Prólogo - Uma Mulher Livre
A floresta estava imersa na serenidade noturna, com o luar timidamente filtrando-se através das copas das árvores. Sombras dançavam ao ritmo do vento, e os sons da natureza criavam uma suave melodia. Entre as árvores, uma jovem corria com grande velocidade, vestindo um pesado vestido azul de inverno, uma capa de lã combinando e botas de couro. A cada passo, o capuz da capa caía para trás, revelando Fleur Delacour e sua cascata de cabelo platinado que flutuava ao seu redor.
Ao seu lado, ela carregava uma cesta de vime; dentro, havia um filhote com um exuberante pelo. Uma grade brilhante, de aparência mágica, mantinha o filhote preso na cesta, impedindo-o de escapar. Enquanto Fleur acelerava o passo, o filhote soltava pequenos gemidos, abalado pela velocidade da corrida.
De repente, uma matilha de lobos começou a cercá-la, avançando de todos os lados com ferocidade alarmante. Um dos lobos saltou sobre ela, dentes à mostra, mas Fleur, com um movimento gracioso da varinha, fez a natureza agir em sua defesa. Raízes de árvores irromperam do chão, formando barreiras que desviaram os ataques. Outro lobo tentou atacar por trás, mas cipós rapidamente se entrelaçaram, criando redes que o prenderam no ar.
Enquanto corria, Fleur continuava a manipular a flora ao seu redor. Galhos baixos se dobravam, afastando os lobos, e arbustos densos surgiam para bloquear seu caminho. Os lobos investiam com renovada determinação, mas a jovem, em perfeita harmonia com a natureza, desviava de cada ataque com precisão e elegância, sem ferir nenhuma das criaturas.
Os lobos, no entanto, eram persistentes. Eles saltavam sobre as barreiras de raízes e rasgavam as redes de cipós com suas garras afiadas. A jovem corria incansavelmente, conjurando novas defesas a cada passo, mas os lobos estavam determinados.
Finalmente, ela alcançou uma clareira e encontrou um lobo imponente, claramente o alfa da matilha. Ela parou, colocou a cesta no chão e levantou as mãos em um gesto de rendição, segurando firmemente sua varinha.
"Calma, sou eu. Prometi trazer seu filhote de volta em segurança, e aqui está ele," disse a jovem, sua voz suave.
Com um movimento delicado da varinha, ela libertou o filhote da grade luminosa. "Pronto, vá para sua mãe!" disse ela ao filhote, que se esforçava para sair da cesta. O lobo se aproximou, cheirando cuidadosamente o filhote. A jovem sorriu, um misto de alívio e embaraço. "Tive que lhe dar um banho," disse ela, observando atentamente o lobo.
O lobo rosnou, como se entendesse e desaprovasse o banho. Seus olhos fixaram-se na jovem, mostrando um lampejo de desagrado.
Fleur continuou, tentando explicar melhor: "Ele precisava dormir comigo para se recuperar, e ele estava cheirando muito mal. Sinto muito!" disse ela, sua voz quase suplicante, esperando que o lobo entendesse suas intenções.
O lobo cheirou o filhote novamente, suas narinas dilatando-se ao absorver o novo cheiro limpo. Fleur pôde ver o alfa relaxar um pouco, mas ainda havia uma tensão perceptível em seu corpo. O olhar que o lobo deu a Fleur parecia dizer que, embora entendesse a necessidade, não aprovava totalmente a interferência humana.
A jovem deu um passo para trás, dando mais privacidade à mãe e ao filhote. Com um último aceno de sua varinha, ela disse, "Finite Incantatem" desfazendo os encantamentos ao seu redor.
Os lobos começaram a correr ao redor do alfa, formando um círculo protetor. O lobo olhou para eles e deu um rosnado autoritário, ordenando que não atacassem a jovem. Os lobos sentaram-se, observando-a atentamente.
Fleur, em um tom sincero e gentil, disse, "Sinto muito por tudo o que aconteceu. Espero que você e seu filhote sejam muito felizes."
O lobo, parecendo entender e aceitar suas desculpas, permaneceu firme e vigilante, mas não atacou. Seus olhos brilhavam com uma mistura de aceitação e cautela.
A jovem, agora mais à vontade, observou a cena com um sorriso. A tensão que permeava a floresta parecia dissipar-se, substituída por uma paz renovada. Fleur sentiu o calor da reconciliação envolver o ambiente, tornando a noite menos ameaçadora e mais acolhedora.
...
Enquanto caminhava pelo trilho sinuoso, os sons da floresta noturna a acompanhavam. O distante cricrilar dos grilos e o sussurro das folhas ao vento criavam uma suave, quase hipnótica melodia. O caminho de pedra brilhava com os últimos resquícios da luz do dia, guiando-a gentilmente em direção ao seu destino.
Finalmente, a clareira se abriu para revelar uma charmosa e acolhedora casa de pedra. Era o crepúsculo, e a luz dourada do pôr do sol tingia a cena com tons quentes. Fumaça subia da chaminé, sugerindo um ambiente aconchegante e convidativo dentro da casa. As janelas brilhavam com luzes suaves, prometendo calor e segurança. Fleur sabia que dentro daquela casa encontraria a serenidade que procurava.
Ela sorriu ao ver a casa, sentindo um alívio imediato. Caminhou até a pequena cerca que cercava a propriedade e, ao abrir o portão, sentiu algo se enrolar ao redor de sua perna direita. Olhando para baixo, viu uma enorme cobra deslizando ao seu redor. A cabeça da cobra tinha o tamanho de uma cabeça humana.
Fleur não ficou nem um pouco assustada. Em vez disso, seus lábios se curvaram em um sorriso suave enquanto acariciava a cabeça da enorme cobra. "Acabei de limpar sua bagunça, Zaino," disse ela em um tom levemente repreensivo. "Você deveria se envergonhar. Imagine uma cobra do seu tamanho atacando um pequeno filhote."
Ela passou a mão gentilmente sobre as escamas frias de Zaino, sentindo a textura áspera sob seus dedos. As escamas eram duras e resilientes, refletindo a luz do crepúsculo com um brilho quase metálico. Fleur podia sentir a força latente sob a pele da criatura, uma energia contida que impressionava, mas não a assustava.
"Você deveria encontrar alguém do seu tamanho, sabe?" continuou ela, sua voz cheia de uma mistura de afeto e desapontamento. O tom maternal em suas palavras era claro; ela falava com Zaino como uma mãe repreendendo um filho travesso.
No entanto, em vez de responder às carícias e repreensões de Fleur, Zaino apertou seu agarre em sua perna. Fleur franziu a testa, sentindo a pressão aumentar a cada segundo. "Zaino, pare com isso, você está me machucando," disse ela, tentando manter a calma.
O agarre de Zaino não afrouxou. Pelo contrário, sua força quase esmagava sua perna, fazendo Fleur soltar um gemido de dor. Ela tentou olhar para ele sobre sua cabeça, tentando entender o que estava acontecendo. Foi quando ela notou algo alarmante: as pálpebras de Zaino estavam abertas, algo que ele nunca fazia perto dela.
O coração de Fleur disparou. O olhar de um basilisco era mortal, e mesmo que Zaino fosse apenas um jovem, a abertura de seus olhos significava perigo iminente. Rapidamente, ela fechou os olhos para evitar o olhar letal do basilisco, o pânico agora evidente em seu rosto. Ela podia sentir as escamas apertando ainda mais contra suas pernas, tornando a situação cada vez mais desesperadora.
O mundo de Fleur escureceu enquanto seus olhos permaneciam fechados, e ela tentou focar em sua respiração, buscando uma solução.
"Grand-mère, Zaino está agindo de forma muito estranha! Ajude-me! Minha varinha está sob ele, não posso me defender." disse Fleur.
A resposta veio lentamente, como se testando a coragem e a capacidade de Fleur. "Você é uma veela, Fleur. A varinha apenas limita seu poder. Ordene que ele pare."
Fleur, ainda com os olhos fechados, sentiu uma onda de pânico. "Mas, Grand-mère, os olhos dele estão abertos. Não posso dar-lhe um comando vocal," respondeu ela, sua voz trêmula e hesitante.
"Fleur! Nossa magia não atua apenas através dos olhos. Use outras formas de impor sua vontade. Use sua voz e a eletricidade de seu corpo," insistiu sua avó, cada palavra cheia de firmeza e urgência.
"Mas, Grand-mère..." murmurou Fleur, o medo crescendo dentro dela como uma tempestade. Seu coração batia erraticamente, e o medo quase a paralisava.
"Confie em si mesma," disse a voz de sua avó com firmeza e ternura, um porto seguro em meio ao caos.
Fleur respirou fundo, sentindo a eletricidade percorrer seu corpo, cada fibra de seu ser carregada de energia. Suas mãos tremiam, mas ela sabia que precisava agir. Com uma voz que começou tímida, mas ganhou força, ela disse, "Zaino! Feche os olhos e me solte!"
Ela sentiu a energia dentro dela intensificar-se, seu cabelo começando a flutuar ao redor de sua cabeça como se movido por uma brisa invisível. A eletricidade correndo por seus dedos irradiava para fora, e sua voz assumiu um tom hipnótico, carregado de poder.
Zaino obedeceu imediatamente. Sentindo o poder de Fleur, ele a soltou instantaneamente. A pressão em suas pernas aliviou imediatamente, e ela sentiu a criatura afrouxar o agarre. Fleur não abriu os olhos, mas a mudança foi abrupta e clara. Zaino sacudiu a cabeça, fechou as pálpebras, completamente dominado pelo comando irresistível, e rapidamente deslizou para longe, liberando-a completamente.
Fleur ofegou, sentindo-se vitoriosa, mas ainda incapaz de abrir os olhos. Seu coração martelava em seu peito enquanto ela tentava controlar sua respiração. A eletricidade que percorria seu corpo começou a dissipar-se lentamente, e seu cabelo caiu de volta ao lugar. Mesmo com a ameaça desaparecida, o medo ainda pulsava dentro dela.
"Você pode abrir os olhos, olhe para Zaino," disse sua avó, parada na soleira da porta, observando a cena com aprovação.
Fleur abriu os olhos lentamente e viu Zaino com os olhos fechados, em respeito e submissão. Ela mal conseguia conter seu sorriso e olhou para sua avó. A velha senhora era uma figura impressionante: pele bronzeada e cabelo platinado impecavelmente escovado. Uma grande quantidade de colares adornava seu pescoço, cada um brilhando com uma energia única. Ela apoiava-se em uma bengala, que, embora ajudasse em seus movimentos, não diminuía em nada sua presença imponente e vibrante.
"Sem uma varinha, sem usar contato visual, você deu um comando apenas com a energia de seu próprio corpo," disse sua avó orgulhosamente.
Ela tocou a área ao redor de Fleur, sentindo a aura mágica, e comentou, "Ainda posso sentir a magia em você; foi muito forte."
Sua avó assentiu, seus olhos brilhando de orgulho. "Você poderia ter feito um basilisco adulto fechar os olhos, não tenho dúvidas."
Fleur sentiu uma onda de confiança e gratidão, sabendo que conseguiu dominar uma situação difícil usando apenas seu poder interior.
"Obrigada, Grand-mère, devo tudo a você."
"Você ainda está tremendo. Venha, vamos tomar um chá," disse sua avó, sua voz suave e acolhedora. "Hoje, você deu um grande passo no domínio de seus poderes. Estou imensamente orgulhosa de seu progresso, mas devo dizer que dois anos é tempo suficiente para você passar com uma velha como eu."
Fleur tocou a perna de sua avó, seus olhos irradiando afeto. "Grand-mère, eu amo nosso treinamento. Não gostaria de estar em nenhum outro lugar."
Sua avó franziu a testa, balançando a cabeça. "Você não pode ter certeza disso, querida. Você passou tanto tempo afastada de tudo que nem sabe o que pode estar perdendo."
Fleur endireitou-se na cadeira, determinada. "Isso não faz sentido, Grand-mère. Eu lembro exatamente por que escolhi refugiar-me aqui."
Sua avó, com um olhar sábio, respondeu, "Um casamento desfeito não é o fim do mundo."
Fleur balançou a cabeça, tristeza em seus olhos. "Não é sobre o casamento, Grand-mère. É sobre a confiança traída. Eu já estava acostumada a ser subestimada, a ter minha ascendência desprezada, mas pensei que ele, de todas as pessoas, me respeitaria e honraria minha confiança. Mas ele riu de mim pelas costas, dizendo aos amigos que eu era uma criança brincando com coisas perigosas. Ele nunca acreditou realmente em mim."
Sua avó olhou para ela com tristeza. "Isso é algo que uma veela também deve enfrentar. Nosso legado não é compreendido, minha querida. Eles sempre nos verão como algo encantador, mas quando se trata de decisões importantes, somos apenas uma distração."
Fleur suspirou, absorvendo as palavras de sua avó.
"É por isso que não podemos nos dar ao luxo de ficar trancadas em florestas isoladas," continuou sua avó. O basilisco ergueu a cabeça, olhos fechados, em um protesto silencioso.
"Não importa a boa companhia que você tenha aqui," continuou ela, "devemos ocupar espaços, nos fazer presentes, incomodar com nossa existência aqueles que se sentem perturbados. Precisamos mostrar ao mundo que somos mais do que parecemos. E isso só pode ser feito enfrentando o mundo, não se escondendo dele."
"Estou começando a pensar em voltar gradualmente," disse Fleur, com um toque de hesitação em sua voz. "Talvez eu pudesse ir ao próximo aniversário de casamento dos meus pais. Eles ficarão felizes."
Sua avó balançou a cabeça, um sorriso irônico em seus lábios. "Oh, Fleur, a festa dos seus pais. Não é exatamente um grande passo para recuperar sua liberdade."
Fleur franziu a testa, a insegurança clara em seus olhos. "Então, o que você sugere?"
Sua avó, com energia renovada, respondeu entusiasmada. "Vá ao meu cofre em Gringotes e pegue a bandeja de prata que sua mãe sempre admirou. Vamos dá-la como presente."
Fleur olhou para sua avó, a incerteza aprofundando-se em seu olhar. "Você acha que é uma boa ideia?"
"Sim, claro!" exclamou sua avó, seus olhos brilhando com determinação. "Está decidido: vá agora mesmo! Oh, não, por Gaia!" Ela parou, rindo de si mesma, claramente animada. "Já é noite, mas vá amanhã, ok? É hora de você viver novas aventuras."
Fleur ainda parecia relutante, mas a firmeza e o vigor nas palavras de sua avó começaram a lhe dar coragem. Ela preferia ficar na segurança da cabana, mas não podia dizer não quando sua avó pedia algo com tanto entusiasmo. Ela desejava um dia ter a firmeza de vontade da velha senhora. Com um suspiro profundo, ela assentiu, ainda cheia de dúvidas e medos. Amanhã, ela enfrentaria o mundo novamente, mesmo que seu coração ainda estivesse amarrado às sombras da floresta.
