Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Merline Lovelace, que foi publicado na série de romances "Clássicos Históricos Especial", da editora Nova Cultural.


Capítulo 3

- Você parece mármore sob minha mãos, lisa e fria. Não corresponde ao nome, senhora Tétis.

A voz do capitão quebrou a suavidade da noite e a fez esquecer a carícia das mãos dele em seus braços.

- Queria que não me chamasse por esse nome desagradável - murmurou ela.

Estava surpreendida pela resposta de seu corpo à proximidade do ateniense.

- Dizem que ela é uma nereida muito brincalhona.

- Sei o que dizem dela. É uma criatura lasciva que já seduziu Poseidon e agora caça homens mortais.

Enquanto respondia, Katniss pensava que a nereida fazia mais do que caçar, se fosse verdade o que diziam os rapazes de Esparta. Numa noite como aquela, Tétis sairia do mar à procura de um homem com quem se deitar, qualquer homem. Um homem que se acomodaria entre suas coxas e...

Katniss deteve o pensamento. Sentia aquele calor no ventre, que há muito tempo não acontecia. Não se deitava com um homem desde que o marido morrera em batalha e nem com ele o fizera muitas vezes. Esparta desencorajava que casais vivessem juntos, para não enfraquecer a dedicação ao Estado. Fizera amor com o marido cerca de seis vezes e ele nunca tocara seu coração, como o ateniense fazia agora, nem mesmo nas poucas vezes em que se haviam deixado levar pela paixão.

Nunca o toque do marido fizera sua pele se arrepiar nem provocara a emoção que a dominava neste momento.

"É apenas uma reação provocada pelo medo e a incerteza", pensou. Afinal, aquele homem era o inimigo, por Zeus ! Cerrando os dentes, resolveu ignorar as caricias, enquanto uma porção rebelde de sua mente perguntava por que ele não fazia algo mais além de acariciar-lhe os braços. Por que não a possuía ?


"Por que não a possuo ?", pensava Peeta. Tinha tempo para isso. Não havia sinal de intrusos, nem Finnick assobiando para avisar que voltava. Os deuses sabiam o quanto a desejava. Desejara essa mulher desde que a vira pela primeira vez, na água.

Olhou os cabelos negros e os pulsos amarrados que descansavam no colo. Era uma pena ter que amarrá-la. É verdade que as mulheres sofriam muitas indignidades quando apanhadas no calor da batalha ou levadas como espólio. Mas ali, naquela praia silenciosa, a guerra parecia não existir e o único calor era o que ele sentia entre as pernas. Notou que seu membro ficava ereto, como que desafiando-o a controlá-lo.

Katniss sentiu o enrijecimento e engoliu em seco, apavorada, mas também inexplicavelmente excitada. Seu coração batia mais depressa.

Peeta apertou mais o abraço.

A tensão palpável aumentou entre eles.

O sentido de antecipação crescia nela a ponto de se tornar insuportável. Era uma mulher direta, que preferia enfrentar seus medos, que não se escondia deles. Procurou encará-lo e avisou, de queixo erguido:

- Se tentar me tomar, eu vou lutar e você não vai ter prazer algum.

Peeta percebeu desafio nessas palavras. Apesar de toda a disciplina com a qual fora educado, teve o impulso quase incontrolável de provar que ela estava errada, de mostrar como tal encontro poderia dar prazer aos dois.

- Eu sabia que você não permitiria que a tarefa fosse fácil - a voz dele soava rouca, profunda.

Tarefa ? Era como ele via a possibilidade de fazerem amor ? Uma tarefa ? Os olhos cinza se estreitaram e Katniss teve uma decepcionante desconfiança:

- Você não gosta de mulher ? É um daqueles peixes que nadam aos pares ?

Ele a olhou, tão surpreso com a pergunta que não conseguiu responder.

- Então, é por isso que não me usou - murmurou ela, cheia de repulsa.

A gargalhada sonora e inesperada de Peeta a fez pular.

- Não, pequena - disse ele, quando pôde falar - Não sou um dos que veleja no popa do barco.

- Bem, então por que não...

- Por que não a tomei ? - completou ele, segurando-lhe o rosto e voltando-a para si - Saiba que está sendo muito difícil me controlar para não fazê-lo, minha Tétis.

Por um longo momento, Katniss ficou olhando para ele, admirando o brilho prateado que a Lua punha nos cabelos loiros, os planos sombreados nos ângulos do rosto forte, a expressão divertida nos cintilantes olhos azuis. Pelo que havia de mais sagrado, era muito difícil pensar nesse homem como inimigo !

Mas ele era isso mesmo, um inimigo. Respirou fundo, tirou a mão dele de seu rosto e colocou toda a frieza possível na voz:

- Não me chame por esse nome.

Um assobio cortou a noite. Antes de compreender o que acontecia, Katniss se viu nos braços do capitão, sendo levada para o barco. Com gestos rápidos, ele prendeu-lhe os tornozelos com nós de marinheiro. Em seguida,verificou se os pulsos dela estavam bem amarrados e depois prendeu-a no mastro, recolocando a mordaça.

- Estaremos de volta antes do amanhecer - avisou-a, falando depressa - , se tudo der certo. Se não der... se não der, um pescador ou um pastor a encontrará, com certeza.

Com isso, Peeta jogou a vela por cima dela e se foi. Katniss ficou na escuridão, pensando. Num momento estava nos braços dele, o coração batendo como o de uma corça assustada, no momento seguinte vira-se jogada no barco como se fosse um remo imprestável. Sentiu vergonha por ter baixado a guarda. Ele apenas a provocara para se divertir, enquanto esperava o aviso do companheiro, e naquele instante os dois seguiam furtivos, protegidos pela noite, para espionar um dos aliados de Esparta e tramar sua destruição.

Tratou de esperar e o pano na boca incomodava cada vez mais. Não ouvia mais nenhum ruído que indicasse que ainda estavam por perto. Esperou mais um pouco. Escutava apenas a própria respiração. Forçou-se a ter paciência e aguardar ainda mais. Quando, por fim, teve certeza de que os dois atenienses se haviam afastado, começou a torcer os pulsos, a forçar a tira de couro que os prendia. O pano grosso que ele pusera em seus pulsos ajudava, mas não impedia que a tira de couro machucasse a carne. Novamente sentiu desprezo pela suavidade do ateniense. Ele quisera proteger os pulsos machucados e essa gentileza acabaria se revelando um ponto fraco.


- É aqui o porto, capitão.

Peeta assentiu, apertando os olhos para enxergar melhor as formas oblongas na baía. Acima da seqüência de cabanas, havia uma série de construções pintadas de branco espalhadas pelas encostas das colinas ao redor e, iluminado pelo luar, ele viu um templo de mármore na colina mais alta. Apontou para os dois quebra-mares construídos nos extremos da baía: fechavam a passagem, exceto por uma abertura no meio.

- Poderemos ter uma visão melhor do local de construção dos barcos lá da ponta das pedras. Não há torre de guardas, apenas os pequenos pilares para o fogo de sinalização. Você vai pela direita, eu pela esquerda.

- Pensar que os limerenses pretendem ficar com Esparta, contra Atenas ! - comentou Finnick, enquanto tirava a roupa - Começaram a fazer barcos feito loucos, mas não tiveram a boa idéia de guardá-los direito.

Despindo-se também, Peeta considerou que tinha dúvidas quanto à capacidade da pequena cidade de produzir a quantidade de barcos que, diziam, tinha prometido para Esparta. Limera era um poder naval dos menores, com uma esquadra de apenas vinte trirremes. Ainda assim, a falta de vigilância e segurança no porto o surpreendia.

- Não subestime os limerenses tão depressa, Finnick. O fato de quererem dobrar o número de barcos da esquadra é o bastante para preocupar o Conselho. Está pronto ?

O tenente assentiu e Peeta entrou na água, então esperou que o outro o acompanhasse. Com movimentos cuidadosos para não fazer barulho, avançaram entre as marolas. O capitão acenou quando se aproximaram das pedras e seguiu com braçadas poderosas até seu lado da passagem.

Depois de observar o local, ele saiu da água. Os quebra-mares artificiais haviam sido feitos com a intenção de controlar o acesso ao porto e protegê-lo de ataques. Apesar disso, não havia uma corrente entre os dois muros, para fechar a passagem. Nada de guardas com lanças e escudos, prontos para receber devidamente qualquer barco ameaçador.

Tomando nota da falta de defesa da cidade, Peeta manteve-se deitado e olhou para a costa. Agora podia ver com clareza as construções pontudas perto da água da baía. O tamanho parecia bastante para abrigar uma trirreme de sessenta metros, mas ficava numa encosta inclinada demais. Um barco desse tamanho lançado dali correria o risco de ter o casco partido ao colidir com a água. Guardando a informação para análise posterior, ele passou a contar os cascos que via dentro das construções que formavam um respeitável estaleiro.

Quando retornou à praia, algum tempo depois, Finnick já estava lá, junto das roupas.

- Contei trinta e sete barcos. E você ? - perguntou Peeta.

- Catorze, capitão.

Não havia mais sinal de desprezo na voz do tenente, que agora estava tão preocupado quanto Peeta, ao ver que os limerenses tinham conseguido produzir tantos barcos em tão pouco tempo.

- Isto perfaz um total de cinqüenta e um barcos novos, prontos para serem lançados ou em construção - acrescentou Finnick - , devendo estar terminados em no máximo três dias.

- O Conselho não vai gostar nada disso - Peeta ergueu-se para se vestir.

- Eles vão cagar nas túnicas - concordou Finick, com a grosseria típica dos marinheiros - Talvez agora concordem com sua sugestão de um ataque antecipado. Se destruirmos estes barcos antes de estarem prontos, salvaremos vidas, muitas vidas, no futuro.

O capitão terminava de prender o cinto.

- Mas um ataque iria destruir a ilusão de paz à qual o Conselho se agarra.

- É uma questão de semanas, se não de dias, até que Esparta e seus aliados ataquem. Temos de quebrar a lança deles enquanto podemos !

O ardor do jovem guerreiro fez Peeta sorrir, balançando a cabeça:

- Não é a mim que você precisa convencer. Guarde seus argumentos para quando chegarmos a Atenas e para o relatório que deve fazer para os demais capitães.

Calado, foi na frente pelo caminho que se esgueirava na encosta rochosa. Quando alcançaram a praia, Peeta começou a correr. Agora que a missão estava praticamente concluída, sentia-se impaciente para reunir-se à frota que aguardava logo além do horizonte e discutir com os demais capitães o que descobrira. A mente processara a quantidade e a condição dos barcos que vira, já elaborava o relatório que forneceria ao Conselho. Foi só na metade do trajeto para o barco que se lembrou da jovem mulher espartana. Passou o resto do caminho tentando decidir o que fazer com ela.

Não podia deixá-la ir embora, de forma alguma.

Teriam de esperar o nascer do Sol, que os guiaria até a frota, e mesmo então não poderia soltá-la. A ordem era evitar a qualquer custo que o inimigo os descobrisse. O Conselho temia provocar um ataque quando ainda havia uma chance de manter a paz. Por isso não tinha opção: precisava levá-la com ele.

Enquanto cruzava a pequena praia de pedregulhos, na direção do barco, o capitão se surpreendia com a satisfação que sentia pela certeza que a pequena nereida ficaria ao seu lado por mais algum tempo.

- Pelas barbas do...

- Deixe-me adivinhar - disse Finnick - A vaca destruiu as laterais do barco com chutes ? Rasgou as velas com os dentes ?

- Ela sumiu - disse Peeta, erguendo um pedaço de pano manchado de sangue do fundo do barco - Conseguiu se soltar e sumiu.

- Valha-me Zeus !

Peeta fechou na mão o pedaço de pano com nódoas vermelhas e falou, entre dentes:

- O sangue ainda não está seco, ela não deve ter ido longe.

Os dois olharam atentamente ao redor.

- Há apenas esses dois caminhos que levam a Limera - lembrou Finnick.

- E não vimos sinal dela quando vínhamos para cá, o que significa que deve ter ido pelo outro ou que tentou escapar pela praia. Ainda podemos alcançá-la.

- Eu vou pela praia - sugeriu Finnick.

- Não temos muito tempo - avisou Peeta, segurando o jovem pelo braço - Se um de nós for retardado por alguma coisa, o outro deve pôr o barco no mar ao nascer do Sol e levar as informações para a frota.

- Eu não vou deixar você aqui !

- Vai fazer o que ordenei ! Vai me deixar, sim, do mesmo modo que eu o deixarei, se for preciso, apesar de que vai ser muito mais difícil explicar para minha irmã porque deixei seu noivo para trás, do que dizer ao Conselho como perdi o melhor oficial de proa da nossa frota. Tenha cuidado, Finnick.

- Terei. E você também, Peeta.


Katniss parou para respirar, ofegante. Encostou-se numa pedra e cruzou os braços sobre os seios, tentando fazer parar o sangue que ainda saía dos ferimentos nos pulsos. Que as sombras consumissem o maldito marinheiro e as porcarias dos seus nós !

Levara muito mais tempo do que imaginara para fazer as mãos deslizarem pelo couro molhado de sangue. Tivera que combater uma sensação de pânico quando, por fim, saíra do barco e notara o quanto a Lua já havia avançado no céu. Não tinha como saber há quanto tempo o capitão partira, nem a que distância estava da cidade, nem como descobrir qual das duas trilhas os dois atenienses tinham tomado. Sabia apenas que retornariam antes de clarear. Com velocidade cautelosa, correu pela trilha mais próxima, os ouvidos alertas a qualquer som.

De repente, parou para ouvir e abaixou-se. Depois respirou fundo, ergueu-se e voltou a correr, os pés parecendo mal tocarem o solo. Não ousava usar toda a sua velocidade porque poderia encontrar os inimigos a cada curva, mas avançava num bom ritmo, espicaçada pelo tom avermelhado do Sol, que começava a clarear o horizonte.


Peeta tocou o líquido vermelho na pedra e sorriu, quase com selvageria. Estava perto dela agora. Descobrira as marcas de sangue quase de imediato. Mesmo à fraca luminosidade do alvorecer, não havia como deixar de ver as manchas sobre as pedras. Ainda faltava uma boa distância até a cidade, ia alcançá-la.


Katniss ouviu-o antes de vê-lo. O som rítmico das sandálias contra o solo a fez ficar alerta. Olhou rapidamente por sobre o ombro. Contra o cinzento da paisagem, ela viu um vulto branco. Sacudiu a cabeça para trás, a fim de tirar os cabelos do rosto, e aumentou o ritmo das passadas. Correu com toda a vontade.


Peeta viu a presa e uma forte emoção o dominou. A cada passo essa emoção aumentava, a visão das pernas longas e bem feitas correndo à sua frente fazia a caçada assumir novas dimensões. Não estava mais perseguindo a espartana para proteger a missão: perseguia seu prêmio de guerra, o prêmio que os deuses lhe tinham dado, o prêmio que tentava escapar.


Com mais um olhar para trás, Katniss viu que ele se aproximava. O pânico fez sua garganta se contrair, interferindo com a respiração. Pelos deuses, como era possível que ele tivesse vindo tão rápido, esse ateniense de coração mole que declamava poesias ? Um medo primitivo a dominou, o medo de uma mulher fugindo de um homem que pretendia possuí-la.

Ela sabia que desta vez o ateniense não iria se controlar. Desta vez ele não riria, não brincaria, nem se negaria a satisfazer os instintos básicos que habitavam o seu corpo.

Deixando a trilha, ela entrou impulsivamente à esquerda, para tentar ganhar distância entre as pedras. Sob seus pés, o solo abria-se em fendas e buracos profundos feitos pela água. Ela saltou o primeiro buraco e correu na direção do segundo.


O coração de Peeta bateu ainda mais rápido quando notou o barranco para onde ela se dirigia. Ainda não havia luz suficiente para ver a profundidade, mas sem dúvida era largo demais para ela saltar.

- Não ! Não tente pular !

O grito dele ecoou entre as rochas. Reunindo as forças, cobriu com grande esforço a distância que o separava dela e seu braço enlaçou a cintura da moça no instante em que ela pulou.

Ele saltou para o lado e a violenta queda fez com que o ar saísse todo dos pulmões. Placas de terra e de pedras despencaram na profunda fenda, deslocadas pelo peso combinado dos dois. Por um momento de tenso desespero, ficaram parados na beirada, então começaram, lenta e inexoravelmente, a deslizar pela parede quase a pique de ravina.

Peeta tentou proteger a moça enquanto rolavam pela pronunciada inclinação. Um arbusto seco atingiu-lhe o rosto e pedras machucavam-lhe as costas. A túnica prendeu-se numa ponta de pedra, rasgando até um dos ombros.

Abraçados, foram parar no fundo estreito da ravina.

- Você está machucada ? - perguntou ele, e enfiou as mãos nos cabelos negros, virando-lhe o rosto.

Quando viu que ela permanecia com os olhos fechados, um medo gelado apertou-lhe o peito.

- Abra os olhos, Tétis ! - pediu, aflito - Diga-me onde está doendo.


Com um evidente esforço, os olhos cinza se abriram. A principio estavam embaçados, mas aos poucos focalizaram o rosto dele e ela respirou fundo:

- Seria preciso... mais que... um tombinho desses... para machucar uma espartana. E não me chame assim de novo !

Ele voltou a respirar e riu, sentindo uma mistura de alivio e vitória. De repente, ficou sério; com um gemido baixo, aproximou o rosto do dela e a beijou com uma selvageria que fez o mundo de Katniss tremer. A principio ela pensou que ainda estava caindo, mas, estranho, um calor violento se alastrava por seu corpo. O cheiro do homem invadiu-lhe as narinas, misturado com seu próprio odor.

Por um momento fugaz ela correspondeu, o primitivo instinto que despertara em seu íntimo levando-a ao encontro da ansiedade desesperada que vibrava naquele beijo. Abraçou-o e as unhas, mesmo quebradas, marcaram as costas dele.

- Abra-se para mim ! - implorou Peeta - Dê-me sua boca !

Katniss separou os lábios, permitindo que a língua ardente a penetrasse. O gosto dele era de vinho e de suor salgado, masculino. As pernas dela se ergueram, envolvendo os quadris estreitos.

Peeta gemeu, deslizando uma das mãos para um seio, que acariciou com sofreguidão. Quando ela gemeu e esfregou um dos joelhos eroticamente na coxa musculosa, Peeta sentiu que o restinho de homem civilizado que ainda conservava desaparecia, quebrando-se em pedacinhos. Desejava aquela mulher de uma forma tão crua e total que esse desejo o consumia. Precisava tê-la. A mão deslizou para as nádegas macias, porém firmes, e ergueu-a, posicionando-a para recebê-lo.

Com um último resquício de sanidade, Katniss percebeu o que ele pretendia fazer e descobriu, perplexa, que era sua cúmplice.

Como que à distância, viu-se ofegando e se contorcendo sob o corpo dele, então uma vergonha maior do que qualquer outra coisa tomou conta dela, diminuindo o fogo que a dominava. Aquela deveria ter sido a noite de seu casamento. Ela, uma orgulhosa filha de Esparta, tinha que se casar com um homem de sua cidade, um guerreiro que a conquistara pelo direito de batalha. Em vez disso, contorcia-se como uma cadela no cio, no chão nu, embaixo de um ateniense. Um ateniense !

Movendo o corpo, impediu o movimento que teria destruído sua honra. Fechou os punhos e bateu nos ombros que a comprimiam contra o solo.

- Ei ! Vocês aí embaixo !

Katniss mal escutou o grito e olhou para cima, divisando um rosto emoldurado por um capacete jônico de bronze. Era evidente que o homem os olhava. Nesse momento, a pressão do ventre do ateniense sobre o dela reclamou sua atenção.

- Pare ! - gritou, se debatendo.

- Oh, não, minha nereida - respondeu ele, com a respiração entrecortada - Desta vez eu vou aceitar o que os deuses oferecem.

Ela virou o rosto para o lado a fim de evitar o beijo e ele reagiu, mordendo-lhe os tendões do pescoço, como o garanhão faz para controlar a égua que monta.

Gritando, ela continuou a bater nele com os punhos:

- Pare, seu idiota ! Tem um... ah !

Ele a mordera !, constatou incrédula. Pela grande Hera, ele a mordera ! Não com força para causar dor de verdade, mas o bastante para que perdesse o fôlego.

- Eeeiiiiaaaa !

- É assim mesmo, fazendeiro !

- Deixe um pouco para nós.

O coro de vozes foi percebido por Peeta e, com um gemido de surpresa e frustração, ele girou o corpo e saltou de pé. Espada na mão, ficou junto de Katniss e olhou para cima.

- Ei, não é um fazendeiro ! - exclamou um dos soldados.

- Seja o que for, divida a égua no cio com a gente ou vai experimentar o gosto da própria espada !

Os dedos de Peeta apertaram a empunhadura da espada, enquanto contava os oponentes. Eram quatro, pelo menos à vista. Provavelmente uma patrulha de Limera.

Katniss levantou-se tentando ajeitar o que restara da túnica.

- Limerenses ! Eu sou de Esp...

Foi interrompida por um forte puxão que a fez recuar e um braço do capitão rodeou-lhe a cintura. Ele fitou-a com firmeza.

- Vai passar maus bocados nas mãos destes homens - avisou, em voz baixa - São apenas soldados broncos, e muitos !

- Prefiro me arriscar com eles do que com a ralé de Atenas !

Os lábios de Peeta se apertaram numa linha dura, mas o ruído de pedras impediu-o de responder.

O líder dos soldados, um sujeito grandalhão e desdentado que parecia ser um sargento, descia pelo barranco com a agilidade que o corpanzil permitia. Os outros o seguiram, fechando a saída da ravina.

- Quem são vocês ? - inquiriu o sargento - O que fazem aqui, fora dos muros de Limera ?

De ambos os lados do líder, os soldados apontaram lanças para Peeta e Katniss.

- Ele é ateniense - gritou ela.

- Atenas e Limera não estão em guerra - disse Peeta, rapidamente - Vocês atacam todos os que visitam sua cidade ?

- O que faz aqui ? - insistiu o soldado.

- Estou surpreso com esta escrava que comprei em sua ágora. Não presta, é rebelde, escapou, mas eu a peguei.

- Não acredite nele ! - debateu-se a moça, tentando se soltar - Eu sou uma espartana. Sou Katniss, sobrinha do rei Naxos, de Esparta.

O braço de Peeta apertou-a com mais força.

- Este homem me seqüestrou ! - continuou ela - Ele é ateniense, estou dizendo, e veio aqui espionar vocês.

Os olhos do soldado se estreitaram. Peeta notou que nesse momento o homem decidira acreditar nela. Porque viu-o erguer levemente a espada. Resignado, ele puxou Katniss com violência, então largou-a, fazendo-a cair atrás de si, e ergueu a espada. Já enfrentara situações piores em batalhas navais.

- Peguem-no ! - comandou o sargento.

Um dos lanceiros avançou, segurando a lança com as duas mãos. O capitão evitou-o com um simples passo para o lado e com um violento golpe da espada cortou a lança ao meio.

Enquanto o primeiro lanceiro recuava, o segundo atacou, seguido de perto pelo terceiro. Seus golpes mal calculados foram evitados com facilidade. Ao perceber que enfrentava homens sem treinamento, Peeta resolveu atacar. Girou a espada num arco e avançou um passo, depois outro. Os soldados recuaram, caindo um sobre o outro na ravina estreita. Preparando-se para matar, Peeta investiu. Mas um par de braços esguios agarraram suas pernas por trás, derrubando-o.

Ele virou-se. A mão ainda empunhava a espada, mas ele sabia que perdera a batalha. Uma lança tocou sua garganta e um pé pesado imobilizou no chão a mão com a espada. Junto de seus joelhos, os olhos cinza de uma nereida ofegante fitavam-no em meio aos cabelos negros, despenteados.


A caminhada até a cidade foi a mais longa da vida de Katniss. A cada passo os soldados espicaçavam o ateniense amarrado. Riscos de sangue desciam dos ferimentos causados pelas lanças nas largas costas e nos braços fortes. Ela repetia para si mesma que era o que ele merecia, porém quando o gordo sargento tirou um chicote do cinto e passou a usá-lo para obrigar o capitão a andar mais depressa, um protesto subiu-lhe aos lábios. O palavrão proferido pelo ateniense e o modo como ele a olhou por cima da cabeça dos soldados fizeram com que se contivesse.

No momento em que passavam pelos portões duplos da cidade e entravam por uma desnivelada rua de terra, ela sentia-se tonta de cansaço e fome. Casas quadradas e sem janelas, de tijolos de barro, amontoavam-se dos dois lados, impedindo a passagem da luz da manhã. Cachorros e porcos agitavam-se na lama e no lixo. Era difícil caminhar pela rua irregular e malcheirosa.

A pequena procissão logo tornou-se foco das atenções. Escravas com jarros d'água nos ombros, fazendeiros com burros carregados, cidadãos carecas a caminho da ágora para comprar e negociar, todos paravam para olhar. Ocasionalmente alguém fazia uma pergunta para os soldados e todos comentavam a resposta. Um grupo animado os acompanhou até uma grande construção, toda de colunas, do outro lado da ágora. Era ali, no coração do mercado, que eram feitos os negócios da cidade. Katniss sabia disso. Era. também, onde os donos da cidade se reuniam em conselho para fazer leis e distribuir justiça. Era onde se livraria de uma vez por todas do ateniense... desde que o Conselho acreditasse nela, completou o pensamento, engolindo em seco.

- Ela diz que é sobrinha do rei Naxos, Excelência.

Os soldados os haviam levado para uma sala de teto alto. Muito cansada, Katniss tropeçou e caiu no chão de mármore: vindo da forte luz do Sol do lado de fora, não enxergava mais do que silhuetas sentadas em bancos, em um dos lados da sala.

- Ela diz que foi seqüestrada por este homem, um ateniense, que veio nos espionar. Encontramos os dois fornicando nas colinas que dominam a cidade.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 4.