Dor...
Era tudo o que eu sentia. Por todo o corpo, a dor era tão insuportável que eu desejava morrer, mas então ela cessava, e eu abria os olhos.
Minha respiração era curta e rápida. Levantei a cabeça e olhei em volta, assustada. Olhos curiosos e confusos me encaravam, como se houvesse algo errado comigo. Foi então que percebi que tudo o que acabara de acontecer era apenas um sonho.
— Você está bem? — perguntou uma senhora ao meu lado, preocupada.
Eu a ignorei e me levantei sobre as pernas vacilantes e trêmulas. Todo o meu corpo tremia silenciosamente, e o coração ainda batia acelerado pelo medo. Aquele sonho havia sido tão real.
Caminhei apressadamente pelo corredor estreito, mas acabei esbarrando em uma mulher loira vestindo um uniforme azul-marinho, uma aeromoça que servia a um passageiro. Ela se desequilibrou e caiu para trás, mas eu não parei para prestar qualquer auxílio, e ainda pude escutar a reclamação de um passageiro por isso.
Finalmente, consegui chegar ao banheiro do avião, abri a porta e entrei rapidamente. Sentei-me em cima do pequeno vaso e coloquei a cabeça entre as mãos.
O que havia sido aquilo?
Eu nunca havia sentido dor em um sonho antes, e uma dor tão intensa assim... Foi realista demais para ser um sonho. Eu ainda podia me lembrar da sensação: os ossos quebrando, a sensação de ser queimada, os gritos... Tinha sido assustador.
Fechei os olhos e puxei algumas lufadas de ar lentamente, tentando acalmar meu coração. Apesar de desesperadamente querer sair do avião, estávamos no ar, e eu tinha que tentar me acalmar antes que entrasse em pânico.
Foi só um pesadelo, só um pesadelo. Eu repetia na cabeça sem parar.
Alguns minutos se passaram, e eu finalmente consegui me acalmar. Levantei-me e liguei a torneira para lavar o rosto. Encarei o reflexo no espelho e me surpreendi com o quanto eu parecia cansada.
Suspirei e peguei o celular no bolso do casaco. Ainda faltavam duas horas para chegarmos a Seattle, onde eu iria visitar meu pai em Forks. Meus pais se divorciaram há nove anos, e eu morava com minha mãe, mas naquele ano passaria as férias de verão com meu pai.
Resolvi voltar para a cadeira, já fazia uns 20 minutos que eu estava no banheiro, e as pessoas poderiam começar a desconfiar. Uma mulher esperava impacientemente do lado de fora quando eu saí, e ela quase me empurrou para dentro do banheiro e trancou a porta.
Ao voltar para a poltrona, a senhora ao lado me direcionou um olhar desconfiado, mas não falou nada. Peguei os fones de ouvido e coloquei uma música qualquer no celular para tentar me distrair.
Eu tinha acabado de fechar os olhos e então... Aconteceu.
Um grande estrondo, e o avião balançou. Meus olhos abriram imediatamente, e as pessoas começaram a gritar desesperadas. Quando olhei pela janela, vi a asa do avião pegando fogo e me agarrei à poltrona com força.
Era igual. Exatamente a mesma coisa.
As máscaras de oxigênio caíram do teto, e o avião começou a se inclinar para frente. Minha respiração ficou entalada na garganta, eu não conseguia reagir, e as lágrimas caíam dos meus olhos sem parar.
Não podia ser real, não podia ser real.
Fechei os olhos com força, desejando que não passasse de um sonho, mas o sonho não queria parar. Os gritos desesperados das pessoas ainda ecoavam, a gravidade começou a nos puxar para baixo enquanto todo o meu corpo parecia ser puxado para cima.
Os barulhos se tornaram cada vez mais altos, e então veio a dor novamente. Durou apenas alguns milésimos, mas foi tão dolorosa que tudo o que eu queria era morrer, e logo em seguida perdi a consciência.
Então, eu... Acordei.
Meus olhos se abriram, e eu não conseguia acreditar no que estava vendo. As pessoas estavam sentadas confortavelmente em seus lugares, o avião estava inteiro e voando normalmente.
Nada havia acontecido.
Com as mãos tremendo, segurei o celular, liguei-o e vi a hora. O ar faltou em meus pulmões quando vi.
09h45min.
Isso... Isso não fazia sentido. Eu me lembrava que eram 10h15min quando coloquei a música para escutar.
O que estava acontecendo? O que era isso?
Eu não conseguia respirar, puxava o ar com força, mas o ar não parecia entrar. Abracei meus ombros e puxei o ar cada vez mais forte.
— Você está bem? — ouvi a voz da senhora ao lado, e uma sensação de déjà vu tomou conta de mim.
Não.
Não.
Não!
Minhas respirações se tornaram cada vez mais rápidas e ruidosas ao ponto que várias pessoas se viraram para olhar o que estava acontecendo.
— Ela está passando mal! — gritou a senhora.
Houve uma movimentação intensa, e várias pessoas se aproximaram. A mesma aeromoça de antes apareceu em meio à multidão e se ajoelhou à minha frente, mas isso só fez minha condição piorar. Ver a aeromoça só me fez lembrar de tudo que aconteceu e ter a certeza de que foi real.
Como eu conhecia a aeromoça se nunca a havia visto?
— Senhorita? O que você está sentindo? — perguntou a aeromoça, segurando meus ombros, mas eu não conseguia fazer nada além de puxar o ar com força.
— O que ela tem? — perguntou outra aeromoça, se aproximando.
— Eu não sei... — respondeu a primeira, preocupada, e então se levantou e olhou ao redor. — Pessoal, peço que, por favor, voltem para seus assentos enquanto resolvemos a situação. — Ela parou e direcionou um olhar preocupado na minha direção antes de voltar a olhar para frente. — Tem algum médico presente aqui?
— Eu — disse uma voz distante, e eu olhei para cima.
Um homem loiro e bonito se aproximou, ele possuía a pele anormalmente pálida e olhos dourados. Ele se abaixou ao meu lado e me encarou.
— O que aconteceu? — perguntou ele à aeromoça enquanto verificava meu pulso.
— Eu não sei, ela já estava hiperventilando quando cheguei.
— Consegue falar? — perguntou ele, e eu balancei a cabeça. Ele olhou para a aeromoça. — Precisamos tirá-la daqui. Tem algum lugar mais isolado?
— Sim.
O homem se inclinou para me pegar no colo com uma facilidade surpreendente. A aeromoça foi à frente, indicando o caminho enquanto o médico me levava.
Chegamos à parte da frente do avião, onde os funcionários ficavam, e o médico me colocou em uma cadeira.
— Está sentindo alguma dor? — perguntou ele, verificando meu pulso, e eu balancei a cabeça. — Tente puxar o ar lentamente, você precisa tentar se acalmar. — Ele disse, e eu assenti. Lágrimas se formaram nos meus olhos, e eu queria gritar para ele que o avião estava prestes a cair, mas nenhuma palavra saía da minha boca.
Ele se voltou para a aeromoça e informou: — Vocês têm algum calmante? Ela está tendo um ataque de pânico.
— Eu vou providenciar — disse a aeromoça, saindo rapidamente.
Agarrei a manga do suéter que o médico usava e puxei. Ele olhou para mim e se ajoelhou à frente, pegando minhas mãos e olhando em meus olhos.
— Eu prometo tentar te ajudar, mas preciso que você confie em mim, tudo bem? — Eu assenti, e ele sorriu, um sorriso perfeito com dentes brancos e perfeitamente alinhados. — Meu nome é Carlisle, consegue me falar o seu? — Eu sacudi a cabeça, e ele suspirou. — Certo, tente puxar o ar lentamente pelo nariz e solte pela boca — disse, mas eu não queria me acalmar, eu queria sair dali.
Sacudi a cabeça, as lágrimas nublavam minha visão, e minha respiração se tornava cada vez mais superficial.
Eu sabia que estava perto.
— A-Avião... — sussurrei entre lufadas, e ele franziu o cenho.
— O avião? — perguntou confuso, e eu assenti freneticamente. — O que tem o avião?
— E-Explodir...
Os olhos dele se arregalaram, um misto de confusão e surpresa presentes em seu semblante.
— Como voc...
E então, nós ouvimos a explosão.
O médico me segurou a tempo antes que eu caísse no chão. Os gritos começaram a soar, e a gravidade começou a nos puxar para baixo. Dessa vez, eu não estava sentada e segura com o cinto de segurança, então meu corpo foi jogado para frente.
Meu estômago se chocou com um carrinho de comida e eu só tive tempo de sentir uma dor aguda e intensa antes de ser jogada para trás e minha cabeça ser atingida por algo, e então eu perdi a consciência.
Meus olhos abriram imediatamente e eu estava sentada na mesma poltrona de antes.
Meu coração estava acelerado e minha respiração presa. Segurei as mãos com força.
Não!
— Você está bem? — perguntou a senhora ao lado.
Eu não aguentei.
— O avião vai explodir! O avião vai explodir! — gritei ao ponto de todos no avião ouvirem.
— O que? — disse a senhora, completamente assustada.
— O avião vai explodir! — continuei gritando.
— É algum tipo de piada? — disse um homem, sério.
Levantei-me da cadeira rapidamente.
— O avião vai explodir! Temos que sair daqui! — comecei a andar para frente, mas tropecei e caí no chão.
As pessoas começaram a se levantar, algumas estavam assustadas, outras me olhavam como se eu fosse louca.
— Senhorita! — gritou uma aeromoça, correndo em minha direção.
— Não, você não entende! O avião vai explodir! — gritei, mas ela me segurou com força pelos braços, e eu não tive forças para me soltar.
— Me solta! Me solta!
— Me ajudem! — gritou a aeromoça, e dois homens fortes se aproximaram para me ajudar. Eles me levantaram do chão, segurando meus braços com força.
— Não! Não! Por favor, temos que sair daqui! — continuei a gritar, mas ninguém parecia acreditar em mim.
Eu me debatia, chutava e gritava, mas ninguém me soltava. Eles me levaram para o fundo do avião enquanto me seguravam. A porta foi aberta e pude ver o médico Carlisle.
— Não! Carlisle! — gritei com todas as forças, e ele olhou para mim com uma expressão surpresa. — O avião vai explodir! — gritei, mas ele me olhou confuso.
— O que aconteceu? — perguntou ele à aeromoça, que segurava a porta aberta.
— Ela começou a gritar que o avião vai explodir e a se debater. Está histérica, não sei o que fazer! — respondeu ela.
Ele me olhou surpreso, e eu me debatia com todas as forças que ainda me restavam.
— Por favor, você tem que acreditar em mim! — gritei desesperada, lágrimas escorriam pelo meu rosto, e ele se abaixou, segurando meu rosto entre as mãos.
— Ei, escuta, escuta... Vai ficar tudo bem, eu prometo que vai ficar tudo bem — disse ele, olhando em meus olhos.
— Você tem que acreditar em mim... — sussurrei fracamente.
— Eu acredito em você... — disse ele, mas eu sabia que suas palavras não eram verdadeiras.
E então a explosão aconteceu e novamente tudo aconteceu, a dor, a queda, os gritos e no fim eu perco a consciência.
Eu abri meus olhos, de volta a mesma cadeira, com a respiração ofegante e o coração acelerado.
— Você está bem? — perguntou a senhora ao lado.
Olhei para o relógio em meu braço, 09h45min.
Não havia mais dúvidas. Isso não era apenas um sonho.
De alguma forma inexplicável, eu estava presa em um ciclo interminável, revivendo os últimos minutos antes da tragédia. A cada vez que morria, eu era lançada de volta ao mesmo ponto, 30 minutos antes do inevitável desastre.
