Perto dos banheiros sujos ao longo do estacionamento da praia, Isabella viu uma moça vestida apenas com uma blusa fina e shorts esfarrapados. Ela tremia, não de frio, mas de algo que tinha injetado em si mesma, ou que não tinha conseguido obter para se injetar. Em geral os viciados em drogas e os nômades andavam em pequenos grupos, mas aquela moça estava sozinha.
A pele formigou e virou de novo um lindo casaco de couro assim que Isabella viu a moça. Perfeito. Isabella foi até onde a moça estava e tentou lhe entregar o casaco.
- Toma. Para você se aquecer...
Mas a moça recuou e, pela cara que fez, ficou horrorizada, olhando de relance do casaco para o rosto de Isabella, depois para o estacionamento, quase vazio.
- Não vou contar a ninguém, mas, por favor, só...
E aí, parecendo que estava para vomitar, a moça lhe deu as costas.
Isabella olhou para baixo. A pele, ainda parecida com um casaco, estava coberta de sangue. O sangue lhe cobria as mãos, os braços e todos os pontos onde a água do mar havia molhado o casaco, agora vermelho-escuro sob a luz forte dos postes de iluminação. Por um instante, Isabella pensou que estava errada, que tinha machucado o selkie. Olhou para trás: uma trilha de gotículas quase perfeitas se estendia atrás dela. E, enquanto ela olhava, as gotículas assumiram uma cor branco-prateada, como se alguém tivesse derramado mercúrio na areia. Elas não afundaram. Ficaram equilibrando-se sobre a areia, mantendo a sua forma. Isabella, olhando de relance para baixo, viu o sangue no casaco ficar prateado também.
- Está vendo? Não tem problema. Fica com ele. Vai...
A moça trêmula já tinha sumido.
-... ficar tudo bem - terminou Isabella. Piscou para evitar as lágrimas de frustração. - Só quero que alguém estenda os braços para eu poder soltar essa pele!
Com a mesma certeza que tinha lhe revelado o que era Edward e o que era o cara dos dreads, ela percebeu que não podia jogar a pele fora, mas que se alguém estendesse a mão para pegá-la ela podia soltá-la. A pele podia cair no chão, e ninguém seria capturado. Ela só precisava achar alguém que tivesse disposto a fazer isso.
Duas vezes mais, enquanto voltava para casa, ela tentou. E nas duas vezes, aconteceu o mesmo: as pessoas olhavam para ela aterrorizadas ou enojadas, vendo-a estender para elas um casaco ensanguentado. Só quando elas lhe davam as costas é que a umidade do casaco retomava a aparência de gotas espessas e salgadas.
Fosse qual fosse o feitiço que a deixava incapaz de resistir a pegar aquela pele, estava tornando impossível livrar-se dela, também. Isabella pensou sobre o que sabia a respeito dos selkies: sua avó tinha lhe contado histórias sobre o povo das focas quando Isabella era pequena: as selkies, mulheres-focas, vinham até a praia. Despiam sua Outra-Pele e, às vezes, se não tomassem cuidado, um pescador ou algum solteiro qualquer encontrava a pele e a roubava. Os novos maridos escondiam as peles das focas para poderem prender consigo as suas esposas.
Mas sua avó não tinha dito nada sobre selkies do sexo masculino; também não tinha dito que as mulheres-focas capturavam os homens. As histórias da avó faziam os selkies parecerem tristes, sem liberdade de se transformarem em focas de novo porque suas Outras-Peles tinham sido escondidas. Nas histórias, os selkies eram as vítimas, e os seres humanos, os vilões. Capturavam esposas-focas indefesas no mar, enganando-as, para exercerem poder sobre elas. As histórias eram todas muito claras: as selkies estavam capturadas... Mas no mundo real, Isabella é que estava se sentindo capturada.
Quando ela chegou ao seu apartamento, estava desejando, mais uma vez, que a avó estivesse viva para lhe dizer o que fazer. Sentia-se como uma criancinha com saudades da avó, mas vovó era a adulta, a pessoa que podia resolver tudo, ao passo que sua mãe vivia tão perdida quanto Isabella na maioria das vezes.
Diante do prédio onde morava, Isabella parou. O carro deles estava estacionado na rua, diante do edifício. Isabella abriu o porta-malas. Cuidadosamente, dobrou o casaco-pele. Depois de olhar furtivamente em torno de si, esfregou o rosto contra o pelo preto e macio. Aí, com um cuidado que não conseguiu controlar, enfiou-o sob o cobertor sobressalente que a mãe mantinha no porta-malas e que fazia parte do kit de emergência para quando o carro quebrasse na estrada. Era como se não houvesse outra escolha: ela precisava guardar a pele com cuidado, mantê-la fora do alcance dele e manter seu selkie longe das outras mulheres.
Proteger meu companheiro. Essas palavras lhe surgiram na mente contra a sua vontade, contrariando-a. Ela bateu a porta do porta-malas com força e foi até a frente do carro. E como fazia com frequência quando precisava sair à noite, deitou-se no capô. Ainda estava quente, porque sua mãe devia ter chegado pouco antes da festa à qual havia ido.
Isabella contemplou a lua e murmurou:
- Ai, vovó, estou ferrada.
Depois aguardou. Ele ia aparecer. Ela sabia que ia, e ter que encará-lo com sua mãe por perto, feliz por Isabella ter trazido um rapaz para sua casa... ia piorar ainda mais as coisas.
"É melhor fazer isso do lado de fora."
