advogados da Volturi Law, de Seattle — expliquei rápido.
Seus olhos escuros se arregalaram e se ajeitou.
— Eu não sei o que querem aqui, é melhor darem o fora.
— Por favor, sr. Laurent Steven ou prefere Steven Kelly? Ou Celestina? — Edward insistiu: — Nós podemos conversar? Viemos de muito longe e só queremos que nos escute.
Ele suspirou e olhou o relógio.
— O meu próximo show é daqui a pouco, vocês têm dez minutos — sua voz saiu mais séria.
Nós entramos no camarim. Era pequeno, cheio de roupas brilhantes e perucas coloridas.
— Prefere senhor ou senhora? — perguntei querendo tratá-lo corretamente.
— Pode ser, senhor. Sou menina só quando estou no palco — piscou seus cílios longos.
— Você conhece Ben Cheney e Angela Weber? Nós sabemos que trabalhou para eles.
— E o que tem isso? — falou com sua expressão dura.
— O julgamento da senhora Cheney vai ser amanhã. Ela gostaria de falar com você sobre o assassinato do seu marido Ben.
— Eu não sei de nada — falou nervoso.
— Tem certeza?
Ficou em silêncio.
— Se você sabe o que aconteceu, tem que nos ajudar. Angela pode ser considerada culpada e passar o resto da vida na cadeia.
Sua expressão ficou triste.
— Eu… eu não posso… não posso ajudar.
— Angela disse que você e Ben eram como irmãos. Você acha que ele iria querer que sua esposa fosse culpada por sua morte se é inocente? — perguntei.
Uma lágrima escorreu de seu rosto borrando sua maquiagem.
— Não, por favor…. Eu… eu fiz algo terrível… eu…eu… ela está presa por minha culpa — sentou em sua cadeira.
— Como assim?
— Eu vi quem matou Ben, eu vi… mas eu fiquei com medo… por isso fugir… Não tenho nada que possa provar o que aconteceu — chorou.
— Sua palavra pode ser o bastante se conseguirmos convencer o júri — tentei persuadi-lo.
Ele deu um riso triste.
— Olha para mim eu sou um homem negro, gay e pobre que faz performance de Drag Queen. Eu sei o que muitas pessoas vão achar de mim… Sempre vão me ver como culpado. A minha vida toda foi assim… Ben foi o único que me estendeu a mão — ele fungou.
— Você prefere deixar alguém presa injustamente, é isso?
— Vocês não entendem!
— Você que não entende, Angela está há quase um ano presa e pode ficar o resto da vida na cadeia. É isso que quer?
Ele pareceu bastante nervoso. Se levantou e abriu a porta de uma vez.
— Não, eu não vou dizer e vocês podem ir embora daqui. Agora. Se não, vou chamar os seguranças — abriu a porta para gente.
— Olha só — falei exaltada.
Edward segurou meu braço me impedindo de continuar.
— Eu tenho só mais uma pergunta.
Ele ficou calado. Edward continuou.
— Era assim que Ben e Angela o viam também? Ou a amizade que vocês tinham era sincera? Só pense nisso, estamos hospedados aqui no hotel e vamos sair amanhã bem cedo às cinco. O julgamento é na parte da tarde, temos uma passagem para você. Por favor, escolha fazer o certo dessa vez.
— Pois esperem sentados — bateu a porta na nossa cara.
— Ah não, ah não, não acredito nisso, perdemos o caso — choraminguei.
Edward pegou em minha mão e a apertou.
— Relaxa, Bella. O caso não acaba até o juiz sentenciar.
— Mas ele é nossa única testemunha Edward, sem ele tudo que trabalhamos nessas duas semanas foram inúteis. Ele sabe a verdade e não quer nos dizer.
— Vamos ter um pouco de fé em Deus, Bella.
— A gente não precisa de fé — falei um pouco brava.
— É claro que precisamos. A fé faz tudo dar certo.
Eu ri e soltei sua mão.
— Fala sério! Você é alguém que acredita em Deus?
— É claro que sou, você não é?
— Na verdade não, tudo que consegui foi por mérito próprio, não acredito em milagres, pode até existir um Deus, mas não consigo acreditar que um Deus deixaria tanta maldade acontecer no mundo. Se Angela não é mesmo culpada porque a deixaria ficar presa injustamente?
— Ele deu a livre arbítrio para cada um fazer sua escolha, todos nós temos uma cruz para carregar. A fé é isso é acreditar mesmo quando parece impossível, é nunca perder a esperança mesmo quando não há outra saída e Deus me faz acreditar nisso. Acreditar que tudo pode mudar, que pode existir uma cura…
Eu o encarei surpresa.
— Uau, nunca imaginei que você fosse assim.
— Assim como?
— Crente.
— Mamãe era bem católica, ela me colocou para ter aulas na catequese quando era pequeno, posso não seguir a religião como deveria, mas acredito sim que existe um Deus que pode nos conceder um milagre. Às vezes tudo que precisamos na nossa vida é um milagre.
— Você espera um milagre na sua?
Ele suspirou e coçou seu queixo.
— Sempre. Vamos embora daqui.
Deu por encerrado o assunto.
Que milagre ele esperava ter?
…
— Caraca, o que vamos fazer agora? — falei quando chegamos no saguão do hotel. — Não são nem duas horas. Devíamos voltar lá e tentar convencer ele.
— Não, acho que se o pressionarmos só vai piorar. Algo me diz que ele vai escolher o certo, só temos que esperar — falou com uma tranquilidade que eu não tinha.
— Edward!
— Está cedo ainda, o que acha de almoçarmos e beber algo?
— Você não disse que não bebia?
— Estou em Vegas, posso ficar desempregado amanhã e perder um caso importante. Acho que quero beber um pouco, afinal nada demais podemos fazer aqui. Se bebermos agora, vamos parar mais cedo e ter tempo de nos recuperar para não ficar com cara de ressaca amanhã no julgamento.
Eu parei analisando-o.
Era o caso mais importante de nossas vidas, não deveríamos beber, mas…
Foda-se. Só se vive uma vez.
Ele estava certo. Estávamos em Vegas, no hotel. Não podíamos causar nenhum problema ali. Eu sabia ser responsável mesmo bêbada.
— Então, vamos.
Edward Cullen PDV
Eu sorri quando ela concordou.
Eu estava cansado de tantos problemas.
Pela primeira vez queria esquecer o mundo do lado de fora daquele hotel e apenas aproveitar a companhia da mulher que eu amava.
Nós não poderíamos fazer nada demais ali.
Sabia que se Aro descobrisse isso comeria nosso fígado, mas não conseguia me importar menos.
Por um dia na minha vida, queria esquecer de tudo e apenas fingir que eu podia ser alguém normal.
Alguém que podia se divertir, que podia beber, que podia viver ao lado de Bella.
Eu sabia que ela não era uma mulher que acreditava muito em Deus.
Mas uma das coisas mais fortes da minha infância era a lembrança de mamãe indo me colocar para dormir e me colocando para rezar. Mesmo depois da morte dos meus pais eu continuei orando todas as noites. Eu chorava implorando a Deus para que trouxesse meus pais de volta.
Deus nunca me escutou e mesmo assim eu continuei acreditando. Era algo que mamãe sempre dizia.
Deus não atende a gente imediatamente, mas sempre dá o que nós precisamos no tempo certo. Nós só precisamos crer.
Depois que fiquei doente eu implorava que me curasse, que eu pudesse ser alguém normal. Isso nunca aconteceu, mas mamãe sempre falava que o silêncio de Deus também era uma resposta.
Talvez meu propósito no mundo não fosse viver uma vida cheia de saúde, mas sim continuar acreditando e tendo fé mesmo em meio ao sofrimento.
Depois de tudo que aconteceu após eles morrerem, mesmo com toda dor e sofrimento que passei eu continuei acreditando naquilo.
Acreditando que Deus me daria um milagre, que me daria a vida.
Talvez eu não tivesse muito tempo, mas iria aproveitar ao máximo ele ao lado de Bella, decidi.
NOTA DA AUTORA
Como prometido, postando hoje porque teve mais de quinze comentários capítulo passado.
Muuuuito obrigada pelos comentários do capítulo passado e pela recomendação, espero que todas vocês continuem comentando. Eu sei que estão ansiosas para esses dois se acertarem de vez, no próximo VEM AÍ! Beijos vamos ter hahaha e o que mais eles vão aprontar bêbados? Podem adivinhar? Tan tan tan ;)
Ansiosa para saber o que acharam desse capítulo, espero que tenham gostado
Até sexta que vem posto o próximo ok?
Beijos e bom fim de semana
