Capítulo 08 - Asgard

Ainda era madrugada. O aquecedor instalado no quarto ajudava a manter o ambiente mais confortável. Frente à janela estava Sorento de pé. As madeixas lilases eram delicadamente acariciadas pela brisa que entrava pela pequena fresta da janela. Uma brisa gelada e cortante, capaz de congelar até os ossos. Os olhos magenta vivos continuavam sem brilho, sem expressão. O corpo do General estava de pé, mas sua mente permanecia perdida. Ele continuava sob o efeito do Cosmo de Nêmesis, mesmo depois da derrota da Deusa.

O rapaz se vira, mas parece não notar a presença de Terpsicore, que, adormecida como estava, não foi capaz de ver Sorento de pé. Como se fosse um robô, ele volta para a cama em um gesto automático, e fecha os olhos, voltando a cair em um sono profundo…

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Na enorme sala de jantar do palácio, as três mulheres tomavam café naquela manhã. Na cabeceira da mesa, Hilda se limitava a comer tranquilamente. As três em silêncio se entreolhavam. O clima estava estranho e apreensivo. A platinada não escondia sua desaprovação e receio. Poseidon poderia aparecer a qualquer instante a fim de reaver seu General. Como um anúncio dos céus, as três sentem um Cosmo imensamente poderoso se aproximando, e apreensivas, levantam de suas cadeiras. Uma imensa luz azul emerge, revelando a figura do Deus dos Mares e sua assistente.

- Então você é a Princesa Hilda de Asgard? Prazer em conhecê-la.

Poseidon se aproxima e toma a mão direita da linda mulher, onde deposita um beijo, ao que ela reage puxando sua mão bruscamente, o encarando com raiva.

- Como se atreve a me dirigir a palavra? Você me usou para destruir a superfície da Terra e matar todos os humanos. Por sua culpa, meus amados Guerreiros Deuses morreram, e você ainda diz que é um prazer me conhecer?! - despeja toda a sua raiva de uma vez, enquanto o belo homem se mantém impassível - Já sei porque está aqui. Pegue seu General e sumam do meu palácio. Aproveite e leve essa garota também. - aponta para Terpsicore, que entende tudo o que ela está sentindo.

- É bem verdade que estou aqui pelo meu General, mas já que estamos frente a frente, queria pedir que, por favor, ouça o que tenho a dizer. Será que podemos conversar a sós? - ele pede calmamente.

Apesar de Hilda ser uma pessoa extremamente bondosa e pura, essa era a primeira vez que ela sentia raiva, e agora ela estava diante do único responsável por este sentimento tão desagradável. Mesmo contrariada, ela acaba concordando, direciona para onde eles podem seguir, a fim de conversarem sem nenhuma interrupção. Eles chegam ao escritório, onde a bela mulher se senta na cadeira principal, frente a uma mesa de madeira maciça

- Pois estou ouvindo. Só peço que seja breve para acabar com esta situação tão incômoda.

- Em primeiro lugar, eu quero agradecer, e o mais importante… me desculpar. - abaixa a cabeça e o olhar em penitência, e a platinada não entende tal atitude - Como bem sabe, Atena e eu temos um longo histórico de batalhas e guerras desde os tempos mitológicos. Mas nesta era, admito que agi muito errado e joguei sujo quando envolvi você e seu país em nossos assuntos. - vai até a enorme janela, onde começa a admirar a neve que cai sem trégua - Você e seu povo já sofrem sem trégua por causa do clima hostil de Asgard. Eu apenas quero dizer que sinto muito ter feito você e seus Guerreiros Deuses sofrerem. - volta seu olhar para a mulher, encarando-a diretamente nos olhos.

- E acha que um pedido de desculpas resolve? Acha que suas palavras trarão a vida dos meus preciosos companheiros de volta?! - se irrita levantando, dando um forte tapa na mesa com ambas as mãos - Engula suas desculpas falsas! Não preciso delas!

- Tem todo o direito de não acreditar nas minhas palavras, mas estou sendo totalmente sincero. Espero que algum dia possa me perdoar. Antes que eu me esqueça, serei eternamente grato por ter salvo a vida do Sorento. Muito obrigado. - conclui seu raciocínio, virando-se e se retirando da sala, deixando uma confusa Hilda para trás.

Assim que começa a caminhar pelo corredor, dá de cara com Terpsicore e Freya, que levam ele e Thetis até o quarto onde está Sorento.

Mesmo com muita raiva, Hilda se aproxima com cautela para observar à distância o que aconteceria dentro do aposento. A verdade era que ela estava muito inquieta diante de Poseidon. Ela não imaginava que ele fosse tão bonito e gentil, e toda a imponência que ele emanava parecia roubar o ar que ela precisava para respirar. Era uma sensação estranha e conflitante, que ela não conseguia definir em palavras.

O Imperador se aproxima da cama, e observa seu General adormecido.

- Maldita Nêmesis. Como ela se atreveu?

Com seu Cosmo reluzindo em azul, Poseidon leva a mão direita sobre a testa de Sorento, e com extrema imponência e autoridade, ordena:

- Desperte.

Os olhos magenta vão se abrindo lentamente. Todos observam espantados, porém aliviados, inclusive Hilda. Sorento desperta segundo a vontade de Poseidon, porém seus olhos permanecem como antes, opacos e inexpressivos, tal como seu semblante. Era como se ele ainda estivesse sob o controle de Nêmesis, e sua mente parecia fora de seu corpo. Nenhum dos presentes entendeu o motivo disso, já que Poseidon tecnicamente deveria ter quebrado o controle de Nêmesis sobre seu General, uma vez que ele a derrotou.

- Poseidon-sama, porque Sirene-sama não acorda? Ele não deveria ter voltado ao normal?

- Não sei, Thetis. Eu realmente não entendo o que está acontecendo. - balança a cabeça em negativa em sinal de pesar - De qualquer maneira, ele já está de pé. Vamos embora daqui, pois nossa anfitriã não está nem um pouco satisfeita com a nossa presença. - diz ao olhar para a platinada de canto.

- Esperem! - Terpsicore se põe diante do Imperador, que arqueia uma sobrancelha - Por favor, me levem com vocês. Preciso ficar ao lado do Sorento. - pede com as mãos juntas em sinal de desespero.

- Quem é você? - Thetis se coloca frente à Sorento com as mãos em seus ombros, prontos para se teletransportar.

- Foi essa garota que veio nos pedir ajuda para salvar Sorento. - Freya começa sua explicação - No começo, minha irmã negou, mas depois de muita insistência diante do desespero dela, e pelo fato de vocês estarem lutando para evitar a destruição da Terra, ela aceitou ajudar.

- Entendo… neste caso, agradeço a vocês duas por ajudarem o meu General. - o belo azulado olha para Hilda intensamente, que sente seu corpo estremecer por inteiro sem que possa evitar - Mas estamos mesmo com pressa. Permitirei que venha conosco, e depois veremos o que fazer.

O Cosmo do Deus envolve as outras três pessoas, que desaparecem em seguida. Hilda sente um alívio no peito, seguido de outras emoções que ela não consegue identificar, e cai de joelhos com as mãos no rosto.

- Onee-sama! O que houve?! - a ampara visivelmente preocupada.

- Não sei! Não sei! - começa a chorar e fala aos gritos - Eu senti uma coisa tão estranha. Senti que meu Cosmo se retirava diante de Poseidon. A presença dele, toda aquela imponência me deixou inquieta. Eu só queria que tudo acabasse logo.

- Calma, onee-sama. Ele foi embora. Já passou, sim? - tenta confortá-la, acariciando seus fios prateados, enquanto ela ainda chorava nos braços quentes de sua amada irmã mais nova.

…:~X~:...

A mansão de Julian era incrivelmente grande, e ao chegarem lá, ele apenas disse que Terpsicore poderia escolher qualquer quarto que não estivesse ocupado. Mas ele logo estranha quando ela pede para ficar no quarto que fica ao lado do de Sorento. Apesar do pedido inusitado, ele concorda e deixa que ela se instale, levando Sorento até seu próprio quarto. Ele apenas volta a dormir, mesmo Julian se certificando de que ele está bem. O jovem se reúne com Thetis em seu escritório, enquanto esta serve café em duas xícaras, se sentando de frente para ele.

- Julian-sama, se me permite dizer, toda essa situação me pareceu muito estranha. - inicia o assunto, servindo alguns biscoitos.

- Fique à vontade para falar o que quiser, Thetis. Não precisa ficar medindo o que vai dizer diante de mim. Podemos conversar com confiança, está bem?

- Sim! - responde com um grande sorriso, se sentindo muito feliz com a confiança que lhe fora depositada.

- A verdade é que eu também estou muito intrigado. Não entendo porque esse estado de inconsciência do Sorento ainda persiste, apesar do meu poder. - sorve um gole do café quente lentamente, e a loira acompanha seus movimentos com atenção.

- Eu também estou com dificuldades para assimilar tudo isso… - suspira derrotada.

- Thetis, preciso de sua colaboração absoluta a partir de agora.

- Estou sempre pronta para o que o Senhor ordenar.

- Quero que você descubra quem realmente é esta garota e qual o interesse dela no Sorento. Vigie essa garota e cuide do Sorento. Estou contando com você.

- Sim! Julian-sama! Considere feito.

Continua…