Quando a escuridão me envolve por completo, há um momento de vazio absoluto. O silêncio é esmagador, como se o próprio tempo tivesse se rendido à imobilidade. Não há luz, som, nem sequer a sensação do meu próprio corpo. É como se eu estivesse flutuando em um limbo, suspensa entre a realidade e o esquecimento.
Mas então, como sempre, o ciclo recomeça.
O som abafado dos motores do avião me puxa de volta para a consciência, e sinto meu corpo pesado, como se estivesse emergindo de um sono profundo e sem sonhos. Meu corpo demora para reagir, meus sentidos estão mais lentos do que antes, o frio do ar condicionado demora para refletir na minha pela, a luz fraca e artificial se ajusta aos poucos a minha visão. As vozes, indistintas dos passageiros, surge aos poucos aos meus ouvidos. Era como se meu corpo estivesse reiniciando, como um computador velho e lento tentando ser ligado.
Minha cabeça lateja de dor, tento focar em alguma coisa, qualquer coisa, mas meus olhos parecem incapazes de se fixar em algo por muito tempo. É como se a própria realidade estivesse oscilando, tentando me arrastar de volta para a escuridão que acabei de deixar para trás.
Eu sei o que deveria fazer, deveria levantar, começar a procurar uma saída, tentar algo, qualquer coisa, para escapar. Mas desta vez, não consigo reunir a energia para me mover. Permaneço sentada, minha mente entorpecida, enquanto o avião continua sua jornada infinita.
As palavras da alucinação com a minha réplica repetem na minha cabeça sem parar.
"Esse é seu destino Isabella. Você está condenada a viver aqui."
Lágrimas brotam em meus olhos sem aviso, e eu sinto as lágrimas salgadas deslizarem pelos meus lábios, mas não me incomodo em enxugá-las.
Qual o sentido? Este ciclo, esta repetição constante de esperança e fracasso, está me quebrando de maneiras que não consigo mais reparar. Minha mente está fragmentada, eu estou fragmentada, eu não sei se ainda existe Isabella, não sei mais quem eu sou.
Todo esse tempo estive tentando juntar os pedaços de mim, tentando salvar os pedaços do que me restou, mas a verdade é que não sei se ainda existe algo para salvar.
Estou condenada.
Não existe mais Isabella. Não existem mais ciclos. Tudo o que me restava era a solidão e apenas isso.
Eu desisto.
Fecho os olhos e me entrego a escuridão, finalmente me entrego a loucura. O único fio de esperança que me mantinha presa a realidade se rompeu.
Sinto a escuridão me envolver, como braços invisíveis que me puxam para um abismo sem fundo. A luta dentro de mim, que por tanto tempo foi uma batalha constante, finalmente chega ao fim. Não há mais energia, nem vontade de continuar. Estou cansada – exausta de tentar juntar os pedaços de uma vida que, no fundo, já se desfez há muito tempo.
Fecho os olhos e permito que a escuridão me consuma. É um alívio assustador, como se todos os meus medos e angústias finalmente estivessem se dissipando. A loucura, que antes eu lutava para manter à distância, agora parece um refúgio, um lugar onde posso me esconder do sofrimento interminável que se tornou minha realidade.
Os ecos do avião, as vozes dos passageiros, tudo começa a desaparecer. Não existe mais Isabella, não existe mais quem eu era. Apenas o vazio, silencioso e imutável.
Mas, então, algo dentro de mim se agita.
Não.
Não! Minha mente grita em um desespero silencioso. Meus olhos se abrem, minha respiração é irregular e meu coração bate descontrolado.
Eu não posso desistir de mim mesma. Por mais esmagadora que seja a sensação de impotência, a vontade de lutar ainda persiste, mesmo que apenas como uma chama vacilante. Eu preciso acreditar que, de algum modo, existe uma saída, uma forma de quebrar esse ciclo.
Eu não posso me render à escuridão. Eu ainda sou Isabella, eu ainda estou aqui, por mais assustador que a realidade seja, eu ainda estou aqui.
Desesperada, levanto da poltrona e corro em direção a primeira classe, onde estava meu bote salva vidas, a única coisa que poderia me manter sã.
Eu parei ao seu lado, a respiração ofegante pela corrida e os olhos arregalados em desespero. Ele olha para mim confuso e preocupado. Meus olhos se enchem de lágrimas e um soluço escapa dos meus lábios assim que falo seu nome.
– Carlisle – ele me olha surpreso e eu imploro. – Por favor, me salve.
Meus joelhos cedem e caio no chão, Carlisle rapidamente me segurou e eu agarrei o tecido da sua roupa como se estivesse perdida no mar e ele fosse a única coisa que me impedia de afogar.
– Por favor... Me salve – implorava aos soluços.
– O que aconteceu? – ele perguntou com a voz preocupada. – Você está bem?
Eu não conseguia falar, os soluços saiam da minha boca descontroladamente. Como uma represa que acabou de estoura, tudo que eu estava segurando, a enxurrada de emoções que eu tentava descontroladamente reter, desabou de uma vez. Eu estava completamente vulnerável, despida de todas as máscaras e defesas que costumava usar para esconder o caos dentro de mim.
Carlisle me segurou com firmeza, seus braços ao meu redor oferecendo o conforto e a segurança que eu tanto ansiava. Sua presença era como um farol em meio à tempestade, a única coisa que mantinha o pavor à distância.
De repente senti meu corpo ser erguido por dois braços desconhecidos, me retirando de perto de Carlisle e me apertando com carinho, oferecendo todo calor e consolo que eu necessitava.
– Está tudo bem – sussurrou suavemente uma voz masculina. – Estou aqui, vou te ajudar.
Eu não sabia quem ele era, mas suas palavras foram como um bálsamo, acalmando o pânico que consumia meu coração. Mesmo que eu não conseguisse falar, sua voz era a corda que me puxava de volta à realidade, impedindo-me de ser arrastada para o abismo.
Com a cabeça apoiada em seu peito, eu permiti que minhas lágrimas fluíssem livremente, sem tentar segurá-las. De alguma forma, estar nos braços daquela pessoa tornava tudo um pouco menos insuportável. Eu não estava sozinha – ele estava ali, comigo, e isso fazia toda a diferença.
Depois de um tempo, os soluços começaram a diminuir, minha respiração se estabilizando aos poucos. Carlisle permaneceu em silêncio, assim como o homem misterioso que me segurava, permitindo que eu tivesse o tempo necessário para me recompor.
Finalmente, quando consegui encontrar minha voz novamente, murmurei contra seu peito:
– Eu estou bem agora, pode me soltar.
Ele me apertou mais forte, e eu senti a força em seus braços, uma promessa silenciosa de que faria todo o possível para me ajudar e aquele simples gesto aqueceu meu coração vazio.
O homem me colocou no chão e finalmente consegui olhar para seu rosto. Com decepção percebi que, embora eu estivesse mais calma, a loucura ainda permanecia dentro de mim. Seu rosto distorcido, assim como de todos os outros, era um lembrete claro da minha insanidade.
– Quem é você? – as palavras saíram da minha boca com uma curiosidade genuína.
– Quem é você? – ele repetiu, um riso contido em suas palavras. Sua mão limpou as lágrimas do meu rosto, deixando um rastro de calor por onde seus dedos tocavam.
– Isabella – respondo sem pensar.
– Isabella – ele falou em um tom pensativo, como se testasse a palavra saindo dos seus lábios. – Eu gosto disso.
Sua mão ainda não havia saído do meu rosto e talvez esse único contato que nos ligados, como cabos interligados a uma fonte de energia, fosse o que mantinha minha mente ancorada na realidade, mesmo que por um fio.
A presença dele era enigmática, mas ao mesmo tempo estranhamente reconfortante. Havia algo em seu toque, algo que ia além do físico, algo que parecia falar diretamente à parte mais ferida e solitária de mim. Era como se ele pudesse enxergar através das camadas de loucura, como se entendesse os pedaços quebrados dentro de mim.
Sinto a escuridão ao meu redor recuar um pouco, como se a própria loucura estivesse hesitando. Não sei se isso é força ou fraqueza, mas, de alguma forma, esse simples toque me impede de desaparecer completamente.
Talvez eu esteja condenada, talvez não haja mais Isabella para salvar. Mas, por algum motivo que não consigo entender, ainda estou aqui. Ainda sendo segurada por essa estranha conexão.
— Eduardo? — Carlisle falou depois de um tempo, aparentemente confuso com o comportamento do garoto e finalmente consigo me lembrar dele.
O estranho garoto que me assustou pela primeira vez, era ele. O mesmo que havia frustrado minha primeira tentativa de chegar à cabine de comando.
— É ela. — Edward fala, olhando para Carlisle. Eles se encaram por alguns segundos, e noto quando Edward assente discretamente para Carlisle.
Carlisle parece surpreso por um momento e em seguida olha para mim.
— Isabella, minha jovem, pode nos dizer o que aconteceu com você? — ele perguntou em uma voz calma e gentil, como se tivesse medo de me assustar. — E como você sabia o meu nome?
Eu hesito por um momento. O medo volta a me atormentar, a insuportável realidade me abateu. Por um breve momento eu havia esquecido de tudo, o que estava acontecendo, onde eu estava. Mas as palavras de Carlisle trouxeram de volta uma enxurrada de lembranças e medos que eu tinha tentado reprimir. A sensação de estar presa em um ciclo interminável, a angústia de saber que algo estava terrivelmente errado, tudo voltou com força total. Eu estava ali, no meio daquela situação surreal, mas não conseguia entender como ou por quê.
Eu senti uma pressão em meu peito, como se as palavras que precisavam ser ditas estivessem presas dentro de mim. Olhei para Carlisle, buscando aquela sensação de segurança que sempre senti em sua presença, e senti a mão de Edward segurar a minha. Uma estranha onda de calor me atingiu e fechei os olhos.
Quando finalmente abri os olhos, olhei para o rosto de Edward, a névoa que distorcia seu rosto começou a se dissipar, revelando contornos mais nítidos e traços que antes estavam for a de alcance.
Eu pisquei algumas vezes, tentando ajustar minha visão. Não conseguia acreditar que finalmente eu estava conseguindo enxergar um rosto novamente, não sabia o que tinha causado aquilo, mas agora conseguia enxergar Edward com claridade. Seus olhos escuros refletiam uma mistura de emoções que eu ainda não conseguia decifrar completamente. Havia algo no olhar dele que me intrigava—uma intensidade e uma profundidade que eu não tinha percebido antes.
Desviei meus olhos para Carlisle que estava ao meu lado, seu rosto ainda estava encoberto por uma nuvem branca, distorcida assim como de todos os outros passageiros.
Olhei para Edward confusa. Por que ele era única pessoa que eu conseguia enxergar?
Respirei fundo, absorvendo aquela nova realidade que se apresentava diante de mim. Talvez a louca que habitava em mim estivesse aos poucos se dissipando, talvez eu não sentisse mais que estava presa nesse inferno sozinha.
Algo havia mudado, mas eu ainda não sabia o porquê.
— Eu... não sei o que aconteceu — comecei a falar, meus olhos fixos ao chão. — Tudo parece errado, como se eu estivesse presa em um pesadelo que não consigo acordar. E quanto ao seu nome... — fiz uma pausa e olhei para Carlisle, lutando para encontrar as palavras certas. — Eu não sei como sabia, mas eu sabia. Eu só... sabia.
Carlisle e Edward trocaram um olhar, algo não dito passando entre eles. Tinha a sensação que eles estavam tendo uma conversa silenciosa apenas entre os dois.
— Isabella — Carlisle começou, sua voz ainda suave. — O que você quer dizer com isso?
— Você não está sozinha, Isabella — Edward disse e ele apertou minha mão. Um lembrete de que ele estava aqui comigo. — Estamos aqui para você. Mas você precisa confiar em nós.
Confiar. Era uma palavra simples, mas tão difícil de praticar. Eu queria confiar em Carlisle, em Edward, mas o medo e a incerteza me dominavam.
Respirei fundo, tentando acalmar minha mente. Eu estava cansada de fugir, cansada de me perder nesse ciclo sem fim. Se havia uma chance, por menor que fosse, de entender o que estava acontecendo, eu precisava agarrá-la.
— Eu... — começo e respiro fundo, tentando manter a voz firme. — Tem algo de errado nesse avião.
— Você precisa entender que, se acha que há algo de errado, pode nos contar o que está acontecendo. — Carlisle fala, com uma voz ainda gentil. — Ninguém aqui deseja causar mal a ninguém.
Eu olho para Carlisle, notando sua tentativa de me acalmar, mas também percebendo a preocupação evidente em seu rosto. O que eu experimentei é difícil de explicar de uma maneira que soe razoável. Mas há algo genuíno em suas palavras: algo está muito errado, e eu preciso agir antes que seja tarde demais.
— Eu não posso explicar tudo agora — digo, minha voz tremendo um pouco. — Mas tem algo acontecendo nesse avião. Eu não sei quem ou o que, mas é como se eu estivesse presa em uma repetição sem fim.
Carlisle me olha com uma expressão de preocupação, enquanto Edward parece estar ponderando minhas palavras. O silêncio que se segue está carregado de tensão.
— Continue — Edward diz, quando hesito.
— Eu... — penso em como explicar sem parecer uma louca. — O avião vai cair em poucos minutos — digo, observando as expressões de surpresa de Edward e Carlisle. — Não sei como falar isso de outra forma, mas isso continua se repetindo a cada dia. Todos vamos morrer, mas de alguma forma eu acordo e estamos novamente no avião.
— Repetindo? — Carlisle pergunta, sua voz carregada de confusão e surpresa. — Mas como isso é possível? — ele murmura mais para si mesmo do que para mim.
— Eu não sei — respondo sinceramente, surpresa por ele estar realmente acreditando em mim. — Eu cheguei a conhecer você antes em alguns ciclos.
Carlisle parece atordoado, suas sobrancelhas franzidas enquanto tenta processar a informação. Edward, por outro lado, ainda mantém um olhar penetrante sobre mim.
— Você está dizendo que... — Carlisle começa, sua voz carregada de confusão, — que você está revivendo o mesmo dia repetidamente?
Eu assinto, o peso das minhas palavras parecendo finalmente se instalar na mente de Carlisle. A sensação de estar sendo avaliada com um olhar crítico e inquisitivo é opressiva.
— Isso não é algo que eu possa explicar com facilidade — continuo, — mas eu venho tentando evita que isso se repita. Eu já tentei de tudo... Mas isso não tem fim, isso nunca acaba.
Carlisle parece contemplativo, passando a mão pelo queixo enquanto pensa nas implicações daquilo. Edward ainda está calado, mas a tensão em seus ombros indica que ele está levando a situação a sério.
— Vamos assumir, por um momento, que o que você está dizendo é verdade — Carlisle diz finalmente, sua voz mais firme. — Precisamos investigar o que pode estar causando isso. Se há uma repetição, algo deve estar gerando esse efeito.
Edward olha para Carlisle e depois para mim, seu olhar continua sendo impenetrável.
— Se você realmente está revivendo o mesmo dia, então qualquer coisa que você faça pode ter um impacto — Edward fala com uma voz carregada de seriedade. — Precisamos encontrar uma maneira de identificar a origem desse ciclo.
Sinto um leve alívio ao ver que Carlisle e Edward estão dispostos a investigar a situação. A ideia de ter algum apoio na luta contra o ciclo interminável me dá uma pequena esperança.
— Precisamos garantir a segurança dos passageiros e descobrir qualquer detalhe que possa estar contribuindo para essa situação. Vamos fazer uma revisão completa do voo, falar com a tripulação e verificar qualquer anomalia que possa ter passado despercebida – Carlisle completa com a voz firme.
Edward inclina a cabeça, como se estivesse pensando em algo mais.
— Também precisamos entender o que você fez antes de o ciclo reiniciar — ele diz, — porque pode haver uma ação ou evento específico que esteja influenciando isso.
Percebo que há muito a fazer e que a situação está longe de ser simples. Mas, pelo menos, agora tenho aliados que parecem dispostos a me ajudar a resolver o mistério.
— Então, o que devemos fazer primeiro? — pergunto, com um tom de determinação.
Carlisle e Edward trocam olhares, e Carlisle responde com um aceno.
— O que você nos disse é incrivelmente sério — Carlisle diz, olhando diretamente para mim. — Precisamos verificar todos os sistemas do avião e garantir que não haja falhas que possam levar a uma emergência. Você está certa de que o avião vai cair em poucos minutos?
Assinto com firmeza. Com a ajuda de Carlisle e Edward, sinto que tenho uma chance real de descobrir a verdade e, finalmente, escapar do pesadelo que me atormenta.
— Sim, é o que sempre acontece. A explosão vem e logo depois que eu desmaio. — falo, e meu coração acelera ao pensar em uma possibilidade. — O que acontece se não conseguirmos evitar a queda? — pergunto, minha voz trêmula.
Carlisle me olha, seu olhar grave.
— Se não conseguirmos evitar o acidente, faremos o possível para minimizar os danos e proteger os passageiros. Mas estamos fazendo tudo o que podemos para garantir que isso não aconteça.
Me esforço para manter a calma, mesmo com o desespero que ainda me consome. Sei que o tempo está se esgotando e que preciso de todas as informações e ajuda possíveis para conseguir finalmente quebrar o ciclo.
— Que horas a explosão acontece? — Carlisle pergunta, e olho o relógio.
Olho para o relógio e percebo, com um nó na garganta, que não há mais tempo sobrando. O desespero aumenta ao ver que o ponteiro está se aproximando do momento fatal.
— Não há mais tempo — digo, minha voz tremendo. — A explosão vai acontecer em poucos segundos.
Carlisle e Edward trocam um olhar preocupado, e eu sinto o peso da iminente catástrofe em meus ombros. Edward, com uma expressão grave, se aproxima de mim e me abraça com firmeza. Seu abraço é reconfortante, uma última ancla em meio ao caos.
— Isabella — ele sussurra em meu ouvido, sua voz carregada de uma mistura de dor e urgência. — Quando você voltar... procure por nós no próximo ciclo. Nós estaremos esperando.
O calor de seu abraço é o único consolo que encontro em meus momentos finais. Sinto uma lágrima escapar enquanto Edward me segura com força. O som dos motores do avião parece se intensificar, e o pânico começa a se misturar com uma aceitação resignada.
— Eu... vou procurar por vocês — murmuro, antes de me entregar ao abraço e ao destino inevitável.
A explosão acontece, e o mundo ao meu redor se dissolve em chamas e destruição. Mas, mesmo enquanto a escuridão me engole, a promessa de Edward ecoa em minha mente, um fio de esperança em meio ao abismo.
