Capítulo 4 - Alvo
Notas iniciais - Olá, pessoal! A partir deste capítulo as coisas irão começar a esquentar (eu acho). Então, espero que gostem das surpresas que virão a seguir e que a leitura seja divertida ^^
Não faltava muito tempo para amanhecer. Era noite quando a nova batalha havia começado, e os Generais não faziam ideia de quanto tempo havia se passado. Os primeiros raios de sol começaram a iluminar o horizonte enquanto a brisa fresca de outono soprava com força. Poseidon se mantinha firme a emanar seu Cosmo sobre o oceano sem fraquejar nem por um segundo. De olhos fechados segurando seu Tridente dourado na mão direita, o belo homem parecia estar dormindo, ainda que de pé. Apesar de terem prometido proteger Poseidon, Shina e Kiki se entregaram ao cansaço da noite e adormeceram sentados em uma das pedras próximas, com o garoto jogado sobre o colo da mulher de qualquer jeito. A ânfora de Atena estava trincada de cima abaixo, restando pouco para se quebrar por completo. Absorto em sua tarefa, Julian abre os olhos, assim que sente um poderoso Cosmo bem perto de si. Nêmesis surge diante dele flutuando no ar graças as suas asas angelicais, ostentando um sorriso cínico em seu semblante cheio de soberba. Shina e Kiki despertam alarmados ao sentirem o Cosmo de sua atual inimiga, e passam a observar toda a situação quietos de onde estavam, temendo provocar a fúria de um dos deuses.
- Mas o que temos aqui… se não é o ilustre Imperador dos Mares. - ela sorri levianamente - É bem mais bonito do que vi nas fotos. Devo dizer que teve muito bom gosto para escolher seu hospedeiro humano.
- Nêmesis… - suspira pesadamente, fechando a expressão, pois não desejava ver aquela mulher antes da hora da verdadeira batalha.
- Ora, mas que jeito é esse de receber a visita de uma dama? Não precisa fazer essa cara. Só vim prestar meus educados cumprimentos ao meu rival nesta Guerra Santa.
- Veio aqui para antecipar o seu final? - o homem responde secamente - Sugiro que não me provoque, pois, com certeza, não irá gostar das consequências. - seu tom de ameaça era quase palpável, sem interromper sua tarefa de emanar seu Cosmo sobre as águas.
- Só temos dez horas até que esse planeta seja destruído, então porque não nos divertimos um pouco antes disso? - diz em tom provocador assumindo uma expressão sedutora, mas o semblante sério de Poseidon revelava que ele não estava gostando nem um pouco do rumo daquela conversa.
- Não se faça de esperta comigo! Acha que vou pegar leve por ser uma mulher? - indaga enfurecido, mantendo firme o seu estado imóvel e concentrado.
Ignorando os sinais de desagrado da divindade à sua frente, a belíssima mulher de pele escura se aproximou de Julian, que por sua vez, não fez absolutamente nada para evitar, e subitamente selou seus lábios aos dele em um gesto ousado. Shina assumiu uma expressão de choque, rapidamente fechando os olhos de Kiki com as mãos, julgando uma cena nada apropriada para ser observada por uma criança, embora ele estivesse protestando e tentando tirar as mãos dela de seus olhos.
Nêmesis apreciava o contato entre eles, sentindo o sabor inebriante dos lábios do belo jovem, que não lhe dava passagem para aprofundar o beijo, e seus olhos abertos denunciavam o profundo desconforto que sentia, enquanto a afastava de si com um rápido movimento.
Furioso, o Soberano dos Mares agitou o seu Tridente, e seus olhos brilharam no mesmo tom azul de seu Cosmo. Como resultado, nuvens pesadas de chuva se formaram instantaneamente no céu, e uma intensa tempestade começou a cair sobre eles, seguida de um raio e o som estridente de um trovão. Tal fenômeno assustou os dois aliados de Atena que os observavam.
- Waa! O que está acontecendo? Começou a chover forte de repente. - o garoto grita assustado.
- Kiki, você ainda não entendeu?! - Shina rebate, virando a cabeça do garoto com suas próprias mãos. É a tal Nêmesis. Ela veio atacar Poseidon pessoalmente. Os poderes dele são capazes de provocar a fúria da natureza livremente. - explica, e o aprendiz de Cavaleiro se limita a assentir com a cabeça.
- Ora, meu querido… achei que você tivesse um pouco mais de senso de humor. Mas tudo bem. Pelo menos já posso me gabar de ter provado o sabor dos lábios do governante dos sete mares. - sorri cheia de malícia - Que pena… poderíamos nos divertir juntos de uma maneira tão prazerosa… mas se não quer chegar a um acordo comigo, podemos nos enfrentar em meu Templo quando quiser, embora eu duvide muito que você possa evitar a minha punição divina de qualquer maneira. - sua expressão muda totalmente para um semblante cheio de raiva - Pois então que você queime junto com todo este planeta medíocre ao receber os meteoros que estão por vir! - conclui seu raciocínio ao desaparecer em meio à chuva.
- Maldita… - range entredentes - Quem ela pensa que é para cometer tamanha ousadia de me beijar desse jeito? - sibila colérico - Mas ela não perde por esperar. Se essa pirralha acha que pode medir forças com um dos grandes deuses do Olimpo… irá provar o sabor amargo de sua própria insolência…
...:::~X~:::...
A passos duros, onde quase era possível quebrar o chão, Nêmesis retorna ao seu Templo. Enéias observa a cena, e logo prevê que sua Deusa apenas se desgastou indo falar com o inimigo.
- Enéias!
- Sim, minha Senhora?
- Ordeno que faça algo para mim de extrema importância, e não se atreva a falhar, entendeu? - bufa de raiva, e seu servo quase pôde ver sangue em seus olhos, o que não era nada bom, segundo sua opinião.
- Considere feito. - responde prontamente, fazendo uma breve reverência à ela, que mantinha uma expressão de puro ódio em seu belo rosto.
...:::~X~:::...
A batalha parecia avançar a favor do exército de Poseidon. A essa altura, quase todos os Generais já haviam despertado suas Escamas Mitológicas. Parecia correto dizer que apenas Isaak não havia alcançado tal feito, mas provavelmente não demoraria muito. Sorento e Isaak continuavam sobrevoando a cidade, que se tornava mais fácil de explorar graças à luz do sol. Os rapazes tentavam alcançar o resto de seu grupo ao mesmo tempo em que prestavam atenção no céu, temendo serem atingidos pelos meteoritos de sua inimiga a qualquer momento.
Foi então que algo interrompeu o trajeto dos Marinas e os deixou apreensivos. Uma escuridão envolveu os jovens de repente, semelhante ao que aconteceu quando foram pegos na armadilha de Terpsicore, e confusos, eles apenas olharam em volta.
- Mas que diabos deve significar isso? - o esverdeado indaga já sem paciência - Sorento, você não disse que tinha derrotado a garota que produzia esse tipo de ilusão? Como caímos nessa de novo?
O astuto músico ignora o escândalo feito por seu amigo, e passa a raciocinar sobre a atual situação. De fato, aquela dimensão era muito parecida com a técnica de Terpsicore. Mas Sorento a tinha derrotado, disso ele tinha certeza. Então quem poderia estar fazendo tal coisa? O rapaz mal teve tempo para pensar sobre quem estaria por trás daquilo, pois seu corpo acabou sendo engolido por aquela dimensão, sem que nada pudesse ser feito para evitar.
- Sorento! - Isaak exclama chocado ao ver seu companheiro de armas desaparecer, quando uma voz sinistra ecoa através da escuridão.
- Não deveria se preocupar tanto… a essa altura, seu amiguinho já está na presença de Nêmesis-sama, pois provavelmente ela deve estar interessada em dar a ele um "tratamento especial", pois me lembro bem que foi ele que teve o atrevimento de invadir o Templo de minha Senhora.
- Do que está falando? Quem é você, infeliz?! - rebate irritado.
- Mesmo que você, reles inferior, não mereça, irei dizer o meu nome para que você se sinta honrado em saber quem acabou com a sua existência inútil. Eu sou Enéias de Grazia! - diz cheio de confiança, o que apenas faz a ira de Isaak aumentar.
- Então você é mais um daqueles espíritos merdinhas que querem destruir a terra? Diga agora mesmo o que fez com o Sorento! - grita extremamente alterado, recebendo um sorriso cínico em resposta - Do quê está rindo, desgraçado? Eu exijo saber o que fez com o meu amigo! Fale logo, antes que eu te mate, seu maldito!
- Você é algum tipo de idiota? Acabei de dizer que seu amiguinho deve estar diante da minha Deusa. Mas isso não tem a mínima importância, porque você irá morrer agora mesmo! - responde diretamente enquanto ataca o General de cabelos verdes em um movimento extremamente rápido…
...:::~X~:::...
Escuridão… era a única coisa detectável pela sua mente. Ao recuperar a consciência, Sorento era incapaz de enxergar qualquer coisa, já que não conseguia abrir os olhos. Suas pálpebras pesavam, e sua cabeça girava devido à tontura. Seu corpo inerte se encontrava estirado no chão do Templo de Nêmesis, bem diante do trono da Deusa, que sorria maliciosamente admirando a figura do belo rapaz diante de si.
Pouco tempo depois, Sorento estabiliza a visão, enxergando um teto branco e perfeitamente nivelado sobre si. Ao olhar para o lado, se surpreende ao ver a figura de Nêmesis sentada em seu trono, cujo ângulo em que estava deitado no chão não lhe permitiu enxergar com total clareza.
- Nêmesis…? Mas como foi que eu… cheguei até aqui? - indaga com a voz embargada.
- Ora, não se lembra? É normal. Acho que você ainda está tonto por causa do golpe de Enéias, mas isso não importa. Deve passar dentro de alguns minutos. - ela explica relativamente calma.
- Qual é o seu verdadeiro propósito? O que ganha me trazendo diretamente até você, se todo o seu plano maligno já está traçado? - ele tenta entender, enquanto se levanta com certa dificuldade.
- Você é um rapazinho muito curioso, não acha?
A frase seguida de uma risada carregada de arrogância faz Sorento erguer uma sobrancelha e assumir uma expressão apreensiva conforme a mulher levanta de seu trono e começa a se aproximar dele, até que a pouca distância os coloca frente a frente, causando um certo desconforto no General, que mesmo assim, não recua sequer um passo. A Deusa repara em um detalhe bastante distinto, visto que no primeiro encontro deles, Sorento vestia Escamas completamente destruídas, e agora seu traje de batalha beirava à perfeição com direito a um par de asas tão magistral quanto às suas próprias. A mulher de pele escura passa a andar ao redor do General, observando cada detalhe dele e de sua nova Escama, e a cada instante em que o observava, suas dúvidas e interesses apenas aumentavam, enquanto Sorento mantinha-se firme em não esboçar qualquer movimento ou reação.
- Não consigo entender… o que um ser humano inferior como você poderia ter de tão especial para derrotar Terpsicore? Ela era uma Deusa! - retruca indignada - Vocês, humanos, definitivamente perderam a noção do verdadeiro temor aos deuses. - diz em tom incisivo.
- Essa pergunta parece um pouco contraditória. - o rapaz se manifesta olhando diretamente nos olhos dela - Os humanos apenas estão se defendendo daqueles que querem tomar as suas vidas e seus lares. Acredito que o instinto de sobrevivência funciona da mesma forma com qualquer ser vivo. - rebate com uma calma invejável, fazendo o sangue de Nêmesis ferver tamanha a sua insolência, mas ao mesmo tempo, o jovem à sua frente é capaz de demonstrar toda a sua fibra com apenas aquelas poucas palavras, e de certa forma, ela conseguiu compreender um pouco da capacidade do General, e sua breve raiva até se transformou em admiração.
Outro ponto que deixou Nêmesis surpresa foi a maneira astuta com a qual Sorento lhe respondeu. O tom de voz calmo e a escolha cuidadosa das palavras, tal como ele as usou de um jeito formal e hábil denotou que ele era um homem bem-educado e elegante, o que a fez sorrir internamente, mesmo estando com ódio por ele ter matado uma de suas servas mais poderosas, e pegou-se pensando em como aquele garoto era em sua vida cotidiana. O que ele fazia, como se vestia… mas logo balançou a cabeça e voltou a demonstrar a sua ira.
- Maldito insolente! - desfere um tapa no rosto de Sorento, que ao sentir sua face arder com a atitude repentina, não entende porque ela faria algo tão trivial (e humano) ao invés de finalizá-lo ali mesmo com o seu Cosmo, que era poderoso o bastante para isso e muito mais.
- Não importa que me mate aqui, porque em breve, Poseidon-sama estará diante de você e porá um fim definitivo na sua ambição maligna. - rebate, lançando-lhe um olhar decidido, apontando o outro lado de seu rosto, literalmente oferecendo-o para que ela batesse.
- Vamos ver se você irá ostentar esse olhar ferino depois de se tornar parte da minha coleção pessoal.
- Como é? - pisca várias vezes, tamanho o susto.
A afirmação repentina da linda mulher faz o músico estremecer por um momento. Ela pretendia transformá-lo em algo como um objeto? Mas a resposta chegou muito rápido quando um raio do Cosmo da Deusa atingiu o centro da testa de Sorento passando através de seu elmo, que ficou intacto, chegando em sua mente. Os olhos magenta perdem o brilho e se tornam opacos e sem expressão, tal como seu semblante. Nêmesis gargalha satisfeita ao conduzi-lo até o seu trono. Sorento se posiciona ao lado e começa a tocar a sua flauta, ao que ela sorri imediatamente.
- Isso mesmo. Bom menino. A partir de agora, você será meu escravo e tomará o lugar de Terpsicore me satisfazendo com a sua música por toda a eternidade. - se aproxima dele lentamente, passando os dedos finos pelas curtas madeixas lilases - E quem sabe… você também possa me proporcionar prazeres ainda mais incríveis, docinho. - afasta a flauta e dá um breve selinho nos lábios do General, que permanece incapaz de reagir.
Continua…
