Enquanto caminhavam, Isabella tentava pensar no que dizer, mas não achava palavras para iniciar a conversa. Não quis perguntar a ele por que se sentia tão atraída por ele ou se isso iria piorar. Desconfiava de que era resultado do encantamento que a fazia incapaz de entregar a pele dele a outra. Eles estavam interligados. Ela havia entendido isso. Não ia querer saber se ele sentia a mesma compulsão de estender a mão para tocá-la. Mas sabia que para resistir a isso teria que fazer um esforço supremo.

"Não é real." Ela olhou para ele, e sua pulsação se acelerou. "E também não é definitivo. Posso me livrar dele. E quero."

Metendo as mãos nos bolsos, continuou caminhando em silêncio ao lado dele. Em geral, a noite parecia próxima demais quando as pessoas - "bom, na realidade, apenas os garotos" - estavam no seu espaço. Ela não queria se transformar em sua mãe: acreditar no primeiro sonhador, buscando a ilusão de que o desejo ou a necessidade pudesse evoluir para alguma coisa concreta. Não era assim. Nunca. Em vez disso, a emoção da paixão inicial transformava-se em drama e pranto, sem exceção. Fazia mais sentido terminar tudo antes daquele segundo estágio inevitável e complicado. Namoros curtos eram bons, mas Isabella sempre obedecia à Regra das Seis Semanas: só namorava quem pudesse dispensar em até seis semanas. Isso significava que precisava encontrar uma forma de se livrar de Edward dentro de seis semanas, e o único que poderia ajudá-la a descobrir como fazer isso era ele.

No velho prédio da cafeteria, ele parou e olhou de relance para ela.

- Aqui é um bom lugar?

- É. - E sem querer, ela tirou as mãos dos bolsos e começou a estender os braços. Franzindo a testa, voltou a cruzar os braços. - Não é um encontro. Eu simplesmente não queria você perto da minha mãe.

Sem nada dizer, ele estendeu o braço para abrir a porta.

- Que foi? - Ela sabia que estava mal-humorada, podia se ouvir sendo mal-educada. "E por que não deveria? Eu não pedi que esse cara viesse atrás de mim."

Ele suspirou

- Eu preferiria machucar a mim mesmo a machucar a sua mãe, Isabella. - E depois fez sinal para que ela entrasse na cafeteria. - Sua felicidade, sua vida, sua família... É tudo que me importa agora.

- Você não me conhece.

Ele deu de ombros.

- As coisas simplesmente são assim.

- Mas... - E ela o fitou, tentando encontrar palavras para discutir, fazê-lo... "O quê? Ir contra a ideia de me fazer feliz?" - Isso não faz sentido.

- Vamos nos sentar e conversar. - E ele andou até o lado mais distante da loja, longe do espaço central bem-iluminado. - Há uma mesa vazia aqui.

Havia outras mesas vazias, mas ela não as escolheu. Queria privacidade para a conversa entre eles. Perguntar a ele como romper algum vínculo de conto de fadas já era em si uma coisa estranha; fazer isso na frente dos outros era um pouco demais.

Edward parou e puxou a cadeira para ela se sentar.

Ela se sentou, tentando não se emocionar com aquele cavalheirismo dele ou com sua aparente falta de atenção às meninas e alguns caras que estavam olhando para ele com um interesse evidente. Ele parecia que nem havia notado os outros, mesmo quando pararam de falar no meio de uma frase para sorrirem quando ele passou por suas mesas.

"E quem poderia culpá-los por olharem para ele?" Isabella talvez se sentisse mal por estar naquela situação esquisita, mas isso não significava que não tinha ficado meio deslumbrada pela aparência altamente sedutora dele. Não por querer ficar com ele, claro, mas porque seu coração se acelerava toda vez que ela olhava para ele. "Boa aparência não quer dizer nada. Isso não me importa. Ele me capturou."

Edward sentou-se na cadeira em frente a ela, observando-a com uma atenção que a fez tremer.

- O que quer? - indagou ela.

Ele estendeu o braço e pegou a mão dela.

- Não quer ficar aqui?

- Não. Não quero ficar aqui com você.

Calmo, ele perguntou:

- Então como posso agradá-la? Como posso fazer com que queira estar perto de mim?

- Não pode. Quero que vá embora.

Várias expressões indecifráveis passaram pelo rosto dele, rápidas demais para serem identificadas, mas ele não respondeu. Em vez disso, fez sinal para o quadro-negro gigante que servia de cardápio e leu as opções.

- Mocha? Americano? Macchiato? Chá? Leite?

Ela pensou em obrigá-lo a responder o que ela precisava, mas não fez isso. Ser hostil não ia levar a nada. Ainda não. Se brigasse com ele, não ia obter respostas, portanto decidiu tentar uma abordagem diferente: a lógica. Ela inspirou para se preparar.

- Claro. Um mocha. Duplo. - Ela ficou de pé para meter a mão no bolso e pegar dinheiro.

Ele se levantou num pulo, conseguindo parecer mais gracioso do que qualquer homem que ela jamais havia conhecido.

- Vai querer comer alguma coisa com o café?

- Não. - Ela tirou uma nota de cinco dólares dentre as notas que trazia no bolso, desdobrando-a e entregando-a a ele. Em vez de pegar a nota, ele franziu o cenho e afastou-se da mesa.

- Espera aí- disse ela, sacudindo a nota e espichando mais ainda o braço. - Leva isso.

Ele voltou a olhá-la de cenho franzido e balançou a cabeça.

- Não posso.

- Então tá. Eu mesma pego o café. - E contornou-o.

Com uma velocidade que ela jamais pensou ser possível, ele passou à sua frente. Ela tropeçou, esbarrando nele de leve, e equilibrou-se apoiando uma das mãos no seu peito.

Com um leve suspiro, ele pôs a mão sobre a dela.

- Posso pagar uma xícara de café para você, Isabella? Por favor. Não vai ficar me devendo nada por isso.

"Seja lógica", recordou-se ela. "Recusar uma xícara de café não é lógico."

Sem nada dizer, ela assentiu, e foi recompensada com um olhar gentil.

Depois que ele se afastou, ela se sentou e ficou observando-o passar pela multidão. Ele não pareceu intimidar-se, nem com as pessoas que esbarravam nele, nem com as mesas cheias. Atravessou o salão facilmente, de um jeito sobrenatural. Várias vezes, olhou de relance para ela e para as pessoas sentadas ao seu redor, atencioso sem ser possessivo.

"Por que é que isso me encanta?" Ela olhava para ele com um desejo nada familiar, sabendo que ele não era verdadeiramente dela, sabendo que não queria ligar-se a ele, mas mesmo assim sentindo um anseio estranho.

"Será coisa de selkie?" Ela procurou olhar para outro ponto e começou a pensar de novo no que ia dizer, que perguntas fazer, como desatar aquele nó que os havia prendido.

Alguns minutos depois, e mais uma vez sem esforço visível, Edward passou pela multidão até chegar onde ela estava, equilibrando dois copos com um prato em cima de cada um. O primeiro prato continha um sanduíche grande; o segundo tinha um monte de biscoitos, brownies e quadradinhos de chocolate. Ele lhe entregou o mocha.

- Obrigada - murmurou ela.

Ele assentiu e empurrou os pratos para o meio da mesa, entre eles.

- Achei que você podia querer comer alguma coisa.

Ela olhou para o prato de doces e para o sanduíche.

- Tudo isso é para mim?

- Não sabia o que ia preferir.

- Preferiria que você fosse embora.

A expressão dele ficou séria.

- Não posso. Por favor, Isabella, precisa me entender. Já é assim há séculos. Eu não tive a intenção de capturá-la, mas não posso me afastar. Não consigo fazer isso, fisicamente falando.

- Não dá para levar de volta? A sua... hã... pele? - E ela prendeu a respiração.

Ele olhou tristemente para ela de novo. Seus olhos, negros e úmidos, lhe lembraram o mar à noite.

- Se eu a encontrar onde a esconder sem que você pretenda que eu faça isso. Pura coincidência. Ou se eu me zangar o suficiente para procurar por ela depois que você me bater três vezes. Sim, há como fazer isso, mas não é provável. Você não pode deixar de escondê-la, e eu não posso procurar por ela sem motivo.

Isabella havia desconfiado que devia ser assim. Sabia que não ia conseguir escapar daquilo facilmente, mas mesmo assim precisava perguntar, ouvir a resposta dele. Sentiu os olhos arderem, quando se encheram de lágrimas.

- E então, o que a gente faz?

- Vamos nos conhecer melhor. Espero que descubra que me quer perto de si. Está esperando que eu lhe diga algo que a ajude a se livrar de mim. - Ele parecia tão triste ao dizer isso que ela se sentiu culpada. - Faz séculos que isso também é assim.