Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Merline Lovelace, que foi publicado na série de romances "Clássicos Históricos Especial", da editora Nova Cultural.
Capítulo 16
Voltaram para Atenas no final da tarde do dia seguinte, queimados pelo Sol e pelo vento. Com o andar empertigado de quem está sem jeito, Katniss foi para a câmara de banhos tirar o sal da pele e do cabelo, enquanto Peeta ia às docas finalizar os preparativos para o lançamento do barco ao mar.
O dia da partida amanheceu claro e ameno. Katniss estava deitada ao lado de Peeta, nua exceto pela pulseira de ouro no pulso esquerdo. O ar frio da manhã provocava-lhe arrepios na pele. Com braços extenuados pelos excessos no amor, puxou a coberta sobre ela e seu homem. Permaneceu quieta por alguns momentos, saboreando a tranqüilidade depois de uma noite quase inteira de prazer renovado.
O perfume do outono no ar da manhã a fez lembrar da previsão de Péricles de que o cerco a Atenas se ergueria nos meses de frio. Com a aproximação do inverno, explicara ele, o exército de Esparta teria de se retirar por falta de abastecimento e abrigo. Então, as esquadras de Atenas retornariam ao porto para ficar a salvo das tempestades e de outros caprichos imprevisíveis do tempo. Katniss fez uma prece silenciosa para que o inverno chegasse cedo e forte, para trazer Peeta de volta.
Dobrou um braço, colocou-o sob a cabeça e virou-a, para ficar olhando o rosto tão próximo do seu. Pelos deuses, ele era maravilhoso, mesmo com o nariz quebrado. Longos cílios de pontas douradas punham uma leve sombra nas maçãs do rosto, que assumira um tom moreno, como o do carvalho. Pequenas linhas brancas irradiavam do canto dos olhos, produzidas pelo franzir do rosto à intensa luminosidade do Sol. Deslizou o olhar para os lábios dele. Eram rasgados, de linhas firmes que pareciam ter sido esculpidos por um grande mestre; eram lábios que faziam alucinantes mágicas em seu corpo e murmuravam canções de amor em seus ouvidos.
Ele moveu-se, ajeitando-se de forma a sentir mais o calor dela, e um cacho de cabelo caiu sobre a testa alta. Os dedos de Katniss tremeram ao estender a mão para ajeitar-lhe o cabelo e, depois, ao traçar o contorno do rosto dele.
- Que os deuses o mantenham em segurança - sussurou. "E o tragam de volta para mim", completou em pensamento.
Ele gemeu e se espreguiçou, acordando lentamente. Katniss esperou, o coração acelerado, a mente dando forma às palavras que queria dizer. Mas qualquer momento íntimo a mais que poderiam ter perdeu-se: o servo dele bateu timidamente na porta, vindo dizer ao capitão que era tempo de se apressar.
Todos os moradores da casa de Peeta juntaram-se à procissão que desceu pela passagem entre as Longas Muralhas. Os acompanhantes mostravam-se agitados e os flautistas tiravam de seus instrumentos melodias alegres. O batismo de um novo barco era um acontecimento de grande significado social e religioso, ocasião de esplêndidas festividades para todos os que conseguissem chegar ao porto para assisti-lo. As previsões naquele dia haviam sido particularmente favoráveis,o que aumentara o clima festivo. Logo espalhou-se entre a animada multidão que três corujas tinham sido vistas pela manhã, pousadas no braço estendido da estátua de Hermes. Sem dúvida era um ótimo vaticínio, para os homens que iam partir, os pássaros sagrados de Atenas terem se acomodado na figura do protetor dos viajantes.
Nessa grande ocasião, as rígidas regras que comandavam o comportamento das mulheres eram postas de lado para permitir que participassem do batismo e lançamento de um barco. A senhora Cassandra, usando o véu da discrição, era transportada em confortável liteira, acompanhada por Annie e Valerie. Katniss preferiu caminhar até o porto, ao lado de Peeta. Aqui e ali, entre a multidão entusiasmada, os olhos atentos dela notaram mulheres com lágrimas silenciosas escorrendo pelo rosto. Eram esposas e mães que mandavam seus maridos e filhos para a guerra, deduziu corretamente. Sentiu-se próxima dessas mulheres tristes e seu rosto mostrou-se solene enquanto andava junto do marido, o passo acertado com o dele.
Quando por fim chegaram ao porto, o esplendor da cena que se apresentou a seus olhos fez com que esquecesse as dúvidas e os medos. O mármore branco das construções à beira da água resplandeciam ao Sol a ponto de quase cegar quem as fitasse diretamente. Eram estruturas simples, sustentadas por graciosas colunas, que abrigavam as mortais embarcações de guerra. Só o barco de Peeta balançava nas águas verdes da baía, ancorado junto ao porto por cabos grossos. Os mastros eretos balançavam com cada onda, enquanto o esporão da proa, recoberto de metal, cintilava ao Sol.
Peeta levou a familia até diante do barco para assistir a cerimônia de batismo. Ficaram com os arcontes, em suas túnicas púrpura, e os outros distintos dignatários, incluindo o sorridente Péricles.
A chegada do capitão foi o sinal para um longo chamado das trompas. Aos poucos, o burburinho foi sumindo e, não demorou muito, o único barulho era o marulhar das ondas do mar nas pilastras do cais e o som quase ritmado dos cabos batendo nos mastros do barco.
Um orador de voz poderosa entoou a prece de solicitação de honra para o novo barco de guerra, para que as viagens a bordo dele fossem seguras para todos e que lhe fossem concedidos a destruição de todos os inimigos que enfrentassem.
Peeta, então, percorreu o cais para ir ficar junto da proa de seu barco. Katniss sentiu o coração se encher de orgulho ao ver a silhueta forte, ereta, coberta pelo esvoaçante manto vermelho, toda a barra decorada com intrincado bordado com fios dourados, por cima da túnica de guerra. Em vez da habitual faixa de couro que usava na testa para manter os cabelos longe dos olhos, ele usava um capacete de bronze, leve, trabalhado, com o visor em forma de V erguido sobre a testa. Uma espada cerimonial, com empunhadura com figuras douradas feitas com habilidosas incrustações, achava-se pendurada no cinturão largo, marchetado com pedras preciosas. Contra o fundo colorido das faixas, que enfeitavam o porto, a figura imponente e bonita do capitão atraía todos os olhares.
Peeta esperou até sua tripulação se posicionar ao longo do barco. O grupo completo contava com cerca de duzentos marinheiros, entre oficiais, hoplitas, remadores e arqueiros. Todos alinharam-se perfeitamente, corpos rígidos, em posição de atenção. Mais uma vez as trompas se fizeram ouvir e, então, Peeta ergueu a taça de prata e ouro para a libação. Com voz clara e forte, ele iniciou a antiga prece:
- Dedico este barco e todos que velejarão nele à deusa Atena.
- A Atena ! - gritaram a tripulação e os espectadores.
As vozes ecoaram nas construções de mármore e se perderam no mar.
- E aos deuses que protegem os marinheiros - prosseguiu Peeta.
- E aos deuses que protegem os marinheiros - entoou o coro das pessoas ali presentes.
- Eu lhe dedico esta libação, como símbolo do sangue derramado nas águas.
Enquanto Peeta, lentamente, derramava o vinho no mar, a multidão gritou em resposta:
- Sangue derramado pela honra e glória de Atenas !
- E batizo este barco, o mais novo da grande frota de Atenas, com o nome de Tétis.
A exclamação de ultraje que escapou dos lábios de Katniss perdeu-se no estrondo de aplausos e gritos de triunfo quando Peeta retirou o pano púrpura que cobria o nome e a figura de proa do barco. Ali, para que todos pudessem ver, estava uma nereida nua, bronzeada, de cabelos longos e com os braços bem torneados erguidos para o céu.
Ela ficou olhando, a boca transformada em uma linha fina, furiosa, enquanto a tripulação se espalhava pelo cais, fazendo as últimas despedidas. Peeta despediu-se da família com afeição e emoção controlada. Enxugou carinhosamente as lágrimas que desciam pelo rosto da mãe. Prometeu a Annie que ficaria de olho no marido dela, então jogou Valerie para o alto uma última vez e a beijou. Por fim, aproximou-se da esposa.
- Vou matar você por causa disso ! - disse ela entredentes, completamente esquecida das palavras doces que pretendia dizer ao marido.
Os olhos azuis iluminaram-se com uma risada:
- É... bem que pensei que talvez você não gostasse do nome.
- Como pôde fazer isso, Peeta ?
Ele pegou-lhe a mão e viu que se achava fechada num pequeno, mas raivoso, punho.
- Queria algo muito seu para levar comigo, sempre, assim como você tem algo meu sempre com você.
Ele ergueu-lhe o braço, os golfinhos da pulseira brilharam ao Sol.
Katniss libertou a mão com força. E pensar que quase começara a chorar porque ele ia partir ! Ela, que nunca chorava ! Chorar por ele, que ousara marcá-la, como uma escrava, com aquela jóia de ouro e se atrevera a colocar aquela nereida lasciva como figura de proa ! Encarou-o, cada vez mais furiosa e o sorriso dele ampliou-se, feliz:
- Ah, docinho ! É assim que quero deixá-la, com os olhos emitindo fogo cinzento e o rosto corado pelo ardor da rebeldia.
- Você chegou bem perto de não partir, fique sabendo ! - ela ergueu o queixo, num gesto independente e agressivo - Eu poderia arrancar seu cérebro por causa disso.
- Pode fazê-lo ainda, se quiser, meu amor.
Ele deu um passo até ela e Katniss recuou.
- Não ouse tocar em mim !
Ele avançou de novo e ela tornou a recuar.
- Se recuar mais - avisou Peeta, com ar malicioso - , vai terminar caindo no mar.
Katniss olhou por cima de um ombro e constatou que realmente estava na beirada do cais.
Quando ele tornou a dar um passo, com os braços estendidos, ela teve a vontade de sair para o lado, segurá-lo por um braço e usar o impulso dele mesmo para lançá-lo na água. Isso daria ao arrogante e sorridente capitão a lição que ele vinha precisando há muito tempo. Mas de imediato descobriu que não podia fazer aquilo. Não podia envergonhá-lo diante da tripulação, diante da mãe, diante das autoridades e do povo ateniense. Não podia humilhar aquele homem orgulhoso... se bem que duvidasse que ele viesse a sentir-se humilhado, pensou em seguida, com alguma raiva. Provalvelmente o idiota cairia na água rindo.
Em vez de agredi-lo, permitiu que ele a abraçasse e, quando os lábios firmes procuraram os dela, inclinou a cabeça para trás, a fim de receber plenamente o beijo. Quando as mãos dele a puxaram para si, ajudou seu corpo a se adaptar ao rijo corpo dele. E, então, deixou de se controlar, perdida no cheiro e no gosto de Peeta, na incomparável sensação de seus lábios e suas mãos, que transmitiam intenso e delicioso calor para todo o seu ser.
As palavras sussurradas de adeus ficaram vibrando no coração dela, enquanto a dramática e linda cerimônia prosseguiu. Mas uma vez as trompas soaram e, antes da última nota morrer, a tripulação estava a bordo. Thresh acenou para ela ao tomar posição no banco mais alto dos remadores, a cabeça mal aparecendo sobre a beirada do casco. Peeta colocou-se junto ao marinheiro do leme, as plumas vermelhas do capacete ondulando ao vento. A um sinal dele, o barco começou a se afastar do cais, dirigindo-se para a boca da baía. A multidão aplaudia e agitava seus mantos.
Uma brisa vinda do mar, precursora dos ventos de inverno, ondulou as águas douradas do golfo. A ponta de bronze do Tétis mergulhou numa onda e tornou a subir, com graça mortal. A grande vela quadrada foi aberta e inflou-se com o vento. O flautista emitiu uma nota aguda e cento e setenta remos foram passados pelas aberturas. Outra nota, e cento e setenta remos tocaram a água em perfeita harmonia. O barco avançou, saindo do porto e penetrando no Golfo de Salônica.
Depois do emocionante espetáculo que fora a cerimônia de partida e da festa que se seguiu, a vida retomou o ritmo habitual. Mais uma vez o tempo tornou-se um peso para Katniss. Com refugiados em cada canto da casa, ela não tinha privacidade e ainda menos coisas a fazer para gastar as energias, pois para cada pequena tarefa a senhora Cassandra tinha agora vinte ansiosos pares de mãos. Arrancadas de suas casas e fazendas, sem os filhos adultos e os maridos, que tinham partido na esquadra de reserva de Atenas, assustadas pelas incessantes tentativas de invasão do exército que sitiava a cidade, as mulheres procuravam algo para mantê-las ocupadas e assim conseguir esquecer por momentos a saudade, o medo e a preocupação com o que encontrariam quando voltassem para casa.
Por fim, levada por puro desespero, pela necessidade de fazer alguma coisa, Katniss organizou jogos atléticos para os meninos e meninas que também se tornavam irritados e inquietos por permanecerem presos dentro de casa.
Escolheu uma parte do pátio, marcou distâncias variadas e preparou alvos cobertos de couro. Dividindo as crianças por idade e tamanho, pouco depois os tinha lançando dardos e discos de pedra feitos por ela, com verdadeira aplicação e entusiasmo de atletas olímpicos. Um velho marinheiro que perdera um braço numa batalha ofereceu-se para dar aulas de boxe para os garotos menores e supervisionar a luta deles, enquanto Katniss ensinava golpes de luta greco-romana para os mais velhos. Meninos e meninas observavam as demonstrações dela, impressionados. O pátio era pequeno demais, permitindo apenas que os menores corressem, e era o que eles faziam com a maior boa vontade. Todas as tardes, acompanhado por cães latindo, galinhas voando, as risadas e gritos das mães, o bando de pequenos disparava em correrias.
Em poucos dias, todos estavam envolvidos nos jogos, de uma forma ou de outra. As crianças mais velhas, além de treinar, julgavam resultados e ajudavam a preparar os menores. Mães indulgentes faziam bonitas coroas de folhas de parreira e murta para os vitoriosos. Até Valerie participava. Ajudada pelo marinheiro maneta, Katniss construíra um apoiador de madeira para a menina segurar-se enquanto lançava um dardo de tamanho infantil, mais com entusiasmo do que com precisão.
O treino diário e as disputas constantes ajudavam a gastar e canalizar parte da energia das crianças durante o dia, mas faziam pouco para aliviar o temor das mães à noite. A ansiedade das mulheres crescia a cada investida contra os muros da cidade, a cada um dos boatos sobre combates nos mares que chegavam.
Menos de uma semana depois da partida de Peeta, vieram notícias da primeira batalha naval, que tinha terminado com retumbante vitória de Atenas. Péricles em pessoa descreveu a luta com detalhes. Katniss estava em meio ao grande número de pessoas que se reunira ansiosa ao redor do estadista sentindo-se desconfortável com a comemoração dos atenienses por terem derrotados os aliados de Esparta, mas ansiosa por saber o que acontecera com Peeta.
- Os homens do almirante Cinna eram em menor número - contou Péricles, dirigindo-se à senhora Cassandra - Os coríntios ergueram as velas de quarenta e sete barcos e saíram da base de madrugada, pensando que estariam a salvo de nossa pequena esquadra. Mas Cinna os seguiu, com os vinte barcos sob seu comando, e os pegou perto de Chalcis.
Baixando a voz, ele continuou contando aos poucos o que ocorrera, criando uma incrível ansiedade nos ouvintes, inclusive em Katniss, que apertava os punhos e os lábios para conter o nervosismo. Sua impaciência com a adoração dos atenienses pelo drama crescia a cada pausa, a cada gesto teatral das expressivas mãos dele. Sentia ímpetos de gritar para que Péricles parasse com aquilo e contasse logo o que acontecera.
- Os coríntios imaginaram uma tática brilhante - disse o estadista, solenemente - O almirante deles ordenou que os barcos fossem posicionados num círculo fechado, as proas apontando para fora, as cinco embarcações mais velozes do lado de dentro. Tratava-se de uma manobra de defesa única, nada convencional. Se algum dos nossos barcos atacasse seria perfurado pela proa aguçada de um dos que formavam o círculo ou, se conseguisse passar, seria caçado pelos barcos velozes, que aguardavam dentro dele.
Esgotada a paciência, Katniss perguntou com seu jeito direto, quase agressivo:
- E aconteceu ? Eles foram caçados ?
Péricles dirigiu-lhe um olhar ofendido, claramente irritado por ter seu elegante discurso interrompido.
- Não. Nossos homens são experientes demais para cair na armadilha coríntia. Em vez de tentar penetrar o círculo diretamente, os barcos atenienses rodearam-no e ficaram girando em torno deles, as laterais quase raspando nas proas dos inimigos - Um luminoso sorriso diminuiu a austeridade da barba grisalha e ele prosseguiu: - À medida que nossos barcos se aproximavam, os remadores aumentavam a velocidade e os coríntios foram recuando até que seus barcos começaram a colidir; os remos se embaraçavam e os próprios barcos deles acabaram perfurando uns aos outros. Os idiotas afundaram a si mesmos.
E o estadista começou a rir. Quando o riso acalmou, tornou a falar:
- Dizem que houve grande confusão entre eles. Os marinheiros tentavam impedir as colisões com varas longas, gritando palavrões contra os próprios companheiros, cada vez mais irritados, até que ninguém mais conseguia ouvir qualquer comando. Foi esse momento que Cinna escolheu para atacar.
A senhora Cassandra fez a pergunta que Katniss queria, mas temia fazer:
- Peeta estava com eles ?
- Oh, sim. Como sempre, foi um dos primeiros. Ele e os outros capitães caíram sobre o inimigo desordenado como leões sobre gazelas caídas. Os coríntios não lutaram, fugiram em debandada. Nossos barcos os perseguiram, capturando doze deles, com tripulação completa e tudo o mais.
Katniss levou a mão trêmula aos lábios, tomada por emoções conflitantes. Alívio por Peeta estar bem e vergonha pelos aliados de sua cidade se mostrarem tão ineptos. Mais do que nunca, sentiu a dolorosa incerteza de sua condição.
O sorriso de Péricles foi sumindo, lentamente, à medida que prosseguia o relato:
- Os coríntios foram para o sul, a fim de se reorganizar. Têm um novo líder agora. Dizem que o almirante espartano Cato trouxe sua esquadra e assumiu o comando.
O coração de Katniss disparou. Cato, filho de Naxos e portanto seu primo, que era tão cruel quanto o pai e ainda mais temido. Cato sempre se vangloriava de ter se tornado guerreiro matando cinco escravos fugitivos, sem defesa alguma, das formas mais terríveis e dolorosas que Katniss jamais ouvira falar. Era sempre assim: impiedoso e brutal com aqueles que ousavam não sair de seu caminho; abusando indiscriminadamente das esposas e filhos dos derrotados, principalmente dos meninos, que eram sua preferência.
Lealdades conflitantes batalhavam no íntimo de Katniss. Era de Esparta, um parente dela achava-se acampado junto aos muros de Atenas; outro preparava-se para combater a esquadra ateniense e todos sabiam que seria uma batalha terrível. Ainda assim não encontrava no coração desejo de orar por eles, quer dizer, contra Peeta. Sentindo que perdera a âncora que a ligava ao único mundo que conhecera desde pequenina, ela saiu da sala. Deixou a reconfortada dama aristocrata e o convidado, indo em busca de um lugar calmo em meio à casa agitada.
Como se os deuses estivessem determinados a lembrar aos meros mortais que seus destinos eram incertos, na melhor das hipóteses, os atenienses não tiveram muito tempo para celebrar a grande vitória no mar. Cinco dias depois do frenesi de sacrifícios e festas em homenagem à batalha de Chalcis, um barco mercante entrou no porto. Desequilibrado e inseguro, tinha as velas em farrapos e apenas metade da tripulação ocupava os bancos de remar. O restante encontrava-se jogado pelo convés; homens enfraquecidos, com marcas vermelhas no corpo, os pulmões produzindo aflitivos ruídos a cada respiração difícil e dolorosa.
Mais tarde, Katniss viria a pensar que a entrada daquela embarcação no porto marcara o momento da descida de Atenas ao inferno.
Aspásia, com a liberdade de cortesã, que tinha para andar por toda a cidade, foi a primeira a ouvir falar da doença que se alastrava e mandou um servo avisar a senhora Cassandra e sua nora. O atemorizado servo relatou como os médicos do grande templo de Asclépio, o deus da cura e da medicina, tinham atendido os marinheiros doentes. Até mesmo o médico mais sábio de Atenas, discípulo do renomado médico Hipócrates, declarou desconhecer a terrível doença. Muitos dos atingidos haviam sucumbido ao impiedoso mal em poucos dias, contou o trêmulo e assustado servo. E relatos de novos casos surgidos nas lojas e pensões mais próximas do porto chegavam a cada hora.
Cassandra fez um ar de superioridade:
- Deve ser alguma nova doença trazida das terras estranhas para onde os mercadores vão. Eles a passaram para as prostitutas com as quais ficaram - comentou. Com um olhar sério para Katniss, acrescentou: - Agora você entende por que mulheres decentes não saem de casa ? Em nossos lares estamos seguras e podemos ficar tranqüilas, sabendo que as paredes altas nos protegem de pessoas doentes, assim como as muralhas da cidade nos protegem do inimigo que se encontra do lado de fora.
Foi com profunda tristeza que Katniss recordou essas palavras da senhora Cassandra, dias depois. Estava sentada no pátio, separando folhas de oliveira de uma grande cesta para serem espremidas pelos servos, quando a refugiada que estava a seu lado, a velha viúva protegida da família, começou a ofegar.
- O que foi, avó ? - perguntou Katniss, usando com ela o mesmo termo afetuoso que Peeta usava.
Os olhos tristes fitaram Katniss, doloridos e confusos:
- Não sei... deve ser esse maldito calor.
A mulher ergueu o rosto para o céu muito azul e em seguida fechou os olhos, que protegeu com uma das mãos, como se a luminosidade os tivesse ferido.
Katniss endireitou o corpo lentamente, enquanto a brisa fresca punha-lhe um leve arrepio na pele. Se a velha mulher sentia calor, com certeza não era por causa do fraco Sol de outono. Foi então que notou as manchas vermelhas no pescoço dela, meio escondidas pela túnica.
- Chame a senhora Cassandra - disse para uma serva.
A velha fazendeira morreu três dias depois, com o corpo frágil coberto por marcas vermelhas. Sua respiração fora se tornando cada vez mais difícil, até parar completamente. O sacerdote-médico que a senhora ateniense mandara chamar fechou, com um suspiro cansado, a caixa de madeira que continha instrumentos. Mais três mulheres e duas crianças esperavam seu atendimento na sala escurecida que tinham transformado numa espécie de enfermaria.
A senhora Cassandra lavou pessoalmente o corpo, já que a velha mulher não tinha parentes para cuidar desta tarefa sagrada, e vestiu-a com uma de suas túnicas brancas para o funeral. Enquanto as demais mulheres carpiam, durante o velório, Katniss fechou os olhos e colocou uma moeda sobre os lábios azulados, para pagamento da passagem da falecida pelo rio Styx.
Lamentando-se em altos brados, chorando, as mulheres colocaram cabaças de vinho e pratos de comida ao redor do divã onde estava o corpo, para sustentá-la durante a viagem. Os lamentos que seguiram pela tarde e pela noite continham mais do que simples respeito pela venerável velha senhora. Traziam em si também medo e desespero. Todos sabiam agora que estavam fechados entre altos muros com a morte, que ela já não os espreitava apenas do lado de fora.
No dia seguinte ao do falecimento, a nobre ateniense liderou o féretro de sua protegida. Era um dos muitos que percorriam as ruas da cidade, acompanhados por prantos e flautas. Cassandra e Katniss, como representantes da família que reclamavam aos deuses pela morte da pobre mulher, estavam envoltas em túnicas e véus negros.
Uma vez que o exército acampado do lado de fora das muralhas impedia que usassem o cemitério público, Péricles providenciara para que todas as vítimas da estranha doença fossem cremadas, numa prática que habitualmente só os nobres podiam seguir e, claro, pagar. Quando a procissão deixou as ruas estreitas e entrou na praça dedicada às cremações, Katniss conteve uma exclamação. A imensa praça estava cheia de gente enlutada, enquanto pilhas de cadáveres esperavam que o sacerdote os abençoasse e o fogo libertasse seus espíritos. Nem todos os corpos estavam lavados e envoltos em mortalhas, como o da velha senhora. Alguns pareciam ter sido arrastados pelas ruas e largados ali, um destino hediondo que condenava as famílias desses falecidos à condenação eterna de Caronte. Só o desespero poderia ter feito amigos e parentes abandonarem seus entes amados desse modo.
Uma fumaça negra e densa erguia-se acima da praça, enquanto as pessoas choravam e oravam. À distância, mesmo acima do choro das mulheres, ouvia-se o som das máquinas de guerra espartanas, as temíveis catapultas, atirando pedras nas muralhas na tentativa de abrir caminho para a invasão. Levando uma ponta da túnica ao nariz, para conter o nauseabundo odor combinado da fumaça e de corpos que há muito não recebiam o devido cuidado, Katniss esperou até que a senhora Cassandra realizasse os rituais. Ela engolia em seco, desesperadamente, forçando o estômago rebelde a se conter e o conseguia a custo, por meio da pura força de vontade.
Por fim, viram a velha fazendeira partir para sua última jornada e voltaram para casa, onde deveria haver a festa do funeral. Mas em vez de honrarem a falecida com oferendas e libações, viram-se preparando outra mulher, bem mais jovem, para novo féretro. E, logo depois, dedicavam o mesmo trabalho ao jovem filho dela.
Com a assistência de Katniss, a senhora Cassandra completou a limpeza necessária, e em seguida, sentou-se em silêncio junto da criança morta, que dois dias antes era um garoto animado e sorridente.
- Temo por Valerie - disse a matriarca, depois de um momento com voz trêmula - Ela é tão pequena e frágil !
Katniss olhou com intensidade para a sogra; seu peito apertou-se ao ver como o cansaço e o medo haviam feito os ombros, antes firmes, decaírem.
- Valerie é mais forte do que parece - garantiu, tentando animá-la - E os exercícios que tem feito tornaram seu corpo bem resistente.
Cassandra estendeu a mão e apertou de leve o braço de Katniss.
- Seus exercícios tornaram o corpo dela mais resistente. Se Valerie sobreviver a essa epidemia, será graças a você e lhe agradeço por isso, de todo o coração.
Surpreendida, Katniss cobriu a mão da senhora com a dela.
- E também lhe agradeço pelo que fez ao meu filho - continuou a senhora Cassandra, os olhos azuis no rosto da nora.
- O que eu fiz ? - corou ela, sem jeito - Não fiz nada, além de trazer discórdia para a casa dele e prendê-lo a um casamento que ele virá a odiar.
- Se é que Peeta está preso, trata-se de uma prisão que ele deseja acima de qualquer outra coisa - disse a senhora Cassandra lentamente - E quanto à casa dele, você trouxe vida e animação para cá... coisas que faziam falta.
- É muito gentil de sua parte dizer isso - murmurou ela, embaraçada.
- Não. Não é gentileza que me fez falar. É a necessidade de lhe dizer o que tenho em mente, o que sinto. Viajamos por uma estrada tortuosa para chegar a este ponto do tempo, e temo que haja curvas mais escuras e ainda mais perigosas à nossa frente. Mas, aconteça o que acontecer, quero que saiba que fico honrada em chamá-la de filha.
Os dedos de Katniss contraíram-se sobre os da senhora. Ela assentiu, emocionada demais para falar.
- E também fico muito honrada em chamar de neto o filho que você tem no ventre.
Os grandes olhos cinza fitaram os azuis com profundo espanto. Katniss custou a balbuciar:
- Você sabe ?
- Sim. Mesmo com a superlotação da casa e essa terrível doença, eu não podia ter deixado de notar que você está passando mal todas as manhãs - explicou a orgulhosa aristocrata, endireitando os ombros. Sua voz retomou o tom firme de sempre - Com a freqüência com que meu filho e você se retiravam para o quarto, é de surpreender que tenha demorado tanto.
- Esta... esta é a minha primeira vez - confessou Katniss, com um misto de temor e júbilo na voz.
- Bem, não será a última - disse a senhora Cassandra, num tom seco com que tentava ocultar a emoção - Não, do modo como você e Peeta agem. Se os deuses permitirem, esta casa estará cheia de bebês nos anos que vierem.
Por um momento, por um breve momento, Katniss permitiu-se compartilhar da visão que a senhora ateniense tinha do futuro. Sem perceber o que fazia, ela girou a pulseira de golfinhos no braço. Mas a logo a visão se desfez e a dura realidade retornou:
- Não. Não vou criar os filhos e filhas de Peeta aqui, como estrangeiros na cidade dele - disse determinada, fixando os olhos nos da sogra - Não posso.
Com a mesma intensidade, a mulher mais velha respondeu:
- Não tente decidir o que vai fazer daqui a sete ou oito meses, criança. Temos apenas que fazer o possível para sobreviver a este dia e aos que vierem...
Katniss pensou muito nas palavras da senhora Cassandra nas semanas que se seguiram. O tempo tornara-se um amontoado de tristezas e terror dentro das muralhas de Atenas. A doença alastrara-se pela cidade, matando jovens e velhos, fracos e fortes. Do lado de fora dos muros, os exércitos de Naxos atacavam com ímpeto. As catapultas faziam chover pedras sobre as ruas, indiscriminadamente, causando poucos danos às casas de tijolos e mármore, mas provocando dor, muito medo e sofrimento nos habitantes. Aríetes atingiam os portões a intervalos regulares. Um ataque concentrado na muralha norte foi repelido com grandes perdas para ambos os lados e mais fumaça se ergueu das piras funerárias.
Por duas vezes, Péricles em pessoa dirigiu-se a multidão histérica, usando todo o seu poder de persuasão para impedir que abrissem os portões e se entregassem à mercê dos espartanos. Ele sabia tão bem quanto Katniss que os espartanos não demonstrariam nenhuma misericórdia.
Ela trabalhava todos os dias ao lado da sogra e passava muitas noites em claro, cuidando dos doentes. Sua força e energia inesgotáveis a mantinham junto dos enfermos que ardiam em febre e gemiam. Suportava aquele trabalho colossal muito mais do que as outras pessoas, que acabavam caindo de cansaço.
Certa manhã, Annie, que perdera a sogra nos primeiros dias da epidemia, mandou um recado aflito, pedindo ajuda. Acompanhada por um servo apavorado, Katniss percorreu apressadamente as ruas que tinham perdido toda a sua alegria, até chegar à casa do tenente. A última vez que passara por aquele caminho fora no cortejo de casamento de Annie, todos alegres, cantando, o odor de flores perfumando a noite enluarada e cálida. Agora, só se ouvia choros, gritos e lamentações por trás das portas fechadas, só se via cadáveres jogados nas ruas pelas famílias sem recursos. Os mortos empesteavam o ar. Katniss protegeu o nariz com o véu, engolindo com dificuldade a bile amarga que insistia em subir-lhe a garganta.
Assim que ela bateu, Annie foi abrir a porta, o rosto bonito marcado pela angústia e pelo cansaço.
- Obrigada por vir - disse, quase chorando - Perdi dez pessoas de casa nos últimos dias e meus servos disseram que não encontram madeira para construir esquifes.
- Não há mais madeira para vender - informou Katniss - Os pobres cortaram todas as árvores dentro das muralhas da cidade para queimar seus mortos e os ricos roubam dos depósitos uns dos outros.
- Grande mãe dos deuses ! - exclamou Annie - Como vamos realizar os ritos de morte de nossa gente, Katniss ?
- Coloquei guardas nos armazéns de Peeta e temos lenha suficiente para alimentar nossas piras. Vamos, eu a ajudo a envolver os mortos nos panos que você tiver disponíveis para que sejam levados até a praça.
Já era muito tarde quando ela deixou a casa da cunhada, depois de fazer o que pôde para ajudar a jovem mulher a pôr tudo em ordem. No meio do caminho de volta à casa de Peeta, de repente, parou de andar, chocada pela visão de dois cães rosnando sobre algo embrulhado em farrapos imundos. Seu estômago, instável naqueles dias por causa da gravidez, a traiu. Correu até uma parede e começou a vomitar. O servo que a acompanhava pegou umas pedras e as atirou nos cães, que fugiram, ganindo.
Assim que melhorou do violento enjôo, por um momento, Katniss olhou para o corpo dilacerado, girou nos calcanhares e saiu andando depressa.
- Senhora ! Onde vai ? - afligiu-se o escravo - O caminho para sua casa é por aqui !
- Vá para lá e diga à senhora Cassandra que tenho uma tarefa a realizar. Voltarei logo.
- Mas, senhora, não pode andar pelas ruas sozinha ! Não é adequado !
Imaginando por que aquele homem se apegava daquele modo aos antigos hábitos enquanto o mundo desmoronava ao redor, Katniss acharia graça se a situação não fosse tão trágica. Sem nenhuma vontade de rir, sacudiu os ombros e continuou. Depois de vagar pelas ruas por um bom tempo, encontrou a porta que procurava e bateu com os dois punhos.
- O que foi ? O que a traz aqui ? - perguntou Aspásia preocupada, quando o escravo levou-a à sua presença.
Linhas de tensão e cansaço marcavam o rosto lindo e os cabelos antes belamente tingidos, bem penteados, escorriam-lhe pela cabeça, em cachos desfeitos e sem cor.
- A senhora Cassandra pegou a doença ? - afligiu-se, antes que ela respondesse - Ou a filha de Peeta ?
- Não, elas estavam bem quando as deixei.
Aspásia passou a mão pela testa, sem tentar esconder a exaustão:
- Então, o que houve ?
- Quero falar com Péricles - ao ver as sobrancelhas da cortesã se arquearem, Katniss acrescentou, sem dar atenção à hesitação dela: - Ele está ?
- Sim, está. Mas vai sair imediatamente.
Enquanto fazia Katniss entrar, Aspásia a observava, como se tentasse adivinhar o que ela fora fazer ali. Como não teve êxito, informou:
- Acaba de chegar de Esparta a noticia que eles lançaram uma esquadra para atacar nossa Frota Oeste. Péricles pediu uma reunião de emergência com o Conselho para forçá-lo a mandar reforços para o almirante Cinna. Os idiotas estão adiando a decisão e daqui a pouco será tarde demais.
Ao ouvir aquilo, Katniss ficou parada, sem reação, apenas olhando, enquanto a mulher de Ítaca ia chamar Péricles. Sua garganta fechara-se com o súbito medo que tomara conta dela. Estava se aproximando o momento e a batalha que tanto temia. Peeta, filho de Igor, iria se defrontar com Cato, filho de Naxos. O guerreiro de seu coração e o guerreiro de seu sangue.
- O que foi, senhora Katniss ? - a voz grave de Péricles a fez retornar e recuperar o controle - Por que veio me procurar ?
- Eu... eu pensei... eu quero seu...
O que pretendia dizer ao importante estadista parecia ter perdido todo o sentido e importância. Fixando em Péricles os grandes olhos cinza, escurecidos pelo medo, pela angústia, ela fez a pergunta que lhe apertava o coração:
- Quando acha que a batalha vai ocorrer ?
- Dentro de uma semana - a resposta rápida, sem enfeites, demonstrou-lhe que Péricles também estava preocupado.
- A esquadra de Esparta é muito grande ? - ela tornou a indagar.
- Setenta barcos, ou mais. Temos vinte embarcações para enfrentá-los.
Katniss engoliu em seco, depois disse:
- Os mesmos vinte que lutaram em Chalcis ?
- Sim. Os mesmos barcos desgastados - confirmou ele, erguendo os olhos cansados para ela - Está na hora de decidir sobre sua lealdade, senhora. Se quiser ver seu marido novamente precisa rezar, e rezar muito, para que os deuses intervenham e ajudem.
- Não sei se consigo orar novamente - murmurou Katniss - Rezei tanto nestas últimas semanas a cada criança que caía doente, a cada jovem serva em sofrimento, com a vida escapando pelos lábios flácidos, sem cor. Não creio que os deuses escutem nossas preces ou, se escutam, parece que não querem nos ajudar.
Péricles fitou-a com intensidade e um pouco da rigidez sumiu de sua postura. Colocou a mão num braço dela, num gesto de conforto.
- Não deve abandonar as esperanças, não agora, senhora Katniss. Agora é o momento de rezar com ainda maior intensidade.
Libertando-se da mão dele, ela se pôs a caminhar pela casa.
- Estou cansada de rezar. Estou cansada de me ver dividida entre minha lealdade a Esparta e a esse ateniense que tomou conta de meu coração. Não vou ficar sentada esperando noticias do destino dele, enquanto todos ao meu redor se submetem à sua sorte.
- O que vai fazer ? - preocupou-se Péricles.
Ela parou, encarando o velho estadista e ergueu orgulhosamente a cabeça:
- Não quero trair minha cidade, ajudando a sua nesta guerra, nem quero pedir aos deuses que Esparta vença. Mas há algo que eu posso fazer.
P. S.: Nos vemos no Capítulo 17.
