Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Merline Lovelace, que foi publicado na série de romances "Clássicos Históricos Especial", da editora Nova Cultural.


Capítulo 9

Katniss ficou andando pelo pátio amaldiçoando o marinheiro grandalhão que impedia a sua fuga.

Depois de dirigir-lhe todos os nomes feios que conhecia, canalizou a raiva para o capitão. Como ele imaginara o que ela ia fazer, quando Katniss ainda nem havia pensado nisso ?

Caminhava furiosa numa direção, até o extremo do pátio, voltava-se e caminhava sobre os próprios passos, procurando um modo de descarregar a frustração. Ignorou os servos que a observavam assustados, ignorou o marinheiro sorridente, ignorou tudo, menos a sensação desesperadora de que as paredes da casa do capitão fechavam-se ao seu redor.

Estava acostumada a manhãs de exercícios vigorosos e tardes atarefadas, cuidando da administração de suas terras com os capatazes, do andamento de sua casa e tratando da orientação e atendimento a mais de duzentos escravos e dependentes.

Mesmo quando morava na casa do tio, continuara controlando suas propriedades e fortuna. Nunca, desde que deixara de ser criança, passara um só dia no qual não houvesse alguma ocupação para sua prodigiosa energia.

Por fim, a fúria abrandou e ela notou como era idiota ficar andando daquele jeito pelo pátio. Decidida, ergueu a cabeça e foi à procura da senhora Cassandra. Encontrou-a na cozinha, em meio a nuvens de farinha e envolta pelo cheiro gostoso de pão assando.

- Não estou acostumada a não fazer nada - disse, de forma rude - Gostaria que me desse uma tarefa que amenizasse o peso de minha presença em sua casa.

A matriarca apontou o nariz aristocrático para a intrusa:

- Meu filho disse que você não era escrava, nem serva.

- Mas também não sou convidada. Estou aqui contra a minha vontade e também contra a sua. Como devo passar dias ou semanas em Atenas, preciso de alguma ocupação.

- O que quer fazer ?

- O que a senhora quiser que eu faça.

- Bem, creio que pode me ajudar com os pães.

Quando Katniss hesitou, a senhora Cassandra olhou-a com atenção redobrada:

- Esta tarefa é pesada demais para você ? Seus braços não são fortes o bastante para amassar o pão ?

Ela conteve um sorriso de desprezo, antes de responder:

- São fortes o bastante, mas não fui treinada para essa tarefa. Em Esparta, esses trabalhos menores são feitos por escravas.

Assim que terminou de falar, percebeu que não devia ter dito aquilo. A orgulhosa patrícia empertigou-se e seus olhos ficaram gelados.

- Entendo. Talvez, então, você ache que tecer seja uma tarefa adequada. Pode juntar-se à senhora Annie na ala das mulheres. Ela a ensinará a lidar com o tear.

Katniss não entendia mais de tecer do que de fazer pão, porém resolveu ficar calada. Estava além de sua compreensão que mulheres do nível da senhora Cassandra e da filha se ocupassem com tarefas que qualquer escravo poderia realizar. No entanto, precisava de alguma coisa para fazer. Subindo a escada de madeira, percorreu o amplo corredor até encontrar uma área larga e arejada, onde vibravam vozes e risos femininos misturados ao som de teares batendo.

Annie ergueu-se do banquinho baixo e olhou-a, sem disfarçar o nervosismo.

Katniss imaginou que a senhora Cassandra enchera os ouvidos da jovem com recomendações para cuidar da língua e tomar muito cuidado com a espartana...

Abafando um suspiro de impaciência, aproximou-se e observou as cestas com novelos de lã colorida e os vários implementos usados para tecer panos. Nada do que via era-lhe familiar.

- A senhora Cassandra me mandou para ajudá-la - explicou, depois de cumprimentar Annie.

- Mesmo ?

- Sim...

Katniss procurava demonstrar-se confiante. Afinal de contas, aquele trabalho não devia ser assim tão difícil ! Se uma garota ateniense era capaz de tecer, uma mulher espartana também poderia fazê-lo, melhor e mais rápido.

Menos de meia hora depois, os pesos que conservavam retos os fios perpendiculares que passavam pelo quadro que a tecelã tem que segurar nas mãos escaparam pela terceira vez quando Katniss colocou pressão demais neles. A trama, construída horizontalmente com uma agulha grossa de madeira, emaranhou-se nos fios partidos. Katniss jogou o quadro no chão e praguejou. Sem jeito, Annie ofereceu-se:

- Quer... quer que eu a ajude a desembaraçar os fios ?

Katniss olhou para a irmã do capitão e respondeu, desanimada:

- Não, acho que isso é impossível.

A jovem sorriu, hesitante, e abaixou a cabeça sobre seu tear.

Sentada numa banqueta, Katniss deixou os olhos passearem até a janela pequena e alta que deixava entrar o Sol da manhã.

- Como você consegue passar o dia inteiro fechada aqui, mexendo nesses fios ? - perguntou, incapaz de se conter - Por que não sai ? Precisa tomar Sol e fazer exercícios para se livrar dessa palidez doentia.

Annie ergueu o rosto, com uma expressão ofendida nos olhos verdes. O mesmo orgulho que Katniss vislumbrara na garota no dia anterior, quando abraçara o irmão, naquele momento a fez endireitar a espinha e erguer a cabeça, enquanto declarava:

- A pele clara é altamente valorizada entre as mulheres de Atenas. Pelo menos, não preciso pintar meu rosto de branco, como muitas fazem. Finnick me acha bonita assim.

- Finnick ? Ah, o tenente.

- Meu prometido.

Katniss lançou um olhar de compaixão para a jovem. O pouco que conhecia do oficial a deixara com a decidida má impressão de que era uma pessoa rude.

Vendo aquele olhar de piedade, Annie ficou vermelha e um toque de rancor surgiu em sua voz quando falou:

- Podia aproveitar seu tempo entre nós para colocar um pouco de carne nos ossos, senhora. É tão magra e... tão bronzeada.

Ao ver-se comparada com as mulheres da casa do capitão, Katniss franziu a testa. Onde eram arredondadas como galinhas bem alimentadas, ela era magra. Onde tinham a pele branca e pálida, a dela era colorida pelo Sol. Elas passavam horas, todos os dias, cumprindo tarefas mais adequadas a escravos, para as quais ela não tinha a menor habilidade. Aliás, tarefas pelas quais não tinha interesse, disse a si mesma, irritada. Empurrando o tear com o pé, ela se levantou.

- Preciso esticar as pernas - disse, e saiu da sala.

Grande Hera, mãe dos deuses, como iria sobreviver semanas naquela casa ? Com o que poderia se ocupar ? Quando o capitão voltasse, ia falar com ele e determinar algumas condições para continuar ali. Mesmo que precisasse levar o marinheiro grandalhão como escolta, tinha que passar algum tempo nos campos de treino. Uma boa luta ou uma corrida bem disputada era o que precisava. Um sorriso selvagem iluminou-lhe o rosto ao pensar em jogar alguns atenienses no chão. Sentou-se num dos bancos do jardim, apoiou o queixo na mão e realizou mentalmente uma corrida emocionante.

- Você... você seria, mesmo, capaz de me jogar de um penhasco ?

A voz de criança interrompeu o triunfo imaginário quando alcançava, triunfante, a linha de chegada. Katniss voltou o rosto e viu a filha do capitão, Valerie, nos braços da ama de ar protetor.

Deviam ter descido a escada depois dela. Lembrou-se da fúria do capitão na noite anterior, quando assustara a criança sem querer, e hesitou. Valerie a fitava com olhos que mostravam curiosidade e só um pouquinho, quase nada, de medo. Ela lembrou-se, também, que pusera em dúvida a integridade do cérebro da menina e viu nesse momento o quanto errara ao fazer isso. Era uma criança corajosa, que não permitiria que o medo a fizesse recuar diante do desconhecido.

- Você não gosta de crianças ? - perguntou Valerie, cansada de esperar a resposta.

- Sim, eu gosto de crianças.

- Mas não de crianças com pernas tortas ?

Katniss ergueu-se, ignorando o passo instintivo de recuo da ama.

- Não conheço nenhuma criança com pernas tortas - declarou, com toda honestidade.

A menina assentiu, como se isso explicasse tudo. Com um sorriso, ergueu uma boneca de cabeça de argila cosida e pintada.

- Quer ver a boneca que o papai me deu ?

- Não deve incomodá-la, senhora Valerie - disse a ama, puxando a menina.

Os olhares furtivos da escrava diziam a Katniss que ela a temia, assim como o restante dos moradores daquela casa.

- Ela não se importa se deve ou não - provocou Katniss, olhando para a menina - Você se importa ?

Os olhos vivos de Valerie fizeram-na sorrir ao cintilarem quando ela respondeu:

- Não, não me importo.

A garotinha apontou para o banco.

- Vou ficar aqui, brincando com você.

- Não, criança ! - exclamou a ama - A senhora Cassandra não vai querer que perturbe a...

A mulher se calou diante do olhar zangado de Katniss, e Valerie acariciou o rosto da ama, com as duas mãozinhas.

- Pode me pôr no banco - pediu, meiga - Papai disse que ela não vai me comer, que os espartanos não comem gente e que isso é só uma expressão.

Katniss ficou observando com silenciosa aprovação enquanto o sorriso gentil, a atitude segura e o jeito inteligente da garotinha sobrepujavam a relutância da ama em deixá-la em tão perigosa companhia. Apesar da delicadeza e aparência frágil, era evidente que Valerie mandava em todos da casa, como mandava no coração do pai. A ama colocou-a no banco e sumiu, sem dúvida em busca da senhora Cassandra para rogar-lhe que fosse salvar a neta, pensou Katniss.

- Veja - disse a menina - Veja como é fino o cabelo da minha boneca. Papai disse que ela veio do Egito. Esse lugar fica muito longe daqui, sabe ?

Sentada ao lado de Valerie, no banco, Katniss passou os dedos pelos fios de linho, tingidos de preto, que serviam como cabelos para a boneca. A menina continuou falando sobre as roupas estranhas da boneca, do belo rosto pintado, e ela assentia nos momentos adequados. Mas enquanto escutava a vozinha aguda, prestava atenção nas pernas de Valerie. Apesar de cobertas por uma fina túnica de linho cor-de-rosa, o formato delas era claramente visível. Uma era reta e longa, a outra visivelmente mais fina e torcida.

- Sua perna dói ? - perguntou, quando a garota fez uma pausa.

Os cachinhos dourados subiram e desceram com o movimento afirmativo da cabeça.

- Na maior parte do tempo - explicou Valerie - Papai faz massagem, aí melhora um pouco. Ou a vovó ou a ama. Mas papai faz melhor. Ele diz que marinheiros sabem usar bem as mãos.

"Sim, isso é verdade", pensou Katniss, com perturbadora sensação ao recordar o modo como ele usara as mãos na noite anterior, ao segurá-la pelas nádegas e a apertá-la contra si.

Fazendo força, voltou a concentrar a atenção na garota ao seu lado, que embalava a boneca.

- Eu treinei na arena e tenho alguma habilidade em massagear músculos e tendões - disse, prestativa - Quer que eu massageie sua perna ?

A menininha sacudiu os ombros, mais interessada na boneca do que na dor que a acompanhava constantemente desde o início de sua curta vida. Katniss ajeitou-se de lado no banco e posicionou a menina de forma a poder alcançar-lhe a perna. Ergueu a túnica e deslizou os dedos de forma delicada, exploratória, pelos músculos duros e tendões torcidos. A vozinha alegre de Valerie continuava a vibrar no ar da manhã enquanto Katniss iniciava a massagem, com cuidado. Por uma ou duas vezes viu sinais de dor nos olhos da garota, mas ela não demonstrou na voz o desconforto que sentia quando os músculos tocados protestavam, nem deixou de falar. As palavras "Papai disse" saíam de seus lábios com incrível regularidade. Mais uma vez Katniss voltou a pensar na profunda ligação entre o capitão e a filha.

- Tire as mãos dela !

A senhora Cassandra vinha apressada, com a fúria expressa em cada linha do corpo. Katniss soltou a perna da menina e cruzou as mãos no colo.

- Não, vovó, não diga para ela parar. Estava bom.

As palavras de Valerie detiveram a fúria da avó, que fez evidente esforço para se controlar diante da menina.

- Isso não é coisa que... - engasgou e começou de novo: - Nossa convidada não deve ser sobrecarregada com a tarefa de cuidar de você, Valerie !

Katniss levantou-se e fitou tranqüila e intensamente a patrícia ateniense:

- Não me importo, e tenho algum conhecimento de massagem.

- Por favor, vovó, deixe ela me massagear... - implorou a garota - Os dedos dela fazem a dor diminuir, de verdade !

- Não, Valerie, sua ama é que deve cuidar de você.

- Mas quero a senhora Katniss. Por favor - pediu a menina, com um sorriso cativante - Papai disse...

- Não vou machucá-la, senhora - disse Katniss, em tom suave - , e assim terei alguma ocupação.

A dona da casa hesitou, mordendo os lábios. Katniss percebia que ela estava ressentida com a intromissão da estrangeira em sua casa e, mais ainda, na relação com sua única neta.

- Por favor, vovó ! - repetiu Valerie - Juro que como todo o meu jantar hoje, se você deixar.

- Está bem, está bem... mas não aborreça a senhora Katniss - ordenou a avó. Em seguida, murmurou de forma que só a espartana ouvisse: - E você, não a force além do limite.

Depois, relutante, a senhora distanciou-se, mas só até onde estavam os escravos; ficou com um olho no trabalho deles e outro em Katniss e Valerie.

Pouco depois, Katniss nem se lembrava mais da presença da patrícia, de novo concentrada na perna enferma da menina. As coisas que Valerie dizia a faziam sorrir. A escrava da flauta voltou a tocar e por alguns momentos, pelo menos, ela sentiu alívio na opressão de seu confinamento.

Mas infelizmente esse alívio durou pouco. Valerie não tinha resistência para massagens prolongadas e Katniss chamou a ama, triste por perder a alegre companhia da garota, mas consciente de que era melhor não forçar seus músculos quase atrofiados. Antes de desaparecer no quarto, no andar superior, a pequena acenou, feliz, para ela.

Novamente Katniss se pôs a andar pelo pátio, outra vez com a sensação de sufocamento, pela falta de atividade. Compartilhou o almoço simples de pão, queijo e azeitonas com as outras mulheres, mas não conseguiu relaxar, nem se interessar pelos assuntos caseiros que absorviam o interesse delas.

As horas da tarde passavam com uma lentidão exasperante. Desesperada, a certa altura, chamou o guarda para o pátio e ordenou que ele lhe ensinasse a fazer nós. "Nunca se sabe quando terei de soltá-los de novo", pensou.

Thresh concordou com uma ansiedade que a fez perceber que estava tão entediado quanto ela. Sentaram-se, de pernas cruzadas, nas lajotas banhadas pelo Sol e passaram a trabalhar ativamente com as cordas que ele foi buscar na cocheira. Escandalizada, a senhora Cassandra lançava olhares desaprovadores vez por outra para eles, mas não interferiu. Annie devia ter lhe contado a triste falta de habilidade dela com o tear e ela não conseguia imaginar nenhuma tarefa adequada para a estranha hóspede.

Katniss murmurou um palavrão quando não conseguiu mais uma vez fazer determinado nó; Thresh riu e mostrou-lhe como tinha de agir. Por fim ela conseguiu repetir os movimentos adequados e percebeu como, no fundo, era simples fazer e desfazer aquele nó. Sorrindo triunfante, refez o nó e o desfez.

- Creio que conseguiu, senhora - aprovou o marinheiro.

- Sim, também acho. É muito simples, depois que você aprende.

- É mesmo - assentiu o grandalhão.

Enquanto aprendia outros tipos de nós de marinheiro, ela perguntou a Thresh:

- Faz tempo que você está no mar ?

- Faz mais de dez anos. O capitão e eu fizemos nosso primeiro serviço militar juntos. Remávamos no mesmo banco.

- Ele remava ?

- Oh, sim. O pai dele queria que conhecesse bem os barcos que depois comandaria - explicou Thresh, a risada retumbando em seu corpo imenso - Você aprende muito sobre barcos e sobre homens, enfiado no fundo de um casco estreito, com o traseiro dos sujeitos da fileira de cima a centímetros de seu rosto e a água salgada espirrando nos olhos a cada batida dos remos na água.

Ela conteve o desejo de dizer que qualquer idiota que optasse por essa vida merecia mesmo esse desconforto. Era evidente que os atenienses não apreciavam o fato de homens mortais serem feitos para andar ou cavalgar, não para deslizar sobre as ondas. Dando de ombros, decidiu escutar quando o marinheiro começou a contar as histórias de suas muitas viagens. Em cada uma das aventuras, a imagem que pintava do capitão era a de um grande homem.

Como um cachorro coçando uma picada de pulga, Katniss fazia perguntas e mais perguntas para ficar sabendo detalhes.

Mas não significava que estivesse interessada no ateniense, disse a si mesma. Queria, apenas, informações sobre a força e as fraquezas do inimigo.

Se Peeta, filho de Igor, tinha fraquezas, Thresh não as conhecia. Dos lábios dele, Katniss conheceu apenas a audácia dos ataques e a coragem do capitão diante dos barcos inimigos. Ouviu sobre sua generosidade na hora de dividir o que capturavam e conheceu sua reputação entre as mulheres especializadas em atender às necessidades dos marinheiros.

Era conhecido e bem recebido em quase todos os portos, afirmou Thresh, com um malicioso piscar de olhos. E não só pelas cortesãs. Muitas senhoras de alta classe tinham ido ao porto para se despedirem, chorosas, do capitão.

"Claro", pensou Katniss, ressentida. Com aqueles cabelos loiros, a pele bronzeada pelo Sol e as mãos fortes, não tinha dúvida de que as mulheres choravam muito por causa dele, quando as deixava. Trabalhando furiosamente com os nós, recusou-se a admitir que aquela coisa estranha que sentia roendo-lhe o peito era ciúme.

Por fim, sombras púrpuras começaram a invadir o pátio e Cassandra mandou uma serva chamá-la para a refeição da noite.

Katniss reuniu-se às mulheres, irritada com o desapontamento que sentiu quando a patrícia anunciou que o filho jantaria com amigos nessa noite.

Por que iria se preocupar se o capitão preferia comer em outro lugar ? Os homens de Esparta nunca jantavam em casa, ficavam sempre em seus clubes. Era só a monotonia que a fazia desejar a companhia dele, explicou a si mesma. Depois daquele dia longo, interminável, estivera esperando o momento de ouvir a voz dele, nem que fosse para dizer poesias. Isso aliviaria seu aborrecimento. Comeu pouco da enguia com cebola e um pedaço de pão.

Era intolerável a conversa das mulheres sobre teares e sobre como misturar ervas para tratar de uma serva que estava se sentindo mal. Tomou mais vinho do que estava acostumada, enquanto a refeição prolongou-se pelo que lhe pareceram horas.

Quando, por fim, a senhora Cassandra se levantou e fez sinal para as servas tirarem as mesas, Katniss suspirou de alívio. Para sua surpresa, ao levantar-se notou que estava com as pernas moles.

- Boa noite - disse às mulheres, ansiosa por ficar longe delas.

A senhora cumprimentou-a com um movimento de cabeça digno de uma rainha.

- Que os deuses a protejam - respondeu. Prosseguiu, após hesitar um instante: - Agradeço por ter cuidado de Valerie. A ama me contou que ela está dormindo melhor do que costuma, esta noite.

Surpresa e absurdamente feliz com o agradecimento, apesar de ressabiado, ela atravessou o pátio e subiu, caminhando até a porta vermelha do quarto do capitão. Entrou e sentiu o coração bater mais forte quando olhou para a enorme cama.

Seu sangue, já aquecido pela combinação de pouca comida e muito vinho, fervia nas veias. Fechou a porta e se encostou nela, observando a cama. O capitão lhe dissera que ela só iria deitar-se nessa cama quando pronunciasse o nome dele. Imaginava de modo incrivelmente real o corpo grande e esguio deitado na cama. Será que ele iria rir quando a possuísse ?

Iria provocá-la, brincar e sussurrar poesias ou o desejo o tomaria rápido e ansioso ?

Engoliu em seco, constatando que tinha as mãos molhadas de suor.

Mas a imaginação tomou conta dela, outra vez: ele a beijaria, como na noite anterior, fazendo seus sentidos ficarem em alerta, de forma quase dolorosa ? As grandes mãos, que sabiam ser tão suaves, realizariam de novo aquela mágica em sua pele ?

Tudo o que tinha de fazer era pronunciar o nome dele, pensou Katniss. Se dissesse essa palavra experimentaria um prazer que jamais sentira. E perderia o pouco de orgulho que ainda tinha.

Com um suspiro, atravessou o quarto e foi passar um dedo pela madeira larga que completava o pé da cama. Nesse momento, ouviu a voz do capitão do lado de fora e quase deu um salto.

A mente lhe disse que recuasse de imediato e fosse se proteger no santuário de seu pequeno quarto. Mas uma emoção poderosa, apesar de indefinida, a fez ficar. Estaria em segurança desde que não dissesse o nome dele.

Os minutos pareceram se arrastar enquanto o capitão cumprimentava a mãe, depois subia para ir ver a filha. Katniss escutou os passos firmes cruzando o patamar e seu coração disparou.

Enxugou na túnica as mãos molhadas de suor, quando ele desceu novamente a escada. A porta vermelha se abriu e ela prendeu a respiração.

Pelos deuses, ele era maravilhoso de se olhar, mesmo com o nariz torto ! Alto, forte, os ombros quase preenchiam o espaço da porta. Quando a viu imóvel, Peeta se deteve, a surpresa estampada no rosto bronzeado.

- Minha mãe disse que você já tinha ido se deitar - comentou, atento.

- O que não fiz, como pode ver.

Uma das sobrancelhas dele ergueu-se um pouco.

Katniss passou a língua pelos lábios secos e apoiou-se no pé da cama, para se equilibrar, enquanto ele fechava a porta, colocava a tranca e voltava-se para ela.

- Estava esperando por mim ? - perguntou, suavemente.

- Ah ! Não seja convencido, ateniense. Estou muito nervosa, não me sinto pronta para dormir...

Os olhos dele a percorreram, depois detiveram-se na mão que ela apoiara na cama:

- E para o que se sente pronta, pequena ?

Ela retirou a mão e os pensamentos lascivos de momentos atrás a fizeram corar.

- Não para "isso" - respondeu, tentando manter a voz firme.

- Não ? - ele sorriu, enquanto percorria a distância entre os dois - Tem certeza ?

Ela recuou até encostar-se na parede. Por tudo que é sagrado, por que ficara no quarto dele ? Por que não procurara a segurança de seu pequeno quarto ?

"Porque queria que acontecesse", respondeu sua própria mente em tom irônico. Porque queria ver o sorriso dele e ouvir sua voz, pelo menos uma vez naquele dia. Desde o momento em que acordara, pela manhã, e descobrira que Peeta saíra, ficara esperando que retornasse, amaldiçoada fosse sua alma, ansiosa por sentir o contato dele.

Seus joelhos tremiam e ela agradeceu por estar encostada na parede e, assim, se equilibrar. Ele apoiou as mãos na parede, uma de cada lado da cabeça de Katniss, que pôde sentir o cheiro e o calor do corpo másculo, tão próximo do seu.

- Tem certeza que não está pronta para "isso" ?

- Não estou - murmurou ela e, mais firme: - Eu garanto.

Peeta curvou-se e apoiou a testa na cabeça dela.

- Pois eu estou. Pronto e esperando, como sempre estive desde a primeira vez que a vi.

As palavras sussurradas em seu ouvido soavam quentes, pareciam úmidas. Katniss tremeu e não pôde evitar um gritinho quando a língua dele contornou de leve a delicada orelha. Ofegando, empurrou o peito que a mantinha encostada na parede.

- Pare, ateniense. Você prometeu que não me possuiria enquanto eu não dissesse seu nome.

- Então, diga - pediu ele, encostando o corpo no dela - Diga meu nome, pequena.

Katniss sentiu-o rijo e quente contra o seu ventre.

- Não - arquejou - Não posso.

- Claro que pode - afirmou ele, erguendo-lhe o rosto e acariciando-lhe o queixo e pescoço de leve, com as pontas dos dedos. Cada centímetro do corpo de Katniss ansiava por ser tocado pelos lábios que estavam quase encostados nos dela. Seus olhos devoravam o rosto dele, enquanto as unhas cravavam-se nas palmas de suas mãos para impedi-las de subir e acariciar aquele rosto.

- Não posso - disse ela, entre dentes - Não me faça perder meu orgulho, além da liberdade, ateniense.

Através do redemoinho de emoções conflitantes, Katniss notou que ele também lutava contra si mesmo. Percebeu que cerrava fortemente os maxilares e que pequenas gotas de suor perolavam-lhe a testa. Conseguia senti-lo ereto contra seu ventre, como sentia a força dos músculos rijos, retesados, daquele corpo que a mantinha imobilizada contra a parede. Ele iria vencer a luta contra seus demônios internos ?, perguntou-se e, em seguida, ficou envergonhada ao perceber que torcia para que Peeta não os vencesse.

- Vá para sua cama - ordenou ele de repente, afastando-se.

Katniss desencostou da parede e correu para a segurança de seu quartinho.

Passou horas rolando na cama. Na escuridão da noite, amaldiçoou-se pelo desejo devastador que sentia por esse homem.

Amaldiçoou o ateniense que a colocara nessa situação e também os deuses que a tinham entregue às mãos dele. E quando, por fim, foi vencida pelo sono, sonhou com um deus de cabelos dourados, ombros largos, musculosos, e olhos profundamente azuis.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 10.