Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Merline Lovelace, que foi publicado na série de romances "Clássicos Históricos Especial", da editora Nova Cultural.
Capítulo 2
Katniss estava caída entre os cabos, no fundo do barco, rezando para adquirir forças. Os minutos passavam, alongando-se de forma a parecer horas. A dor da pancada na cabeça começava a diminuir, mas apenas para ser substituída por outras dores. Como o ateniense dissera, as amarras se haviam apertado e o couro agora cortava-lhe a pele. Para aumentar seu desconforto, estava enjoada por causa do balanço do mar. Tentou se controlar. Se vomitasse com aquele pano na boca ia morrer sufocada. Mas, apesar dos esforços, o estômago se revirava e ela sentia o gosto acre de bile na garganta. Não suportando mais, gemeu.
Um metal frio tocou-lhe o rosto, fazendo-a jogar a cabeça para trás, e lamentou de imediato aquele movimento. As têmporas começaram a latejar e ela se imobilizou, os olhos fechados, esperando que a dor diminuísse. Ao perceber a faca cortando a mordaça, abriu os olhos. O ateniense loiro, aquele com o qual lutara nas pedras e que o mais jovem chamava de capitão, estava ajoelhado ao seu lado. Engasgada, ela cuspiu o pano que fora enfiado em sua boca.
- Aqui, beba isto. Devagar, devagar...
Uma mão forte sustentava-lhe a nuca enquanto Katniss sugava sofregamente o odre de pele de cabra que lhe tocava os lábios. Nunca, em todos os seus anos de vida, nunca tomara algo tão delicioso quanto a água morna que lhe deslizava pela garganta e o queixo. Se tivesse que descrever o néctar dos deuses, ele teria exatamente o mesmo sabor que experimentava no momento.
- Se você prometer não me acertar de novo com o remo - disse ele, enquanto guardava o odre - , eu a desamarro.
Em seguida, aproximou-se e quando a tira de pano que prendia os pulsos aos tornozelos foi solta ela esticou o corpo involuntariamente. Gemeu outra vez, sentindo como se milhares de agulhas lhe espetassem os joelhos e as juntas dos ombros. A náusea tornou a atacar, mas ela conseguiu dominá-la. Sentiu uma pressão nos tornozelos e o couro que os prendiam soltou-se. Logo depois, a faca cortou a tira que lhe imobilizava os pulsos. O capitão a levantou e apoiou-a no mastro.
- Eu avisei para você não ficar mexendo nas mãos, tentando se soltar...
Katniss abriu a boca para responder que uma espartana nunca daria atenção ao aviso de um ateniense mentiroso, mas nesse momento o barco desabou do alto de uma onda. A água que tinha no estômago balançou, seus olhos se arregalaram e ela pulou para a beirada do barco.
O capitão a segurou pelos ombros:
- Pelo amor de Zeus ! Não tente fazer isso !
- Solte-me, ateniense ! Estou a ponto de...
Não pôde terminar a frase. Com um longo gemido, debruçou-se na borda do barco e Peeta segurou-a pelos ombros.
Quando, por fim, ela voltou a se apoiar no mastro, estava com os olhos cheios de lágrimas provocadas pelo ódio que sentia da própria fraqueza. Fitou-o com maldade, ao dizer, rouca:
- Se você se atrever a rir, juro que as gaivotas vão se deliciar com as suas entranhas, antes que o dia acabe !
Sério, ele apenas lhe entregou a água:
- Beba mais, assim limpa sua garganta...
Katniss ergueu o odre com mãos trêmulas. Quando terminou de beber, ele tomou-lhe uma das mãos e passou a massagear o pulso ferido.
- Não toque em mim ! - ela tentou libertar a mão.
Ele ignorou o pedido e não a deixou escapar, continuando a massagear. Desprezando-se pelo que considerava uma vergonhosa fraqueza, Katniss conteve um gemido quando sentiu aguilhoadas nos dedos adormecidos.
- Sinto muito que esteja doendo... - disse ele.
A demonstração de simpatia a fez endireitar as costas e erguer o queixo:
- Eu não. Ferimentos decorrentes de luta com o inimigo nos dão orgulho.
- Por que me chama de inimigo ? Esparta e Atenas não estão em guerra.
- Não ? Este é o modo dos atenienses fazerem amizade ? Por que me aprisionou, se nossas cidades não estão em guerra ?
- Estou começando a ficar impressionado - disse ele, com um meio sorriso.
O tom de troça a deixou brava:
- Não me considere uma idiota, ateniense ! Apesar de seus embaixadores estarem agora mesmo no palácio, implorando pela paz, estamos em guerra. Sua presença em solo de Esparta é prova disso.
Ele arqueou uma sobrancelha:
- Como sabe das idas e vindas de nossos embaixadores ? É uma das servas do rei ?
Katniss percebeu seu erro. Aqueles idiotas não imaginavam o valor do que tinham em mãos e não seria ela que iria contar. Tratou de mudar o sentido da conversa:
- Todos sabem que os atenienses sempre imploram por paz e depois atacam sem ser esperados.
- Acha que iríamos atacar com um barco destes ?
- Acho que vocês estão estabelecendo a cabeça-de-ponte para o ataque-surpresa.
- Então, conhece táticas de batalha, além de artes marciais ? - Peeta fitou-a com mais atenção - As mulheres de Esparta são mesmos "diferentes", como se diz por aí.
- No seu lugar, eu não trataria com desprezo as mulheres de minha cidade... afinal, uma de nós o derrubou com grande facilidade.
- Sim, apesar de você ter usado pouco as mãos e usado muito outras partes mais interessantes de seu corpo.
- Seja como for, aconteceu. E seu cérebro estaria agora decorando as pedras se seu amigo não tivesse agido como um covarde.
Atrás dela, o jovem tenente emitiu uma exclamação de desprezo.
- Ou esse é o jeito habitual dos atenienses agirem ? - continuou ela, sem lhe dar atenção - Vocês sempre chegam escondidos, na escuridão, e atacam mulheres pelas costas ?
- Enfie o pano de novo na boca dessa mulher, capitão - sugeriu Finnick.
Apesar do jeito corajoso com que falava, Katniss sentiu-se mal diante da idéia de voltar a ser amordaçada.
Mas o capitão nem mesmo respondeu à sugestão. Soltou o braço direito dela, pegou o esquerdo e começou a massagem no outro pulso dolorido. Encostando a cabeça no mastro, Katniss entrecerrou os olhos e ficou a observá-lo através dos cílios.
Por Hera, mãe dos deuses, ele era um inimigo formidável !
A túnica curta de linho, presa pelo cinto de couro da bainha da espada, marcava o corpo, graças à brisa, revelando em detalhes a musculatura e os ombros fortes. Ela notou com satisfação os arranhões que desciam de um dos ombros. Pelo menos, não fora a única a sair do combate com ferimentos. Teve que erguer a cabeça para examinar o rosto dele.
O Sol o tornara bronzeado. O cabelo loiro estava despenteado pelo vento e era mantido longe do rosto por uma fita de couro amarrada na testa. Sob as sobrancelhas grossas, olhos azuis como o céu vindo do norte com os primeiros grupos de exploradores jônicos, imaginou Katniss. Cabelos loiros e olhos azuis tornavam-se cada vez mais raros entre os gregos, depois de muitas gerações de casamentos com os nativos do Egeu. Estudou os traços angulosos do rosto bronzeado, tentando não se deixar impressionar com a beleza masculina que só vira em estátuas de deuses.
Acostumada aos homens de barba escura de sua cidade, Katniss considerou o rosto nu extremamente desconcertante. Era como ver a cabeça de um jovem menino no corpo de um homem no vigor da existência e da forma. Não, não era um jovem... as rugas nos cantos dos olhos demonstravam que ele devia ter uns dez anos a mais do que ela. Ainda assim parecia jovem, talvez devido ao ar divertido que suavizava os traços de seu rosto. Como agora ! Katniss rezou para que ele não risse dela.
- Não, não vamos recomeçar as hostilidades - sorriu ele, como se lesse os seus pensamentos - Ainda passaremos muitas horas neste pequeno barco, por isso não quero ter de amarrá-la de novo e causar-lhe mais desconforto.
- Nós não valorizamos o conforto como vocês, ateniense.
Ele deu de ombros.
- Eu sou Peeta, filho de Igor. E você ?
Ela não respondeu.
- Vamos, diga seu nome e o de sua família. Não sei quanto tempo permaneceremos juntos, não quero continuar a chamá-la de "mulher".
- Eu preferia que não me chamasse de forma nenhuma.
- Seus desejos não valem muito no momento... quem é seu senhor ?
- Não tenho senhor.
O olhar dele desceu pelo pescoço dela, parando nos seios, depois nos quadris.
- Você já está além da idade de ser virgem. É uma viúva ou foi dada aos deuses como sacerdotisa ?
Além da idade ? Katniss sentiu o peso de seus vinte e dois anos sob o olhar dele.
- Sou viúva, mas ia me casar com um poderoso guerreiro esta noite. Você verá do que ele é capaz quando o fizer pagar pela forma como me insultou.
- Você já se vingou. Não, não mexa os pulsos assim - aconselhou Peeta, ao vê-la forçá-los - Vai doer mais. Diga, quem é esse guerreiro que devo temer ?
Sem saber até onde se espalhara a noticia de que a mais rica herdeira de Esparta ia finalmente se casar outra vez, Katniss preferiu não dizer e respondeu, com altivez:
- Você vai conhecê-lo logo, pode ter certeza.
- Então, está bem... já que foi o mar que me deu você, vou chamá-la de Tétis.
O rosto bonito de Katniss demonstrou que não gostara da escolha, mas não disse nada. Problema dele, se queria lhe dar o nome de uma das nereidas, filhas do deus marinho Nereu, protetoras dos marinheiros. Tétis, diziam, tinha um desejo insaciável pelos homens e a cada Lua cheia ficava nas praias, com as coxas brancas, nacaradas, prontas a se abrir para qualquer um que aparecesse. Quanto a ela, há anos não sentia qualquer desejo por homens, nem pretendia sentir, muito menos pelo guerreiro que a levaria para a cama naquela noite. Ao imaginar a cena, um arrepio percorreu-lhe a espinha; dominou a sensação ruim e ergueu o rosto.
- O que vai fazer comigo ? - perguntou, mostrando-se firme.
- É o que eu gostaria de saber... - suspirou ele - Fique calma, senhora Tétis, e não se preocupe com seu destino, pois ele está nas mãos dos deuses.
Equilibrando-se ao balanço do barco, ele passou por baixo da vela e foi para a proa.
- O leme é seu, Finnick. Me acorde em uma hora. Ou antes, se a dama fizer qualquer besteira.
Surpresa pela inquirição terminar tão depressa, Katniss suspirou de alívio. Esperava coisas piores, bem piores. Um espartano não hesitaria em arrancar à força as respostas de um cativo. Mas o desprezo pela suavidade dos atenienses logo suplantou o alivio.
Sob o olhar vigilante do jovem moreno, que se acomodou ao leme, na popa, Katniss apoiou a cabeça no mastro e avaliou a situação. Uma olhada rápida para o Sol mostrou que ainda não alcançara o zênite. Poucas horas tinham se passado desde que fora capturada, poucas demais para que dessem por sua falta. Sem dúvida sua escolta permanecia na pequena vila, jogando ou perseguindo as escravas, enquanto aguardavam seu retorno da praia sagrada. Os guardas não deviam esperá-la antes do meio-dia. Passariam horas até que fossem dizer a seu tio que ela sumira.
Pensar no tio provocou outro arrepio. Arkhidamos, conhecido como Naxos, era o mais forte e rude dos dois reis de Esparta e ficaria enfurecido quando ela não aparecesse para a festa de casamento. Depois de anos protegendo a mão e a riqueza da sobrinha dos vários pretendentes, ele finalmente acabara considerando um homem adequado. Um homem cuja ambição era o que o rei precisava, cuja força bruta só era igualada pela estupidez. O idiota tinha gasto metade do dote de Katniss, a metade que por lei ela tinha de dar a ele, pela honra de fazer parte da família real. Naxos nunca a perdoaria por se deixar pegar pelos atenienses e atrapalhar os planos que traçara.
E, para complicar mais a situação familiar, havia as implicações políticas de sua captura. Se os atenienses descobrissem quem era, iriam usá-la para fazer chantagem ou como isca, atraindo Esparta para a guerra antes que estivesse preparada. Apesar de odiar muito o tio, Katniss amava sua cidade. A idéia de iniciar uma guerra antes que os aliados enviassem reforços, como tinham prometido, a assustava. Aqueles sujeitos não podiam saber quem tinham capturado e precisava escapar antes que pudessem usá-la. Para qualquer propósito.
O dia passou com nada além do vento enfunando a vela e peixe salgado para a refeição. A única quebra na monotonia era os dois homens se revezando no leme do barco. Peeta trocou de lugar com Finnick, acomodando confortavelmente seu grande corpo junto do leme, que ficou por baixo de um dos braços.
Por duas vezes ele tentou conversar com a nereida capturada, mas tudo que conseguiu foi o desdém daqueles grandes olhos cinza. Embalado pelas ondas, o capitão se calou e ficou avaliando a prisioneira por entre as pálpebras semicerradas. Os contornos daquele corpo o fascinavam tanto quanto a recusa dela em ceder à sua força e autoridade.
Ela vinha de uma família bem situada, era evidente. Nenhuma serva ou escrava falaria daquele modo. Ainda assim, não tinha o ar e o jeito de nenhuma das damas que conhecia. Não, esta mulher era bem diferente das mulheres submissas de Atenas, assim como o falcão difere das pombas.
Pensamentos agradáveis de domar aquela fera passaram pela mente de Peeta. Seria uma esposa magnífica, decidiu ele. Enquanto os outros homens esperavam obediência e castidade numa esposa, ele queria mais, muito mais, daquela com quem dividiria suas paixões. Cortesãs com o fogo que essa mulher possuía valiam mais do que ouro entre os homens sofisticados que freqüentava.
Neste momento a jovem espartana ergueu a mão para tirar o cabelo da frente do rosto. Os olhos deles se encontraram, e a prisioneira ergueu o queixo de forma arrogante, antes de desviar os dela.
Peeta sorriu. Suspeitava que transformar aquela Tétis numa cortesã, ou numa cativa, demandaria mais energia que qualquer mortal possuía.
- Ali está Limera, capitão, no horizonte.
A voz grave de Finnick interrompeu-lhe os pensamentos. O ateniense se empertigou e olhou para o horizonte. O tenente era o melhor homem de proa da frota, com olhos aguçados, capazes de identificar coisas e o nome de um barco a grande distância. Se ele dizia que aquela pequena mancha branca, que parecia uma nuvem na encosta rochosa, era Limera, a cidade em que iam se infiltrar, então era mesmo. Olhando para o Sol, calculou que lhes restava menos de uma hora de luz.
- Desça a vela - comandou ele - Vamos esperar até o Sol tocar a água, depois continuaremos, mas remando.
Katniss sentou-se no fundo do barco, o coração acelerado e os olhos fixos na costa. Limera, cidade portuária, era uma das aliadas de Esparta, e iriam enviar barcos para ajudá-los. Se conseguisse escapar enquanto seus captores estivessem em terra, poderia encontrar ajuda lá. Ficou mais agitada e arriscou um olhar rápido para o capitão.
Para seu desânimo, ele a fitava com aquele brilho irônico nos olhos azuis.
- Não, minha pequena. Não vai escapar para alertar a cidade.
- Você lê pensamentos, além de ser marinheiro ? Acha que é capaz de ver o futuro ?
- Pelo menos o seu, eu vejo - disse ele, indo ajudar Finnick.
- Então, qual é o meu futuro, ateniense ? O que pretende fazer comigo ?
O olhar dele voltou lentamente para ela, passando pelos seios, depois percorrendo as pernas, até o chão, e tornou a subir. Quando seus olhos voltaram a se encontrar, ela enrijeceu o corpo diante do calor que havia nos olhos de Peeta. Não era uma virgem tímida, sabia reconhecer o desejo em um homem. Medos que mantivera abafados durante o dia inteiro afloraram de repente.
- Não vai me considerar fácil - avisou ela, a voz baixa e ameaçadora.
- Não, acho que não mesmo.
Com cada rangido das tiras de couro que mantinham os remos no lugar, a determinação de Katniss de escapar aumentava, no mesmo ritmo que crescia o seu nervosismo. Se antes tinha dúvidas sobre o que os atenienses planejavam para ela, agora sabia, com certeza.
O Sol penetrava num mar cor de vinho e o barco aproximava-se da costa. Katniss sentiu os músculos tensos, enquanto tentava avaliar a profundidade da água. Sabia que não venceria o capitão nadando. Sua tentativa anterior de fugir mostrara-lhe isso. Mas se Atenas dominava os mares, Esparta comandava a terra. No momento em que seus pés tocassem solo firme, ele nunca mais a pegaria. Sempre vencera os soldados nas corridas durante os treinamentos. Deixaria facilmente o marinheiro para trás.
- Pare, Finnick - ordenou o capitão, e aproximou-se dela - Preciso amarrar e amordaçar você antes de chegarmos mais perto da terra.
- Não !
- Sim.
Tarde demais. Katniss percebeu que devia ter se arriscado a fugir pelo mar. Ainda procurou chegar à borda do barco, mas foi contida por uma mão poderosa.
- Fique quieta. Não quero machucá-la mais.
Disfarçando o desapontamento, ela obedeceu. Sabia que era melhor não desperdiçar energias numa batalha que não ia vencer. Sem o elemento surpresa, não poderia derrotá-lo.
Ele enrolou pedaços de pano nos pulsos dela e juntou-os firmemente com uma tira de couro.
As sobrancelhas de Katniss se ergueram. Era surpreendente que ele protegesse os pulsos feridos, mas isto tornou a provocar seu desprezo. Idiota ! Nenhum guerreiro que conhecia faria tal coisa por uma cativa.
Usando uma corda, o capitão prendeu os braços dela ao mastro, num ponto que não chegava a ser desconfortável, mas que era alto o suficiente para impedir que se movesse. Então, a mão dele segurou-lhe o queixo, fazendo-a voltar-se.
- Detesto ter de amordaçá-la, mas não posso correr o risco de você gritar e alertar os sentinelas.
- E se eu der minha palavra que não vou gritar ?
Ele sorriu, ao indagar:
- Você confiaria na minha palavra numa situação como esta ?
Sabendo bem a resposta, Katniss optou por ser orgulhosa:
- Nunca confiaria na palavra de nenhum ateniense !
- Exatamente.
Ao responder ele contornou com o polegar, de leve, o suave lábio inferior. Katniss respirou fundo e recuou a cabeça.
- Molhei o pano, assim não vai ficar enjoada de novo - ele procurou acalmá-la.
- Foi o contato com você, não o pano, que me deixou daquele jeito. Como está acontecendo agora, de novo. Tire a mão do meu rosto.
- Devia tirar a mão do rosto e aplicá-la no traseiro dessa mulher, capitão - irritou-se Finnick - É evidente que as espartanas não conhecem o ditado de que as mulheres que menos se fazem ouvir são as mais honradas.
Nem Katniss nem o capitão responderam. Seus olhos travavam uma batalha que se tornara íntima, mais pessoal do que antes, e ela tremeu ao sentir o calor da mão dele em seu rosto.
Depois de mais um toque do polegar no lábio cheio e macio, ele segurou o queixo delicado com firmeza:
- Abra a boca para mim, pequena Tétis - pediu, persuasivo - Não me obrigue a usar de força.
A ordem tranqüila fez com que os cabelos da nuca de Katniss se arrepiassem. Nos olhos tão próximos dos seus, ela viu implacável determinação. Engolindo em seco, abriu a boca que foi preenchida pelo pano molhado, com sabor desagradável.
A água negra batia no casco quando deslizaram para uma praia rasa, pouco depois. Um súbito ruído nas rochas rompeu o silêncio da noite e o coração de Peeta saltou até a boca.
- Abaixe ! - ele ordenou, inclinando-se e obrigando Katniss a acompanhá-lo.
Ficaram os três imóveis no barco.
- Mééééée...
O balido de uma cabra ecoou na noite. A respiração apressada de Peeta virou risada. Deslizando por cima da borda do barco, ergueu a indignada espartana nos braços e a levou para a praia. Ela sentiu as pernas moles ao ser colocada de pé e ele a segurou pela cintura, forçando-a a dar uns passos. Ao recuperar o equilíbrio, Katniss afastou-se de Peeta, que a soltou, mas continuou segurando a tira de couro que lhe prendia os pulsos.
Puxando-a, fez com que o acompanhasse ao local onde Finnick escondia o barco.
- Estamos muito adiantados - comentou o capitão, em voz baixa - Ainda passarão horas até a Lua fornecer luz para prosseguirmos.
- É verdade.
- Finnick, exercite os joelhos e suba, para ficar de guarda lá em cima. Use o sinal que combinamos, se vir algo. Eu cuido do barco e da nereida.
- Mas tome cuidado para ela não o atacar ! - sugeriu Finnick, tirando a adaga da bainha.
Então, sumiu nas sombras que se adensavam. Peeta voltou-se para a jovem mulher ao seu lado.
Katniss mordeu o pano que tinha na boca enquanto a noite parecia apertar-se ao redor deles. Olhou para o vulto do capitão ao lado, alto e ameaçador. A apreensão a dominava. Ele mandara o tenente embora sem motivo, tinha certeza, mas também estava certa de que ele não se divertiria com ela, porque iria arranhar, chutar, e...
- "Negros como a asa de um corvo, lançado na noite".
Katniss estacou, sem saber se escutara direito. Ele estendeu a mão, tocando-lhe os cabelos, e ela recuou.
- "Lançado pelas estrelas para se erguer, glorioso e dourado, na madrugada".
Ela franziu a testa, balançando a cabeça, e ouviu o capitão rir baixinho.
- Sim, você tem razão - as palavras dele eram quase um sussurro - Eu sou um péssimo poeta. Mas esses cabelos que parecem azular, de tão negros, são um tema lindo para poemas... - Peeta voltou-se, então, para o penhasco perto deles - Venha, minha dama, você precisa descansar. Temos uma boa espera pela frente.
Katniss caminhou à frente dele, confusa. Esperava que esse homem a atacasse e ele declamava versos ! Teria imaginado aquele brilho quente nos olhos azuis enquanto avaliavam seu corpo ? Não, ele existira sim. Vira muito bem !
Será que o ateniense estava brincando com ela ? Ou pretendia minar-lhe a resistência com palavras bonitas e promessas vãs ? Sim, devia ser isso, decidiu enquanto ele afastava umas pedras com os pés para abrir espaço.
Peeta sentou-se, com as costas apoiadas na rocha, um joelho erguido.
- Sente-se e descanse como puder.
Katniss permaneceu em pé e o capitão suspirou:
- Não me obrigue a forçá-la. Não seria agradável.
Com os olhos soltando faíscas de raiva, ela sentou-se, esperando o ataque que sem dúvida viria. A postura relaxada dele era apenas uma esperta manobra para fazê-la baixar a guarda. Mas não se deixaria enganar.
Aos poucos, os sons da noite ficaram mais fortes do que os do mar. Os grilos, no mato que havia, esparso, no alto do penhasco e no terreno que se estendia lá em cima. Uma cabra ao longe. Tudo sugeria paz, inclusive a respiração calma e ritmada do homem ao seu lado. Sem se dar conta, ela foi relaxando os músculos.
- Parece que não há mais ninguém aqui além de nós - a voz dele só não a sobressaltou por ser muito suave - Vire a cabeça, dama Tétis, e tirarei a mordaça.
Com alívio, Katniss fez o que Peeta pedia. Ele começou a desfazer o nó, os dedos tocando os cabelos e a cabeça dela. Eram dedos fortes, com pontas ásperas... com certeza, as únicas partes do corpo dele que eram ásperas. O resto da pele devia ser suave, macia. Provavelmente ele passava óleo de oliva na pele, como a maioria dos marinheiros, para protegê-la do Sol e do vento. Desconcertada com a direção que seus pensamentos tomavam, ela afastou a cabeça assim que a mordaça foi solta e cuspiu o pano.
A noite baixou completamente sobre eles, que permaneceram imóveis, em silêncio. Katniss arriscou um olhar para a outra ponta da tira de couro que a prendia, ainda enrolada no pulso do capitão. Calculou suas chances de se soltar, e conteve a impaciência ao constatar que eram mínimas. Teria de esperar por um momento mais propício.
Um movimento prateado apareceu nas águas escuras, pouco além das ondas.
- Um golfinho - murmurou Peeta - Um mensageiro de Poseidon. Será que ele está nos trazendo algum aviso ?
- Deve ter vindo avisar que você vai morrer - disse ela.
- Não. Acho que Poseidon mandou-o para ver como está sua nereida.
- Ela estaria muito melhor se você a soltasse.
A risada alegre dele vibrou no ar, e Katniss teve de lutar contra a vontade de rir também.
Não podia acreditar que estava ali, numa praia desconhecida, conversando com um ateniense ! Um ateniense que bem poderia ser modelo para uma estátua de Apolo. A escuridão que a assustara enquanto estava no barco agora a envolvia de modo estranhamente protetor. Katniss reparou que a noite não trazia o que esperava. Então, lembrou-se que aquela deveria ter sido a noite de seu casamento, que naquele momento o imenso e bruto guerreiro estaria exercendo seus direitos de marido e ela estaria deitada, imóvel e rígida, submetendo-se aos seus deveres de mulher. Pensar nisso a fez tremer.
- Deixe-me aquecê-la - pediu Peeta.
Antes que Katniss entendesse o que acontecia, o capitão mudou de posição e a colocou sentada entre suas pernas, com as costas voltadas para o peito dele, os braços fortes a envolvendo. Chocada, ela ficou esperando o pior.
- Relaxe, pequena. Deixe seu corpo absorver meu calor.
A respiração dele movia os cabelos de sua têmpora e Katniss estremeceu de novo.
Peeta apertou-a contra si com firme suavidade, depois as mãos subiram e desceram pelos braços dela. Katniss ficou imóvel, confusa com a profunda sensação que esses gestos carinhosos provocavam.
P. S.: Nos vemos no Capítulo 3.
