Isabella tentou não reagir à sensação que a invadiu quando a mão dele tocou a sua, mas havia algo de certo nela; era como sentir o Universo inteiro se encaixar. A paz, uma sensação sempre fugidia, começou a preenchê-la. Ela sentia paz no recife, sob a lua cheia, mas não era um sentimento que experimentasse quando estava perto de outras pessoas. Ela soltou a mão dele rapidamente, e ele não resistiu. Mas o sentimento desapareceu. Era como observar o mar fugindo dela, ver a água recuar para algum ponto para onde ela não podia segui-la. A água fugia mesmo que ela tentasse agarrá-la , mas, ao contrário do mar, esta sensação de agora parecia algo quase tangível. Ela agarrou a mão dele e olhou intensamente os dedos dos dois, entrelaçados. Ele era tangível.

"E vinha do mar..."

Ela se perguntou se era por isso que se sentia assim... Tocá-lo era o mesmo que tocar o mar. Ela passou o polegar sobre as juntas dos dedos dele. Sua pele não era diferente da dela. Pelo menos não naquele momento. A ideia de que ele podia se transformar em outra coisa, algo que não era humano, foi quase suficiente para fazê-la soltar a mão dele outra vez. Quase.

- Não vou machucá-la, Isabella - dizia ele, murmurando palavras de maneira ritmada e longe de ser humana.

Ela sentiu arrepios. Seu nome jamais tinha sido pronunciado de uma forma tão bela.

- As pessoas não costumam incluir o nome da pessoa com quem estão falando em todas as frases.

Ele assentiu, mas sua expressão estava impenetrável, cuidadosamente isenta de emoção.

- Preferiria que não fizesse isso? Gosto do seu nome, mas poderia...

- Não importa. É que eu... simplesmente... não estou gostando disto. - Ela indicou as mãos deles, ele e também a si mesma, mas ainda estava de mãos dadas com ele quando saíram da cafeteria. Ela estava muito cansada, muito confusa, e o único momento de paz que sentira tinha sido aquele em que tocara a pele dele.

Uma vez do lado de fora, ela mudou de assunto de novo.

- Onde vai ficar?

- Com você, não é?

Ela riu antes que pudesse se conter.

- Hã... acho que não vai dar.

- Não posso ficar muito longe de você agora, Isabella. É como se houvesse uma correia nos atando. Só consigo me afastar até um certo ponto. Posso dormir do lado de fora. - E deu de ombros. - Não ficamos mesmo em casas, na maior parte do tempo. Minha mãe, sim, mas ela é... como você. Eu às vezes vou lá passar algum tempo com ela. É mais confortável, mas não é necessário.

Isabella pensou no caso. Sabia que sua mãe não se importaria. Renee não criava caso absolutamente nenhum sobre nada, mas parecia-lhe que deixar Edward dormir no sofá de casa seria como admitir a derrota. "Então eu vou deixá-lo dormir do lado de fora como um animal? Mas, pensando bem, ele é um animal, não é?" E parou por um instante; ele também parou de andar.

"Eu nem mesmo devia deixá-lo entrar na minha casa; será que estou ficando louca?" Ele não era humano, era um animal. Quem ia saber as regras segundo as quais vivia? Se é que tinha regras ou leis... Ela não era diferente de sua mãe: deixava-se levar por palavras vazias, deixava estranhos entrarem no seu lar. Mas ele a capturara. E não era o único que tinha tentado. Alguma coisa estranha estava acontecendo, e ela não estava gostando nada daquilo. Soltou a mão de Edward e afastou-se dele.

- Quem era o cara que falou comigo perto da fogueira e que tentou me dar uma pele? Por que vocês dois... Ele disse que você era pior que ele, e que... - E olhou para Edward, para o seu rosto. - E por que eu?

Edward não conseguiu dizer nada, não conseguiu processar nada além do fato de que seu irmão tinha tentado desviar para si a atenção da companheira que ele pretendia conquistar. Ele sabia, assim que aconteceu, que Jacob tinha levado a Outra-Pele dele e a colocado onde Isabella a encontrara, mas não tinha pensado que além disso Jacob podia tê-la abordado. "Por que ele tinha feito isso?" Jacob ainda tinha raros acessos de irritação por ter perdido Leah, mas eles tinham conversado sobre o assunto. "Ele disse que entendia... Então por que estava falando com a minha Isabella?"

Edward ficou imaginando se deveria tranquilizar Jacob, dizendo que Isabella estava em boas mãos, que não era como Leah, que não se perderia numa depressão potencialmente fatal. "Quem sabe ele estava tentando proteger Isabella... E eu?" Isso certamente fazia bem mais sentido para Edward, a não ser pelo fato quase certo de que Jacob tinha sido o responsável por deixar a Outra-Pele no caminho de Isabella. Não havia nenhum outro selkie na praia.

"Nada disso faz sentido... nem devo falar no assunto agora."

Era bem mais complicado do que todas as outras que Isabella estava precisando entender, portando Edward procurou ocultar sua confusão e desconfiança e disse:

- Jacob é meu irmão.

- Seu irmão?

Edward assentiu.

- Ele me deu medo. - Ela corou ao dizer isso, como se o medo fosse algo de que precisasse sentir vergonha, mas a admissão foi apenas um piscar de olhos. Isabella ainda estava zangada. Sua postura era tensa: de mãos cerradas, coluna ereta, olhos semicerrados. - Ele disse que você era pior e que ele voltaria. Ele...

- Jacob, o Jake, está meio atrasado em matéria de comunicação com... seres humanos. - Edward detestava ter que usar aquelas palavras, jamais seria o que ela era. Era algo que eles precisavam reconhecer. Edward aproximou-se mais dela. Apesar da raiva, Isabella precisava de consolo.

- Por que ele disse que você era pior?

- Porque eu queria conhecer você antes de lhe contar o que eu era. Nada disso foi intencional. Minha Outra-Pele foi... - E fez uma pausa, sem saber se devia dizer-lhe que desconfiava que Jacob tinha tentado capturá-la, e decidiu não dizer nada. Isabella e Jacob iam ser obrigados a passar muitos anos lado a lado: uma simples omissão, e podia prevenir toda a tensão resultante da raiva que ela ia sentir do cunhado. - ...estava num lugar onde não devia estar. E você também não devia estar onde estava. Eu ia ao seu encontro, para tentar sair com você como os humanos fazem.

- Ah, sei. - E ela cruzou os braços sobre o peito. - Mas...

- Jake pensa que sou "pior" do que outros na minha família porque estou desrespeitando as tradições... ou pelo menos era esse o plano. - E aí ele sorriu, encabulado. - Pensa que é pior o fato de eu antes querer namorar você e só depois revelar quem sou. Mas agora nada disso importa mais...

- Mas como pode ser?

- Eu já me pergunto isso há anos. - E estendeu a mão para ela. - Não é o que vou ensinar aos meus filhos... Um dia, quando me tornar pai. Não é o que eu queria, mas agora estamos juntos. Vamos descobrir um meio de contornar isso.

Ela pegou a mão dele.

- Não precisamos ficar juntos.

Ele não respondeu, simplesmente não conseguiu responder por alguns instantes. Depois disse:

- Desculpe.

- Eu também peço desculpas. Mas não sou de namorar sério, Edward. - As pontas dos dedos dela acariciaram a mão dele, distraidamente.

- Não queria capturar você, mas também não estou disposto a deixá-la partir. - E esperou que ela protestasse, se zangasse, mas, como o mar, os humores dela também eram imprevisíveis.

Ela então sorriu, não como se estivesse infeliz, mas como se fosse perigosa.

- Então acho que vou ter que convencê-la.

"Ela é mesmo perfeita para mim."