Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Merline Lovelace, que foi publicado na série de romances "Clássicos Históricos Especial", da editora Nova Cultural.


Capítulo 10

- Quer parar de andar de um lado para outro desse modo ? - a senhora Cassandra lançou um olhar exasperado para Katniss e largou o bordado no colo - Não consigo acertar um ponto com você nesse nervosismo !

- E eu não consigo agüentar sequer mais uma hora fechada nesta casa ! Faz uma semana que não sinto o vento e o Sol no meu rosto. Preciso sair e fazer algum exercício.

Katniss deteve-se junto da pequena janela que dava para a rua movimentada, lá embaixo. Os olhos ansiosos saborearam a visão de cidadãos e escravos, mercadores e políticos, todos ocupados com alguma coisa, qualquer coisa, menos com tarefas caseiras idiotas. Atrás dela, a patrícia ateniense emitiu um suspiro irritado:

- Já lhe disse inúmeras vezes, meu filho também cansou de repetir isto para você e até mesmo aquele marinheiro sem cérebro que vigia a porta da minha casa já repetiu: você não pode sair ! Isso não é direito: só mulheres pobres e prostitutas andam pelas ruas.

Annie soltou uma exclamação horrorizada ao ouvir as palavras cruas da mãe.

- Veja como me faz perder o controle ! - ruborizou-se a senhora - Antes de você aparecer, eu nunca falei assim diante de minha filha.

Katniss virou-se de frente para ela, pronta para brigar. Estava tão tensa e nervosa que mesmo o respeito pela idade da mulher quase não significava mais nada.

Percebendo o estado de profunda tensão da espartana, Cassandra fez um gesto impaciente, levantou-se e falou com certa doçura:

- Não faça isso... não descarregue sua ira em mim, criança. Vou buscar Valerie, ela já deve ter acordado do soninho da tarde, e é a única nesta casa capaz de acalmá-la.

A senhora saiu da sala e Katniss ficou olhando por instantes para a porta aberta. Então, voltou-se para Annie:

- Ela me chamou de "criança" ou eu entendi errado ?

Annie assentiu, erguendo a mão para esconder o riso. Depois de um instante perplexa, Katniss acabou sorrindo de leve e comentou:

- Bem, creio que isso é melhor do que "criatura".

Uma risadinha escapou entre os dentes de Annie.

- Ou "vadia" - acrescentou Katniss.

- Minha mãe nunca a chamou de "vadia" - protestou a jovem.

- Não, só pensou. Aliás, pensa toda vez que seu irmão me leva para o quarto dele.

Não que acontecesse algo no quarto capaz de fazê-la merecer esse adjetivo, completou em pensamento, tornando a ir olhar pela janela. Há cinco noites que o capitão fazia o mesmo jogo com ela, cinco noites em que a beijava e a atormentava. Atormentava aos dois, na verdade ! E por cinco noites ela flertara com o perigo ao testar a ele e a si mesma, querendo o prazer que as mãos e os lábios dele poderiam dar, desejando os braços poderosos ao redor de seu corpo e lutando dolorosamente contra si mesma. Ainda assim, a determinação dele em tê-la era tão forte quanto a dela em não ceder. Como resultado, seu corpo inteiro doía terrivelmente e a alma sofria com o que, tinha que admitir, era uma profunda frustração.

Sentindo-se tensa como um arco, Katniss afastou-se da janela e deixou-se cair na poltrona que a senhora Cassandra deixara vaga. Só então viu como Annie estava vermelha. Grande Hera, a garota ficara chocada por ela ter comentado que partilhava do quarto do capitão, pensou desgostosa. Por um momento, brincou com a idéia de dizer à jovem o que ocorria (e o que não ocorria !) por trás da porta vermelha. Mas temia o que a conversa poderia revelar. Duvidava que ela conseguisse compreender seu estranho desejo de que o desagradável jogo acabasse de uma vez por todas e que seu corpo tivesse, por fim, a satisfação que tanto ansiava. Suspirou, sabendo que não poderia dividir esses pensamentos com Annie, pois eram negros e condenáveis para os atenienses.

Fiel aos curiosos costumes de sua gente, a mocinha era mantida em completa ignorância sobre tudo que se referia a sexo; era uma virgem sem qualquer teoria ou experiência. Ficava além da compreensão de Katniss a razão pela qual alguém seria tão cruel a ponto de enviar uma menina para a casa do marido sem qualquer contato íntimo com o homem que logo seria dono de seu corpo. Apesar dos atenienses acharem graça no fato das mulheres espartanas treinarem nuas com os homens, aos olhos de Katniss isso tinha muito mais sentido do que jogar uma jovem sem nenhuma informação nos braços de um homem formado, experiente, e esperar que ela compreendesse a explosão do desejo físico de seu dono.

"Como o desejo do capitão", esclareceu sua mente traidora. Ereto, quente, cheio de ardor a cada noite da semana. E a cada noite ela negava alívio a ele e aos seus próprios anseios. Ao chegar nesse ponto dos pensamentos, lembrou-se de que era praticamente prisioneira e a irritação renovou-se, fazendo-a soltar uma exclamação feroz.

Annie piscou, confusa, mas tentando descobrir o que poderia ter dito para ofender a agitada espartana. Desde que aquela extraordinária mulher aparecera em sua casa, Annie perdera o medo que sentia só de pensar "naquela gente" e acabara se deixando fascinar por ela. Observou, atenta, o rosto moreno que aos poucos ia perdendo a cor, tomando-se pálido.

- Eu a fiz se zangar ? - perguntou - Por quê ?

- Não estou zangada com você, Annie. É este eterno fazer nada que me deixa louca...

- Fazer nada ! - exclamou Annie, empertigando o corpo e procurando não se ofender com o desprezo de Katniss pelas tarefas que a mantinham ocupada da manhã à noite - Lamento que você não tenha interesse pelas agulhas e...

Katniss a interrompeu com um gesto:

- Não tenho interesse, nem habilidade. Há outras tarefas melhores para ocupar a mente e o corpo de uma mulher.

- Como o quê ?

Curiosa, Annie colocou o bastidor com o bordado sobre a mesa. Não era sempre que a mãe a deixava sozinha com a estranha hóspede e era raro Katniss estar disposta a conversar.

- Como lutar, correr - respondeu a fascinante hóspede - , lançar dardos e tornar seu corpo forte.

Annie arregalou os olhos:

- Você faz isso ?

- Sim, e treinava cavalos para uso do exército, cuidava das minhas terras...

- Seu senhor não contratava empregados, não comprava escravos para fazer isso ?

- Eu tratava dessas coisas, também. As terras são minhas e eu cuidava dos investimentos, dividia o que produziam.

- Fazia tudo isso ? - exclamou a moça, impressionada e um tanto incrédula.

- Fazia isso e ainda mais. Afinal, foi meu dote que tornou meu marido rico. Quem melhor do que eu para cuidar de tudo, enquanto ele treinava no exército e lutava nas guerras ?

A jovem ateniense analisou aquelas palavras por um instante, tentando compreender o modo de vida tão estranho em seu mundo restrito.

- Todas as mulheres espartanas cuidam de seus dotes ?

- A maioria. Pela lei, ficamos com metade de nossa herança para nosso próprio uso. A outra metade vai para aquele que nos conquista numa disputa de armas. Mas muitos guerreiros não querem se aborrecer administrando suas posses.

- Que incrível ! - murmurou Annie - Eu nunca conseguiria fazer isso.

- Claro que conseguiria. Só precisa aprender e ser persistente. Dependendo da importância de seu dote e das possessões de seu senhor, você também pode ter muita gente ajudando.

- Não, não. Eu nem mesmo sei qual é o meu dote !

- O quê !

O corpo de Katniss tornou-se reto e rijo como uma lança. O que o capitão pensava, mandando a irmã para um casamento sem nem saber quanto possuía ? Sem dúvida passava tempo demais no mar e não cuidava direito da educação dela. Ou, então, o tenente Finnick estava interessado numa mulher dócil, ignorante, e insistira para que a garota não conhecesse o próprio valor.

- Escute-me, Annie - começou, procurando manter-se calma diante de tanta perfídia - Você tem de saber exatamente com quanto está colaborando para o casamento e quanto poderá retirar, caso venha a se divorciar.

- Divorciar ? - era quase um grito, e a jovem levou uma das mãos à rósea boca - Eu nem me casei e você fala em divórcio !

- Os atenienses não se divorciam ?

- Si... sim. Quer dizer, os homens às vezes mandam as mulheres embora.

- Em Esparta a mulher pode pedir divórcio também, se o marido não lhe der um filho. Ou pode deitar-se com outro homem, com o consentimento do marido.

O queixo de Annie caiu e os olhos verdes se tomaram enormes. Tentou falar, mas a voz não saiu.

- Você precisa conhecer seus direitos e o que esperar da união com o tenente - continuou Katniss.

Sentia-se penalizada, pois achava que a pobre garota não poderia esperar muito do oficial.

- Finnick vai cuidar de mim - Annie conseguiu dizer, afinal.

- Você não pode ter certeza disso. Há a possibilidade de ele ser ferido numa batalha ou pegar doença grave com as prostitutas que esses marinheiros semp...

Katniss foi parando de falar ao ver a expressão angustiada no rosto de Annie.

- Ele... - balbuciou a moça - Ele se deitou com você ?

Engolindo a indignação por ser colocada no mesmo grupo das prostitutas que freqüentam os portos, Katniss respondeu com calma:

- Não, não deitou. Mas você precisa estar preparada para o caso de ele deitar com outra e pegar uma doença que a impeça de ter filhos.

Menos aflita, mas ainda trêmula, a jovem assentiu:

- Vou falar com minha mãe sobre isso.

O encolher de ombros da espartana fez Annie entender que a senhora Cassandra provavelmente não lhe daria esse tipo de informação.

- Vou... vou falar com Peeta - tentou de novo.

- Sim, faça isso.

Katniss se levantou, satisfeita por ter ao menos plantado a semente da dúvida no espírito da ingênua e indefesa ateniense.

Ninguém, nem mesmo aquela jovem de cabeça vazia, devia entrar num casamento sem conhecer seus direitos. Com um aceno, deixou a sala para ir encontrar Valerie e fazer-lhe massagens. Essa atividade ocupava cerca de uma hora pela manhã e outra hora à tarde, e a conversa sempre animada da menina e a oportunidade de sentir-se útil faziam Katniss ansiar por esses momentos. "Quase tanto quanto ansiava pelos instantes noturnos com o pai", completou seu coração, zombeteiro.


Pela primeira vez em muito tempo, Peeta sentiu-se mais tranqüilo nesse dia, ao ir para casa, pisando as pedras irregulares do calçamento. Um guia-de-rua ia à sua frente, levando a vara com um lampião aceso na ponta, gritando a intervalos para que os notívagos que perambulavam pela cidade abrissem caminho para o capitão. Tivera exatamente o que há tempos vinha precisando, pensava ele. Uma noite com os colegas oficiais. Sadias e descontraídas risadas masculinas, cerveja ainda mais sadia e uma flautista dançarina, com belas curvas no corpo cheio, tinham-no ajudado a esquecer a frustração por algumas horas, pelo menos. A dançarina era muito talentosa, lembrou-se, com um sorriso. Nunca tinha visto outra capaz de se curvar para trás, apoiar as palmas das mãos no chão e, então, erguer as pernas no ar.

Era muito ágil, tanto apoiada nas mãos quanto nos pés, no entanto, achava que mais ninguém havia notado algo além das pernas brancas e o traseiro generoso.

Balançando a cabeça, imaginou por que não aceitara a oferta da moça de uma sessão de dança em particular. E por que não ficara excitado com a dança provocante, do jeito que ficava quando uma certa espartana cheia de determinação se movia na cama ou suspirava em meio a escuridão da noite, no quarto junto ao dele ? Por que não ficara excitado como estava agora, só de pensar nela ? Praguejando, sentiu a excitação ir crescendo, quanto mais tentava livrar-se dela. Seu corpo endireitou-se involuntariamente, procurando livrar-se do desconforto que se tomara familiar. Jamais sentira uma fome tão devoradora por outra mulher, nem levara tanto tempo sem aliviá-la. A culpa era dele, sabia muito bem. Colocara a jovem rebelde nessa situação terrível com a insistência em fazê-la dizer seu nome, o que ela recusava a todo custo. Devia tê-la tomado naquela primeira noite, na praia deserta, pensou de forma selvagem. Devia ter acabado com esse jogo entre eles na primeira ou segunda noite, em sua casa. Mas, ainda assim, toda vez que chegava ao ponto de possuí-la, apesar dos protestos dela, que se tornavam menos firmes a cada noite, algo o fazia se conter.

Conhecia o suficiente dos modos femininos para saber que Katniss o desejava com o mesmo desespero que o consumia e que não resistiria muito se ele usasse de força. Mas não queria nem mesmo o mais diáfano indício de resistência nela. Queria que gemesse o nome dele, que suspirasse de prazer. Detestava pensar que poderia ficar rígida quando a beijasse. Pelas sombras de Hades, queria que ela dissesse o seu nome ! No mais profundo recesso da mente, Peeta percebeu que exigia muito mais do que tinha direito daquela mulher que acabara por dominar sua vida. Trouxera-a para Atenas contra a vontade dela, mantinha-a confinada, o que a tornava a cada dia mais indócil, e agora queria que se entregasse, que desistisse de sua honra.

Murmurou outro impropério seguindo a luz bruxuleante do lampião do guia. Pelas barbas de Hércules, que confusão desgraçada ! Os deuses deviam estar rolando de rir vendo o modo como ele se enrascara, enredando também Katniss, em nós que nem mesmo um marinheiro conseguiria desfazer. Quando chegou em casa, estava sério e o desejo já bem conhecido tomara conta dele. O guia bateu com toda imponência na porta, esperando merecer outra moeda pela ressonância da voz ao anunciar o retorno do senhor à sua casa. Ele e Peeta ficaram surpresos quando a porta não foi aberta. O guia bateu de novo e outra vez nada. Peeta avançou e empurrou a porta. Para sua surpresa, ela abriu. Franzindo a testa, deu algumas moedas ao guia e entrou. Parou abruptamente diante da cena inacreditável que se apresentou aos seus olhos. O pátio estava em completo caos, como o palco de um grande teatro quando o clímax de uma tragédia se aproxima. Lanternas e tochas ardiam, mulheres gritavam, o escravo-porteiro corria de um lado para outro, gesticulando com os braços finos e repetindo com voz aguda que não era culpa dele. O marinheiro, Thresh, erguia-se no meio do grupo, o rosto sério, gritando a plenos pulmões na tentativa de ser ouvido. Com os olhos arregalados e assustados, Annie mantinha-se junto da mãe, que permanecia imóvel, o rosto muito vermelho.

- Já mandei uma mensagem para o capitão ! - retumbava Thresh - E homens para procurar nas ruas ! Ela não pode ter ido longe!

- Pode estar a meio caminho de Tebas agora - bradou a senhora Cassandra - As servas idiotas deviam ter me informado imediatamente quando ela não atendeu à porta do quarto...

O modo enfurecido com que ela olhou para as servas fez com que as mulheres gemessem e chorassem mais alto. Peeta abriu caminho e fazia-se silêncio onde ele passava. Seu coração batia acelerado diante do que deduziu pelas palavras da mãe. O rosto da aristocrática senhora demonstrou alívio quando ela viu o filho.

- Peeta ! Ela fugiu ! Katniss fugiu !

- Quando ? - trovejou ele - Como ?

- Não sei quando. Thresh só descobriu quando fez a ronda. Viu a bandeja dela intocada diante da porta do quarto e entrou para ver o que havia.

- Que bandeja ? Ela estava doente ?

A senhora Cassandra afastou uma mecha de cabelo dos olhos.

- Não. Ela... estava muito agitada hoje. Não quis jantar conosco, então mandei-lhe uma bandeja, no quarto. Não estranhei, porque isso acontece quando alguém como ela fica preso do jeito que a espartana ficou - Peeta ignorou a alfinetada da mãe, como vinha ignorando seus olhares frios na última semana. Sentia o peso da desaprovação da dama cada vez que conduzia Katniss para seu quarto. A severa senhora achava vergonhoso o modo que ele parecia usar a prisioneira e deixava isso bem claro. Desacostumado à censura da mãe, que se somava à sua frustração, Peeta encontrava-se tão irritado quanto a relutante hóspede. E, apesar da pressão, não se conformara em mandar Katniss para a área das mulheres, nem fora capaz de romper a tensão crescente entre eles.

Terminaria com tudo naquela mesma noite, decidiu. Katniss não escaparia: antes da noite terminar, ela estaria sob seu corpo.

Antes dos galos cantarem, experimentaria a suavidade sedosa que o tentava como um canto de sereia. Estava na hora de parar com os jogos enervantes e com a dolorosa espera.

- Como ela saiu ? - perguntou, o rosto rígido.

- Foi minha culpa, capitão - disse Thresh, avançando um passo, a vergonha estampada no rosto - Deixei meu posto esta noite durante meia hora. Foi quando a senhora Katniss deve ter passado pela porta.

- E por que deixou seu posto ?

Thresh encolheu-se diante do tom do capitão e lançou um olhar disfarçado para uma das servas. A moça notou o olhar e seu choro tornou-se mais alto e agudo.

- Essa pequena idiota ! - bradou a senhora Cassandra, zangada - Ela sempre ondula os quadris para qualquer homem que passe por perto !

Como os citados quadris haviam ondulado para e sob Peeta mais de uma vez, ele não se achou com direito de condenar Thresh por se deixar atrair também. Parte da rigidez de sua postura sumiu. Resolveu que a indisciplina do enorme marinheiro era assunto para ser resolvido depois e passou a se dedicar à tarefa mais urgente de encontrar Katniss.

- Diga-me, para onde foram os homens que mandou atrás dela ? - perguntou ao aflito e fracassado guardião.


Peeta a encontrou por mero acaso. Ia saindo, a espada pendurada na cintura e a capa nos ombros, para a busca que temia que se estendesse pelas estradas que deixavam a cidade, quando um servo ofegante veio correndo pela rua.

- Mestre, venha, depressa ! Há uma confusão na rua das Três Irmãs, junto do Templo de Apolo. Estão dizendo que uma estrangeira derrubou dois bêbados com os punhos e palavrões.

Peeta saiu como um raio, com Thresh nos calcanhares. A rua se estreitava e escurecia ao descer a colina por trás do Partenon. Ziguezagueantes, marcadas pelo cheiro pungente de lixo e de corpos sem banho, as vielas escuras levaram Peeta ainda mais para o interior da cidade, que brilhava tão branca e pura ao luar quanto vista do mar, num dia de Sol.

Ouviu os gritos bem antes de chegar ao local.

- Pegue-a, seu cão covarde - berrava uma voz pastosa de homem - Vá por trás e pegue-a !

- Pegue-a você - gritava outro sujeito - A puta arrancou um pedaço da minha orelha !

Peeta contornou uma esquina e viu quase uma multidão. No meio do grupo encontrava-se uma mulher com os seios nus que proclamavam sua profissão, erguendo e sacudindo os braços, agitada.

- Peguem-na, seus idiotas ! - vociferou ela - Segurem-lhe os braços que eu derramo minha mistura pela garganta dela. Isto vai acabar num instante com a vontade de lutar dessa cadela !

- Sim ! E vai atear outro tipo de fogo nela - gritou a voz canalha de um homem - As poções da velha Sae podem fazer uma mulher morta levantar e pedir para fornicar com alguém !

- Sua puta desgraçada ! Se encostar um dedo em mim vai perder o uso das duas mãos e dos olhos !

Peeta reconheceu a voz de Katniss, mas não podia vê-la. Estava oculta pelas pessoas que se amontoavam.

- Qualquer um que a tocar vai responder a mim ! - bradou ele, com voz de trovão.

Puxando a espada, meteu-se entre o grupo imobilizado pela surpresa. Thresh o seguiu, usando os temíveis punhos. Boquiabertos, homens e mulheres que cercavam Katniss gritaram e saíram correndo da frente deles. Por um instante o caos imperou. Usando a empunhadura da espada nos mais renitentes, Peeta avançou.

- Katniss ! Grite ! Me guie até você !

- Peeta ! Me ajude ! - soou a voz dela, parecendo desesperada - Estou aqui, perto do muro ! Não consigo... - o coração de Peeta parou quando ela se interrompeu, e a fúria o dominou. Ergueu uma prostituta e jogou-a longe. A mulher caiu, com um berro, em cima de um marinheiro bêbado. Os socos poderosos de Thresh punham barulhos arrepiantes e surdos no ar. Os dois foram avançando. Peeta saltou por cima de um corpo no chão e percorreu o restante da distância até onde Katniss estava caída, junto de um muro de barro. Ergueu-a nos braços, constatou que estava só desmaiada e jogou-a por sobre um ombro. Virando-se, encarou a multidão. Se foi a fúria em seus olhos ou o tamanho de Thresh que os fez recuar, ele não saberia dizer, mas qualquer que fosse a causa, não ia ficar ali para descobrir, arriscando a retirada.

Ele e Thresh já tinham percorrido uma pequena distância colina acima quando Katniss começou a gemer e mover-se. De imediato pôs-se a espernear, tentando se libertar.

- Solte-me, ateniense ! - gritou, louca da vida - Minha cabeça está girando por conta própria, não precisa ficar me balançando de cabeça para baixo !

Peeta colocou-a no chão, mas segurou-a pelos braços.

- Você está bem ? - perguntou, com voz contida. Ainda não se encontrava pronto para perdoá-la por tentar fugir e nem se recuperara do susto.

- Eu... eu não sei - era a primeira vez que ele via Katniss gaguejar, incerta - Um dos sujeitos sentou em cima de mim, enquanto a mulher jogou aquela bebida horrorosa na minha boca. Será que ela me envenenou ?

Peeta fitou-a em silêncio, por instantes, depois um irônico sorriso curvou-lhe os lábios:

- Dentro de alguns minutos você vai achar que sim, pequena... vai achar que sim.

Era bem uma daquelas peças que os deuses gostavam de pregar, pensou Peeta ao andar pela cidade com Katniss nos braços. Uma hora atrás desejava ver aquela mulher ofegando de desejo antes da noite acabar. Agora rezava para que ela conseguisse conter a paixão desenfreada, ao menos enquanto estivessem na rua.

Thresh deixava-se ficar um pouco para trás, impressionado, mas também embaraçado e divertido, ao ver o modo como a espartana rasgava a túnica e tentava esfregar os seios nus no peito do capitão. Pedestres olhavam, as bocas abertas diante da cena incrível.

- Estou ardendo ! - gritava ela, comprimindo as coxas espasmodicamente - Peeta, eu estou queimando !

- Sim, pequena, eu sei.

Uma parte da mente dele registrava o fato de que ela acabara de dizer seu nome e que também o fizera quando ele gritara por ela, a fim de descobri-la entre a multidão que a cercava. Mas a satisfação que o fato lhe deu perdeu-se na pena que sentia diante da condição em que Katniss se encontrava.

- A senhora sua mãe vai cuidar dela - sugeriu Thresh ao dobrarem uma esquina, enquanto os gemidos de Katniss enchiam o ar da noite.

- Não, ela não vai - contrapôs o capitão, firme - Ninguém além de mim cuidará dela esta noite. Vá e diga à minha mãe que recuperamos nossa hóspede. Irei para casa mais tarde.

Separou-se de Thresh, foi até a esquina e virou numa rua, depois em outra. Minutos depois, batia à porta de uma casa grande e espaçosa, de dois andares.

- Diga à senhora que Peeta, filho de Igor, deseja sua assistência - disse ao chocado servo que abriu. O escravo saiu correndo, enquanto Peeta tentava conter Katniss: - Calma, meu bem, calma. Logo vai passar...

Aspásia, a amante de Péricles, famosa por ser inteligente e bela, surgiu logo.

- Peeta ! O que o traz à minha casa tão tarde ?

- Preciso da sua ajuda par... - começou ele. Interrompeu-se com uma exclamação quando as mãos de Katniss dirigiram-se para seu cinto; ficou vermelho e segurou-a com firmeza, enquanto os negros olhos de Aspásia se arregalavam, diante da cena. Em seguida, um sorriso malicioso curvou os lábios cheios e bonitos.

- Não me parece que você precise de qualquer ajuda - a voz dela soou intensa e significativa. Peeta continuou segurando as mãos de Katniss.

- Você não está entendendo - tentou explicar - Esta senhora está sob meus cuidados.

- É o que estou vendo.

- Não é o que pensa ! - protestou ele, enquanto Katniss esticava-se na ponta dos pés e mordia-lhe o pescoço - Ai ! Pequena bruxa, pare com isso !

Uma das sobrancelhas de Aspásia se arqueou.

- Ela não é adequada ao seu gosto habitual, Peeta. Trouxe-a para que eu refine seus impulsos e a treine nos prazeres mais sutis ?

- Não ! Esta é a senhora Katniss, a espartana que está sob minha guarda.

- Ah ! A pequena espartana. Péricles me disse que você havia trazido uma, em sua última viagem. Agora entendo por que faz tanto tempo que não visita minha casa.

Observou, impressionada, enquanto Peeta girava Katniss de costas para ele e a imobilizava contra seu corpo, envolvendo-a com um dos braços poderosos.

- Ela foi drogada, Aspásia. Uma mulher da rua jogou uma poção na garganta dela. A bruxa queria vendê-la aos passantes, imagino.

O sorriso de Aspásia sumiu e ela cruzou os braços:

- Foi por isso que a trouxe aqui ? Porque conheço poções ?

Peeta sabia muito bem que aquela bela mulher usava afrodisíacos para estimular a lascívia das graciosas garotas que proporcionavam prazer a seus convidados e costumava ir à casa dela com freqüência, quando Péricles convidava políticos para alegres reuniões. Mais de uma vez pudera admirar as habilidades das mulheres treinadas pela famosa cortesã.

Ele encarou Aspásia, francamente.

- Sim, por isso eu a trouxe. Será que há algo que possa ajudar ? - pediu, com simplicidade.

Aspásia fitou-o por um momento, depois começou a rir. Era a risada que costumava reduzir o erudito e sofisticado Péricles a um homem trêmulo.

- Oh, sim, Peeta. Há algo que pode ajudar...

Ela bateu palmas, nos olhos a evidente surpresa ao observar Peeta lutar para conter a mulher, em vez de tirar proveito do arroubo amoroso dela. Uma serva surgiu.

- Vá com esta moça e acomode a espartana num quarto, enquanto preparo uma mistura que talvez resolva o problema.

Assentindo, Peeta dirigiu-se à porta com Katniss nos braços.

- Agradeço, Aspásia - disse, antes de sair - Pode deixar que eu a faço beber tudo.

- Oh, não, meu capitão ! - o tom de Aspásia o fez parar e voltar-se tenso - O preparado não é para a espartana. É para você. Vai precisar de muita resistência até a noite acabar.


A risada quente da linda cortesã ecoou nos ouvidos de Katniss como se viesse do fundo de um poço profundo. Ouviu-a sem conseguir identificar o som, nem a origem. O mundo girava de forma louca enquanto Peeta a conduzia pelos corredores imersos em penumbra. Agarrou-se a ele, sombras dançaram diante de seus olhos e uma nova onda de calor cresceu dentro de seu corpo excitando-a até a loucura. Arqueando-se na tentativa de se libertar, enterrou o rosto no pescoço dele e chupou, mordeu, lambeu.

- Espere, minha Katniss - pediu Peeta, tentando controlar o tremor na voz - Espere...

Ela soltou-se de seus braços assim que entraram num quarto espaçoso.

- Não, chega de esperar - exclamou, arrancando as faixas douradas que prendiam os restos da túnica.

Peeta mandou a escrava sair, passou a tranca na porta e pediu aos deuses que lhe dessem forças !

Nua, trêmula de desejo, Katniss lançou-se sobre ele, que recuou até encostar na porta. Suas mãos deslizaram pela carne firme, contornando as curvas suaves e graciosas.

- Por que está com tanta roupa ? - murmurou ela.

Tentou tirar a túnica dele com mãos apressadas e, ao ver que o tecido recusava-se a abrir caminho a seu ataque determinado, ela abandonou-a e dirigiu-se ao cinto. O couro, com o peso da espada, caiu com facilidade no chão. Katniss soltou um gemido e atacou a túnica outra vez. Abrindo-a dessa vez, descobriu o peito dele. Com um som entre suspiro e soluço, ela esfregou o nariz nos suaves pêlos dourados.

Alisando-lhe a cabeça, Peeta disse a si mesmo que só iria aliviá-la, que não se aproveitaria da droga para satisfazer seu desejo. Não era vil a ponto de tomar uma mulher que não...

- Zeus sagrado !

Ele quase saltou quando a mão macia e quente fechou-se ao redor de seu membro e começou a apertar e deslizar ao longo do comprimento. Ele apoiou as duas mãos na madeira da porta para impedir-se de agarrar Katniss e levá-la para a cama. Deixaria que ela aplacasse seu fogo como quisesse e, se isso o matasse, ao menos ela se aliviaria.

- Sagrado, realmente - disse ela, com um olhar de satisfação felina ao avaliar o resultado de seus esforços.

A mão aumentou a enlouquecedora carícia.

Pelos deuses, o membro dele parecia uma barra de ferro incandescente entre os delicados dedos de Katniss. As chamas que a consumiam tomaram-se mais intensas e ela esfregou os mamilos túrgidos contra o peito dele, excitando-o ainda mais.

Peeta gemeu quando ela mordiscou-lhe um mamilo, fazendo o membro ereto tornar-se incrivelmente mais duro e quente em sua mão. Um desejo infinitamente poderoso dominou o ventre de Katniss, que deitou-se de costas no chão, puxando-o sobre si pelo ponto onde segurava.

Peeta olhou pela última vez para a cama, que lhe pareceu a muitos metros de distância: com almofadas, sedas e cortinas, era uma cama feita para o prazer. Cerrou os lábios com força quando deitou-se sobre Katniss no chão duro. A escolha do momento e do lugar era dela, disse a si mesmo, conformado. Pensando protegê-la, esticou-se, segurou-a pela cintura e rolou o corpo, ficando de costas com ela por cima.

Katniss apoiou as mãos nos ombros dele e começou a se mover lentamente, para a frente e para trás, para a frente e para trás... ele deixou escapar um rouco gemido e moveu as mãos para acariciar os cabelos negros e revoltos.

- Foi assim que eu a vi pela primeira vez, Katniss - disse, a voz áspera de tanto desejo - , quando você se ergueu das águas com os cabelos escorrendo nas costas... você me atraiu, como as sereias atraíram Ulisses - os olhos cinza se estreitaram e a bruma de erotismo que os envolvia clareou por um momento.

- Peeta ? - murmurou ela, em um suave tom de voz.

- Sim ?

- Sabe o que aconteceu com os marinheiros que não tiveram a imaginação de Ulisses ? Aqueles que não se amarraram ao mastro e não colocaram cera nos ouvidos para não ouvir o canto das sereias ?

Ele sorriu:

- Sei... alguns se atiraram no mar e morreram afogados.

Um sorriso curvou os bonitos lábios de Katniss:

- E quando os outros chegaram à praia - completou - , as sereias os devoraram.

Os olhos cinza fixaram-se nos dele; muito lentamente ela ergueu o ventre e seu sorriso ampliou-se quando meneou os quadris, tocando a extremidade ardente do membro másculo, rijo. Então, o fogo enlouqueceu dentro dela; com um grito abafado, abriu as coxas e desceu o corpo.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 11.