Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Merline Lovelace, que foi publicado na série de romances "Clássicos Históricos Especial", da editora Nova Cultural.


Capítulo 15

Mais tarde, muito mais tarde, depois de fazerem várias vezes o que maridos e mulheres fazem em suas câmaras nupciais, os dois dormiram, exaustos.

Katniss acordou com galos cantando no pátio. Logo outros sons começaram a se fazer ouvir, à medida que os refugiados iniciavam o dia.

Apoiou a cabeça num ombro de Peeta, gostando do peso do braço musculoso em sua cintura. Depois, com um suspiro profundo, esfregou o nariz no pescoço dele. Ele moveu-se de forma preguiçosa e a puxou para mais perto.

Com seus corpos colados, ela sentiu que Peeta despertava lentamente.

Foi dominada, então, por um profundo desejo de que nunca mais precisassem sair de onde estavam. Por um momento, sentiu-se completa: seu mundo se restringira àquele homem, àquele pequeno período de tempo. Era tudo o que desejava, tudo o que precisava, naquele momento.

Ansiava por dizer a ele o que tinha no coração, mas temia que as palavras se enroscassem na língua. Por fim, levada pela necessidade de compartilhar, nem que fosse um pouquinho de seus sentimentos, ela sussurrou ao ouvido dele:

- Peeta ?

- Hummm.

- Se esta cama fosse minha urna funerária, neste momento eu iria para o túmulo feliz.

Esperou, os olhos semicerrados, a respiração suspensa, pela resposta dele. Mas não houve nenhuma, até que o peito sob seus dedos começou a tremer. Ofendida com a gargalhada que ameaçava explodir dos lábios amados, ela começou a recuar, mas o braço que descansava em sua cintura a deteve.

- Não, docinho, não se afaste. Não estou rindo de você, eu juro. É que... - ele se calou, então prosseguiu: - É que eu nunca amei uma mulher até à morte antes.

O punho fechado de Katniss atingiu-lhe um ombro.

- Porco ! E eu que sentia saudade dessas suas brincadeiras idiotas enquanto estava longe ! Nunca mais vou tentar dizer o que tenho no coração, para você caçoar de mim !

O riso de Peeta sumiu no mesmo instante. Com um movimento tão rápido que a deixou sem ar, ele rolou sobre ela, imobilizando-a. Os dedos se enterraram nos cabelos negros, imobilizando-a. Não havia nada de divertido nos olhos dele naquele momento, e Katniss viu isso. Havia muita suavidade, e tão profunda que fez o coração dela bater mais depressa.

- Katniss, meu amor, me desculpe.

Como ela não quis responder, ou não pôde responder, ele tocou-lhe os lábios com os seus:

- Por favor, me desculpe. Não era minha intenção caçoar de você. Só fui desajeitado com as palavras.

- Ah ! Você, desajeitado com palavras ? Você é o demônio de língua mais macia que eu já conheci.

Ele negou com a cabeça e confirmou, com voz rouca:

- Não mais. Parece que perdi meu poder com as palavras diante de você. Ainda não lhe contei como o canto de sereia dos seus olhos me atraiu a cada movimento dos remos nestas últimas semanas. Não lhe disse que via seus seios cor de marfim em cada onda do mar, que ouvia sua voz doce acima do grito das gaivotas, como que transportada pela brisa do oceano.

Os grandes olhos cinza fitaram-no, maiores ainda. Não poderia ter encontrado forças para dizer uma só palavra naquele momento, mesmo que o peso dele sobre seu peito não estivesse dificultando a entrada do ar em seus pulmões.

- E não lhe disse - prosseguiu Peeta - como me senti naquele momento, lá no pátio, quando vi minha filha dar
os primeiros passos, protegida pelos seus braços.

As mãos dele acariciavam-lhe a cabeça com gentileza.

- Katniss, Katniss... eu...

A hesitação, que não combinava com esse homem grande e tão forte, dizia o que ele sentia, mais do que qualquer palavra.

Ver Peeta emocionado a ponto de hesitar e gaguejar fez os olhos dela encherem-se de lágrimas. Horrorizada diante dessa fraqueza inesperada, sem precedentes, ela piscou furiosamente.

- Não, Peeta - reagiu, aflita - Não precisa dizer mais nada. Vou levar comigo, para onde for, este momento, e tudo mais que não foi dito entre nós.

Ele arqueou uma sobrancelha:

- Como assim, para onde você for ?

- Para onde for, quando eu sair daqui.

- Você não vai sair daqui - determinou ele - Pensei que isso já estava mais do que decidido.

A vontade de chorar sumiu e Katniss colocou os braços contra o peito dele, empurrando-o um pouquinho para poder respirar melhor.

- Você fez uma proclamação sobre não nos divorciarmos, quando me trouxe ontem para a cama. Você ignorou meus argumentos, mas eu tenho minha determinação.

Com uma impropério silencioso, ele saiu de cima dela e se pôs de pé, exclamando:

- Pelos deuses, você não pode estar falando sério ! Não pode ser.

Katniss sentou-se, escondendo o corpo com o lençol.

- Mas estou falando sério - insistiu, decidida - Não vou me prender, nem prender você, a um casamento que fará de nossos filhos infelizes sem pátria.

Vendo que ele balançou furiosamente a cabeça, discordando, ela inclinou-se para a frente.

- Por favor, Peeta, por favor, ouça o que estou dizendo ! Nenhum homem jamais... jamais capturou meu coração como você fez. É por causa do que sinto que não vou me interpor entre você e sua imortalidade. Só através dos filhos sua linhagem continuará aqui em Atenas. Só através dos filhos sua casa continuará a ocupar o lugar que ocupa junto ao seu governo. E eu não posso lhe dar esses filhos. Suas leis proíbem a cidadania aos filhos de uma estrangeira.

- Acha que me importo com isso ? - escarneceu ele.

- Pode não se importar agora e eu poderia também não me importar agora. Mas daqui há um mês ou um ano, nós iremos nos importar.

Ela ergueu o queixo, calando a resposta dele com o fogo que cintilou em seus olhos:

- Por toda a minha vida, julguei que o propósito de uma mulher é ter filhos, fornecer cidadãos e guerreiros para o Estado. Pertenço a uma casa orgulhosa, apesar de meu tio ter resolvido não me aceitar mais. Vai contra tudo em que acredito dar-lhe filhos que não sejam reconhecidos, filhas que não possam se casar com honra !

Peeta segurou-a pelos braços e a puxou-a até ficarem com os rostos a centímetros um do outro.

- Não vou deixar você partir.

- A escolha não é sua - argumentou ela - Em Esparta, uma mulher pode se divorciar de um homem quando quiser.

- Você não está em Esparta - declarou ele, contraindo os músculos do maxilar à medida que a raiva crescia.

Desesperada por fazê-lo ver o óbvio, Katniss colocou as mãos no peito dele e seus olhos imploraram que compreendesse:

- Peeta, vou ficar com você até que se canse de mim. De qualquer forma, não tenho escolha quanto a isso. Mas não aceito ficar como sua esposa. Assim que for seguro e prudente, nós devemos nos divorciar. Você precisa ter uma esposa ateniense. Com a guerra, você pode... pode morrer a qualquer momento e tem que ter herdeiros legítimos.

Ele a sacudiu uma só vez, com muita força, e gritou:

- Não vamos nos divorciar !

As palavras, muito mais do que a sacudida, detonaram o temperamento explosivo de Katniss. E pensar que ele a chamava de cabeça-dura !

- Vamos sim ! - rebateu, também aos gritos.

- Não vamos !

Peeta jogou-a na cama. Imediatamente ela se colocou de pé, ao ver que ele se afastava:

- Onde você vai ? - perguntou, tirando os cabelos do rosto - Temos de resolver isto, de uma vez por todas !

- Já está resolvido ! - bradou ele, e a voz possante ecoou na estrutura do teto.

- Onde pensa que vai, Peeta ? Volte aqui !

- Vou para o meu barco. E quando voltar, se você abrir a boca, se ousar abrir a boca e dizer mais uma palavra sobre divórcio, juro que... que...

Pela segunda vez naquela manhã, Peeta ficou sem palavras. Furioso, pegou uma túnica do baú de roupas, vestiu-a depressa, calçou as sandálias e seguiu para a porta colocando o cinto.

Os gritos furiosos de Katniss o seguiram pela escada enquanto descia e enquanto passava pelo pátio cheio de refugiados de olhos estatelados e bocas abertas.


Mais tarde, quando foi visitar Péricles para lhe agradecer tudo o que fizera por Katniss, a ira de Peeta já diminuíra o bastante para ele conseguir falar de modo coerente. Depois de informar o estadista sobre as condições do mar da Trácia, tornou a sair para a rua e, sob o luminoso Sol, encaminhou-se para a ágora.

Apesar do exército acampado do lado de fora dos muros da cidade, ou talvez por causa dele, as bancas do imenso mercado achavam-se cheias de produtos. Como Péricles predissera, o poder marítimo de Atenas garantia que um suprimento constante de comida e bens chegasse ao porto. As pessoas amontoadas entre os muros da cidade poderiam não ter muito espaço, mas não corriam o perigo de passar fome enquanto ali estivessem.

Peeta comprou um par de brincos com rubis para Aspásia, cheio de gratidão pelo que ela fizera por Katniss. Também comprou-lhe uma preciosa cópia da Ilíada, de Homero, escrita a mão em pergaminho grosso, pois sabia que a inteligente cortesã iria apreciá-la muito mais do que qualquer jóia. Encontrou um cavalo de brinquedo, com crina de linho e cauda que balançavam quando se puxava uma cordinha, e comprou-o para Valerie. Escolheu um diadema de ouro com safiras para a mãe. Mas nada do que vira era adequado para Katniss. O que seria a coisa certa para uma mulher cabeça-dura e irritante, afinal de contas ? Ficou andando entre as bancas de jóias, escutando sem muita atenção os negociantes apregoando sua mercadoria. Estava para desistir quando uma bandeja com braceletes atraiu-lhe a atenção. Entre as jóias intrincadas, muito enfeitadas, havia um simples aro de ouro, com mais ou menos a largura de seu dedinho. No mesmo instante, a estrutura sólida e limpa do bracelete o fez pensar no corpo esguio e firme de Katniss.

O aro alargava-se na direção do fecho, tomando a forma de dois graciosos golfinhos, nariz contra nariz.

A lembrança da primeira noite partilhada com Katniss surgiu-lhe na mente. Na praia pequena e pedregosa, ele a mantivera rígida contra o seu corpo, na escuridão, e um golfinho saltara, fazendo um arco fosforescente aparecer no mar.

- Fui eu mesmo que fiz - disse o joalheiro. O artesão barbudo esfregou as mãos, sentindo a venda iminente no modo como o homem aristocrático, com cabelos que lembravam a juba de um leão e olhos de águia, passou os dedos pelo bracelete de ouro. Notando-lhe a expressão, o esperto joalheiro subiu o preço e planejou pedir muitas dracmas. Alguém com ar tão sonhador não iria pechinchar. Para sua surpresa, o capitão alto, com ar imponente, nem mesmo perguntou o preço.

- Vou levar este bracelete, mas quero que faça uma alteração nele, e tem de estar pronto após o almoço.


Peeta passou o resto da manhã no estaleiro, inspecionando seu novo barco. Com o mestre construtor encarregado do trabalho, examinou cada centímetro do casco, testou as peças de cedro que formavam a quilha e examinou as pranchas de abeto presas às costelas de pinho. Depois passou uma hora com os homens que trançavam as cordas que prenderiam as velas. Os que faziam as velas foram os seguintes, depois passou para os que terminariam naquele mesmo dia a calafetação do casco. Por fim conversou com os fabricantes de armas e peças de metal que dariam o toque de remate ao letal espigão frontal e da ricamente decorada figura que se prolongaria da estrutura do púlpito de proa da embarcação.

Ao redor deles os barracões fervilhavam de atividade. Sons de martelos enchiam o ar da manhã e os odores familiares de madeira recém-aplainada e alcatrão chegavam-lhe às narinas.

Mas a emoção que costumava dominar Peeta sempre que via um barco novo foi diminuída por uma impaciência nada característica. Escutou polidamente quando lhe asseguraram que os suprimentos estariam a bordo em quatro dias, então comunicou que partiria em três dias, conteve os protestos exigindo que aprontassem o barco e os fez recordar que estavam num momento crítico, que precisava ir ao encontro do arconte mais importante, aquele que detinha o título de general de guerra. Apesar desse homem estar nominalmente no comando das operações, Peeta sabia que o toque sutil de Péricles estava por trás da ordem dele para apresentar-se a Cinna, almirante da Frota Oeste, assim que o novo barco fosse lançado ao mar.

Afinal, os armadores concordaram com o prazo e combinaram a hora da cerimônia de batismo do barco; só depois disso o capitão pôde pensar em ir para junto de sua família e passar os dias seguintes e tentar pôr a casa em ordem.

Era exatamente o que pretendia fazer, determinou-se ao entrar em casa e dirigir-se ao pátio. Encontrou a mãe ajoelhada junto de uma jovem fazendeira, atendendo o filhinho da mulher que caíra e machucara o queixo.

Esperou que ela acalmasse mãe e filho, então ajudou-a a se levantar.

- Peço-lhe que prepare quaisquer provisões que tenha à mão, mãe - já se distanciava ao acrescentar: - Vou partir para a Ilha das Cabras agora e ficar lá durante dois dias.

A mãe foi atrás dele:

- Peeta ! Não me diga que vai se esconder naquele desolado monte de pedras, como fazia quando era garoto ! Não pode deixar Katniss deste modo e...!

- Não, eu...

- Escute, meu filho, sei que não é meu direito falar das coisas entre você e sua esposa. Mas desde que ajudei os dois a entrar neste casamento, sinto que tenho o direito de falar.

A senhora Cassandra segurou-o por um dos braços e seus olhos se tornaram muito sérios.

- Sei, também, que Katniss não será uma esposa... confortável. É impaciente e dura, às vezes fala demais, no entanto tem um coração corajoso e sincero, mais do que qualquer outro que conheço. Não pode se divorciar dela, Peeta, nem pode ir embora e deixá-la aqui, com as coisas confusas como estão entre vocês.

Os lábios de Peeta abriram-se num alegre sorriso.

- Não vou deixá-la. Katniss vai comigo e lá teremos uma abençoada solidão a dois, ideal para resolver nossas diferenças. Se eu não conseguir convencê-la a aceitar seu destino a meu lado nos próximos dois dias, com palavras e beijos, juro que vou fazê-la aceitar à força, nem que eu tenha de surrar essa mulher, mãe ! Ela vai comigo porque não quero que seus gritos incomodem você e nossa multidão de hóspedes.

Cassandra riu, sabendo muito bem que Peeta jamais batera numa mulher na vida.

- Se for necessário surrá-la, meu filho, que os deuses lhe dêem força no braço !

Ela mandou uma serva aprontar imediatamente provisões para a viagem de Peeta e outra preparar jarros de vinho misturado com água. Com olhos alegres e uma esperança silenciosa no coração, observou o filho ir ao encontro da esposa, no segundo andar, onde ela dirigia o trabalho das mulheres. De imediato ouviu os nada discretos protestos da jovem espartana e pôde imaginar os suspiros de alívio das mulheres ao se verem livres da implacável Katniss.


- Estou dizendo - rebelou-se ela - , não quero ir a bordo de nenhum maldito barco !

- Será uma viagem curta, Katniss. Só até a entrada do porto.

- Não me importa. Homens e mulheres não foram feitos para andar pelas águas, como malditos peixes ! Isso não é natural ! Isso é perturbador ! Isso...

- Katniss, vai me acompanhar de boa vontade ou terei de chamar Thresh para segurá-la enquanto amarro seus pulsos e tornozelos ?

A senhora Cassandra mordeu os lábios, contendo uma gargalhada. Pelos gritos dos dois, aquele casamento lhe parecia um daqueles capazes de sacudir o paraíso.


A travessia foi rápida e tranqüila, Katniss teve de concordar. Permanecera sentada na parte de trás do pequeno barco à vela, que Peeta lhe explicou chamar-se popa, já que não havia bancos, encostada no peito do marido. Ele tinha um dos braços passado pelo leme e o outro pelos ombros dela; controlava a vela com movimentos rápidos e suaves.

A princípio, ficara tensa, à espera do enjôo que a acompanhara nas outras viagens por mar, mas dessa vez a náusea não viera. Se fora por causa do mar calmo ou por causa do calor do corpo de Peeta junto ao seu, não saberia dizer. Mas por algum motivo, o fato é que não se sentira mal. Recusava-se a admiti-lo até para si mesma, mas chegara a gostar da curta viagem. O vento limpo e salgado agitava-lhe os cabelos e enchia gostosamente seus pulmões. Assim que tinham deixado a confusão do porto para trás, uma quietude profunda os envolvera. O pequeno barco cortava as calmas águas verdes, o silêncio interrompido apenas pelo chamado solitário de uma única gaivota lá no alto e o ocasional drapejar da vela. Para sua surpresa, lamentou de verdade quando Peeta dirigiu o barco para uma pequena ilha, pouco além da saída do porto. Alguns ciprestes, com galhos torcidos pelos ventos, cresciam sobre as pedras, mas nenhuma criatura viva parecia habitar a ilha.

- Por que viemos para cá ? - perguntou, quando Peeta soltou a vela.

- Esta é minha ilha especial - confidenciou ele, saltando pela borda do barco, a fim de puxá-lo para a terra.

- Essa ilhota ?

Katniss olhou de forma cética para as pedras nada hospitaleiras e saltou para a água, que lhe chegava às coxas, para ajudá-lo. Os dois puxaram e colocaram o pequeno barco sobre as pedras.

Peeta endireitou o corpo e olhou a pequena ilha com ar ansioso.

- Quando eu era pequeno, menor do que Valerie, meu pai me deu meu primeiro barco. Saiu um dia comigo, mostrou-me como se veleja e me passou os cabos para que eu controlasse o barco. Durante os primeiros anos em que me foi permitido sair pelo mar, ele me deixava vir só até aqui - olhou para Katniss, com um adorável sorriso de menino - E esta ilha se tornou o meu lugar particular, meu esconderijo de pirata, o local secreto para onde eu trazia as virgens capturadas em meus ataques imaginários, para ficar sozinho com elas.

- Bem, não pense que vai ser fácil assim comigo !

Katniss tentava proteger-se atrás de um tom duro, assustada com o efeito que o olhar claro e alegre dele lhe causava, com a agitação que sentia ao ver a túnica molhada colada no corpo bronzeado e musculoso. Virou-lhe as costas e começou a subir pelas pedras; os pés descalços escorregaram nas pedras molhadas e ele estendeu os braços para ajudá-la. Amparou-a até que se equilibrasse, mas depois não a soltou.

- Estou falando sério - avisou ela - Não pense que seu jeito suave e o sorriso sedutor vão diminuir minha determinação. Temos de resolver a questão do nosso casamento.

- Já está resolvida - disse ele com suavidade, puxando-a para mais perto.

- Peeta...

- Só falta você aceitar minha resolução. Pretendo passar os próximos dois dias discutindo a respeito, até convencê-la.

- Pare ! - gritou ela, virando o rosto para evitar os lábios dele - É "isso" o que chama de discussão ?

- Sim, docinho. O modo mais elegante e gostoso de se discutir qualquer coisa... - segurou o rosto dela com ambas as mãos e beijou-a duas vezes, rapidamente - Puro sofisma, na verdade.

- Peeta !

O beijo a seguir foi mais lento, mais doce.

- As discussões tranqüilas, refinadas, são as mais gostosas - explicou ele, num breve intervalo. Moveu a língua contra a dela, provocando, saboreando. Sussurrou: - E esta é a oração mais gloriosa que conheço.

Era apenas demagogia ateniense, ela disse a si mesma, rendendo-se com um suspiro. Era só um beijo. Poderia deter as palavras tolas e as mãos atrevidas dele quando bem quisesse; o problema é que não queria. Ah, pelos céus, como não queria !


- Eu lhe trouxe um presente.

A voz dele foi como um trovão aos ouvidos de Katniss.

- Sim, trouxe mesmo - murmurou ela, cansada demais para sequer erguer a cabeça apoiada no peito dele - Nunca imaginei que uma mulher pudesse receber um homem deste modo. Acho que meus gritos de prazer foram ouvidos até no porto.

Os músculos sob a cabeça dela começaram a tremer.

- Pelos deuses, ateniense - o suspiro dela foi mais do que profundo - , estou cansada demais para tentar compreender o que o está fazendo rir agora. Fique quieto, não me perturbe.

Uma das mãos grandes acariciou-lhe os cabelos.

- Tenho mais um presente para você.

- Oh, não ! - gemeu ela - Não posso. De verdade, agora não vou agüentar de novo.

Ergueu o corpo e deixou-se cair de costas, ignorando as risadas dele.

Estavam no abrigo de uma pequena caverna formada por rochas soltas. A vela dobrada, sobre a qual estavam deitados, dava-lhes algum conforto. Uma pequena fogueira crepitava, diluindo um pouco a escuridão da noite. Lá, muito no alto, acima deles, as estrelas brilhavam no céu profundamente negro. Parecia que se encontravam sozinhos no Universo. Katniss tornou a suspirar, sentindo-se realizada como nunca sonhara que poderia ficar.

Ainda rindo, Peeta sentou-se e encheu uma cabaça alta com o doce vinho branco que a mãe enviara.

- Pegue, tome isto e restaure suas energias.

Ela sentou-se com certa dificuldade. Cada músculo do corpo doía, inclusive alguns que não sabia que existiam. Pegou a cabaça com mãos trêmulas e bebeu.

Enquanto ela bebia, Peeta remexia na sacola de couro presa ao cinto que jogara no chão, depois esperou, de pernas cruzadas, até ela terminar. Então, colocou a cabaça de lado e segurou um dos pulsos dela. Seus dedos moveram-se por alguns instantes, até que Katniss ouviu um clique metálico. Quando ele soltou-lhe o braço, ergueu o pulso e, surpreendida, viu que havia uma pulseira dourada nele. À luz das chamas, examinou os graciosos golfinhos presos para sempre pelo joalheiro num salto em arco executado no ar.

- Oh, Peeta, eu nunca tinha visto nada tão lindo !

- Lembra da noite em que vimos o golfinho ?

- Sim, lembro - ela ergueu os olhos.

A luz bruxuleante punha sombras nos olhos dele e reforçavam os traços firmes do rosto.

- Foi a primeira noite que passamos juntos - acrescentou, em voz baixa e suave, recordando - Perto de Limera... o golfinho saltou na água e você me disse que era um mensageiro de Poseidon...

- ... que tinha vindo ver como estava a maravilhosa nereida que o deus do mar dera para mim.

- Peeta...

- Poseidon deu você para mim, Katniss, e não vou deixá-la ir embora agora, nem nunca. Não nesta vida e nem mesmo na próxima.

- Mas deve deixar - sussurrou ela, fazendo o bracelete girar e girar no pulso.

- Não - as mãos de Peeta fecharam-se sobre as dela, contendo os movimentos agitados - Os poetas têm descrito com freqüência os sentimentos que tenho por você, mas neste momento não consigo recordar uma única linha. Tudo que sei é que a amo, que não quero outra mulher ou esposa além de você.

- Peeta, pense no que está dizendo, por favor.

- Eu penso, já pensei muito. Você preenche minha alma, Katniss, e me faz completo. Não há espaço em mim para nenhuma outra. Prometa que não vai mais falar em divórcio.

- Não posso.

Ela lutava desesperadamente para encontrar palavras que dissessem o que sua mente afirmava e o coração negava.

- O que sente agora por mim vai mudar - murmurou, tentando evitar as lágrimas que ameaçavam subir-lhe aos olhos - Eu sei disso. Se eu o fizer manter este casamento, você vai acabar se ressentindo. Vai se ressentir pelo fato de eu não poder lhe dar um filho que veleje os barcos de Atenas. Vai se ressentir porque nossas filhas não poderão se casar com cidadãos atenienses adequados.

As mãos dele se contraíram, comprimindo os golfinhos dourados contra o braço dela, enquanto seus olhos fitavam os dela com intensidade. Esperou alguns instantes depois que ela se calou, para declarar:

- Se não acredita no que estou dizendo que há no meu coração, promete ao menos ficar comigo enquanto usar este bracelete ? Promete que não vai tentar ir embora ou procurar divórcio enquanto o estiver usando ?

Ela engoliu em seco e respirou fundo:

- Sim, isso eu posso prometer. Prometo.

A tensão no rosto dele diminuiu e um sorriso formou-se lentamente, mostrando os dentes brancos e bem formados. Katniss balançou a cabeça, maravilhada com a mudança rápida de humor de que Peeta era capaz.

- Você é um homem estranho, que me confunde. Por que uma promessa tão simples o faz ficar confiante ? Afinal, é só uma questão de usar ou não um bracelete.

- Não, docinho, não é não.

Uma expressão estranha surgiu no rosto dele, e Katniss teve a impressão de que nela havia um misto de vitória e culpa.

- Não é - prosseguiu ele - , porque fiz o joalheiro colocar um aro de ferro por dentro da pulseira e alterar o fecho, de forma que ele nunca mais se abra. O único modo de tirar este bracelete é cortando sua mão.

- O quê ?

O grito dela perturbou a paz na noite e fez assustadas gaivotas voarem dos ninhos, nas rochas.

Rindo, Peeta escondeu a cabeça com os braços quando Katniss saltou sobre ele, batendo com toda a força dos braços delicados.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 16.