Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Merline Lovelace, que foi publicado na série de romances "Clássicos Históricos Especial", da editora Nova Cultural.


Capítulo 19

- ...E quando o almirante deu a ordem para atacar, todos os nossos remos tocaram a água; no mesmo instante, os barcos lançaram-se pela baía e se aproximaram das naus desordenadas dos espartanos.

A voz de Peeta reverberava pelo grande anfiteatro. Os membros do Conselho inclinavam-se para a frente nas cadeiras, ansiosos, esperando as palavras seguintes.

- Os espartanos recuaram e remaram em círculos, os remos prendendo uns nos outros - prosseguiu ele - Nossos homens gritavam para os deuses, enquanto os aríetes quebravam madeira e ossos, os barcos se partiam...

Depois de breve pausa, a voz se ergueu, criando mais dramaticidade.

- Uma depois da outra, nossas naus atacaram. Um a um, os barcos inimigos afundaram ou fugiram.

Murmúrios ergueram-se da platéia.

- Quando estava terminado - a voz de Peeta subiu, firme e sonora - , nós recuperamos cada barco ateniense, e afundamos ou capturamos metade da frota espartana !

Um grande rugido ergueu-se da audiência.

Gritando e agitando os braços, os homens de túnicas brancas saltaram de seus assentos. Os gritos assustaram corujas e pombas, que voaram dos prédios de mármore junto do anfiteatro. Mesmo Péricles, estadista digno como era, estava festejando e deu um tapa nas costas do arconte de cabelos brancos ao seu lado, o velho senhor foi impelido para a frente, recuperou-se e continuou a celebrar.

Peeta ficou parado no plinto enquanto seus companheiros cidadãos dançavam e gritavam. Sentia-se invadido de orgulho pela grande vitória de Atenas, pela coragem e bravura de seus companheiros de armas. Saboreou o momento e a emoção compartilhada por todos, sabendo que nunca mais a experimentaria de novo.

Por fim, a alegria pela vitória deu lugar às considerações sobre as conseqüências que poderiam advir daquele acontecimento, no futuro. Os gritos de alegria tornaram-se discursos excitados, todos pontificando o que deveria ser feito em seguida. Um dos arcontes conseguiu fazer com que os presentes à Assembléia se calassem.

- Temos de mandar emissários ao rei Naxos imediatamente ! Quando ouvir a notícia, ele terá de erguer o cerco !

- Sim ! - apoiou outro - O inverno está chegando e a frota espartana foi destruída. Naxos não tem como receber suprimentos agora.

Fazendo gestos para Peeta descer, Péricles ergueu-se e avançou, preparando-se para dar seu conselho sábio. Os olhos do estadista arregalaram-se, surpresos, quando Peeta fez que não. Virando-se novamente para a multidão, o capitão ergueu a mão, pedindo silêncio e disse, quando os clamores se extinguiram:

- Levarei a notícia pessoalmente ao rei Naxos, hoje mesmo.

- Sim, é adequado que ele a ouça de alguém que estava lá - disse um homem da última fila.

- Isso mesmo - concordou outro - E é justo que Peeta tenha essa honra.

- Sim, mandem o filho de Igor, que foi o artífice da nossa vitória !

Peeta respirou fundo, ergueu as mãos e comunicou:

- Quero que saibam que este será meu último ato como cidadão de Atenas. Amanhã deixarei a cidade, com minha esposa e filha. Nunca mais voltaremos.

Os gritos de alegria terminaram, deixando um silêncio chocado no lugar.

- Peeta ! - bradou Péricles, aproximando-se rapidamente dele - Você enlouqueceu ?

- Não, nunca estive mais lúcido em minha vida.

- Não diga mais nada até conversarmos - exigiu o estadista.

Peeta desceu do plinto e fitou-o com determinação:

- Não há mais sobre o que conversar, velho amigo. Vou levar minha esposa para onde possamos criar nossos filhos como orgulhosos cidadãos do Estado em que vivermos.

- Não pode fazer isso ! Este é o seu lar, Atenas está no seu sangue.

- Atenas pode estar no meu sangue, mas a senhora Katniss está no meu coração.

Péricles respirou fundo e seus olhos inteligentes, argutos, examinaram os de Peeta por algum tempo. Então, suspirou, vendo que fora vencido.

- Para onde você vai ?

- Ainda não sei. Tenho intenção de navegar além das Colunas de Hércules e ver o que há lá, apesar de duvidar que minha esposa vá gostar da viagem. Talvez possamos ir para Massília, na foz do rio Ródano. Ouvi dizer que a terra acima do rio tem belas montanhas altas e muita caça.

Peeta calou-se e estendeu a mão. Péricles olhou para a mão estendida e, então, segurou o antebraço do amigo com força.

- Onde quer que esteja - disse Peeta - , saiba que vou orar para os deuses protegerem você e a nossa cidade.

- Não tenho qualquer chance de dissuadi-lo dessa decisão ?

- Não.

A mão de Péricles apertou a dele com mais força.

- Então, que os deuses lhe dêem paz.

A risada de Peeta aliviou a tensão entre eles:

- Terei minha esposa junto a mim. Duvido que vá ter muita paz... adeus, amigo. Vou mandar notícias sobre a resposta de Naxos quando eu lhe der as notícias que trouxe.

Ele deixou Péricles parado junto do plinto, as sobrancelhas grossas quase unidas, tão preocupado estava.


Peeta encontrava-se no alto da muralha, observando a cena lá embaixo. Para o oeste, o Sol descia na planície ateniense, pintando as águas distantes do golfo de dourado. Para o leste, a noite que se aproximava tornava o Monte Hymettus uma sombra púrpura. Para o norte, tão longe onde a vista podia alcançar, estavam os exércitos de Esparta e de seus aliados. Um campo irregular estendia-se entre a cidade e os sitiantes.

Cheio de carros de cavalo tombados e cadáveres de atacantes abatidos, o campo achava-se tomado pelas sementes da morte.

Grandes pedras lançadas por eles, que tinham caído antes da muralha, pontuavam o solo. À distância, exatamente além do alcance das flechas flamejantes, havia uma formidável barreira de catapultas e aríetes. As máquinas mortais estavam inativas no momento, os contornos escuros e ameaçadores no lusco-fusco.

Por trás das máquinas acampava o exército. Longas filas de tendas seguiam até o horizonte. Fumaça erguia-se de um milhar de fogueiras acesas para preparar comida. Ouvia-se ocasionalmente uma voz, uma risada masculina ou sons de um animal sendo abatido para fornecer carne para o jantar.

Estreitando os olhos, Peeta viu silhuetas à distância; eram homens protegidos por armaduras, pareciam estar comendo. Assim que a bola flamejante do Sol desceu por trás do golfo, ele deu o sinal. O som alto da trompa se fez ouvir.

A atividade por trás das linhas inimigas cessou. As vozes se calaram. Lentamente, atraídos pelo sinal, um grupo de oficiais aproximou-se da beirada do campo, os carros em linha chegando mais perto da muralha ateniense. Os líderes espartanos, que podiam ser distinguidos por suas capas vermelhas, ocupavam o lugar de honra no meio da linha. Peeta esperou, imaginando se eles iam concordar com o sinal que anunciava um emissário. Por fim, ouviu-se o toque de outra trompa ecoar na planície.

Ele desceu a escada e foi para o carro que o aguardava; um nervoso soldado continha a custo os dois cavalos atrelados, puxando as rédeas, enquanto os animais negaceavam e arqueavam o pescoço, lutando contra os arreios metálicos. Peeta acomodou-se no carro, decorado com bronze e traços de metais preciosos, e enrolou as rédeas numa das mãos.

Finnick aproximou-se dele, para entregar-lhe o chicote com empunhadura de ouro.

- Não faça isso, Peeta. Não vá sozinho. Deixe-me ir com você.

- Annie não me perdoaria se eu o fizesse enfrentar um perigo, pouco depois de tê-lo trazido para casa.

- Ah, sim. E você acha que ela vai me perdoar por deixá-lo ir sozinho ?

Ele sorriu e assentiu para o soldado que continha o carro, indicando-lhe que se preparasse para soltar os fogosos cavalos.

- Estou indo protegido pelo costume sagrado da trégua, Finnick.

- Quando Naxos ouvir o que você tem a dizer, acha que esse costume vai conter a fúria dele ? É um espartano, Peeta, e não se deve confiar num espartano.

Ao ouvir aquilo o capitão ergueu uma sobrancelha, sério, e o tenente ficou vermelho.

- Eu não pretendia insultar sua esposa, meu caro - apressou-se a explicar o tenente - Ela... é corajosa e honrada.

- Assim como o tio - replicou Peeta, em tom frio.

- Ele vai querer matar você.

- Como eu a ele. Mas nós dois sabemos que não é este o momento, nem o lugar. O homem é um rei, Finnick, chefe de seus exércitos e dos exércitos aliados. Ele não pode violar um costume sagrado de trégua sem perder a confiança de seus comandados e talvez até a coroa. Por mais que eu deseje que ele saque a espada e me dê motivos para puxar a minha, Naxos não o fará. Não pode.

Quando Finnick deu mostras de querer continuar a argumentar, Peeta ergueu a mão:

- Tenho pouco respeito por Naxos como homem, mas confio em seu instinto de guerreiro. Então, afaste-se e deixe-me realizar minha última ação por meu Estado.

Com óbvia relutância, o tenente assentiu e recuou.

Peeta baixou o visor do capacete e fez um aceno para os guardas do portão. Seis homens avançaram e ergueram as toras que mantinham o portão fechado. Em segundos ele seguia a toda velocidade pela planície e, apesar do troar dos cascos, ouviu as dobradiças rangerem quando o portão foi fechado.

Controlar os cavalos exigia praticamente toda a sua concentração. Foi contornando os obstáculos sem diminuir a louca velocidade em que ia. Outro homem seria mais cauteloso, considerando a escuridão e a possibilidade de haver um empecilho difícil de se ver, mas não o capitão acostumado a comandar uma veloz trirreme. Manobrar um carro leve e dois cavalos era brincadeira de criança comparado com dirigir duzentos homens num barco com mais de cem metros, em combate cerrado.

Ainda assim, quando deteve os cavalos a cerca de cinqüenta metros da fileira de carros espartanos, os braços de Peeta doíam por causa do esforço, e tinha o pescoço e ombros cobertos de suor. Esperou até que os cavalos ficassem quietos, então dirigiu-se aos inimigos:

- Quero falar com o rei Naxos.

- Quem é você e por que veio aqui ?

- Sou Peeta, filho de Igor. Vim cuidar de um assunto de minha cidade e outro que diz respeito a mim.

- Qual é este assunto ? Diga e eu vou...

As palavras do intermediário foram interrompidas pelo sinal abrupto de um homem de capacete e capa vermelha. Uma grande carruagem de batalha, puxada por dois cavalos negros, deixou a linha espartana. Movia-se lentamente, cruzando a planície,e parou a alguns metros de Peeta, que levantou um braço para erguer a frente do capacete que lhe ocultava o rosto.

Naxos fez o mesmo. Seu rosto estava meio encoberto pela barba negra e as sombras causadas pelo capacete. Mas Peeta o reconheceu de imediato, pelo modo como torcia os lábios.

- Então, ateniense, veio dizer que sua cidade se rende ? Seu Conselho pensa em suavizar minha vingança entregando o homem que violentou uma mulher de meu sangue ?

- Não, Naxos. Vim dizer que acabo de chegar do Golfo de Corinto, onde enfrentamos sua frota.

Os cavalos negros moveram-se quando o rei espartano puxou as rédeas sem querer.

Peeta sabia que Naxos compreendera de imediato o significado de sua presença ali: era evidente que ele não teria ido parlamentar se a frota espartana tivesse vencido.

- Sim - confirmou o capitão ateniense, suavemente - Sua frota foi espalhada aos quatro ventos... ou o que restou dela.

Esperou, sentindo o ódio intenso que emanava do homem moreno à sua frente. Tal ódio ficaria dez vezes mais forte antes da noite terminar. Sabendo que não havia modo de suavizar o que viria, Peeta desferiu o golpe de graça:

- Seu filho morreu, rei de Esparta. O corpo foi recuperado do mar e será entregue em sua cidade com todas as honras. O almirante Cinna pediu-me para lhe dizer que cuidará disto pessoalmente.

Naxos endireitou-se lentamente, cada músculo endurecendo até ele ficar rígido como um dardo. Uma dor breve e violenta flamejou em seus olhos antes que eles endurecessem novamente.

Quando falou, sua voz estava fria e agressiva:

- Você o viu morrer ?

Peeta sentiu um súbito respeito pelo homem que jurara matar: o rei controlava suas emoções com a mesma rigidez com que controlava o exército.

- Sim - respondeu, também mantendo-se impassível - Eu o vi afundar com o barco. Ele morreu com honra, no meio da batalha.

- Você o fez morrer na água, ateniense ? Foi seu barco que afundou o dele ?

- Sim.

O silêncio baixou, pesado e ameaçador, até que Naxos o rompeu com sua voz mortal:

- Você levou dois de meu sangue, ateniense.

- Sim.

- Veio oferecer a senhora Katniss em reposição pela perda de meu filho ?

O capitão ateniense fez que não, os olhos fixos nos do rei, depois confirmou com voz firme:

- Não, vim dizer que ela é minha esposa e que está esperando um filho meu.

Naxos respirou fundo. Toda simpatia que Peeta pudesse sentir por aquele homem pela perda do filho foi destruída pelo ódio incestuoso que lhe alterou as feições. A custo, dessa vez, ele conseguiu falar:

- Seria melhor mandá-la de volta para mim, ateniense. Você é orgulhoso demais para ver seus filhos como cidadãos de segunda classe. Eu, pelo menos, farei da criança um verdadeiro guerreiro.

- Ela é minha esposa, espartano. Vai viajar comigo amanhã cedo. Vamos criar nossos filhos em outro lugar, em outra terra.

A boca de lábios grossos de Naxos contorceu-se com escárnio:

- Quer que eu acredite que vai deixar sua cidade por causa de uma mulher, uma mulher espartana ?

- Ela não é mais de Esparta, assim como eu não sou mais de Atenas.

- Pelos deuses, não creio nisso ! Nenhum homem iria desertar da cidade em que nasceu por causa de uma simples mulher !

- Acredite no que quiser - rebateu Peeta, indiferente.

- Grande Zeus, você é um homem ou um menino ? Guerreiro ou criança, ainda mamando nas tetas de uma mulher ? Corre de seu destino e se esconde por trás de uma saia ?

- Não me escondo de você. Estou aqui, não estou ?

As palavras, ditas em tom suave, pareceram flutuar no ar.

- Você sabe que não posso matá-lo agora - grunhiu Naxos - Não quando veio aqui sob a proteção de uma trégua.

- Sei...

Peeta combatia o desejo premente de puxar a espada e cobrir a pequena distância que os separava. Queria demais terminar de uma forma limpa e definitiva aquela questão que havia entre eles, mas devia esta última tarefa à sua cidade. E devia a Katniss a liberdade que jurara lhe dar.

- Não, você não pode me matar - continuou a falar - , da mesma forma como não posso transpassar seu coração com minha espada, como anseio fazer. Mas sei que chegará o momento, ou não conseguiria sair daqui agora. Vamos nos encontrar novamente, em alguma batalha futura, em alguma planície distante.

- Você não passa de um rato abandonando o barco podre, ateniense. Vai fugir porque não quer ver sua cidade arder em chamas.

- Atenas não vai cair, nem será incendiada. Nossas muralhas resistirão. Você não tem víveres para continuar o cerco, nem os receberá mais. Precisa bater em retirada, espartano. O Conselho pediu-me para dizer que não o atacará se você recuar imediatamente.

Naxos soltou uma imprecação, mas Peeta sabia que ele já pensara numa retirada, antes mesmo de saber o resultado da batalha naval. Puxando as rédeas, o rei espartano fez seus cavalos darem a volta.

- Posso me retirar agora, mas prometo voltar ! Diga isso ao seu precioso Conselho ! Estarei de volta assim que a neve derreter nos passos das montanhas, na primavera. E voltarei na primavera depois desta, se for necessário, e na seguinte também. Voltarei até Atenas ser transformada em pedregulhos.

Ele encurtou as rédeas, impedindo que os cavalos disparassem.

- Mas você não estará aqui para ver, não é, ateniense ? Você e aquela puta que chama de esposa. Vão estar vagando sem casa, sem Estado, enquanto sua cidade luta para sobreviver. Pense nisso, ateniense renegado ! Pense em como vai se sentir diante de cada notícia de uma derrota de Atenas. Pense no desgosto que Katniss sentirá por um homem que abandonou seu Estado.

Os músculos dos maxilares de Peeta contraíram-se tanto que chegaram a doer, e a gargalhada do rei fez os cabelos de sua nuca se eriçarem.

- Ela vai odiar você ! - cuspiu Naxos - Ela pelo menos tem honra, se o mesmo não se dá com você - ergueu o chicote e usou-o nos cavalos, descarregando a raiva impotente - E quando acabar com Atenas - bradou, afastando-se - , eu irei atrás de você e tomarei Katniss do sujeito sem fibra e sem coragem que pensa que ela lhe pertence.

As palavras de Naxos atingiram profundamente o orgulho de Peeta, mas ele fez seu carro dar a volta, contendo os cavalos indóceis e observando a vista à sua frente. A jóia que era Atenas erguia-se acima da planície, a silhueta recortada contra o céu de veludo. Acima das maciças muralhas externas, a cidade aninhava-se às colinas e platôs. As notícias da grande vitória no mar tinham se espalhado, já que viam-se luzes de tochas em todos os telhados. As luzes faziam os contornos das casas e templos ressaltar na noite. Acima de tudo, o imponente Partenon erguia-se em majestoso esplendor, as colunas iluminadas enquanto os sacerdotes preparavam-se para as grandes celebrações que seriam realizadas.

Atenas brilhava como uma coroa cravejada de pedras preciosas. Era como um cacho de gemas coloridas, luminosas, colocadas contra a escuridão da noite.

Sozinho na planície devastada pela guerra, isolado entre o inimigo às costas e o esplendor de sua cidade à frente, Peeta acertou suas questões com o destino. Katniss esperava seu retorno no pátio, com Valerie no colo. A casa voltara a adquirir vida, animação. Era como se dois pesos imensos, cada qual grande demais para ser sustentado por qualquer pessoa sozinha, tivesse sido tirado dos ombros de todos.

Os refugiados riam, choravam de emoção e cantavam agradecendo aos deuses por se verem livres da praga e dos espartanos.

O inverno, a estação da morte da própria terra, trazia vida para os cidadãos de Atenas. As mulheres falavam de saudade e as crianças ansiavam pelos espaços da planície onde pudessem correr.


- Nós vamos num barco, Katniss ? - Katniss olhou para Valerie, que chamava sua atenção puxando-lhe a túnica - Ou papai vai nos levar num carro ? Um carro azul, como o do casamento da tia Annie ?

Katniss sorriu e deu a mesma resposta das últimas vinte perguntas que ouvira desde que tinham se sentado ali para esperar.

- Não sei, criança.

- Para onde vamos?

- Não sei.

Os olhos de Valerie ficaram redondos quando ela pensou numa coisa:

- Eu fui numa das fazendas do papai uma vez - disse, pensativa - Nós vamos para uma fazenda ?

Os braços de Katniss envolveram carinhosamente a menina e ela a embalou, balançando o corpo, enquanto respondia, mais uma vez:

- Não sei...

Agitada demais para ficar parada, Valerie se desvencilhou dela, apoiou os pés no chão e equilibrou-se, segurando num braço de Katniss.

- Vamos andar a cavalo ? - indagou, curiosa.

O suspiro e a resposta paciente de Katniss foram interrompidos pelo som da porta da rua abrindo. Ela voltou-se para lá e Valerie, segurando-se nela, a imitou.

- Pronto - disse Katnisss com suavidade - Agora você pode ir fazer todas essas perguntas para o seu pai.

Peeta passou pelos refugiados, cumprimentando e atendendo a todos que o interpelavam. Mais de uma mulher lançou-se em seus braços, chorando de alegria e implorando notícias dos maridos que estavam nos barcos. Ele contou o que sabia, fazendo questão de responder com atenciosa cortesia a cada pergunta que lhe dirigiam.

A meio caminho do pátio, ele viu Katniss e a filha. Valerie soltou-se do braço que a amparava e, movendo-se com seu jeito desconjuntado, os passos hesitantes, transpôs a distância que a separava do pai. Peeta se ajoelhou e abriu os braços para ela. As alegres risadas da menina encheram a noite de vida.

O riso da criança afastou o remanescente das sombras que ainda restavam no pátio. Como que à distância, Katniss ouviu novamente as palavras da senhora Cassandra: "Não é o passado que conta agora. É o futuro". E as dúvidas que a incomodavam naquelas últimas horas desapareceram. Seus medos de que Peeta viesse a odiá-la por levá-lo a abandonar seu Estado desapareceram. Se ele estava disposto a deixar tudo o que conhecia, tudo em que acreditava e tudo pelo que lutava, ela podia fazer o mesmo. Ele era o Estado dela. Ele era o mundo para ela, o seu futuro. Levantou-se e foi para junto dele.

- Papai, Katniss disse que vamos embora de Atenas amanhã.

Peeta mudou a filha de braço e usou a mão livre para pegar a mão da esposa e puxá-la para perto de si. Valerie chamou a atenção do pai com tapinhas suaves no rosto dele, até que lhe respondeu:

- Sim, camarão, nós vamos embora amanhã.

- Katniss disse que vamos partir assim que amanhecer.

- Sim, é isso mesmo. Você vai estar pronta ?

As palavras dele foram dirigidas à menina, mas Katniss sabia que destinavam-se a ela. Apertou a mão dele e, sorrindo, fez que sim.

Os cachinhos de Valerie também balançaram quando ela assentiu:

- Katniss disse que estamos prontas ! - respondeu, toda feliz.


P. S.: E, a seguir, o último capítulo.