Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Merline Lovelace, que foi publicado na série de romances "Clássicos Históricos Especial", da editora Nova Cultural.


Capítulo 7

- Você conseguiu transformar lixo em ouro, Peeta, como de hábito.

Peeta sorriu quando Péricles apoiou a mão em seu ombro. O estadista mais velho, renomado em todo o Helesponto por suas três décadas de sábia administração e apaixonada dedicação à construção dos maravilhosos prédios públicos de Atenas, apertou o ombro do capitão com força surpreendente.

- Você não só nos trouxe a informação que precisávamos - prosseguiu o senhor - , como também uma refém valiosa.

- Nem todo o Conselho vai concordar que a missão foi um sucesso. Minhas ordens eram para manter nossa presença secreta, a qualquer custo.

Péricles recolheu a mão e fez um gesto de desdém:

- Ordens não são mais do que guias. Bons soldados sabem quando segui-las e quando avaliá-las, para depois escolher entre as chances que se apresentam. Não, você agiu bem.

- Mas tenho que convencer os arcontes disso - o sorriso de Peeta mostrou-se estranhamento seco.

Fazendo um comentário espirituoso sobre ter de lidar com homens crescidos que ainda mamam nos seios das mães, Péricles saiu andando e entrou na sala de sua casa.

- Aqueles três velhos ! - exclamou, sentando-se num coxim. Fez um gesto para Peeta sentar-se a seu lado - Não entendo como os deuses podem ter permitido que a loteria selecionasse tais ratos para nos comandar, logo agora !

Peeta sabia que era melhor considerar aquelas palavras de Péricles como simples comentários. A constante reclamação que resultava da eleição anual dos novos líderes era o sangue vital da política ateniense.

- A escolha foi justa - contrapôs, dando de ombros - Cada membro do Conselho dos Quinhentos teve a chance de tirar uma pedra da caixa. Se foram aqueles três que tiraram as pedras brancas, era o que devia acontecer ou trata-se de uma dessas brincadeiras que os deuses gostam de fazer conosco, simples mortais.

- Sim - suspirou Péricles, passando os dedos na barba grisalha - Sei muito bem como os deuses são caprichosos...

Peeta dirigiu um olhar de consolo ao amigo e mentor. Sabia que ele se referia à imposição que criara, sem querer, para si mesmo. Durante um dos seus termos como arconte, Péricles formulara uma lei restringindo a cidadania ateniense àqueles cujos pais também fossem cidadãos. A intenção era manter a pureza da democracia de Atenas em meio ao império que se expandia rapidamente, provocando um vasto afluxo de cidadãos de outras paragens, o que levaria a casamentos com estrangeiros que, com certeza, iriam causar o enfraquecimento da democracia.

Mas Péricles criara a lei antes de perder o coração para a bela e brilhante cortesã que agora dividia a sua cama e sua paixão. Por mais que desejasse, ele não podia se casar com seu amor.

Ela era de Ítaca, uma estrangeira que nunca poderia ser ateniense. Os filhos que os dois tivessem seriam de baixa casta, sem pátria, não pertenceriam a tribo alguma. O fazedor de leis acabara atingido por sua própria criação.

Ver a dor profunda nos olhos do amigo reforçou a crença pessoal de Peeta de que os deuses se deliciavam quando os mortais eram aprisionados pelas próprias teias. O grande Zeus e sua corte sem dúvida ficavam deitados em suas enormes almofadas, no palácio que se erguia no alto do Monte Olimpo, e rolavam de rir das confusões humanas. Que alguém tão brilhante como Péricles se mostrasse incapaz de encontrar solução para o seu dilema não melhorava as chances no julgamento dos deuses a respeito de homens menos dotados.

Um som de trombeta, chamando os atenienses para a reunião, interrompeu os pensamentos de Peeta. Ele ergueu-se e esperou que o homem mais velho o precedesse.

- Vamos, senhor - disse, com respeito - Está na hora de ocuparmos nossos lugares na Assembléia. Agora que conhece os fatos de minha missão, pode ao menos preparar o que dirá depois que eu fizer meu relato.

Enquanto caminhavam sob o Sol brilhante do meio-dia, Peeta deu uma rápida olhada no homem a seu lado. O estadista parecia cansado e mais velho do que os sessenta e poucos anos que tinha. Tinha no rosto muitas linhas de tensão, quase escondidas pela barba cerrada e perfumada, mas claramente discerníveis para alguém que o conhecia profundamente e o considerava como um segundo pai. Peeta sabia que o último ano colocara muito peso nos ombros de Péricles. A crise com Esparta, a crescente reclamação sobre os gastos na construção de edifícios públicos e o amor sem esperança pela companheira haviam acrescentado alta pressão na tensão que ele já vinha suportando.

Mesmo assim, quando se juntaram aos grupos de cidadãos que saíam dos escritórios e das lojas da ágora, a cabeça grisalha de Péricles se ergueu, orgulhosa, e um novo brilho surgiu em seus olhos. Peeta reprimiu um sorriso, certo de que o debate que ia acontecer faria retornar a centelha de vida ao orador, com tanta certeza quanto o Sol seguia a carruagem de Apolo pelos céus.

Esperaram pacientemente à entrada do anfiteatro enquanto oficiais verificavam seus nomes nas listas de cidadãos, então juntaram-se à multidão que se reunia no centro. Peeta viu Finnick na companhia de um grupo de oficiais da marinha e o cumprimentou com um tranquilizador movimento de cabeça. Parte da preocupação espelhada no rosto do jovem desapareceu. Um arauto subiu num pedestal e gritou, sobrepondo a voz retumbante acima do burburinho da multidão:

- A Terceira Assembléia do Sexto Conselho está iniciada.

Enquanto o arauto descia, um sacerdote foi até o estrado no centro do anfiteatro e, depois de uma breve prece, cortou o pescoço de um leitão e percorreu um prévio traçado com ele, fazendo com sangue o círculo sagrado.

- Todos os cidadãos - conclamou, voltando ao pedestal - , entrem e conduzam os destinos da cidade.

Peeta ocupou um dos bancos de madeira na colina que servia de platéia para um anfiteatro natural. Durante as preces e comunicações rotineiras que se seguiram, observou os presentes para avaliar o humor da Assembléia e verificou que, pelo menos, os cidadãos pareciam estar calmos. Os arqueiros citianos, fora do círculo, apoiados em seus imensos arcos, observavam o desenrolar da reunião com expressões aborrecidas.

Por fim o homem eleito como presidente da Assembléia, como rei, para esse dia subiu no plinto, que fora ocupado pelo arauto.

- Quem quer falar ? - gritou.

Peeta respirou fundo e se levantou. Curvou-se diante do presidente para receber a coroa de murta, que designava o orador, e subiu na plataforma de mármore.

- Atenienses, venho relatar os resultados da missão da qual fui encarregado há duas semanas. Como foi determinado, com a nau Niké e um esquadrão de apoio, velejei pelo Peloponeso. Deixando o navio longe da terra, eu e meu tenente, Finnick, filho de Demian, velejamos ocultos pela noite e aportamos a alguma distância dos principais portos de construção de barcos de Esparta e seus aliados.

Ele fez uma pausa; já discursara na Assembléia vezes sem conta para compreender o valor da dramatização na oratória. Quando a multidão parou de se mover e lhe dedicou completa atenção, prosseguiu:

- Como suspeitávamos, os aliados de Esparta estão construindo barcos numa velocidade que é o dobro da normal. Vimos um total de cinqüenta e dois barcos prontos para lançamento ou em construção.

Uma onde de exclamções ergueu-se entre os presentes. O número de barcos era bem maior do que se supunha, Peeta sabia. Esperou que até que o ambiente se acalmasse antes de retomar a narrativa.

- Devo também relatar que nem tudo decorreu como o planejado para a missão. Apesar do nosso desejo de permanecermos escondidos, fui preso em Limera. Os espartanos e seus aliados, os limerenses, fizeram questão de que eu compreendesse bem o desprazer que nosso interesse nos barcos deles lhes provocava.

Ele indicou o nariz deformado e sorriu. O gesto provocou risadas e mais de um comentário irreverente sobre como a perda da beleza iria afetar sua conhecida reputação entre as cortesãs. O sorriso largo de Peeata mostrou o alívio que sentia diante da reação da Assembléia. Temia que sua captura e a investida arrojada de Finnick, liderando os outros capitães no seu resgate, pudessem atrair a ira do Conselho sobre eles. Pelas gargalhadas da multidão caprichosa, ele sabia que Finnick e os outros capitães não seriam punidos por arriscarem os barcos para salvarem sua pele. Com esta preocupação a menos, preparou-se para atacar outro problema.

- Devo lhes dizer também, atenienses, que fiquei muito perturbado pelo que vi nessa missão. Um número tão grande de novos barcos só pode significar que Esparta pretende desafiar nosso controle dos mares. Peço que considerem a idéia de passar ao ataque imediatamente. Devemos destruir os barcos deles antes que estejam prontos e sejam lançados contra nós.

Uma confusão enlouquecida seguiu-se àquelas palavras. Como ele sabia que ocorreria, o rei eleito e os outros arcontes se reuniram, as cabeças grisalhas movendo-se durante a discussão acalorada.

- E o que tem a nos contar da refém que você trouxe ? - perguntou um dos homens da última fileira - Ouvimos dizer que é da linhagem dos reis de Esparta. Uma refém assim não impediria Naxos de atacar ?

A lembrança do olhar negro do rei para a sobrinha passou pela mente de Peeta. Aquele olhar de ódio e a fúria com que lhe entregara Katniss, faziam-no questionar o valor que ela poderia ter como arma para deter Naxos. Mas hesitou em declarar suas dúvidas, sabendo que expô-las tornaria ainda mais incerto o destino de Katniss.

- Temos de conservá-la - gritou o rei.

Imediatamente se pôs de pé, apressando-se a retirar Peeta do pedestal e solicitar a coroa de murta para si mesmo. Depois de colocá-la na cabeça quase totalmente calva, ele dirigiu-se à multidão:

- Devemos manter essa refém e ficar o tempo todo enviando mensagens e presentes para aplacar os espartanos. Se demonstrarmos intenções pacíficas, se não usarmos o conhecimento que eles sabem que possuímos, poderemos preservar a paz.

Peeta tornou a sentar-se, enquanto se reacendia o debate que vinha acontecendo há meses. Os homens mais novos, convictos da invencibilidade da juventude, queriam guerra. Os mais velhos, marcados pelas cicatrizes da guerra brutal com a Pérsia, que destruíra Atenas, gritavam que a paz devia ser preservada a qualquer preço.

Por fim, a mais do que usada coroa de murta chegou a Péricles.

- Ouçam-me, cidadãos ! Vocês não podem acreditar que os espartanos vão manter a paz. Nosso tratado com eles diz que devem se submeter ao arbítrio, no caso de surgirem diferenças entre nós, no entanto estão ignorando os pedidos do nosso embaixador para que se realize uma conferência. Também não vão concordar com os termos que sugerimos, pois os seus aliados sussurram mentiras nos ouvidos deles e os incitam à luta.

Peeta inclinou o corpo para a frente quando Péricles parou para respirar fundo. Sabia que o estadista discordava da idéia de atacar primeiro, preferindo que os atenienses se mantivessem protegidos por trás das Longas Muralhas. No entanto, esperava ter convencido o amigo, durante a conversa que haviam tido antes da Assembléia, de que deviam atacar. Mas, nesse momento, constatava que sua tentativa falhara. Fechou os punhos com força, enquanto o orador fazia um gesto pedindo silêncio e continuava:

- Mesmo que não pretendamos enfrentar agora a ameaça crescente de uma guerra, devemos pelo menos preparar nossas mentes para isso - Péricles fez com os braços um amplo círculo, a intensidade do gesto adicionando graça ao movimento dramático - Olhem para si mesmos, cidadãos. Vejam, as grandes muralhas que construímos desde que os persas destruíram nossa cidade ! Vejam as fortificações e o caminho protegido até o mar ! Estas muralhas são nossa segurança, mas o mar é nossa força, nosso condutor para a vida, nossa fonte de riqueza e suprimentos. Se a guerra vier, nosso povo terá que abandonar suas fazendas e recuar para dentro das muralhas. Então, poderemos sair em nossos barcos e atacar as linhas espartanas pela retaguarda.

- Sim ! E o que diz sobre os novos barcos deles e dos aliados ? - perguntou uma voz ansiosa.

- A força de Esparta está em seus exércitos, não em seus barcos - ponderou Péricles - Eles podem construir barcos, mas os capitães não estão treinados, os marinheiros não têm nenhuma experiência. Ninguém, entre eles, pode igualar a ousadia de um capitão como Peeta, filho de Igor, nem mesmo com tão grande número de barcos.

Peeta assentiu agradecendo o tributo de Péricles, mas permitiu que os sentimentos conflitantes se espelhassem em seu rosto.

Tratou de combater a sensação de ter sido traído pelo amigo, que ameaçava tomar conta dele, dizendo a si mesmo que Péricles, cauteloso, apenas sugeria tomar a decisão do meio. Apesar do instinto lhe dizer que deviam atacar naquele momento, a cabeça lhe dizia que o mentor tinha razão. Era evidente que a Assembléia não estava pronta para decidir e não havia nada mais desastroso para um Estado do que se lançar numa guerra sem estar coeso, sem todos serem da mesma opinião. Procurou demonstrar-se impassível enquanto Péricles pedia a Atenas a estratégia de fechar-se por trás das muralhas inexpugnáveis, caso Esparta ousasse atacar por terra, e que combatesse suas esquadras despreparadas no mar, no momento em que essa necessidade surgisse.

O debate prosseguiu por horas, como sempre, e foi acabando lentamente, sem que se pedisse uma votação.

Por fim, decidiram escolher o presidente para o dia seguinte e o novo líder, um fazendeiro de rosto vermelho de um distrito distante, dissolveu a Assembléia.

Enquanto Peeta saía entre os demais, que ainda discutiam, amigos se aproximaram, pedindo mais detalhes da extraordinária missão e convidando-o para ir jantar com eles. Apesar de Peeta saber que os maiores passos eram decididos mais quando homens poderosos tomavam vinho com os amigos do que na Assembléia, não estava disposto a continuar o jogo exaustivo da política. Naquela noite, depois de semanas no mar, queria sentira a tranqüilidade de sua casa, queria ficar entre os familiares e, acima de tudo, queria ver se tudo ia bem com sua relutante hóspede.


No momento que entrou em casa e se abaixou para tirar as sandálias, ele sentiu que tinha havido uma profunda mudança na atmosfera do lar. O criado recebeu-o com educação, mas sem o largo sorriso de horas atrás. Antes que perguntasse o que acontecera, o homem recuou para o cubículo junto da entrada, que era seu domínio.

Peeta deu de ombros e foi para o pátio, gostando do modo como o Sol iluminava o pequeno altar da família, de mármore esculpido, e o correr de colunas que sustentava o segundo andar de sua residência.

Desenhada e construída por seu pai, a casa sempre dera a Peeta um senso de equilíbrio, segurança e serenidade. Crescera entre aquelas paredes e ali cuidara do bem-estar da mãe e da irmã, depois da morte do pai. Para ali levara a noiva e ali fazia tudo o que podia pela criança que resultara de sua breve união. Pensando na filha, apressou-se a subir a escada de madeira para o segundo andar. Cumprimentou a ama da menina e ficou alguns momentos saboreando a imagem da pequena de cachos dourados e luminosos olhos azuis.

- Oi, camarão !

A garota levantou a cabeça, rápida, largou a boneca com a qual brincava e bateu palmas, deliciada.

- Papai ! Você voltou cedo para casa ! Que bom !

- Sim - concordou ele, entrando no quarto - Vim correndo a fim de levar você lá para baixo. Há uma pessoa que eu quero que conheça. Suba a bordo, vamos !

Abaixando-se, ele esperou que a filha lhe envolvesse o forte pescoço com os braços, então se ergueu, segurando-a pelas pernas. Como sempre, Peeta teve de combater a onda quase incontrolável de raiva ao sentir a pequena e inútil perna esquerda contra o corpo. E, como sempre, a alegre curiosidade da menina logo dissipou a raiva. Valerie era a criança mais feliz que jamais vira e sua voz aguda soou próxima do ouvido dele.

- Vai me levar para ver a nova cativa, papai ?

- Quem lhe disse que ela é uma cativa ?

- Tia Annie, e chorou quando falou dessa mulher estranha. Ela é de Esparta e anda nua, mesmo ? Anda com uma lança, como a minha ama disse ?

Peeta não deu importância ao comentário sobre Annie ter chorado. Como cuidara da irmã desde pequenina, sabia muito bem que ela vibrava de felicidade num momento e se desmanchava em lágrimas no seguinte. Em vez de perguntar por que Annie tinha chorado, tratou de desfazer a imagem aterrorizante das espartanas, com que professores e amas atenienses mantinham as crianças na linha desde tempos imemoriais.

- Essas histórias sobre as mulheres de Esparta são muito exageradas, camarão, como você vai ver ao conhecer nossa hóspede.

- Ela come gente ? Os olhos dela brilham e são verme...

- Valerie, pare com isso, criança - interrompeu-a o pai, com severa doçura - Vai ver que ela não é nada mais do que uma mulher.

Chegando ao térreo, ele cruzou o pátio e entrou na espaçosa câmara que deveria estar preparada para o jantar. Quando Peeta não tinha convidados homens, as mulheres da casa jantavam com ele, por isso estranhou ver as mesas ainda guardadas sob os sofás e nenhum braseiro com carnes assando.

- Desculpe, Peeta - a senhora Cassandra entrou apressada na sala - Não esperávamos que voltasse tão cedo.

Ele mudou o pouco peso de Valerie de posição e sorriu:

- Eu é que peço desculpas, mãe. Devia ter enviado um mensageiro dizendo que a Assembléia estava para se dissolver. Mas a conheço bem o bastante para saber que não está realmente surpresa, apesar de minha falta de atenção. Você veleja melhor a casa do que eu velejo com o meu barco, mesmo no vento mais caprichoso e com grande sabedoria, também.

A majestosa patrícia sorriu, desmanchando-se diante do olhar carinhoso do filho e de seu cumprimento sincero.

- Bem, acredito que posso arrumar um jantar que não vai desagradá-lo totalmente. Sente-se e deixe-me dizer a Annie para se reunir a nós.

- E a senhora Katniss também - sugeriu ele, sentando-se depois de colocar Valerie num banco acolchoado.

- Ela já se retirou para o quarto - esclareceu a senhora.

Peeta voltou-se, erguendo uma sobrancelha diante do tom seco da mãe:

- Mas, sem dúvida, ela não se zangará se for perturbada - objetou, determinado.

Na verdade, achava que Katniss protestaria contra toda e qualquer coisa durante sua estada forçada em Atenas, mas pretendia fazer com que as coisas funcionassem como ele desejava. Não sabia quanto tempo teria a nereida por perto e a queria ao seu lado tanto quanto possível.

Cassandra baixou a voz, olhando para a neta:

- Não creio que seja sábio incluir uma pessoa como ela em nossas refeições, meu filho. Muito menos com Valerie presente.

Ele começou a imaginar, o que, por Hades, tinha acontecido enquanto se encontrava na Assembléia. Reuniu toda a sua paciência para enfrentar a resistência macia, mas determinada de sua mãe.

- Valerie está ansiosa para conhecer nossa hóspede. Não é, camarão ?

- Sim, estou mesmo. De verdade, vovó ! Papai disse que ela não come gente, mas eu quero ver se é mesmo.

A senhora Cassandra recuou, dirigindo ao filho o mesmo olhar que usava com um servo pego em falta.

- Não quero aquela criatura na minha mesa - declarou, sem mais disfarces.

Chocado, Peeta fitou-a. Nunca, em todos os anos desde que assumira a responsabilidade pela família com a morte do pai, ela o criticara em público ou se opusera a uma ordem sua. De fato, ele raramente dava ordens e era a mãe quem cuidava de tudo que se referia à casa, com amorosa eficiência. Franzindo o cenho, Peeta levantou-se e pegou a mão da senhora.

- Ela a insultou ou lhe fez algum mal, mãe ?

- Não. Mas insultou você e disse mentiras terríveis a seu respeito.

Um sorriso surgiu nos lábios de Peeta. Pelos deuses, podia imaginar as histórias que Katniss devia ter contado sobre o que acontecera nos últimos dias.

- E você acreditou nela ? - perguntou, ainda sorrindo.

De novo, a mãe o surpreendeu. Em vez da negativa imediata que esperava, ela hesitou, fitando-o com ar preocupado.

- Tenho certeza que, seja o que for que aconteceu, filho, você teve motivos para agir como agiu.

Peeta perdeu toda a vontade de sorrir. Disse a si mesmo que já estava muito velho para sofrer quando a mãe duvidava de sua palavra; não era mais criança para ser guiado pelas noções dela de como agir, porque a confiante senhora não conhecia o mundo fora daquela casa e não conseguiria compreender o que se passara com Katniss, menos ainda os motivos dele. Grande Zeus, ele mesmo mal compreendia o que o motivara em relação àquela pequena gata de olhos cinza ! Apesar de tudo, a dúvida da mãe o atingiu. Em voz baixa, reassegurou sua autoridade como chefe da casa:

- Gostaria que a senhora Katniss e minha irmã se reunissem a nós, mãe.

Apesar do tom gentil e das palavras educadas, Cassandra ficou vermelha. Estava tão desacostumada a ouvir ordens diretas do filho, quanto ele a ver a mãe duvidar de suas palavras. Com um gesto frio de assentimento, ela se retirou, murmurando:

- Como você quiser, é claro.

Tentando livrar-se do mal-estar que a troca de palavras ácidas lhe causara, Peeta iniciou uma conversa com a filha sobre como ela ia lidando com o tear. Escravos surgiram para montar as mesas de três pernas e colocar as cumbucas de beber e pratos sobre elas. O encarregado dos vinhos trouxe um grande jarro no qual misturou duas partes de vinho com três de água e em seguida serviu a bebida nas canecas. Annie reuniu-se a eles, os olhos vermelhos, o rosto mais pálido do que nunca.

- É verdade que Finnick o ajudou a pegar a espartana ? - perguntou, antes que Peeta se levantasse para cumprimentá-la - Você a dividiu com ele ?

Peeta conteve um impropério. O que, em nome de todos os deuses, havia de errado com suas mulheres naquela noite ? Primeiro a mãe se opunha a uma ordem. Agora Annie resolvia fazer drama diante da criança. Observou o ar esperto, atento, de Valerie, e lançou um olhar de aviso para a irmã:

- Acalme-se Annie. Não aconteceu nada que possa afetar você e Finnick.

- Mas eu vi as marcas, os ferimentos ! Ele...?

- Annie !

A jovem saltou diante da rispidez do irmão e seus olhos encheram-se de lágrimas. Ele conteve um palavrão. Nunca, até então, tivera de usar com a irmã esse tom de comando que raras vezes usava, até mesmo com os marinheiros.

Passou uma das mãos nos cabelos e considerou que a noite não ia ser como imaginara, enquanto vinha da Assembléia para casa. Planejara uma noite relaxante, durante a qual compartilharia de uma refeição civilizada com Katniss pela primeira vez. Pretendia introduzi-la no seio da família e diminuir o impacto do confinamento numa cidade desconhecida. Tinha certeza que a bondade da mãe e a meiguice da irmã iriam suavizar as arestas dela e ajudá-la a resignar-se com a estada.

Evidentemente, as arestas da jovem espartana permaneciam intactas, se é que os olhos vermelhos de Annie e o comportamento estranho da mãe eram um indício.

Restava-lhe apenas uma arma, pensou Peeta ao levar a soluçante Annie para sentar-se junto da sobrinha. Passou os dedos pela cabeça da filha, que riu deliciada, e a risada alegre fez com que ele sorrisse. Ninguém conseguia resistir ao encanto da adorável criança.

- Fui informada que exige minha presença.

Katniss estava parada à porta, a silhueta esguia empertigada e o queixo erguido num ângulo quase impossível. Peeta passou rapidamente um olhar de aprovação pelo corpo dela, limpo e adequadamente coberto. A túnica, de um amarelo-pálido, descia em dobras suaves e os cordões dourados que continham a escura e brilhante massa de cabelos adicionavam um ar de realeza à figura elegante. Sentiu um pulsar mais forte nas veias ao cruzar a sala para levá-la a um sofá.

Ela não aceitou seu braço. Atravessou a sala de jantar com um rápido olhar para Annie, que ainda chorava. Parou quase na metade do caminho, os olhos cinza fixos na menina.

Peeta se deteve ao lado da menina.

- Esta é minha filha, Valerie.

Como ele sabia que aconteceria, o sorriso tímido da criança suavizou de imediato a rigidez dos ombros de Katniss. Com um meio sorriso, ela cumprimentou a garota e, ganhando confiança, Valerie fez a pergunta que mais a interessava:

- É verdade que os espartanos comem gente no café da manhã ?

- Valerie ! - exclamou Annie, enxugando um resto de lágrima do rosto.

Katniss mordeu o lábio inferior, depois respondeu:

- Não, criança. Comemos apenas sopa e tortas de aveia no café da manhã.

Peeta prestou atenção na expressão da filha, que parecia incerta, sem saber se ficava aliviada ou desapontada. Ela ajeitou-se no sofá e o movimento fez com que a túnica subisse, revelando a perna esquerda atrofiada. Annie ajeitou a roupa da sobrinha, enquanto Peeta levava Katniss para outro assento.

Franzindo a testa, Katniss fitou-o com perplexidade evidente nos grandes olhos cinza:

- A menina é deformada - disse em tom baixo.

Peeta ficou rígido diante da feia palavra. Em seguida, lembrou-se de que já devia ter se acostumado com os modos diretos da espartana e assentiu.

- Ela sempre foi assim ?

O queixo de Peeta enrijeceu e um músculo começou a pulsar em cada uma de suas frontes. Jamais conseguira dominar a reação que lhe causava a evidência cruel de que sua encantadora e inocente filha era manca e sentia dores quase constantes na perna doente.

- Sim - conseguiu falar com grande esforço - Ela nasceu com uma perna torta.

Katniss fez um gesto desalentado:

- Você deve ter ofendido profundamente os deuses para ter uma filha assim.

Por cima da cabeça dela, Peeta viu dois rostos voltados para eles: o de Annie, que expressava magoado ultraje, e o de Valerie, cheio de confusão infantil.

- Não vamos falar disso agora - a voz dele era quase inaudível.

Sem notar que a moça e a criança tudo ouviam, Katniss prosseguiu, enquanto Peeta notava que não havia malícia em seus olhos, só o desejo de compreender.

- Por que você não apaziguou os deuses oferecendo o bebê em sacrifício ?

- Senhora... - começou ele, a voz ainda mais grave e baixa.

- Em Esparta, crianças assim são lançadas do Monte Taygetos, quando nascem.

Annie soltou um grito.

Os olhos de Valerie se arregalaram de medo.

E a boca de Katniss abriu-se numa expressão de surpresa quando Peeta praguejou, segurou-a pelo braço com força e a arrastou para fora da sala.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 8.