Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Merline Lovelace, que foi publicado na série de romances "Clássicos Históricos Especial", da editora Nova Cultural.
Capítulo 4
- Como você se deixou apanhar ?
- Não foi minha escolha, tio.
Katniss combatia o sono doído que quase a forçava a fechar as pálpebras. Com as últimas reservas de força, obrigou-se a sentar-se com as costas retas na desconfortável cadeira em forma de lira, sem encosto, enquanto Naxos, rei de Esparta, andava pela sala onde ela ficara à espera dele. A capa vermelha, símbolo da classe guerreira espartana, ondulava ao redor dos tornozelos dele a cada passo raivoso.
- Isso é o que diz, sobrinha.
A boca de lábios grossos contorceu-se num sorriso desagradável que combinava com as linhas duras do rosto, um rosto que muitas mulheres de Esparta consideravam atraente. Com barba curta e negra, olhos rápidos, penetrantes e físico avantajado, Naxos era a personificação do perfeito rei guerreiro.
De súbito, ele se deteve à frente da sobrinha e curvou-se para ela, cada mão num dos frágeis braços que davam a forma de lira à cadeira. Ela não se moveu um milímetro, apesar de sentir que o medo, que a afligia sempre que o tio se aproximava, ameaçava sufocá-la.
- Se diz a verdade, foi a primeira vez que um homem a venceu e levou-a contra sua vontade.
- É verdade.
As palavras dela, ditas em tom suave, flutuaram no ar entre os dois. Uma chama controlada brilhava no fundo dos olhos dele; um brilho quente e anti-natural.
- Não devia ter me repelido todos estes anos, sobrinha, nem ter me ferido com suas garras.
Só com o máximo de controle, Katniss conseguiu evitar olhar para a cicatriz que ele tinha junto da pálpebra direita.
- Você é o irmão do meu pai.
- Ele a colocou sob os meus cuidados quando estava doente e você ainda era uma jovem viúva - rugiu ele - Deve-me obediência.
- Não nisso, tio, não nisso !
Com uma exclamação de ira, Naxos se afastou. Foi até o extremo da sala, respirando pesadamente. Pelos deuses, aquela gata selvagem era mesmo uma praga que levara para casa. Desde aquele dia ela o atormentava com seu corpo sinuoso e graça atlética, desafiava-o com a impertinente recusa em satisfazer seu desejo.
E esse desejo o assombrava, envergonhava, mesmo quando lembrava da promessa de cuidar dela, que fizera ao irmão, no leito de morte. Mas não diminuía, por mais que tentasse saciá-lo com a esposa, as escravas ou as garotas das flautas. Naxos sabia que devia ter mandado a sobrinha para outro lugar, ou dá-la a um dos guerreiros que pediam pelo direito de competir na arena pela rica viúva. Mas recusara-se a permitir um combate, apesar da insistência de Katniss em se casar de novo. Nem mesmo a crescente desconfiança da esposa era o suficiente para fazê-lo esquecer o obsessivo desejo que sentia pela sobrinha.
A exaltação causada por um combate bem-sucedido e muito vinho por fim o havia levado, cambaleante, ao quarto de Katniss. Ela lutara, praguejara e quase lhe arrancara os olhos. Os gritos dela haviam feito a tia vir correndo. Mulher forte e fleumática, cuja riqueza supria os exércitos de Naxos, a esposa informara a Naxos que devia arranjar imediatamente um casamento para a sobrinha. Ele o fizera, consumindo-se de raiva por dentro.
Aliás, isso continuava acontecendo até agora. Naxos voltou-se e olhou-a com ar de acusação, enquanto dizia:
- Se tivesse me aceito em sua cama, eu poderia não entregá-la a alguém como Leandros.
- Se eu tivesse aceitado você em minha cama, nem mesmo alguém como Leandros teria me aceito.
- Acha que ele vai aceitá-la agora, depois de rolar na terra com um ateniense ?
- Eu não fui até o fim com ele, tio. Já disse isso uma porção de vezes.
- Os soldados a viram se retorcendo embaixo dele !
- Eles me viram tentando me libertar.
Ele queria acreditar na sobrinha. Por Zeus, queria acreditar que nenhum covarde ateniense experimentara a carne que lhe era negada ! Mas o relato dos soldados e o desejo frustrado impediam que pensasse com clareza.
- Se o fez com prazer ou não, isso não altera o destino dele... nem o seu, sobrinha.
Com a capa esvoaçando atrás dele, o rei saiu da sala. Katniss ficou olhando o tio se afastar enquanto lutava contra a sensação de enjôo que Naxos sempre lhe causava. Mas dessa vez o mal-estar era sobrepujado por algo novo, algo ainda pior. Katniss abraçou a si mesma e passou a balançar nervosamente o corpo para frente e para trás.
Grande Hera, por que devia se preocupar com o que o tio faria ao ateniense ? O homem espionara Esparta e seus aliados, planejava trazer a guerra para ela e seu povo, a seqüestrara... merecia o que quer que o tio lhe fizesse. Ainda assim, era atormentada pela visão daqueles olhos alegres espelhando a dor que Naxos lhe causaria.
Por um momento considerou a idéia louca de negociar a vida do ateniense com o tio, de comprá-lo e conservá-lo como escravo nas suas propriedades. Mas afastou a idéia de imediato. Qualquer intervenção de sua parte só faria aumentar a ira do cruel rei contra o capitão, o que iria tornar sua morte ainda mais lenta e dolorosa. Abraçou-se com mais força.
- Senhora, estamos aqui para ajudá-la.
As correntes sustentaram o peso de Peeta no momento em que um punho colidiu com sua barriga. Os aros de ferro irregular incrustaram-se na carne de seus pulsos e a dor nova e aguda juntou-se às anteriores. O cheiro forte de suor e sangue misturava-se ao do ódio em suas narinas.
Vendo tudo vermelho, ele escutou a voz do espartano:
- Você vai me dizer o que foi que descobriu e o que seu Conselho fará com a informação.
Ele abriu os olhos e forçou-se a focalizá-los no rei que estava à sua frente, com os grandes punhos cerrados. A ira que flamejava nos olhos do rei foi o suficiente para Peeta torcer os lábios no que lembrava vagamente um sorriso.
- Está desperdiçando força à toa, Naxos. Guarde-a para espancar seus escravos. Eles podem se acovardar a seus pés. Mas eu, não.
Os anciãos limerenses que se encontravam num canto da cela agitaram-se, inquietos, e olharam para o rei. Peeta sentiu alguma satisfação ao ver medo nos rostos deles. A selvageria com que os espartanos tinham contido uma revolta de escravos, alguns anos antes, tornara-se lenda em toda a região e apesar de lhes ter dado fama de guerreiros poderosos e de sangue-frio, também fizera com que seus aliados mais fracos os temessem e considerassem perigosos. Qualquer semente de discórdia que Peeta pudesse plantar entre Esparta e seus aliados nos últimos momentos de vida só acrescentaria honras à sua morte.
- Não estará assim tão orgulhoso quando eu terminar com você, ateniense - rugiu Naxos - Vai implorar pela corda do estrangulador.
Peeta conseguiu fazer um gesto de desprezo: concentrando-se no homem à sua frente para esquecer a agoniante dor no estômago, cuspiu na palha do chão.
- Então, assim são os espartanos ! - exclamou, superior - Não matam nem inimigos, nem escravos de forma limpa, com honra. Em vez disso refocilam-se no sangue deles como grosseiros açougueiros num dia de mercado. Seus aliados estão certos em olhar cuidadosamente por cima dos ombros quando partem para o combate com vocês.
Aquelas palavras produziram o resultado que ele esperava. Peeta conteve a respiração quando Naxos levou a mão à espada: pelo menos teria um fim limpo.
A lâmina de aço cantou ao sair da bainha de couro.
- Não, Naxos - disse um dos velhos de Limera, segurando o braço do rei - Esse homem espionava a nossa cidade, nós temos direito de morte sobre ele.
- Mas foi minha sobrinha que ele violentou !
Os olhos de Peeta se estreitaram, enquanto o ancião limerense assentia, mas não soltava o braço de Naxos.
- Nós dois temos razões para ver o sangue dele lavar as pedras - concordou o velho - Mas pense, homem ! Não é sempre que se captura um capitão ateniense com vida. A morte dele não deve ocorrer aqui, nesta cela escura. Deve ser uma ocasião de cerimônia, um espetáculo para o nosso povo.
- Seu velho covarde...
A frase de Peeta foi cortada pelo movimento de Naxos, que girou o corpo com violência e atingiu-o com o punho da espada no rosto; a cabeça foi jogada para trás e o sangue jorrou do nariz.
- Você verá ! - disse o velho - Deixe que nossos homens vejam um ateniense sangrar e se contorcer em dor como qualquer outro mortal. Isso vai lhes dar coragem para as próximas batalhas.
A expressão que se espalhou no rosto de Naxos dizia melhor do que palavras o que ele pensava de homens que precisavam ser encorajados para lutar. Mas tirou a mão do limerense de seu braço e voltou a embainhar a espada.
- Então, será esta tarde. Prepare o sacrifício e reúna o povo no templo. E é melhor garantir que os oráculos leiam a sorte de forma adequada !
O velho baixou a voz:
- Não se preocupe. Vamos sacrificar um ótimo touro. Em suas entranhas encontrarei os sinais que enviarão o ateniense para a morte, com toda a cerimônia.
Quando eles saíram, Peeta endireitou o corpo lentamente. O sangue do nariz partido quase lhe fechava a garganta e a dor embaçava-lhe os olhos. Depois do que pareceram horas, seus sentidos se estabilizaram. Endireitou-se para diminuir a dor das correntes enterradas nos pulsos.
Estava desapontado porque, no final, não teria uma morte limpa. Não tinha medo de morrer; qualquer homem que velejava num barco de combate enfrentava a morte a cada movimento dos remos. Mas aquela forma de morrer o incomodava.
Pelos deuses, queria que o espartano tivesse usado a espada. Preferia isso a ser usado como símbolo num sacrifício para dar coragem aos fracos limerenses.
- Ela valeu tudo isso, capitão ?
Um guarda sorridente aproximou o rosto do de Peeta. O hálito desagradável, de alho rançoso, sobrepôs-se aos odores da cela.
- A pequena espartana... - continuou o guarda, aproximando-se mais, os olhos cheios de malícia - Ela valeu tudo isso ? Uma trepada rápida vale mais do que aquilo que está prestes a lhe acontecer ?
Apesar do sangue e do suor secando em seu rosto, apesar da dor no corpo inteiro, um arremedo de sorriso surgiu nos lábios de Peeta, que respondeu:
- Essa é uma pergunta que os homens vêm se fazendo desde que os deuses colocaram as mulheres na terra.
A mesma pergunta rolou na mente dele nas intermináveis horas que se seguiram. Sua resistência física, aprimorada por anos de treinamento, permitia que fosse aos poucos recuperando o controle do corpo. Aos poucos, a dor agônica transformava-se numa surda sensação dolorosa na barriga. Respirando pela boca, conseguia ignorar o nariz quebrado e as narinas tapadas por sangue seco. Mas sua força física não servia para aliviar os pensamentos que lhe passavam pela cabeça.
Não podia condenar ninguém além de si mesmo pela situação em que se encontrava. Fora ele que perseguira a mulher muito além do que seria prudente. Fora por sua culpa que caíra com ela barranco abaixo, depois se perdera na pele sedosa e no gosto dos lábios macios.
Se pudesse, correria os mesmos riscos de novo, entraria na mesma corrida louca. Só que desta vez trataria de experimentar o prêmio antes que fosse tirado de suas mãos.
Sentia o peso da ironia de ter que pagar com a vida por um ato que não cometera. Os deuses sempre aprontavam essas brincadeiras, para manter os homens humildes e conscientes de seus caprichosos poderes. E Peeta tinha o bastante de poeta e filósofo para apreciar as reviravoltas do destino. Mas, por tudo que era sagrado, ele seguiria pelo rio da morte com muito mais tranqüilidade se tivesse tido a chance de experimentar ao menos uma vez sua pequena Tétis.
Não. Tétis, não. Katniss. Peeta sentiu o nome fulgurar na mente e considerou-o adequado a ela. Era orgulhosa e indomável como a lendária esposa de Teseu, que matara o minotauro e fundara a primeira grande cidade da Grécia. Katniss tinha força, coragem e um senso de honra inquebrantável.
De súbito, sentiu remorsos porque ela iria pagar por sua loucura. Se era vítima inocente ou cúmplice não importava, ela teria que pagar diante de seu povo por ter se deitado com um ateniense. Apesar de ter preservado sua honra, era óbvio que Naxos não iria acreditar nela, nem acreditaria em Peeta se tentasse defendê-la, dizendo a verdade. Havia algo nos olhos maldosos do rei que lhe dava a certeza de que o rei desejava ver a sobrinha humilhada. Algo negro, não natural.
Uma raiva inútil cresceu em seu peito, atormentando-o, e ele se contorceu, preso nas correntes.
Katniss andava sem parar em seu quarto. Nem o banho, nem a massagem tinham feito seu corpo relaxar. Também não conseguira comer, nem dormir. A bandeja de bronze com vinho, queijos e pão de aveia continuava intocada. As horas se passavam, ela aproximou-se da parede onde abriam-se janelas quadradas e ficou olhando a impressionante vista da baía.
O Sol desceu até que os raios alcançaram a parte mais alta das janelas.
- Está na hora, senhora.
Ela girou, o tecido de linho da túnica enroscando-se nos tornozelos. As escravas tinham ajeitado o pano de forma que uma parte caía como uma capa curta, nas costas. Desacostumada ao estilo nada prático da túnica longa, ela apoiou-se numa coluna para evitar tropeçar.
- O rei Naxos a aguarda no pátio.
Os dedos de Katniss se contraíram contra o mármore frio, mas, respirando fundo, ela endireitou o corpo:
- Estou pronta.
No entanto logo descobriu que não estava nem um pouco preparada para a multidão ou para a longa e torturante cerimônia que se seguiu. Os rituais em Esparta eram rápidos, indo direto ao ponto. Justiça não era uma questão aberta ao debate. Não havia leis escritas sobre as quais argumentar, nem cidadãos-sacerdotes cuja função elevava a tarefa de agradar os deuses à condição de arte dramática.
Limera, com sua posição estratégica como porto-chave, servindo tanto a Creta quanto à península grega, tinha absorvido costumes mais exóticos e sofisticados do que a sociedade insular e isolada de Esparta. Os limerenses apresentavam um elaborado show para agradar aos deuses. Enquanto caminhava em meio à procissão que percorria as ruas da cidade, dirigindo-se ao templo no ponto mais alto, Katniss ignorava os cochichos e comentários que fervilhavam eventualmente, quando alguém a identificava. Tratava de se concentrar na cerimônia que viria.
No início da procissão seguiam os mais velhos, alguns com guirlandas de flores no pescoço, outros com coroas de folhas de figueira na cabeça. Atrás deles ia Naxos, a capa vermelha ausente nessa ocasião sagrada, o que não o tornava menos imponente. A oferenda ao sacrifício, um grande touro com flores nos chifres, era levado por acólitos de branco. Tocadores de flauta dançavam ao redor do animal, usando as notas agudas para encobrir os protestos do touro às indignidades que sofria. O povo nunca aceitaria saber que o animal a ser sacrificado relutava em seguir até o altar, pensou Katniss com um toque de cinismo.
Então, seus olhos se desviaram para os ombros largos e manchados de sangue do homem que era levado pelas ruas, logo atrás do touro. Passou a língua pelos lábios secos quando a multidão à sua frente se abriu, permitindo que o visse melhor. Eram evidentes as marcas de tortura, mas ele não dava sinais de sentir dor ou medo. A cabeça erguida, mãos amarradas às costas, o cabelo dourado brilhando à luz do Sol, colocava um pé diante do outro com firme precisão.
Escondidos nas dobras da túnica, os punhos de Katniss se fecharam. Nunca chegariam à praça diante do templo ? Pela primeira vez, duvidou da própria força. Suportaria o ritual que teria de assistir ?
Quando, por fim, contornaram uma curva inclinada que se abria no terreno pedregoso diante do templo, as batidas surdas do coração ecoavam em seus ouvidos. Um altar baixo, de mármore, fora colocado no meio do espaço aberto, onde a brisa do mar carregaria a fumaça e os odores da carne queimada em sacrifício. As unhas de Katniss se cravaram nas palmas das mãos enquanto o chão e o altar eram varridos.
Os velhos espalharam-se ao redor do altar e passaram uma bacia de água da direita para a esquerda, cada um deles borrifando as mãos, cabeça, barba e roupas, para se purificar. O ancião designado para fazer a oferenda avançou e sua voz soou espantosamente retumbante para um físico tão franzino:
- Silêncio, todos os que testemunham a cerimônia. Que nenhum som ou palavra alcance os ouvidos de Dionísio, em cuja honra fazemos este sacrifício.
A multidão se acalmou. Os sussurros foram interrompidos. Logo os únicos sons eram os produzidos à distância pelas gaivotas e o respirar pesado do touro. Satisfeito, o velho fez um aceno para o assistente, jovem de face lisa que circundou o grupo, espalhando grãos de cevada de uma cesta de palha no altar e no touro.
Quando passou entre a multidão, Katniss ergueu o rosto e olhou para o prisioneiro. Então, o choque estampou-se em sua face. O rosto dele, aquele rosto que era tão belo ! Invadiu-a uma onda de revolta e culpa pela perda de tal perfeição masculina. Por cima do terreno pedregoso, seus olhares se encontraram. Ela sentiu um impulso quase incontrolável de chamá-lo, apesar de não ter idéia do que iria dizer. Nesse instante, de forma inacreditável, os lábios dele se entreabriram num sorriso. O brilho divertido, que ela já conhecia tão bem, surgiu nos olhos azuis e detonou a fúria de Katniss.
O tolo ! O idiota ! Não tinha a dignidade apropriada nem sequer para ir ao encontro dos ancestrais ? E ela se refugiou na raiva, recusando-se a confessar até para si mesma que escondia uma dor que jamais experimentara.
Instantes depois, percebeu que o zumbido em seus ouvidos não era produzido pela agitação do próprio sangue, mas sim um murmúrio que se erguia da multidão. O som foi crescendo, aumentando de intensidade e Katniss franziu a testa quando um dos velhos avançou:
- Silêncio ! Estão profanando o sacrifício !
Um murmurar mais forte veio da parte de trás da multidão e uma voz aguda se fez ouvir:
- Os deuses é que estão profanando o sacrifício ! Mandaram o inimigo para detê-lo. Abra os olhos e veja os barcos no porto !
Com uma exclamação, Naxos abriu caminho entre o povo e foi à beirada da praça. Os velhos foram atrás dele e Katniss os acompanhou, usando os cotovelos para passar e ter uma visão clara do mar lá embaixo.
Ao ver a linha de naus de batalha que rodeava os penhascos na entrada do porto, conteve a respiração. O Sol refletia-se nas figuras de bronze das popas, recurvas e altas, e iluminava os olhos pintados nas proas. Eram evidentes os protuberantes chifres na frente de cada barco cortando as águas em velocidade fatal. Ouvia-se o bater sincronizado dos remos no mar quando as centenas de remadores de cada trirreme moviam os remos com precisão. No tempo entre duas batidas de coração, a nau que liderava a esquadra já passara pela abertura no porto. Virando, chegou junto de um dos braços de pedras. Um batalhão de soldados, os famosos hoplitas de Atenas, saltaram do convés superior e correram para os penhascos. Então, o segundo barco e logo o terceiro entraram pelo porto.
- Seus idiotas ! - gritou Naxos, voltando-se para os velhos - Onde estão as correntes ? Onde estão os guerreiros que deviam proteger o porto ?
- Eles não têm nada disso - interrompeu a voz de Peeta, em meio aos balbucios histéricos que procuravam responder às perguntas.
Naxos girou nos calcanhares e, empunhando a espada, correu até o ateniense, no meio da praça. Katniss o seguiu, abrindo caminho em meio à multidão.
- É isso o que você merece ! - gritou Naxos, parando diante de Peeta, os pés separados, a espada segura com as duas mãos.
- Você não vai me ferir, Naxos. Não agora. Não com meus homens chegando.
O espartano ergueu a espada acima da cabeça.
- Acha que alguns marinheiros atenienses me assustam ?
- Você talvez não, mas eles estão bastante assustados ! - exclamou Peeta, indicando com o queixo os velhos que corriam pela praça - Detenha seus aliados, espartano, eles estão profanando um local santo com o medo.
- Então, que se entendam com os deuses, porque eu vou matá-lo.
- Não, tio !
Sem parar para pensar, sem saber por que o fazia, Katniss saltou sobre Naxos. Seu peso desequilibrou o rei no momento em que ele desferiu o golpe e a espada cortou apenas o ar. Antes que ele se refizesse para atacar de novo, os limerenses os cercaram.
Katniss foi empurrada para o lado por um grupo que gritava e gesticulava sem parar.
- Temos de soltar o ateniense - choramingava um dos velhos - Os barcos estão bloqueando a passagem e eles dominaram o porto. Podemos trocar a vida dele por nossas trirremes.
- A vida dele é minha ! - bradou Naxos - Não vou trocá-lo por um punhado de barcos !
À pouca distância, Katniss viu o velho erguer o queixo e endireitar as costas, dando uma idéia do guerreiro que devia ter sido no passado. Envolvendo o corpo esquálido em dignidade, como se fosse uma capa, ele silenciou os outros com um gesto de mão e, voltando-se, encarou Naxos:
- São os nossos barcos que está desprezando ! Se quer fazer aliança conosco, não pode nos tirar o meio de lutar e de nos defendermos. Tem que deixar sua briga pessoal com o ateniense para outra hora, outro lugar.
O velho escolhera as palavras com sabedoria, considerou Katniss. Os espartanos se orgulhavam de valorizar mais as conveniências do Estado do que as próprias. O indivíduo devia sempre ceder ante a vontade do grupo. Reis, em especial, deviam colocar a cidade antes de seus interesses pessoais.
A pálpebra direita de Naxos, aquela com a cicatriz, tremeu involuntariamente. Depois de um longo e tenso momento, ele embainhou a espada e abriu caminho entre a multidão, pegou Katniss pelo braço e voltou-se para os velhos.
- Salvem suas peles e seus barcos, então. Mande um emissário negociar com eles.
- Esperem ! - gritou Peeta. Sua voz de comando fez os velhos pularem de susto e também deteve Naxos - Não há necessidade de negociar. Esses são meus homens. Soltem-me e eles não atacarão a cidade.
Peeta sabia que seus homens tinhas ordens estritas do Conselho de Atenas para não fazer nada que pudesse provocar a guerra com Esparta e seus aliados. O homem que fizesse o movimento responsável por acontecimentos que desencadeassem uma guerra generalizada enfrentaria a censura, se não a morte, ao retornar a Atenas.
Intimamente maldizendo Finnick por ter desobedecido às suas ordens e ter-se colocado, e à tripulação, em risco, ele manteve o rosto impassível, rezando para que seu blefe salvasse a todos.
- Solte-o - ordenou o velho.
Um assistente tirou a faca da cesta de sacrifício e cortou a corda que lhe prendia os pulsos. Os ombros e as costas de Peeta doeram em protesto quando moveu os braços para a frente mas, ignorando a dor, ele avançou alguns passos e declarou, com voz firme:
- Vou levar um refém para garantir que não vão atacar, quando meus homens recuarem.
Os velhos fitaram-no, abismados, e um deles exclamou:
- Pelos filhos de Zeus, vocês atenienses são mais ousados do que se pode imaginar !
Peeta o encarou sem pestanejar:
- No meio da calamidade a prudência de pouco adianta, apenas a ousadia se faz valer. Levarei a mulher como refém.
Os homens que estavam próximos pareceram ficar mudos de espanto, e Peeta encarou o rei de Esparta.
- Não ! Não ! - gritou Katniss, ainda segura pelo tio - Não me entregue a ele !
Com um puxão violento, Naxos a fez voltar-se e fitou-a nos olhos. Encarando o tio, ela percebeu que seu futuro seria decidido naquele instante. Bastava-lhe piscar, dar qualquer indício de que cederia ao desejo dele e evitaria ser levada pelo ateniense.
O silêncio crescia entre eles, junto com a tensão. Então, tudo se rompeu e Naxos atirou-a aos pés do ateniense.
- Leve-a !
O impropério que saiu da bonita boca de Katniss fez os velhos recuarem e o implacável Naxos empalidecer.
Sorrindo, Peeta estendeu a mão e ergueu-a do chão.
OBS: Os hoplitas eram, na Era Clássica da Grécia Antiga, soldados de infantaria pesada. Seu nome provinha do grande escudo que levavam para as batalhas: o hóplon. Os hoplitas eram os principais soldados gregos da Antigüidade. Suas armaduras eram compostas de elmo, couraça, escudo e cnêmides. Carregavam uma lança ou pique de 2,5 m, e uma espada curta para combates de curta distância.
P. S.: Nos vemos no Capítulo 5.
