Childhood Dream Of Draco Malfoy
Por Ginsy
[Harry Potter x Draco Malfoy]
Capítulo II
Num simples movimento, deixou-se cair sobre o sofá de couro localizado no meio da sala comunal da Grifinória e espreguiçou-se cansado.
Os três primeiros botões da camisa que trazia estavam entreabertos deixando parte do seu torso exposto. Ele inclinou a nuca encostando-a contra as costas do sofá, e uma imediata sensação de tranquilidade atingiu todo o seu corpo, confessando a si mesmo que haviam altas probabilidades de adormecer ali mesmo, e ele teria se não tivesse sido por Hermione que adentrou na sala comunal em passos furiosos acabando a atrair a atenção de Harry.
Hermione atirou na sua direção um pesado manto preto estampado com o brasão da Grifinória, excepcionalmente bem dobrado, ele reparou.
— Eu esqueci-me dele em algum lado? — Acabou a dizer após uns momentos de silêncio, soando um quanto desorientado.
— Parece que sim. — Disse ela impassível, ainda permanecendo de pé, parecendo tão gigante. — Você não se lembra onde? Ou com quem?
Os braços cruzados sobre o peito e o repetitivo bater do pé de Hermione estavam começando a incomodar Harry.
— Significa que é meu, então?
— Foi o que me disseram.
Ele analisou o manto. Provavelmente era seu, ele pensou. Mas haveria alguma razão que explicasse o porquê de Hermione estar olhando para si como se ansiasse algo que Harry não parecia querer oferecer.
— Bem, você irá dizer-me quem ou vai continuar a fazer segredo?
— Não é segredo, você com certeza deve saber melhor que eu onde você anda e na companhia de quem, não Harry?
Harry fez uma careta semelhante a desgosto e voltou novamente a olhar para o manto que segurava em mãos.
— Se você está querendo insinuar alguma coisa pode dizer, Hermione.
Harry pousou o manto ao seu lado no sofá e fechou novamente os olhos, a nuca no encosto do sofá, mas o bater do pé de Hermione parecia cada vez mais alto e mais incomodativo.
— Harry, eu e Ron já falamos com você sobre este assunto, você tem de deixar essa sua obsessão doentia com a ideia de Malfoy ser um Comensal da Morte. — Harry abriu levemente as pálpebras com o súbito desabafo. — Eu até entendo você se tornar monitor e andar atrás dele na esperança de encontrar algo suspeito, mas entrar nos dormitórios da Sonserina para espiar Malfoy é absurdo, totalmente incoerente, Harry.
Bem, aquilo era uma surpresa até para ele próprio.
— Mas eu não entrei nos dormitórios da Sonserina. — Disse Harry calmamente.
— Então como é que Malfoy tinha o seu manto?
— Você tem a certeza que é meu, Hermione? Malfoy disse-lhe isso?
— Não tecnicamente. — Respondeu meio retraída. — Mas eu sei que é de alguém do time, caso contrário porque razão estaria Malfoy nas arquibancadas?
Harry deu de ombros.
— Porque ele é um grande trapaceiro.
— Não vamos mudar o assunto, Harry.
— Eu não estou mudando de assunto, você fez-me uma pergunta e eu respondi. — Harry respondeu com o seu usual tom convicto. — Quanto ao facto de ser meu ou não, não se preocupe que eu irei falar com Malfoy, ele com certeza sabe melhor que ninguém com quem ele se anda envolvendo.
— Mas não se aproveite disso para brigar com Malfoy, Harry.
Harry sabia que se fechasse bem os olhos ele ficaria um momento preso no tempo.
Aquela sala que situava-se perto das masmorras de Hogwarts, era bastante húmida e tinha um odor horrível que se assemelhava a roupa mal seca, por outro também poderia ser das desastrosas poções que acabavam a ser incorretamente confeccionadas e inundavam a pequena sala com um cheiro tóxico que se entranhava nas suas roupas. Além disso, havia uma pequena dispensa onde habitualmente se guardavam ingredientes extras á confecção dessas poções, muitos deles na sua grande maioria eram bastante repugnantes e incrivelmente nojentos, como por exemplo, cera de ouvidos de gigantes ou mucosidade de lobisomens.
Harry colocou uma mão à frente da boca como se, com a força do pensamento, fosse vomitar.
Contudo, ele havia-se mostrado bastante bom na tarefa de fazer poções ultimamente com a ajuda valiosa daquele livro roído por traças, que o auxiliava em quase todas as suas tarefas. A sua atenção nos últimos tempos estava em grande parte concentrada naquele pequeno livro velho e em Malfoy, então não lhe restava grande tempo para além daquilo, que já consumia grande parte do seu dia quando Harry não estava dormindo. E mesmo assim, às vezes ainda sonhava com Malfoy ou com a possibilidade hipotética de Hermione lhe roubar o livro do Príncipe Mestiço, fazendo Harry acordar de sobressalto durante a noite para checar se o livro continuava debaixo da sua almofada.
E concluiu assim que talvez a razão pela qual aquilo que estava acontecendo bem na frente do seu nariz era o seu entusiasmo desmedido para com ambas as coisas.
Ainda havia a possibilidade de as instruções escritas á mão estarem erradas, porém ele duvidava seriamente.
Concluiu assim, que não estava algo de errado com a poção e sim, consigo mesmo.
— Você já terminou, Harry? — Ron aproximou-se do seu caldeirão e inalou a pequena fumaça que a poção emitia, e fez uma careta na direita de Harry. — Que cheiro é este?
— Cheira mal?
— Er- não... — Ron debruçou-se mais sobre o caldeirão, tentando extrair o máximo de fragrância que conseguia. — Quer dizer... A minha poção não está cheirando assim.
— Isso é porque você não passou da segunda etapa, seu burro. — Malfoy passou por eles dois, andando sobre duas muletas e com um sorriso de contentamento no rosto pálido.
Era notável que Malfoy estava doente, ele estava mais branco que os fantasmas que rondavam Hogwarts, como se a qualquer momento ele fosse desabar.
Harry não conseguia desgrudar os seus olhos de Malfoy, rumores diziam que Malfoy tinha ficado sem equilíbrio durante um treino de Quidditch enquanto sobrevoava os campos sobre a vassoura, o que ele achava muito improvável e pouco credivel.
Ron, por outro lado, encarava Malfoy no seu silêncio sombrio, esperando o momento em que Malfoy se desequilibraria. Isso não aconteceu.
— E o que é que você fez, sua doninha fedorenta? Se não fosse por Crabbe e Goyle ficarem ir buscando ingredientes para você, você nem teria começado a poção.
Malfoy sorriu com escárnio, ficando ainda mais aterrador, na direção de Ron.
— Eu estou de repouso.
— Andando pela sala? — Harry subitamente disse.
Malfoy regeu os dentes.
— Tenho de exercitar a minha perna para conseguir dar um pontapé no seu traseiro o mais cedo possivel.
E Malfoy deu-lhes costas, não esperando uma resposta, e encaminhou-se para o seu lugar. Ron fez o dedo do meio pelas costas de Malfoy.
— Aquele idiota sempre tem uma resposta para dar.
— Você sabe como é Malfoy.
— Esse é o problema. — Ron olhou meio decepcionado para a sua própria poção no outro lado da bancada. — Slughorn disse mesmo que o cheiro depende da pessoa que estava cheirando a poção e não da sua composição, não é? Acho que não coloquei os ingredientes certos. Deste jeito, vou acabar chumbando a poções.
— A minha também não me parece estar completamente certa, na verdade. — Harry inclinou-se sobre a sua própria poção para se certificar daquilo que estava dizendo.
— Pensei que o Príncipe nunca se enganava. Afinal não é de grande ajuda. Mas Harry, Slughorn não tinha dito que a sua estava "excecional, como esperando do Senhor Potter"? — Imitou Ron.
Harry deu de ombros e voltou a olhar para a poção.
— Foi o que ele disse.
— Porque raio você parece triste, Harry? — Ron deu-lhe uma palmada no ombro tentando animá-lo. — Eu fico-me perguntando ao que cheirava a poção para Slughorn. Para ele saber que está bem preparada é porque o cheiro era igual aos outros que ele havia cheirado. — Harry não respondeu, perdido em pensamentos enquanto olhava para o borbulhar do líquido. — E a você, ao que é que lhe cheira Harry?
Harry levantou os olhos verdes do caldeirão e pestanejou, enquanto encarava Ron, este que esperava ansioso pela sua resposta.
Por cima do ombro de Ron, Harry acabou cruzando olhares com Malfoy, colocando toda a sua atenção completamente naqueles olhos cinza frios que o tentavam decifrar. Por momentos, ele havia-se esquecido que Ron estava bem na sua frente, olhando para ele com um ar impaciente enquanto ansiava por uma resposta.
— Então Harry? Ao que cheira a poção para você?
Harry parecia ter acordado num sobressalto e voltou a olhar para Ron.
Para sua sorte, ao que parecia Malfoy tinha derrubado um frasco de vidro da sua própria bancada, o que acabou causando um alto murmurinho em toda a sala de aula, para grande inconveniente do Professor Slughorn.
— Oh- Oh não se preocupe Senhor Malfoy, não se preocupe, — Balbuciou Sloughorn ao aproximar-se de Malfoy e ver o que ele tinha derrubado. — Acontece. Acontece. Ahm- Talvez seja melhor se você for dispensando mais cedo, já vi que já acabou a sua Poção.
Havia um grande e largo sorriso estampado na face de Malfoy.
— Crabbe, pegue na minha mala e-
— Não, não. O Senhor Crabbe ainda não está dispensado visto que não acabou a sua poção.
O sorriso de Malfoy desvaneceu rapidamente.
— Então como é que eu vou levar as minhas coisas?
Slughorn analisou brevemente os alunos que estavam na sala.
— O Senhor Potter pode levar para você já que ele é monitor. Potter! — Harry olhou para Slughorn no outro estreito da sala, sem espanto porque já tinha posto ouvidos na conversa. — Sim, rapaz, venha cá, venha.
Harry já tinha aquela expressão de contentamento na cara de quem se aproveitaria da situação para retirar certas questões a limpo.
— Oh, não, não. Eu prefiro ficar aqui.
Malfoy voltou a sentar no banco de madeira e colocou as muletas de lado.
— Deixe de ficar fazendo birra. — Harry arrancou a mala de Malfoy das mãos gordas de Crabbe e colocou-a no seu ombro.
— Professor, Potter está só esperando estar a sós comigo para dar uma tareia a um sonserino indefeso.
Slughorn trocou um olhar com Harry e analisou-o de alto a baixo. Harry deu de ombros quando os olhos minúsculos e negros de Slughorn voltaram a recair sobre os seus olhos verdes.
— Eu não acho que o Senhor Potter irá bater em você.
— Isso é porque você não o conhece como eu conheço. — Malfoy cruzou os braços mostrando que não ia sair dali com Harry.
— Malfoy, eu não vou bater em você.
— Eu não confio em si.
— Que eu me lembre você foi o ultimo que me deu um murro no nariz. — Harry não percebia o porquê de Malfoy se estar comportando do jeito que se estava comportando. Atitudes infantis como aquelas já eram de se esperar vindas de Malfoy, ele frequentemente ficava reclamando e dando uma acentuação mais dramática à realidade, por vezes até que tinha a sua graça, outras vezes, como aquela, eram apenas irritantes e completamente descabidas. — Fique à espera que Goyle e Crabbe acabem a poção então. Você ficará ai para sempre.
Após um longo e indeterminado momento de ponderação, em que Harry estava pronto para largar as coisas que segurava, Malfoy ficou olhando para a poção inacabada de Crabbe sob o ombro, e com muita indignação, ele acabou se rendendo e ergueu-se do banco com as muletas na mão, dirigindo-se para a saida. Harry só teve tempo de acenar a Ron e sair atrás de Malfoy.
— Para quem anda de muletas você anda extremamente rápido.
Malfoy parou no lugar, quase fazendo Harry chocar contra as suas costas se não se tivesse desviado antecipadamente.
— Você está querendo insinuar alguma coisa?
— Eu não.
— Então fique calado.
Malfoy continuo andando até que finalmente se apercebeu que Harry não estava caminhando atrás de si. Isso fê-lo dar meia volta e voltar-se para trás com uma expressão mais antipática que o habitual. Definitivamente Malfoy parecia chateado, pensou Harry. Não que ele desse a mínima.
— Você perdeu a capacidade de andar, foi?
Harry suspirou cansado. Não deveria ter aceitado, mas ele era demasiado simpático para negar um pedido de um professor. Ajeitou novamente a mala no ombro e começou caminhando em passos largos.
Para duas pessoas que brigavam toda a vez que se cruzavam, o clima que se tinha instalado entre ambos era pesado. Harry continuo andando atrás de Malfoy mas sempre atento, temendo que ele tropeçasse nos próprios passos.
— Você está tentando establecer um vinculo silencioso comigo, Potter?
— E você está tentando estabelecer uma hostilidade comigo?
Malfoy olhou para ele com um certo desespero no olhar e revirou-os, continuando a sua reta sem esperar que Harry o acompanhasse.
— Tinha-me esquecido como você é idiota. Fique calado.
— Eu teria ficado se você não me tivesse feito uma pergunta.
Malfoy olhou para Harry sobre o ombro e soltou um "Tsc" sobre a respiração.
— Só queria perceber se você ainda estava vivo ou se era Peeves andando atrás de mim.
— Peeves já o teria mandado da escadaria abaixo.
— Vontade também não lhe falta, não é, Potter?
— É assim tão óbvio?
Malfoy parou no sitio, fazendo Harry parar ao seu lado.
— Por algum motivo em especial? — Ele sorriu, os lábios finos formando uma linha deformada. — Eu reparei que você ficou olhando para mim durante a aula de poções, deixando-me numa posição extremamente constrangedora, por isso, Potter, o que você quer perguntar desta vez?
— O manto que você deu a Hermione, era meu?
Malfoy mordeu a bochecha analisando as feições de Harry.
— Você não reconhece as suas peças do uniforme? — A pergunta foi feita de um jeito um quanto sarcástico, tentando tirar Harry do sério.
— O que isso é suposto significar?
— É suposto significar que se eu tivesse a chance, eu ignoraria a Grifinória para todo o sempre, mas que para grande infelicidade minha você é bastante persistente, ao ponto de começar a chatear-me. Com certeza você não me vê falando com os seus colegas horrendos nos corredores, por isso, Potter, respondendo á sua pergunta, sim é seu.
— Você poderia ter apenas respondido que sim ou não.
— Eu poderia, mas queria deixar claro que o motivo pelo qual eu tinha o seu manto era apenas devido ao seu enorme senso de bondade e inconveniência.
— Você está falando daquela noite na torre de astronomia? Eu teria-me sentido muito agradecido se você tivesse mantido isso entre nós.
— Foi o acordado, certo? — Malfoy disse. — Eu não tenho quaisquer intenções que Granger ganhe conhecimento disso, não fique com a ideia errada. — Explicou. — Por dias eu tentei devolver o seu manto, mas fica bastante complicado, eu diria até impossível quando os seus amigos ranhosos não desgrudam de você por cinco segundos. Até que Granger deu conta, eventualmente.
— Você poderia ter dito de uma vez que era meu.
— E ter de tentar justificar o evento que levou você a emprestar-me o seu manto? — Ironizou seco. — Eu decidi passar a batata quente para você, tenho a certeza que você será convincente. Além que eu sofri a semana inteira ao ter de carregar aquele trapo com o brasão do inimigo nas minhas mãos.
— Como é que seus colegas não notaram?
— Bem, eles não se metem nos meus negócios quando eu peço especificamente para eles não o fazerem, talvez você deveria aplicar isso a Weasly e Granger, você precisa de experimentar algo chamado de "liberdade", já ouviu falar, Potter?
— A diferença entre nós é que eu trato os meus amigos como amigos, e não como um exercito.
— E eles tratam você como se você fosse o filho deles, inclusive você não é mais velho que ambos?
— Não, Hermione nasceu em 1979 e Ron em Março.
— Então você realmente é a cria deles. — Malfoy sorriu maldoso. — Agora parece que você está atingindo a sua fase da puberdade e deixando Granger preocupada, tal e qual minha mãe quando faço algo nas costas delas.
Harry suspirou, não sobrando a mais mísera vontade de alimentar aquela conversa. Continuaram andando entre os corredores até duas garotas da Corvinal acenarem timidamente a Malfoy, trocando um olhar entre elas após Malfoy retribuir o aceno com um sorriso bastante presunçoso, Harry pensou olhando para o perfil de Malfoy ao seu lado, vendo as expressões claras da desonestidade naquele rosto ossudo. Mas Malfoy não deixava de ser altamente concorrido.
A verdade é que quando Malfoy não era terrível, Malfoy era muito atraente, e não só Harry, mas como toda a Hogwarts compartilhava da mesma opinião. Murmurinhos e risos envergonhados ecoavam cada vez que Malfoy entrava no Grande Salão, alunas mais novas escondiam-se atrás das portas das salas de aulas para esperarem Malfoy sair e cumprimentarem-no, e o que atiçava o ódio de Harry era saber que, apesar de Malfoy retribuir a mesma energia, não deixava de ser falso.
E por algum motivo, a Sonserina nunca parecia minimamente preocupada com a ideia de Malfoy começar ficando com alguém e passar mais tempo com essa pessoa do que com eles na coletividade. Mas se Harry respirasse muito próximo de Malfoy, ele conseguia sentir a relutância e a hesitação, demonstrado que no fundo, existia esse medo de alguém roubar Malfoy deles, até se tornava óbvio que todo o mundo na Sonserina achava que Harry poderia, de alguma forma, conseguir afasta-los de Malfoy.
Mas a devoção de Malfoy para com a Sonserina era semelhante a uma lealdade desmedida.
E por falar em Sonserinos, ao cruzar o corredor eles deram de caras com Blaise Zabini, sentado no parapeito do corredor, acompanhado de um outro garoto com cabelos encaracolados, que virou a cabeça para trás assim que Zabini fez-lhe sinal que haviam pessoas a aproximar-se, garoto esse que rapidamente Harry percebeu que era Theodore Nott.
Harry reparou que os rapazes rapidamente limparam um pó branco assim que perceberam que Malfoy estava acompanhado. Aquele corredor era o último de Hogwarts, localizado nos calabouços da velha escola, tão húmido e frio pois era o piso mais perto do Lago Negro. Não admirava nada que Malfoy sempre parecesse tão doente e vulnerável.
Zabini rapidamente se ergueu quando percebeu quem era a figura que acompanhava Malfoy, enquanto isso, Nott continuava tentando limpar as provas de algo ilegal que estavam fazendo.
Harry olhou de esguelha para Malfoy, reparando que pela serenidade no rosto, Malfoy sabia o que eles estavam fazendo.
Zabini trocou um olhar com Malfoy, procurando permissão, mas Malfoy não tinha qualquer emoção na face.
— O que é que você está aqui fazendo? — A pergunta soava mais a uma ameaça. Que Harry não era bem vindo, ele já sabia.
— Por que? O corredor está me interdito?
— É, existe uma política que proíbe idiotas de passarem.
Harry sorriu, mas o seu olhar queimava sobre a figura do outro dando-lhe um ar sinistro. Ele avançou um passo, e olhou ao seu redor.
— Parece que nada acontecesse se eu continuar andando pelo corredor.
— Se você der mais um passo a minha mão irá voar na sua cara, é o que irá acontecer.
Harry continuou sorrindo, mais macabro que antes.
— Será?
Harry avançou outro passo na direção de Zabini acolhido por uma sensação de imprudência.
Zabini estava pronto para erguer o braço com o punho fechado, mas Nott colocou uma mão pesada no ombro do rapaz, evitando que ele pudesse concretizar o movimento.
— Potter é monitor, não convém apanhar detenção, nós temos muitos deveres de casa para concluir, não é?
Malfoy suspirou, dando o primeiro sinal de vida nos últimos cinco minutos e analisou o ambiente que o rodeava, demorando alguns segundos para intervir.
— Potter só estava carregando as minhas coisas. — Ele fez um movimento de cabeça como que lhe indicando para entregar a mala a Nott. — Potter já ia voltar para trás, não era?
Harry mordeu o lábio á medida que os olhos de Malfoy esbugalharam na sua direção, e revirou os olhos após esticar a mão para entregar a mala a Theodore Nott.
— Potter, se eu me cruzar com você aqui novamente, eu irei quebrar a sua cara. — Zabini disse com desdém.
— Eu acredito que você me verá muitas mais vezes.
Inevitavelmente, aquela sua ousadia excessiva acabou se virando contra si.
Fazia agora dois dias que um grupo de Sonserinos haviam-no arrastado para dentro de uma sala de aula vazia, aproveitando aquele momento de descuido da parte de Harry para socá-lo, embalados no escuro daquela velha sala de aula. Ele ainda se tinha tentado defender, mas lutar contra seis pessoas era demasiado para um mero adolescente. Tudo o que mexesse com Malfoy era como um tratado de guerra para com toda a Sonserina, mas ele também não pediria perdão quando não tinha feito nada de errado.
— Outch Mione, cuidado! — Harry berrou entre dentes.
Hermione passava cuidadosa um pequeno pedacinho de algodão sobre as feridas abertas no rosto de Harry. Apesar do ardor, a lenha ao longe queimando dava uma sensação acolhedora ao ambiente da sala da grifinória. Aquilo ajudou-o a acalmar-se.
— Você não estaria assim se não tivesse arranjado briga com a Sonserina, Harry.
— Mas eu não puxei briga com eles, eu já lhe contei Mione, eles é que socaram o inferno de mim.
— Eu acho que nós deviamos ir lá e socá-los de volta.
— Ron! — Hermione berrou e acabou sem querer fazer muita força com o algodão no rosto de Harry. — Ai, desculpe, Harry.
— Não se preocupe. — Mas era notória a dor no tom. Harry pegou no algodão e tentou desinfetar as próprias feridas, lançando um sorriso carinhoso á melhor amiga.
— Quando eu cruzar com Malfoy eu vou quebrar ele no meio. — Cuspiu Ron, as suas bochechas começavam a ficar da cor do seu cabelo com o tamanho excitamento. — Quando aquela ratazana sair do covil a que ele chama de casa eu vou partir cada dente daquela boca.
Às vezes, Ron conseguia ser mais assustador que Malfoy.
— Ronald! — Hermione avisou num tom imperativo. — Você está sendo mais imaturo que a Sonserina toda junta.
— Malfoy muito provavelmente nem está sabendo do que aconteceu.
Os olhares recairam sobre a sua pessoa como se Harry tivesse dito a coisa mais absurda à face da terra.
— Há dias você andava acusando Malfoy sobre tudo de ruim que acontecia dentro de Hogwarts e agora você está defendendo-o? Você está ficando mole, Harry? Aconteceu alguma coisa durante o caminho para a Sonserina que você não quer contar?
— Ou que tenha acontecido antes disso? — Hermione calmamente acrescentou às palavras de Ron. — Algo que explique o porquê de Malfoy ter ficado á sua espera nas arquibancadas?
— Você não esquece isso, Mione?
— Que história é essa? — Ron logo perguntou.
Harry revirou os olhos, afundando-se no sofá e Hermione tentou desviar o assunto.
— Eu sinto que você não está sendo honesto, mas que seja, Harry. — Ron acabou dizendo.
— Assim como vocês, eu acho que a Sonserina interpretou mal.
— Isso não nos impede de ir lá e socá-los.
— Ron! — Hermione chamou-o á atenção.
— É melhor não. Malfoy não irá gostar.
Ron esbugalhou os olhos pela segunda vez e apertou o braço de Harry, tentando chamá-lo á atenção. Para enorme infelicidade de Harry, Ron apertou bem no sitio de uma ferida.
— E você acha que ele dará a mínima? Quando ele descobrir você acha que ele vai dar bronca nos Sonserinos? Não, amigo. Ele muito provavelmente dará uma palmadinha nas costas e de Zabini, e dirá para se esforçar mais da próxima vez.
— Ron você está magoando Harry! — Disse Hermione preocupada.
No fundo, Harry acabava concordando em grande parte com as palavras de Ron, então ele era incapaz de o contradizer, e bem, aquela talvez fosse uma das razões pelas quais ele odiava tocar no nome de Malfoy perto de Ron, até porque cada vez que eles acabavam falando sobre ele ou sobre a sonserina, raramente era por bons motivos.
No dia seguinte, Harry saiu da enfermeira ainda num estado que Madam Pomfrey considerou de horrendo e já se haviam passado quatro dias desde o sucedido. O lábio de Harry tinha sido brutalmente arrebentado com a força dos socos, o seu nariz estava partido e completamente ensaguentado. Das últimas memórias que tinha era de sentir um gosto forte de sangue invadindo a sua boca e carreiras de sangue escorrendo pelos cantos do seu lábio. Sabia que algures ao lado da sua cabeça estava uma poça de sangue de quando cuspiu aquele liquido vermelho que se acumulava dentro da sua boca e pintava o seus dentes de uma cor escarlante viva. Após isso, tudo era escuro e solitário. Toda a sua vida havia sido assim, apedrejado e jogado no canto de um estreito sem a mínima empatia, nem um único pingo de compreensão nutrido pela sua pessoa. Aquela tinha sido a conclusão a que tinha chegado antes de desmaiar.
Adentrou no Grande Salão sem ousar cruzar olhar com a mesa da Sonserina enquanto segurava um saco de gelo contra o lábio. Não tinha a mínima disposição de se armar em herói e colocar-se à mercê de levar um pontapé na bunda pela segunda vez. Ele ainda estava se recuperando da porrada que havia levado há dias, e ele não era burro para se colocar em outra briga sem uma razão justificável.
Encaminhou-se na direção da mesa da grifinória a passos rápidos e sentou-se entre Ginny e Neville, de frente para Ron e Mione.
— Você está terrível, amigo.
— Boa observação. — Harry pegou num copo de água e bebeu com muito custo em abrir a boca. — O que é que lhe deu a dica?
— Se você está chateado, você deveria descarregar em Zabini, — Ron deu uma trinca num pedaço de pão. —Ou então em Malfoy, agora que ele está aqui.
A boca de Ron estava tão cheia que Harry não conseguia perceber o que ele lhe estava dizendo.
— O que você disse?
— Olhe para trás. — Ron fez um gesto de cabeça, insinuando o outro estreito do Grande Salão. — Malfoy está sentado na mesa da Sonserina, ao lado de Zabini e de Parkinson. Só de olhar para a cara dele perco o apetite para comer.
Ginny que ouvia a conversa de socapa viu, sem muito surpresa, Ron dar outra mordida no pão e revirou os olhos.
Harry virou a cabeça com muita dor e viu Malfoy ao longe, cochichando qualquer coisa no ouvido de Pansy Parkinson e sorrindo. Voltou-se então para a frente, não esboçando qualquer emoção. Agora que Malfoy estava ali Harry percebera que toda aquela inquietação que o deixava acordado durante a noite e impaciente durante o dia, havia sido bastante desnecessária. Malfoy estava ali, como se nada tivesse acontecido, parecendo tão impossível de culpa e remorso, assim como todos os outros ao seu redor. As coisas sempre haviam sido daquele jeito, então não conseguia fingir surpresa.
O dia tinha passado como todos os outros. Eles haviam jantado e ido para a sala comunal da grifinória, como faziam todas as noites. Harry sentou-se no sofá da sala comunal da grifinória e permaneceu lá até não sobrar mais ninguém além dele mesmo. Não só era dificil tentar não ter pesadelos consecutivos com Voldemort, como a tarefa tinha-se tornado completamente impossível com todas as dores que cobriam o seu corpo. Harry continuo estendido no sofá, os pés sobre a mesa rasa no meio da sala comunal.
Harry suspirou levemente, num breve sopro e inclinou a nuca para trás, pousando a cabeça no encosto do sofá. A tranquilidade atingindo-o como um furacão. Fechou os olhos e só acordou na manhã seguinte com o barulho da correria dos alunos do primeiro ano, subindo e descendo a escadaria em passos pesados, pegando livros que se haviam esquecido ou rezando a Merlin para não levarem detenção por se ter esquecido de realizar o trabalho de casa de Transfiguração. Abriu um olho levemente e voltou a fechá-lo na esperança de conseguir voltar a adormecer, quando para sua surpresa alguém começou cotocando o seu ombro, com um bocado de força. Harry tentou ignorar mas a força que a pessoa estava forçando no seu braço estava começando a magoá-lo, e a contragosto, abriu os olhos com uma expressão arrogante.
— Você pode parar Ron?
— Pensei que estava morto. — Disse Ron um pouco receoso, fazendo Harry entender que talvez tenha soado demasiado ríspido.
— Não, mas você quase furou meu braço.
— Desculpe amigo. Só queria saber se você vem à aula agora.
Harry olhou para o relógio de pulso que carregava para todo o lado como uma pequena relíquia e fez uma careta de desgosto.
— Já estou atrasado. É melhor faltar.
— É aula com Snape, Harry. Mione vai matar você se não o vir entrando na sala quando o sino tocar.
— E Snape mataria-me se eu entrasse a meio da aula e bem, entre Mione e Snape, prefiro morrer às mãos de Mione. Além que já tenho de ver Snape nas aulas de Oclumentia, prefiro tirar uma folga hoje.
— Então e Malfoy?
— O que tem Malfoy?
— Eu pensei que podíamos socar Malfoy e Zabini quando a aula terminasse, por aquilo que fizeram a você.
— Se eu batesse em Malfoy toda a vez que arranjo problemas por causa dele, eu já teria sido expulso de Hogwarts.
— Mas você vem almoçar com a gente, certo?
— Eu devo ir à segunda aula, não se preocupe.
— Vou andando então, se despache Harry.
Ron saiu da Grifinória quando a grande maioria dos alunos já tinham saído, mas bem atrás de Ron, Ginny passou rente ao sofá de Harry.
— Bom dia, Harry.
Ainda que não fosse muito esforçado para cumprir horários, ele continuava sendo monitor.
Harry continuo andando pelos corredores quase vazios de Hogwarts. Estava quase na hora de recolher, ele conferiu no seu relógio de pulso que marcavam dez e meia da noite. O seu manto preto da Grifinória esvoaçava a cada passo que Harry avançava, anuciando a chegada da sua pessoa entre os corredores amplos e frios de Hogwarts.
O dia havia sido cansativo. Tudo o que desejava naquele momento era chegar ao dormitório da Grifinória e deixar o seu corpo deslizar pelos lençóis macios da sua cama. O fim de semana estavam chegando, e nada o deixava mais feliz que isso, pois significava que não precisava de ter aulas de Oclumencia com Snape.
Harry virou num corredor e quando estava prestes a subir um dos lances de escadas, a descer vinha também Draco Malfoy, que acabou tossindo com o susto que tomou, como se estivesse prestes a engasgar-se, anuciando também a sua presença.
Harry ficou fitando-o de alto a baixo, na parte baixa das escadas.
— Vejo que já consegue andar sozinho. — Malfoy parecia bem sem as muletas. — Mas isso não significa que você possa estar vagueando por ai após o recolher.
— Sem você continuar falando muito eu vou socar o seu traseiro.
Harry revirou os olhos.
— É melhor você se despachar comendo isso. Está quase na hora do recolher. — Disse Harry um quanto frio e impassível.
Malfoy começou descendo o lance de escadas sob o olhar curioso de Harry. A forma como ele se estava comportando, como se ele mandasse, envolvido no seu silêncio tenebroso, conseguia incomodar extremamente Harry.
A cada passo que se encontrava mais perto do outro rapaz, sentia-se cada vez mais doente, estava um pouco ansioso, afinal, o que iria Malfoy dizer desde os últimos acontecimentos? Além que Harry não conseguia deixar de se sentir ainda um pouco rancoroso pela forma como a sonserina o havia tratado. Por causa disso, ainda no seu queixo e na sua sobrancelha haviam feridas abertas que não estavam sarando tão depressa como ele gostaria, e sem esquecer o seu olho esquerdo que estava ligeiramente arroxeado ao redor, dando a sensação, ao longe, que Harry tinha mais olheiras do que aquelas que ele na realidade tinha.
— Bons olhos o vejam, — Malfoy franziou as sombracelhas na sua direção. A expressão ficava mais carregada à medida que se aproximava de Harry. — O que aconteceu com a sua cara?
Disse Malfoy analisando-o de alto a baixo, deixando Harry desconfortável por debaixo do manto preto da grifinória com aquele olhar fixo nele. O mesmo olhar parecia ter chegado ás feridas espalhadas pela face de Harry e nas suas mãos. Malfoy levantou uma mão para tocar no rosto de Harry, mas Harry afastou calmamente a mão do seu rosto, agarrando no pulso fino de Malfoy.
— Pergunte a Zabini.
Malfoy apenas o ficou fitando por uns segundos sem dizer nada até se afastar finalmente.
— Sempre que vejo a sua cara horrenda parece que você andou lutando com o Salgueiro Lutador. — Ele acabou por dizer. Malfoy deu outra dentada na sandes que trazia.
— E cada vez que o vejo você continua inconveniente como sempre. O que é que você está fazendo aqui? — Harry colocou as mãos nos bolsos do manto e ficou ali em pé, olhando para Malfoy que parecia uma criança à luz da lamparina.
— E você está ligeiramente mais impaciente hoje, mas eu vou-lhe dar um desconto, aturar os devaneios de Weasly todo o santo dia deve ser exaustivo.
— E como se não bastasse tenho de aturar você também.
— Eu estou acabando de jantar.
— O banquete acabou faz uma hora. Você deveria ter ido jantar com todos os outros.
— Eu iria se Weasly não estivesse do outro lado do salão olhando para mim como se quisesse roubar o meu jantar.
— E eu a pensar que seria o meu dia de sorte e que não me cruzaria com você mais hoje.
— Você só está aqui porque você quer.
— Eu estou fazendo as minhas rondas, você é que não deveria estar aqui.
Malfoy sentou-se no parapeito da janela do corredor. A luz do anoitecer iluminava parcialmente a sua face pálida enquanto este acabava de comer a sua sandes. Harry manteve-se de pé, fitando-o e aquecendo as suas mãos nos bolsos do seu manto.
— Certo, eu já percebi, você está de mau humor. — Malfoy suspirou pesadamente e ajeitou os leves fios de cabelo por detrás das orelhas, sob o olhar chateado de Harry. — É porque Zabini puxou briga com você?
— Zabini não puxou briga comigo. Ele simplesmente achou que seria engraçado me apanhar sozinho e me socar.
Malfoy estava pensativo, enquanto balançava os pés, um pouco apreensivo no seu lugar. Houve um momento de silêncio constrangedor antes dele falar algo.
— Você só teve o que merecia por ser intrometido, Potter. — Harry revirou os olhos no seu lugar. —Mas antes que você pense que fui eu quem mandou Blaise encher você de porrada, pense novamente.
— Então você está aqui para limpar o seu nome?
Malfoy deu outra dentada.
— Mas o meu nome está limpo.
— Certo. — Harry encostou-se contra o varão da escadaria, de frente para o outro rapaz. — Eu estava à espera que você tivesse um pouco mais de senso e não ficasse do lado dele.
— Você está querendo que eu escolha entre você e Blaise?
— Nesta situação-
— Você foi bastante impulsivo e descuidado, e se Blaise tivesse socado você naquele momento, na minha frente, o que era suposto eu fazer? Ficar do seu lado?
— Assenta com você. — Harry rapidamente cortou, o tom ríspido. — Você pode ir embora? Eu gostaria de ir para os meus dormitórios mais cedo.
Malfoy suspirou fortemente pela segunda vez num curto espaço de tempo e olhou pela janela ao invés de morder a sua sandes, como se olhar para Harry o começasse irritando como de costume.
— Se você fosse às aulas eu poderia ter-me explicado. Não é como se eu tivesse concordado com o que eles fizeram com você.
— Não há nada para você explicar, você disse que não tinha nada haver com o que aconteceu, não é?
Malfoy desviou pequenos fios de cabelo da frente dos seus olhos.
— Eu tomo responsabilidade se você quiser em nome da Sonserina, sendo eu o monitor. Mas vou-me lembrar disso da próxima vez.
— Então isso significa que ainda há a chance de Zabini socar o meu traseiro pela segunda vez?
Malfoy olhou para si como se estivesse prestes a arrancar a sua cabeça e dar de comer á lula do lago negro.
— Se você continuar irritante desse jeito ele irá socar você muitas mais do que apenas duas vezes.
— Sim, eu imaginei que sim.
— Eu não entendo como é que Weasly ainda não socou o meu traseiro, sabe?!
— E eu não entendo como é que alguém consegue comer uma sandes tão devagar.
— Estou a saborear. — Disse Malfoy após ter dado mais uma dentada minúscula na sua sandes. Harry estava habituado a ver Ron comer, visto que fazia a maioria das suas refeições sempre na sua companhia, e não havia uma possível comparação entre a brutalidade de Ron com a lentidão de Malfoy.
— Você pode ir saborear para a Sonserina.
Passos ecoaram no fundo do corredor.
Malfoy parou de mastigar subitamente, olhou ao seu redor e novamente encarou Harry.
Harry tinha uma sombracelha franzida. Ele pensou que ouvir coisas fosse um outro possível efeito secundário das suas constantes insónias, mas Malfoy tinha uma expressão desconfiada.
— Se for Peeves querendo nos pregar um susto eu juro que o dou de sobremesa aos Dementadores lá fora. — Disse Malfoy se levantando.
Harry continuo observando o fundo do corredor, mas não havia sinais de mais ninguém para além deles dois.
— Acho que alguém nos estava espiando.
— Ou então viram o idiota herói do mundo bruxo no corredor e fugiram não querendo levar detenção do monitor malvado.
Quando Harry virou o rosto para a frente estava Malfoy de pé, muito próximo de si, mas Harry não se abalou, e permaneceu no seu lugar. Viu que Malfoy ainda tinha metade da sandes na mão.
— Você também deveria ir andando para a Sonserina se não quer levar detenção.
— E eu estava indo, até você aparecer e me interromper.
Malfoy deu outra dentada e virou costas a Harry. Harry teve de resistir á tentação de travá-lo e dizer que o levaria à Sonserina, mas lembrou-se não só das palavras de Zabini da ultima vez que se cruzaram, como também sabia que se Malfoy estivesse em perigo, que ele próprio se defenderia.
— Não fique andando por ai. — Harry acabou dizendo, a voz um pouco trêmula.
— Não tenciono me cruzar com você outra vez, não se preocupe.
Ali estava Draco Malfoy, o lider da sonserina, a quem todos naquela casa prestavam uma devoção quase doentia e inexplicável. Harry nunca percebera como é que eles tinham acabado por se apegar a Malfoy de tal forma que sempre se havia mostrado mais importante proteger e cuidar de Malfoy do que deles próprios. E o sentimento era recíproco. Malfoy sempre havia agido por bem da sonserina, sempre havia dado a cara quando a sonserina era acusada do quer que fosse. Ele sempre estava lá, defendendo-os, pelo mero facto deles serem sonserinos.
Claro que Malfoy iria defender a sonserina uma vez mais, e tudo o que Harry viesse a dizer apenas os levaria a uma troca de argumentos mórbida e sem fundamento.
Harry checou o ponteiro das horas no seu relógio de pulso, verificando que, de facto, já passavam vinte minutos das onze horas e quase durante uma hora, ele e Malfoy não tinham se tentado estragular até à morte.
Mantê-lo por perto era um grande alívio, além que não era assim tão mau como ele pensava ser.
Malfoy deu costas deixando Harry para trás, estático no mesmo sitio enquanto observava a figura virar num corredor e desaparecer da sua vista.
E com um certo pesar das suas palavras, ele e Malfoy haviam voltado ao seu estado habitual de hostilidade. Era difícil sair daquele ciclo vicioso que eles, inevitavelmente, haviam criado, então, apesar de qualquer esforço, eles sempre acabariam envolvidos naquela bolha de rivalidade porque era definitivamente mais fácil e mais cómodo odiarem-se a tentarem dar-se bem.
Haviam crescido destinados a odiar um ao outro, porque era assim que tinha de ser, então eles simplesmente tentaram conformar-se que era assim que tinha de ser entre eles, sem dar uma única chance um ao outro, o que também seria extremamente difícil tendo em conta todas as circunstâncias.
Mas Harry ainda se lembrava do brilho do olhar de Malfoy quando Malfoy colocou, pela primeira vez, os olhos em si. Para uma criança mimada como ele, o sentimento que sentiu ao ver Harry à sua frente no Beco Diagonal há seis anos deveria ter sido algo parecido ao que se sente quando se recebe um novo brinquedo como prenda de aniversário.
E ainda mais difícil deveria ter sido digerir o facto que Harry não estava interessado a ser tomado por ele.
E agora ela percebera que aquele sentimento de Malfoy para com ele havia durado a vida toda deles.
O sentimento de inconformidade.
Eles tinham um ódio profundo e obscuro, que crepitava no peito de Harry e fazia Malfoy perder a sua postura de menino bem educado, rápido se transformando em brigas nos corredores que faziam todos os outros estudantes se afastarem. Brigas que duraram anos até aos dias de hoje.
O sentimento de renúncia disfarçou-se de ódio para Malfoy.
Hermione já lhe havia dito entre linhas que ele não descarragava em Malfoy a indignação em relação ao seu destino cruel de ser chamado para uma guerra que ele não começara.
Para Hermione, como ela lhe havia dito, Harry com suas brigas, procurava uma justificação para aquela rivalidade entre eles e finalmente se poder conformar que era assim que tinha de ser entre ele e Malfoy.
Mas será que havia a possibilidade de Malfoy puxar briga por ser um frustado incoformado com a relação entre eles?
Afinal, Harry curvou-se perante todos os rumores maldosos sobre a Sonserina e Malfoy, e aceitou-os.
Então, era evidente que a maior vitória para Malfoy seria um dia ser admirado por Harry e fazê-lo ocupar um pouco do seu tempo para lhe dar a atenção que ambicionou ter por um longo periodo de tempo.
Mas ele conseguia perceber que até mesmo para Malfoy, que se estava esforçando ligeiramente mais agora que tinha chances para isso, estava achando difícil se aproximar de Harry.
Os anos acabaram colocando os dois em posições completamente diferentes na vida.
E não havia muito tempo que restasse para ambos reverterem toda a situação.
Que diabos, aquilo era um absurdo. Mesmo que ele tivesse a oportunidade para isso, Harry provavelmente a ignoraria, para bem da sua saúde mental e da de Ron.
Oh, Ron, se ele lesse os pensamentos de Harry com certeza, ficaria o próximo semestre sem falar com ele.
E o dia mal tinha começado e lá estava ele, perdido em pensamentos que envolviam Malfoy. Aquilo havia-se tornado mais habitual que o costume, estava a um ponto de poder ser considerado excessivo.
Tão distraido que nem deu por si encarando o vazio, mais precisamente uma face pálida e ossuda do outro lado do grande salão. Harry só deu por si quando do outro lado, Malfoy fez um gesto com a cabeça levantando o queixo e arregalando os olhos cinza, estreitando-os na sua direção.
"Para onde você está olhando?" Harry leu entre lábios, a cabeça apoiada na palma da sua mão e o cotovelo apoiado no tampo da mesa.
Harry subiu o olhar dos lábios finos de Malfoy e voltou a encarar os seus olhos sem nada dizer, o que fez Malfoy revirar os olhos no seu lugar e cruzar os braços sobre o peito, notoriamente incomodado.
Rapidamente, Ginny sentou bem na frente de Harry, tapando-lhe a visão e roubando a atenção de Harry.
