Childhood Dream Of Draco Malfoy
Por Ginsy
[Harry Potter x Draco Malfoy]
Capítulo IV
Irritado era pouco para descrever o seu estado naquele momento. Ele estava enraivecido, possesso, mais um pouco e jurava que poderia arrancar cada dedo de Potter á dentada.
Hoje era parcialmente uma noite gélida, o telhado da cabana daquela casa feita de palha sustentava tanta neve que parecia querer quebrar no meio. O vento era calmo mas não era silencioso, as janelas mal fechadas chiavam de forma sinistra, e aquele parecia ser o único barulho ao seu redor, apenas o assobio da brisa fesca daquela noite e o um ruído que provinha de um velho poste que piscava insistentemente sobre a cabana, deixando as sombras que cobriam a casa minúscula ainda mais aterradora.
Mais uma vez a lâmpada do poste piscou até que se apagou de vez, encobrindo assim a chegada de uma nova figura, ele ouviu. Uma figura encapuzada escondia-se nas sombras á medida que subia a colina, com seus passos pesados e lentos deixando a marca notória de suas botas na neve caida.
Seu punho se fechava e abria num impulso nervoso inconsciente á medida que aquela figura se aproximava de si. Ele semicerrou os olhos tentando perceber quem era, e pelo jeito de andar ele limitou-se a revirar os olhos, continuando sentado nos pequenos três degraus da cabana de Hagrid.
— Você está atrasado. — Atestou severamente com sua voz meio rouca, que mais soava a uma repreensão.
— Ai que merda Malfoy! — Harry deu um passo para trás com o susto, quase deixando cair o frasco de vidro que trazia numa mão e a lamparina a óleo que carregava noutra.
— Que merda de instinto de sobrevivência isso sim. — Parecia que a boca de Malfoy só se abria para o criticar. — E você está assim por que?
— Assim como? — Harry não percebeu, recuando mais um passo no momento em que Malfoy se ergueu e deu dois passos largos na sua direção. Ele não confiava naquele rapaz naquele momento, Malfoy parecia estar furioso.
— Assim. — Malfoy esticou a mão e retirou-lhe o capuz do manto. — Você está parecendo um Comensal da Morte.
— Estou? Parece que vou ter de acreditar em você, com certeza você está mais familiarizado com o vestuário do que eu.
— Você está querendo insinuar alguma coisa? — Malfoy ergueu o queixo, colocando-se de modo defensivo, e Harry só tinha em mãos duas opções que não pareciam muito úteis para serem utilizados como arremessos.
A sua sorte é que ele vinha acompanhado.
— Só lhe falta o benzoar não é, Harry? Eu acho que talvez se você pedir a Slugh- — Hagrid parou abrutamente de falar e entrecalou os seus olhos pequeninos negros entre Harry e Malfoy. Aquilo foi o bastante para Malfoy recuar.
— Você está olhando para onde? Continue falando com Potter.
Harry arregalou os olhos na direção daquele rapaz.
— Eu é que chamei Malfoy aqui. — Ele acabou mentindo. — Espero que você não se importe Hagrid, Malfoy concordou em não contar a ninguém que você me levou à Floresta Proibida, não foi?
Malfoy bufou e fez um gesto com a mão.
— É.. o que ele disse. — Ele disse baixinho, notoriamente a contra gosto, e por esse motivo, Hagrid não parecia muito convencido. Malfoy soltou um tsc sobre a respiração, as atenções sobre si. — Eu estou cobrindo Potter nisto também, se você for repreendido eu também serei. — Ele acabou acrescentando.
— Não se preocupe Hagrid, Malfoy não será um babaca pela segunda vez com você.
Malfoy deu de ombros, as mãos dentro do manto da Sonserina.
— Você está pálido, — Hagrid chegou-se perto de Malfoy e colocou uma mão sobre a testa dele. Malfoy ficou estático no lugar, nenhuma expressão na sua face poderia descrever o choque que ele estava sentido, para grande divertimento de Harry. — Você ficou quanto tempo à nossa espera?
Recuperando novamente a capacidade de andar, Malfoy recuou dois passos largos.
— Quem disse que eu estava esperando vocês? Eu vou andan- — Malfoy estava prestes a virar costas mas Hagrid pegou no braço esguio do rapaz e o empurrou, quase que à força, para dentro da cabana.
— Eu fiz bolachas.
— Ah sim, as bolachas de Hagrid... — Harry riu-se levemente enquanto subia também os três degraus para o interior da pequena cabana, e Malfoy olhou para ele como se o pudesse estragular. — Você vai adorar as bolachas que Hagrid faz quando tem visitas.
Malfoy deu-lhe um leve tapa no braço e ele conseguiu ler entre o subtil movimento de lábios "Você está querendo me matar?"
Harry pousou as coisas que trazia sobre a mesinha de jantar de Hagrid e retirou a lista dos ingredientes necessários do seu bolso, lista essa que rapidamente foi confiscada por Malfoy que começou lendo e checando se eles tinham trazido todos os ingredientes necessários.
Harry despiu a própria capa da grifinória e colocou-a sobre as costas da cadeira de madeira tentando que no tempo que lhes restava que ela secasse minimamente. Ele reparou que a capa de Malfoy também estava parcialmente molhada, talvez porque Hagrid tinha razão e o rapaz tinha ficado à espera dele por um tempo considerável. Claro que Malfoy nunca o admitiria, mas era um quanto óbvio, ele só não entendia o por quê.
Já passava trinta minutos depois das onze da noite.
— Crisopas?
— Aqui. — Hagrid mostrou o pequeno pote com mosquitos verdes.
— Mantenha isso longe de mim.
Hagrid voltou a pousar o pote na mesa.
— Diafanina?
— Ahm- Algures aqui...
— Está aqui. — Harry mostrou.
— Hm. Próximo.
Malfoy parecia tão entretido e envolvido no seu pequeno mundo que Harry decidiu fazer-lhe aquele pequeno favor. Harry puxou-o levemente pela manga do manto para que Malfoy se aproximasse de si, e com facilidade, Malfoy avançou uns miseros passos na sua direção, e assim Harry começou desabetoando o primeiro botão do manto do rapaz á sua frente, fazendo Malfoy se atrapalhar no seu raciocínio.
— Você está tentando me despir?
— Estou deixando você envergonhado?
— Você está me distraindo. O que é que você está fazendo?
— Continue.
Harry começou abrindo o segundo botão reparando que por debaixo do manto, Malfoy tinha o pôlo da Sonserina vestido. Quando Harry ia a desabetoar o quarto botão já mais na zona da umbigo, Malfoy deu-lhe um empurrão.
— Você está demorando tanto por que?
— Eu estou sendo simpático.
— E não pode ser simpático de uma forma mais rápida? Por isso é que você está sempre atrasado, se vestindo com esta rapidez não admira nada.
Malfoy parecia stressado e talvez até um pouco atrapalhado. Ele despiu o manto e jogou-o em cima da mesa.
— E com a rapidez que você está demorando para checar esses ingredientes eu vou acabar adormecendo aqui.
— Para sua informação, seu grande idiota, eu já chequei duas vezes. — E atirou-lhe a lista contra o peito, sentando-se amuado no sofá de Hagrid, as pernas cruzadas assim como os braços.
— Vocês dois não discutam.
— Eu não estou discutindo, Potter é que me está irritando.
— Ele hoje acordou com os pés fora da cama.
— Harry não diga isso.
Harry olhou para Hagrid com uma certa revolta e afrontamento.
— Você está defendendo ele e não a mim que sou seu amigo desde há anos?
— Se você está com ciúmes é problema seu. Seja mais carismático para a próxima. — Malfoy disse simblante, um sorriso fraco no rosto.
— Seu ego é tão grande que você acabará por explodir.
— Da mesma forma que você explodiu a sua tia no terceiro ano?
Harry sorriu arrogante.
— Hagrid você ainda não deu uma bolacha a Malfoy pois não? Eu acho que Malfoy quer experimentar.
— Eu já jantei.
— Mas você ainda pode comer uma bolacha não?
— Potter se você não se calar eu enfio o meu pé na sua boca.
Hagrid tinha um grande sorriso no rosto enquanto oferecia a Malfoy as bolachas no tabuleiro.
— Isto são o quê? Pepitas de chocolate?
— Queimado. — Harry cortou rapidamente.
O olhar de Malfoy era mortífero.
— Você quer que eu morra?
— Eu já comi e estou vivo.
— Sim, mas você- — Malfoy parou abruptamente de falar e muito a contragosto, fuminando Harry com a força do olhar ele mordeu a bolacha só para em menos de três segundos ele a cuspir novamente.
— Sr. Malfoy, você está bem?
— Hagrid deixe estar, ele é só um pouco dramático.
— Dramático? — Malfoy disse tossindo repetidamente.
Harry sentou-se ao seu lado no sofá e ofereceu-lhe um copo de água que Malfoy tomou num só gole. Parecia que ele tinha comido algo picante, mas Harry sabia que não era isso, por experiência própria. Ele evitou rir da situação para não magoar os sentimentos de Hagrid que sempre cozinhava aquelas bolachas cada vez que Harry o visitava.
Mas de esguelha ele olhou para Hagrid que olhava para Malfoy com uma certa preocupação e tristeza. Aquilo fez Harry sentir-se também triste. Mas a culpa não era de Malfoy, ele não conhecia Hagrid e não nutria a mesma empatia que Harry nutria pelo professor, e acima disso, muito provavelmente ele não sabia que aquilo era importante para Hagrid.
Hagrid parecia que ia chorar a qualquer momento, e Malfoy ao seu lado parecia ter notado também.
— Eu gostei das suas bolachas. — O loiro acabou dizendo entre a tosse. — Eu só me engasguei.
Harry passou a mão nas costas de Malfoy e massajeou levemente aquela parte enquanto rapaz tossia.
— Você quer mais? — Hagrid disse, o sorriso simpático substituindo a sua face tristonha.
— É melhor não, Hagrid. — Harry acabou dizendo assim que sentiu a mão de Malfoy apertar a sua coxa em afilição após a pergunta inocente de Hagrid. — Malfoy ainda se está recuperando da primeira bolacha.
— Eu acho que vou morrer. — Ele disse com a voz rouca.
Harry deu-lhe um tapa forte nas costas e Malfoy tossiu ainda mais fortemente com a força com que Harry lhe bateu.
— Hagrid, você pode ir dormir, eu e Malfoy já vamos embora.
— Certo. — Hagrid concordou, ligeiramente preocupado com o estado de Malfoy. — Ele vai ficar bem?
— Ele irá. — Harry certificou-o. — Hagrid- Será que posso deixar os ingredientes aqui e amanhã levá-los? Eu não tenho sitio onde os deixar.
— Claro, Harry. Eu vou-me deitar então. Você pode ficar o tempo que quiser.
Harry sorriu-lhe simpático e Malfoy acenou-lhe antes de Hagrid bater a porta do seu pequeno quarto.
— Você quer mais um copo de água?
— Não, não, eu estou bem. — Disse ele limpando a garganta mas voltando a tossir fracamente.
Harry continuou acariciando levemente com uma mão as costas de Malfoy até que Malfoy inclinou-se e pousou a cabeça no encosto do sofá, o rosto virado para o teto e prendendo o braço de Harry sobre os seus ombros. Harry ignorou esse facto, ele não parecia ciente.
Harry observou o perfil de Malfoy, o rapaz parecia extremamente angelical quando não abria a boca para ser terrivel. O rosto era ossudo, quase que parecia doente de tão magro que a sua face era, o nariz era pontiagudo mas reto, as pestanas eram igualmente loiras como as suas sombracelhas e os leves fios de cabelo que pousavam sobre a sua testa. Harry desceu o olhar para os lábios finos e rosados do rapaz, meio entreabertos como se ele estivesse procurando um pouco de oxigénio. O único pensamento que Harry teve naquele momento foi algo não muito usual, mas ele poderia colocar as suas mãos no fogo em como Malfoy era muito bonito quando chorava.
A visão da qual deslumbrava naquele momento despertava em si um sentimento tão egoista e tão longe daquilo que se poderia considerar como empatia. Harry queria destruir aquele rapaz, queria estragá-lo, de forma a que um dia Malfoy chorasse na sua frente.
De algum modo parecia que Malfoy tinha sentido as suas más intenções e beliscou-o na coxa, que Harry nem notará que a mão de Malfoy descansava lá já fazia uns bons minutos.
— O que é que eu lhe fiz agora?
— Você está respirando em cima de mim. Está começando a incomodar-me. — Malfoy disse num tom baixinho, quase que inaudível. Os olhos dele permaneceram fechados.
— O que é que você quer que eu faça, então? Não é como se eu pudesse parar de respirar.
— Vire a cara para lá, eu sei que eu sou muito bonito mas você não precisa de ficar o tempo todo olhando para mim.
— Eu não estava olhando para você.
Malfoy abriu levemente um olho e Harry rapidamente virou o rosto para o teto e fechou os olhos, sobre a breve gargalhada egocêntrica de Malfoy.
— Isso significa que sou muito bonito, então? — Malfoy saiu do seu silêncio tenebroso.
Harry suspirou levemente, tentando não incomodar muito o rapaz ao seu lado.
— Você é muito convencido.
— Isso não invalida o facto de seu ser bonito.
Daquilo que conhecia de Malfoy ele não ia descansar até ouvir a resposta que queria.
— É, você é bonito.
— Seu grande imbecil, eu não sou apenas bonito, capriche nos seus elogios, eu sou extremamente deslumbrante. — Malfoy afastou-se de Harry e chegou-se ligeiramente mais para a ponta do sofá, apoiando o cotovelo no braço do sofá e apoiando a cabeça na mão. — É uma perca de tempo ficar perto de alguém que não me sabe apreciar.
Harry revirou os olhos exasperado.
— Não é a mesma coisa?
Malfoy olhou para ele como se ele tivesse dito a coisa mais horrenda de todos os tempos.
— Vindo da boca de quem diz que Weasley é bonita, eu prefiro que você fique calado.
— Ah, mas isso é normal, ela é-
– Uma garota? E daí?
Harry mordeu a bochecha levemente, um pouco desconfortável no seu lugar.
— Eu não sei apreciar rapazes.
— Claro que não, basta olhar para você.
— Eu não sou feio.
— Eu não disse que você era. — Malfoy disse quase que imperceptível entre a voz de sono. — Mas você poderia arranjar-se um pouco mais. Pentear-se um pouco, sei lá. E esses óculos já passaram de moda.
— Eu preciso deles para ver.
— Você pode comprar outros. — O loiro disse quase que revoltado. — Não é você que herdou uma grande fortuna que seus pais deixaram? O seu mal é você ser forreta e querer passar despercebido entre os pobres.
— E eu a pensar que o elogiei.
— O tom de voz que você usou não soou a um elogio.
— Que tom de voz?
— Você sabe. Seja mais entusiasta para a próxima vez.
Harry fechou os olhos, os lábios meio entreabertos enquanto o seu peito subia e descia, permitindo embalar-se naquela suave sensação de plenitude, sentia-se fraco e esgotado com os vários acontecimentos que ultimamente preenchiam o seu tempo. Mas ele não estava propriamente chateado, ele acabou notando que já não passava tanto tempo ansioso com o futuro incerto que lhe estava prometido. Até chegar ao momento em que teria de se cruzar novamente com aquela figura desumana, sentia-se imprudente e inabalável, ele estava confiante que a sua morte seria provavelmente num campo de batalha, e até lá, não havia nada que o deixasse amedrontado, apenas havia uns pequenos sintomas de pânico do qual não conseguia escapar.
Pesadas pingas de chuva chocaram raivosamente contra as janelas da cabana de Hagrid, a chuva começava intensificando-se à medida que os minutos iam passando, tornando mais incerto o momento em que ele e Malfoy voltariam a Hogwarts.
Olhou para o rapaz ao seu lado, praticamente afundado nas ínumeras almofadas de Hagrid, de um modo dolorosamente contorcido, mas parecia também estranhamente confortável. Harry levantou-se do sofá e começou por checar se os mantos já estavam secos, o que talvez não iria adiantar de muito pelo jeito que trovejava lá fora.
A cabana de Hagrid era um espaço pequeno situado perto do Lado Negro nos campos de Hogwarts, no inverno era especialmente um espaço frio. O vento passava entre as dobradiças da porta de madeira e fazia barulhos estranhos, como se desse a leve sensação que a casa estava assombrada. De relance, voltou a analisar o rapaz que estava dormindo no estreito sofá. Daquilo que se lembrava, os dormitórios da Sonserina estavam localizados num sitio igualmente frio com vista para o Lago Negro, talvez um pouco mais tenebroso por estar ao lado das masmorras. O dormitório da Sonserina não tinha visão para os campos de Hogwarts como os da Grifinória, na verdade era bem mais calustrofóbico, era como um aquário, um estranho naufrágio aquático em formato de sala comunal.
Não admirava nada que Malfoy sempre tivesse aquele ar pálido e débil, mas que Harry se lembrasse, ele nunca tinha visto Malfoy engripado ou algo do genéro que pudesse insinuar que o rapaz estava, de facto, doente. Ele só tinha aquele rosto no qual a magreza se estampava, mas isso não impedia Harry de perceber que Malfoy por vezes, parecia triste, mas ele duvidara fortemente que isso tinha alguma conexão com a localização dos dormitórios da Sonserina.
Ainda assim, ele achou por bem colocar uma pequena manta sobre a figura do rapaz, tentando aconchegá-lo e sentou-se no lado oposto do sofá, esperando que a chuva torrencial parasse minimamente.
Uns rasos minutos depois, os suficientes para Harry fechar os olhos e adormecer, uma mão chocalhou delicadamente o seu ombro, conseguindo acordá-lo após várias tentativas. Ele entreabriu os olhos, dando de caras com Malfoy sentado de pernas cruzadas sobre o sofá, enrolado na manta que mais cedo Harry lhe dera.
— Que horas são? — A voz sonolente chegou de forma fraca aos seus ouvidos.
Harry consultou o relógio de pulso, ainda se tentando acostumar com a leve claridade que o pequeno feiche de luz do poste lá fora emitia através da janela sem cortinas.
— Duas da manhã.
Malfoy coçou os olhos tentando acordar e olhou através da janela.
— Parece que a chuva parou.
— Parou? — Harry sussurou. Virou levemente o pescoço para verificar que realmente não parecia estar chovendo mais. — Vamos andando então.
Harry ia a erguer-se do sofá, quando a meio do seu bocejo, Malfoy puxou-o pelo pulso e fê-lo sentar-se novamente.
— Eu vou andando. Você pode ficar, não é como se Granger e Weasley se fossem importar se você dormir aqui.
— E você? Também já não atingiu a maioridade?
— Eu não tenho muito o que dizer a eles.
— Qual é a diferença de você ir agora ou daqui a quatro horas? — Harry olhou novamente pela janela. — Está escuro agora, se você não quer arranjar problemas vá ao amanhecer. — Harry suspirou tentando encontrar uma explicação plausível. — É mais seguro.
— Você acha que tenho um comensal malandro tentando me pegar lá fora é?
Harry revirou os olhos, eles não conseguiam passar dez minutos sem começar discutindo.
— Você tem dementadores, que é bem mais terrível.
— Você já experimentou a raiva de Pansy? Acho que-
— Malfoy, eu estou falando a sério. — Harry cortou, notoriamente entorpecido pelo sono. — Você sempre pode dizer que ficou passando a noite noutro salão comunal, com certeza ela irá acreditar.
Malfoy largou o seu pulso e enrolou-se mais fortemente no manto.
— Que seja o que você acha de mim, eu também já não chegava totalmente impune a estas horas. — Ele acabou dizendo.
— Agora fique em silêncio, eu estava dormindo.
— A minha coluna vai ficar torta aqui. Você quer que eu acabe como o Flitch?
Harry abriu um olho.
Marreco. Era o que Malfoy estava tentando insinuar.
Harry permitiu rir.
— Você pode dormir no chão.
— Durma você, seu imbecil, com certeza está mais habituado que eu. — Respondeu rabojento.
— Você quer que eu faça o quê?
— Nada, feche os olhos.
Harry assim fez, continuando sentado numa das pontas do sofá, mas não conseguiu evitar notar que Malfoy não parava de se mexer e contorcer no sofá como se algo o estivesse incomodando, até que Harry sentiu uma almofada cair sobre o seu colo e logo a seguir um peso descansou também sobre a almofada, fazendo também peso nas pernas de Harry.
Ele abriu os olhos para ver que Malfoy tinha colocado todas as almofadas na outra beira do sofá e uma no seu colo para conseguir apoiar a sua cabeça na mesma e esticar-se em todo o comprimento do sofá, a manta mal posta sobre o seu corpo, que num leve movimento Harry arranjou, de forma a tapar melhor o rapaz ali deitado.
Harry cruzou os braços não sabendo bem onde os colocar naquele momento e permitiu dormir também, sempre em alerta que a madrugada chegasse e iluminasse o cómodo.
Acabou, porém, não dando pelo momento em que Malfoy havia saído.
Aquela seria uma atitude insolente, talvez até ousada, mas muito pouco ou praticamente nada ele dava miníma. Havia uma certa relutância que o fazia por meros segundos deixar de saber andar, talvez ele deveria interpretar aquilo como um sinal para dar meia volta e ir embora, mas já era demasiado tarde, já todo o mundo tinha dado pela sua presença, mesmo que ele tivesse tentado passar despercebido ao infiltrar-se falhadamente atrás de um grupo de Corvinais que também iam a entrar no Grande Salão justo naquele momento.
Ali, ele arrependeu-se da sua decisão imprudente e suspirou pesado enquanto se desculpava mentalmente.
Malfoy não merecia aquilo.
Harry parou bem na frente da mesa corrida da Sonserina, instalando um clima pesado entre os demais, mais precisamente de frente para um rapaz de cabelos platinados que vagarosamente levantou os olhos cinza assim que Pansy Parkinson ao seu lado lhe deu uma cotovela tentando chamá-lo à atenção. Ele reparou que os dedos finos e longos de Malfoy seguravam uma carta amassada repleta de letras minúsculas escritas elegantemente á mão.
Malfoy piscava incessantemente os olhos na sua direção, como se ele pudesse descrever a confusão que estava sentido através do olhar, mas envolto no seu usual silêncio.
— Você esqueceu-se disto.
Malfoy agarrou o manto da sonserina que Harry lhe estendia, sem qualquer expressão no rosto de ambos que pudesse acabar com a inquietação que pairava sobre a mesa da Sonserina.
Tentando não morrer entretanto, Harry saiu do Grande Salão parecendo descontraído enquanto aquecia as mãos nos bolsos do uniforme, mas especialmente atento a quem caminhava atrás de si.
Á medida que sentia alguém aproximar-se de si, dentro do bolso do uniforme tentou buscar a sua varinha caso fosse necessário.
— Harry!
Um rapaz de cabelos vermelhos e um sorriso aberto no rosto, apressava os seus passos para o alcancar no outro estreito do corredor.
— Merda, Ron! — Harry bufou, tirando a mão do seu bolso. — Porque você estava-me seguindo?
— Seguindo? Eu vi você cruzar o corredor. — O sorriso no rosto de Ron expadiu-se ainda mais, de uma forma um quanto assustadora. — Onde é que você esteve?
— Bem, eu tive de tratar de umas coisas com Dumbledure. — Aquela seria sempre uma boa desculpa, por mais esfarrapada.
Ron sorriu-lhe, colocando o seu braço ao redor dos ombros de Harry.
— Você já comeu? Aposto que não. Vamos para o Grande Salão?! Estou morrendo de fome, Harry! Muita fome!
— Eu já comi Ron. — Disse ele, também com um sorriso no rosto. — Eu posso esperar por você na Grifinória, tenho de ir buscar meus livros primeiro.
— Você não me quer fazer companhia? Hermione hoje foi a uma excursão qualquer.
Harry viu Ginny que vinha acompanhada de Thomas a descerem o lance de escadas, e tentou fracamente fazer sinal a Ron para ir com a irmã.
— Bom dia Harry. — Ginny disse, enquanto que Thomas simplesmente lhe acenou. Harry acenou devolta com um sorriso simpático, mas quem não parecia muito feliz era Ron.
— Perdi a vontade de comer. — Ron disse meio enjoado e começou subindo o lance de escadas. Harry apressou o seu passo para o apanhar.
— Onde é que você vai?
— Se eu vir Ginny e Thomas aos beijos novamente eu vomito.
Harry não deixou de evitar soltar um leve riso, porém Ron olhou para ele com uma carranca, fazendo Harry voltar a uma expressão neutra.
— Sua irmã já tem idade, você sabe-
— Mas não com ele. Eu não gosto dele.
— Thomas é uma pessoa dedicada, e vocês se davam bem, não?!
— Não mais desde que ele fica dando em cima de Ginny, é estranho sabe?! Ele é meu amigo.
Harry deu de ombros.
— Você já tentou falar com ele sobre isso?
— Eu quebro ele no meio se ele ficar me encarando mais de três segundos.
Ali Harry teve a certeza que estava rodeado de pessoas com um temperamento duvidavel. Claro que a sua moral era extremamente igualmente duvidavel.
E a certificação disso estava bem na frente dos seus olhos, foi o fervor que sentia nas suas veias com uma simples troca de palavras com Snape. Não havia nada de benéfico em estar preso numa sala de aula com Snape, principalmente para a sua saúde mental quando o professor insistia em ser maldoso e desagradável, parecia que havia coisas que com o passar dos anos nunca mudavam, mas que Harry ainda não havia aprendido a lidar com.
— Você vai continuar amuado, Potter? — Snape começou com o seu tom arrastado, de costas viradas para si. A atmosfera era tudo menos agradável. Harry resmungou algo inaudível e simplesmente sentou-se na mesma cadeira de sempre, a contragosto.
— Você vai demorar muito a ver se os ingredientes estão todos?
— Ainda agora você chegou.
— Eu estou cansado.
— Oh, que pena, não é verdade?
Harry soltou um longo suspiro, enquanto tentava ajeitar-se na cadeira desconfortável. Após um longo momento, acabou quebrando o silêncio:
— Eu sei que você que foi falar com Dumbledure.
Aquilo não apanhou Snape de surpresa.
— Você pensa que já sabe tudo, não Potter? Essa sua arrogância me dá vontade de vomitar.
Harry revirou os olhos e cruzou os braços sobre o peito, colocando-se na defensiva. Aquele homem alto com uma aparência sinistra era de uma forma quase que macabra parecido com Malfoy. Mas havia uma certa diferença, Malfoy era extremamente mais convencido e admirado entre os restantes, Snape por outro lado era retraído, e muita pouca gente gostava dele, com a exceção dos sonserinos que haviam sido persuadidos por Malfoy que Snape era como uma figura paterna para aquela casa, uma figura respeitável e madura, coisa essa última que Malfoy muito pouco era. Malfoy por sua vez, era extremamente concorrido e popular também fora da Sonserina, o que era um pouco absurdo porque ele nem era assim tão agradável.
— Você já verificou tudo ou só me está enrolando?
Deveria ser Lupin, Harry pensou, com um certo carinho e saudades. Há muito tempo que não tinha notícias de Lupin, mais precisamente desde o momento em que a Ordem de Fénix havia mudado de esconderijo por causa dos diversos episódios em que Voldemort entrava na mente de Harry, deixando a robusta mansão que Sirius tinha entregue em testamento para Harry, abandonada. A mansão empoeirada que Harry nunca visitava, com um certo remorso em seu peito.
— Eu estou lhe dando uma última oportunidade de praticar as aulas de Oculumência.
— Então você está à espera que eu decida? A minha resposta é não, eu não quero.
— Eu não lhe perguntei se você queria frequentar ou não. É uma ordem de Dumbledore, se você é tão contra a ideia então vá falar com ele.
— Eu irei, não se preocupe. Você não me as quer dar e eu não quero que você as dê. Eu acredito que estejamos em sintonia.
— Eu concordei em dar as aulas, Potter, não seja tão cheio de si, é insuportável da sua parte.
— Claro que você concordou, fica fazendo troça das minhas memórias a torto e a direito-
— Se você não fosse tão preguiçoso por este andar você já saberia-
Três batidas foram ouvidas e a maçaneta rodou com facilidade, interrompendo toda a narrativa de Snape. Harry revirou os olhos mas no fundo não conseguia deixar de sentir um certo alivio.
— Preciso falar consigo.
Harry virou tão depressa a cabeça que seu pescoço estalou. Na lomba da porta do pequeno escritório estava Draco Malfoy.
Harry trocou um breve olhar com Snape, que pela primeira vez naquele espaço de tempo se tinha virado, e que claramente não havia sido para falar consigo, mesmo que Harry achasse que a conversa que estavam tendo era também de certa forma, importante. Sentiu-se derrotado e virou-se para a frente, fitando as próprias botas pretas militares com algum desânimo.
— O que é que você quer, Draco? Eu estou tratando de assuntos agora. — O olhar negro minuscioso recaiu sobre si, indicando Harry como pessoa non grata por ali.
— Sim eu acabei a reparar. — Malfoy parecia reticente. — Recebi isto hoje.
Harry sobre o ombro viu Malfoy dar um pergaminho a Snape um pouco reticente, até que se recordou de ter visto aquela carta mais cedo, no Grande Salão, na posse de Malfoy enquanto ele tomava o pequeno-almoço. Malfoy não parecia muito contente com a recessão dela de manhã, e nem agora.
Houve um grande minuto de silêncio.
— Quando? — Snape subitamente disse.
— O próximo fim de semana.
— Você vai?
Novamente uma grande pausa no raciocínio de Malfoy deu-se. Aquilo não era costume, e Harry percebeu a indireta.
— Talvez seja melhor eu sair. — Harry disse se erguendo da cadeira e se caminhando para a saida.
— Você espere. — Snape travou-o colocando uma mão no seu ombro.
Malfoy parecia subitamente mais baixo.
— Você está olhando para onde? — Mas aquilo não fez Harry desviar a sua atenção do rosto de Malfoy.
Por segundos, Snape parecia pensativo, dividido entre o deixar ir ou atormentá-lo mais uns minutos, até que ele deixou Harry ir, levantando a mão pesado do seu ombro. Harry passou rente a Malfoy e fechou a porta atrás deles.
Mas ele permaceu com o ouvido encostado atrás da porta de madeira. E provavelmente os outros dois sabiam disso porque o resto da conversa havia sido algo extremamente minuciosa e calculada. Harry acabou por ir embora após uns bons minutos, cumprimentando Ron quando chegou à sala comunal da grifinória, que jogava cartas animado com Neville.
Hermione estava sentada na poltrona ao lado da lareira lendo um livro "Criaturas Mágicas e os Seus Segredos Volume III", levantando vagarosamente os olhos cor de amêndoa do livro assim que o quadro da Dama Gorda rodou, permitindo a entrada de Harry.
— Você chegou cedo, Harry. — Ela disse amavelmente, um sorrio fraterno no rosto, como se ela fosse uma figura materna orgulhosa.
— Sente-se Harry, jogue conosco hoje. — Ron convidou com uma expressão entusiasta.
A lareira estava acessa e a chuva caia lá fora, dando aquele pequeno cômodo uma sensação de conforto que Harry não havia sentido em dias.
— Eu vou subindo, estou cansado amigo.
Ron estava prestes a contestar, a boca aberta já para dizer algo mas Hermione esboçou-lhe um sorriso.
— Daqui a pouco nós também vamos. — Hermione disse. — Deixe Harry descansar, Ron, Harry está com um ar cansado.
Harry sorriu-lhe, uma forma de agradecimento silenciosa e mandou-se para cima da sua cama, os tão desejados lençois que cobiçava há dias. Deixou um longo e pesado suspiro escapar entre os seus lábios. Durante uns bons minutos ele fechou os olhos e tentou cair no sono, mas havia um certo medo em adormecer e deixar escapar as suas estimadas lembranças, sendo elas as coisas mais preciosas que segurava naquele momento. Ele duvidara porém que não tivesse deixado escapar alguma, sem notar.
Ele havia tentando evitar pensar naquilo por ser demasiado penoso, acabando por concordar com Snape em certos aspetos, por mais repugnante que isso fosse. O seu último sonho havia sido algo como um, aviso?
Será que tinha sido Voldemort? Será que tinha sido apenas as vozes da sua cabeça? Uma coisa era certa, ele estava ficando insano. Ponderar uma hipótese hipotética não o levaria a lado nenhum.
No dia seguinte, ele acabou fechado no mesmo cómodo que Malfoy, para mal dos seus pecados.
Não só Malfoy estava lá, o queixo erguido numa falsa supremacia, como também Cho Chang, monitora da Corvinal de pé bem ao lado dele e Susan Bones, a monitora da Lufa-Lufa, ao lado da professora McGonagall.
Ele observou Malfoy por uns segundos, e Malfoy parecia ter notado pois franziu as sombracelhas na sua direção, claramente uma expressão enigmática no seu rosto.
— Eu falei com o Professor Dumbledure, e ambos chegámos á conclusão que o circulo está cada vez mais apertado. Três dementadores já detetaram cinco figuras suspeitavas ao redor de Hogwarts. — McGonagall começou, de esguelha olhando para si. — Por isso eu e o Professor Dumbledure consideramos, com a devida autorização do Ministério da Magia, colocar mais três dementadores-
— Nem pensar. — Harry cortou rígido. A postura inabalável e a face rígida. A sua posição era clara, ninguém parecia surpreendido.
Malfoy revirou os olhos e bufou exasperado.
— Bem, Sr. Potter a decisão tem de também ser discutida com os seus colegas. Talvez podiamos discutir isto em conjunto e no final chegar a uma decisão, somos um número impar, por isso não haverá possiveis empates.
— Isto é uma escola, não é Azakaban, acho que estamos confundindo levemente as coisas. — Harry começou, o tom seco. — Hogwarts é uma escola com alunos, alguns deles nem conhecem as três maldições imperdoáveis e outra coisa é Azkaban, uma prisão de alta segurança com os bruxos mais desumanos conhecidos.
— Você quer facilitar a entrada de Comensais da Morte em Hogwarts? A principal razão pela qual Dumbledure os colocou lá fora é por causa de você e a sua maldita irresponsabilidade. Não seja ingrato. — Malfoy mandou para o ar com aquele tom arrastado e arrogante.
— Ingrato? Eu nunca pedi que ele colocasse os Dementadores nos pátios, e todos aqui sabem a minha posição acerca do assunto. Se o seu problema é que eu não sou grato o suficiente, então vote contra, e eu ficarei deveras muito grato a si, Malfoy.
Ele era tudo menos... delicado.
— Eu não acho que os dementadores sejam só em benefício de Harry. — Susan Bones acabou dizendo, provocando um sorriso mínimo na face de Malfoy. — Eles acabam protegendo os restantes alunos contra possíveis intrusos. Se Dumbledure quisesse apenas proteger Harry, então Harry provavelmente já não estaria mais em Hogwarts e sim escondido em algum sítio.
— Por isso eu acho que Potter não deveria apenas pensar no traseiro dele.
— Se eu estivesse pensando apenas em mim eu não estaria votando contra, ou você vai continuar fingindo que a suposta queda que você deu em Quidditch há umas semanas não foi por causa de um Dementador do qual você se tentou desviar?
— Se você continuar inventando rumores possivelmente as pessoas irão acreditar.
— Talvez, mas em causa não está um rumor, ambos sabemos o que aconteceu, eu vi.
Malfoy mordeu o lábio, tentando não socar Harry.
— Nesse caso, eu não acho muito seguro. A grande parte dos alunos não sabe invocar um Expecto Patronum. Se não fosse por Harry no quinto ano com a armada de- Bem, eu também não saberia. — Cho Chang começou vagarosamente, enquanto pensava no que dizer a seguir. — Dementadores não saberão diferenciar alunos de outros intrusos ou possíveis Comensais da Morte que estão tentando penetrar as estruturas de Hogwarts, tenho a certeza que existem outras formas de proteger Hogwarts.
— Claro que não saberiam, ele também é um Comensal e está aqui.
Não demorou nem três segundos para Malfoy socar o rosto de Harry. Harry cuspiu o sangue que rapidamente se formou na sua boca com a força do soco, e sem pensar duas vezes, ele socou Malfoy também, fazendo Malfoy se desequilibrar e chocar contra uma secretária, e teria socado uma segunda vez se Cho Chang e McGonagall não se tivessem colocado entre eles, bloqueando a sua visão para Malfoy. Susan Bones agarrava Malfoy pelos braços, mas não parecia que Malfoy estivesse lutando para sair do aperto dela, o rapaz apenas disse:
— Vamos votar então, Potter. Acho que não há mais nada o que discutir visto que você já está saltando para as acusações.
McGonagall suspirou, entrecalando o seu olhar entre os dois rapazes feridos.
— Não, não vamos votar hoje. — Ela disse prontamente, o tom rígido. — Votaremos amanhã ou quem sabe daqui a uns dias quando vocês voltarem aos seus sentidos. Voltem para seus dormitórios. Excepto vocês dois. — McGonagall não precisava dizer nomes. Cho Chang e Susan Bones sairam do cômodo, um pouco reticentes. Cho Chang ainda tinha sussurrado a McGonagall "você acha que eles não vão brigar de novo?" e ela apenas acenou com a cabeça, indicando a saida para a corvinal.
Viu Cho Chang olhar para si com uma certa ternura antes de fechar a porta, e de esguelha ele olhou para Malfoy que limpava com a manga do manto o rasto de sangue que estava escorrendo pela sombracelha e rastejando pela bochecha pálida, criando um certo bonito contraste. Por que raio ele estava reparando naquele pormenor, Harry pensou derrotado.
— Espero que você esteja olhando para mim com arrependimento. — Malfoy acabou dizendo num tom lento.
— Porque eu deveria? Foi você que me bateu primeiro.
— Ora porque terá sido? Com essa testa gigante você não consegue chegar a uma conclusão?
— Obrigado por me relembrar o quando eu odeio você, Ron bem me avisou.
Malfoy revirou os olhos.
— "Ron" — Ele começou arrastado, um certo divertimento estampado no tom. — E quando é que ele tem algo bom a dizer sobre a minha pessoa?
— E com alguma razão.
— Vocês dois são impossíveis, onde já se viu! — McGonagall virou-se para eles com a testa franzida sobre os cabelos grisalhos, e rapidamente um certo silêncio imperou na sala de aula. — Vocês são monitores, quer dizer que foram escolhidos pelas respetivas casas como os alunos mais aptos para o cargo.
— Malfoy tem uma aptidão imensa para ser idiota, por exemplo.
— E Potter tem uma aptidão imensa para ser intrometido.
— Sr. Potter! Sr. Malfoy! Vocês dois querem ser destituídos? Vocês já são adultos, deveriam comportar-se como tal. — Malfoy suspirou no seu lugar. — O que o Sr. Potter disse não está correto, acusações de tal tipo são extremamente graves, mas o Sr. Malfoy também não pode partir para a violência. Eu aconselho vivamente vocês dois a chegarem a um acordo como monitores que são em primeiro lugar, e então falaremos os cinco em conjunto.
— Falar com Potter é o mesmo que falar com uma porta. Ele me ouve, por acaso?
— Eu preferia não ouvir.
— Senhor Malfoy, por favor. — A professora pediu. — Já vi que cada um de vós tem as suas opiniões, mas tentem arranjar tempo para falar a sós sobre, e depois poderão explicar os vossos pontos de vista com as vossas colegas. Vocês dois precisam de aprender a comunicar mais e a discutir menos. Eu sei que velhos hábitos por vezes são dificeis de quebrar, mas eu acredito que no fundo vocês apenas estejam preocupados um com o outro.
Malfoy acabou tossindo.
— Preocupado uma ova. — Harry mandou para o ar. — Ele bem poderia cair numa vala que eu não ligaria.
— Ah sim, o grande idiota herói metido ignoraria um pobre e indefeso aluno. Será que tenho que reviver a sua memória daquela vez na torre da-
— Você não esquece isso?
— Não. Eu quase morri de susto graças a você, seu grande palerma!
— Eu estava tentando- — Harry suspirou exausto. — Que seja, você não ia entender mesmo.
— Já que você está cheio de energia, Sr. Potter, eu agradecia que me fizesse o favor de levar o Sr. Malfoy à infermeiria e de seguida levá-lo ao seu dormitório, enquanto monitor responsável que você é.
Harry olhou para Malfoy e analisou-o de alto a baixo.
— Ele parece bem.
— Eu não volto a repetir. — Afirmou McGonagall naquela tom de voz que ela sempre usava. Era dificil levá-la a sério na sua opinião, mas ele estava com mais medo de ser destituído, aquilo implicaria um corte na sua liberdade.
A contragosto, ele acabou acompanhando Malfoy à infermeiria, envolvidos num silêncio tão denso que nem poderia ser cortado com uma faca, e ficou sentado a duas macas de distância enquanto Malfoy estava recebendo curativos de Madam Pomfrey, a idosa infermeira que durante os próximos dez minutos não tinha parado de reforçar a ideia de como eles eram dois garotos irresponsáveis, claro que com palavras mais meigas e simpáticas, mas a ideia que ela estava tentando passar era clara como o sol.
— Vocês dois fizeram isto um ao outro?
Malfoy olhou para Harry, os olhos cinza e pequenos estreitos na sua direção como se estivesse prestes a socá-lo novamente.
— É, porque Potter não consegue manter a sua boca fechada.
Harry deu de ombros e ficou sem silêncio fitando a infermeiria, tentando contrariar o ponto daquele rapaz. Ele olhou para Malfoy notoriamente incomodado, e sorriu levemente, achando uma ponta de divertimento na situação.
— O gato comeu-lhe a lingua? — Malfoy implicou assim que sairam da infermeiria.
Harry não conseguia entender que tipo de terapia era aquela que McGonagall lhes estava tentando introduzir, mas não estava funcionando. Até pelo contrário, aquele desejo ardente que não sentia há anos em encher Malfoy de porrada estava começando a queimar o seu corpo novamente.
Eles matariam Harry se soubessem que Harry encostou um dedo no querido e amável monitor da sonserina.
— Você disse para eu ficar de boca fechada e eu fiquei. Decida-se, Malfoy.
— Bem, eu acabei de decidir que você é um grande imbecil.
— E é por isso mesmo que os nossos caminhos dividem-se aqui. Você tem dois pés, vá sozinho.
— Eu não tinha qualquer intenção de trazer você comigo, mas a ideia não era péssima, talvez Blaise pudesse dar você de comer à Lula do Lago Negro.
Imaturo, Harry pensou, ele era muito imaturo.
E com uma certa surpresa, ele não estava falando de Malfoy e sim dele próprio.
Os próximos dias passaram-se calados, eles não haviam chegado a um acordo. Aquilo já era esperado. O sabor da derrota bailava na sua boca, ou então eram os pontos que se tinham aberto e estavam começando a encher a sua boca novamente se sangue. As duas salsinhas dançavam no seu prato, não tinha a mais pequena força de vontade de as levar à boca, ele ficou encarando a comida no seu prato, uma expressão derrotada de como quem havia perdido uma batalha.
— Você não vai comer, Harry?
Ele levantou os olhos e sobre os óculos de aro redondo ele viu Hermione com uma expressão maternal, como já era habitual, ela estava só preocupada, ele pensou, não havia o porquê dele ser grosso com ela.
— Eu não tenho fome.
— É, mas você precisa comer ou então Ron irá roubar a comida do seu prato quando voltar.
Harry estava tão distraido que acabou nem reparando que Ron não estava sentado com eles ao almoço.
— Onde ele foi?
— Dar um discurso desnecessário de cem razões pelas quais Thomas não poderia namorar Ginny.
Harry sorriu levemente, típico.
Sobre o ombro de Hermione ele viu uma cabeça de cabelos platinados bem penteados entrar no Grande Salão, envolvido numa grande bolha de presunção e vaidade, se encaminhando numa postura elegante até à mesa da Sonserina. Pansy Parkinson foi a primeira aconchegar-se contra Theodore Nott abrindo um pequeno espaço entre ela e Dafne Grengrass para Malfoy se sentar, e ele hábil como sempre, tinha-se conseguido enfiar naquele minúsculo espaço.
Diferentemente das outras vezes, ele parecia bem humorado. Era uma expressão bem diferente daquela que tinha visto ultimamente, mas não era propriamente mau, era só incomum. Agora Malfoy parecia comparecer a todas as refeições, mas sempre ligeiramente atrasado. Harry perguntou-se se havia alguma razão que explicasse aquela mudança de comportamento súbita.
A resposta para a sua pergunta parecia ter aparecido uns segundos depois.
Aquele rosto também impecável emoldurado por longos cabelos loiros, o brasão da Sonserina no manto como se fosse um símbolo de glória. Ele lembrava-se daquela garota, algures nas suas recordações enquanto espiava Malfoy.
Astória Grengrass era uma sonserina muito bonita, talvez até das garotas mais bonitas de Hogwarts.
Ele nunca havia prestado muita atenção a ela, porém.
Mas talvez precisasse, ele pensou.
Aquela entrada no Grande Salão com um certo curto espaço de tempo entre ambos os sonserinos era um quanto duvidosa, e falhadamente chamativa. Harry já tinha presenciado entre eles dois alguns momentos consideravelmente mais agradáveis, que até faziam Harry questionar-se mentalmente se havia dois Malfoys divididos no tempo. Não se lembrava de serem momentos muito românticos, talvez um pouco joviais, mas nada que trasnparece-se a leve sensação de que Malfoy estava interessado.
Mas obrigando-se a olhar para aqueles dois, naquela nova perspectiva, eles realmente encaixavam muito bem.
E por falar em olhar, um olhar cinza e gélido, quase que doente, cruzou com os seus olhos verdes por detrás das lentes dos óculos de aro rendondo.
Quando Harry deu por si estava observando fixamente Malfoy, que semi cerrou os olhos na sua direção parecendo cruel.
Quer dizer, Harry não o estava observando, ele repetiu mentalmente. Malfoy é que estava no seu campo de visão. Tentou convencer-se disso.
"Vá se foder." Foram as palavras que Harry conseguiu ler pelos lábios finos de Malfoy.
Harry respondeu à provocação com um sorriso fechado sarcástico e um dedo do meio.
Para além da sua infatilidade é de conhecimento geral que Malfoy é cheio de outros podres. É manipulador, tem altas tendências narcisistas, suas palavras cortam mais fundo que a lâmina de uma faca e seu coração é mais frio que um cubo de gelo, talvez porque nasceu para ser essa personificação maldosa no mundo, ou talvez porque precisava tapar a ferida de nunca ter sido amado verdadeiramente.
Ainda assim, Malfoy era um bruxo astuto, determinado e habilidoso nas artes mágicas, nomeadamente no que tocas às negras, além de ter uma capacidade de liderança abismável, sabe ser distante e imparcial, talvez um pouco demasiado rígido, ele lembrou-se com uma certa piada os treinos de Quidditch. E embora seja cheio de defeitos no carácter, ele era extremamente perfeito apto para o cargo de monitor.
Draco Malfoy era o lider perfeito. Durante anos ele julgou que Malfoy usava os seus colegas como um exército ameaçador se algo lhe acontecesse, quando na verdade, na sua opinião, os sonserinos é que usavam Malfoy como proteção se eles fossem ameaçados.
Antes da guerra explodir, os sonserinos adoravam Malfoy e aquela sua presença gratificante. Agora, eles mais que o adoravam, eles veneravam-no.
Uma devoção desmedida daquele tipo beirava ao doentio.
E se alguém ao menos ousasse machucar Malfoy...
— Isto só pode ser brincadeira...
Harry parou no lugar e focou as suas grandes iris verdes no bando de Sonserinos que estavam amontoados ao redor de Malfoy como abelhas em torno de uma flor, enquanto o loiro aparentava ser tão covarde ao deixar-se estar escondido atrás da figura robusta de Goyle.
No entanto, o que Harry não conseguia ver era que Pansy Parkinson nas arquibancadas, forte aliada de Malfoy, levou as mãos à boca em descrença chocada.
Claro, que o resto dos bruxos não tinham ficado muito atrás da reação de Pansy.
Só ai Harry reparou que todos os presentes nos campos varridos de Quidditch tinham entrado em choque.
— Ora, meu deus! — Daphne Greengrass estremeceu, agarrando forte no braço da irmã ao olhar para a cara tão usual pálida de Malfoy que agora escorria desesperadamente um líquido vermelho.
Todos os presentes calaram-se em angústia, até o burburinho de vozes explodir ao redor de Malfoy.
— Draco... você foi atingido.
Malfoy ergueu as pontas dos dedos e tocou no pequeno corte que uma bludger provocou ao passar a milímetros da sua bochecha. Trouxe a mão para a frente dos olhos apenas para ter a confirmação que estava sangrando.
Harry desceu rapidamente a escadaria, tendo observado tudo através da pequena janelinha dos dormitórios da Grifinória.
— Onde é que você vai Harry?
— Malfoy vai cometer um assassinato, ele vai matar alguém.
