Confissões e Primeiros Passos

A lua cheia ainda estava longe, e a noite em Grimmauld Place era silenciosa, exceto pelo ocasional tilintar de pratos na cozinha. Remus Lupin olhava para a lareira apagada, com a mente perdida em pensamentos. Ele e Tonks estavam sozinhos na casa da Ordem da Fênix, um refúgio temporário, agora que os temores quanto à guerra se tornavam cada vez mais sufocantes. O seu coração batia com força, um nervosismo que ele raramente sentia. Remus estava habituado a controlar a suas emoções; a vida inteira aprendera a conter-se, a temer o impacto que poderia ter sobre os outros.

Mas Tonks... Ela era diferente. Ela desarmava-o.

- Hei, estás bem?- A voz de Tonks era suave, quase tímida, uma tonalidade que não lhe era comum. Estava parada à porta, o cabelo cor de lavanda brilhando na penumbra da sala. Acabara de tomar banho e Lupin sentia de longe o aroma doce do seu perfume. Havia uma incerteza nos olhos dela que combinava com a que ele sentia no próprio peito.

- Sim, estou. - Remus respondeu, mas o sorriso que tentou esboçar não se formou completamente. Tinha as mãos entrelaçadas no colo, um gesto que só fazia quando estava extremamente nervoso. – Estou a tentar esquecer o enterro do Dumbledore. Estou exausto emocionalmente. Mal consigo raciocinar. Estou esgotado. E dpois, aqui estás tu Porquê? Tenho tanto medo do que pode vir a acontecer. Já sofri tantos golpes, tantas perdas… Não tenho nada a oferecer-te. E tu não conheces o meu outro lado.

Ela aproximou devagar, com os olhos fixos nos dele. Remus sabia que havia sido injusto com ela, que tentara afastá-la muitas vezes, achando que não era digno do seu amor, que o peso da sua maldição era um fardo que ninguém deveria carregar. Mas Tonks, com a sua teimosia e coragem, não aceitara nenhuma dessas desculpas.

- Remus, sabes perfeitamente que não tens motivo algum para ficar assim em relação a mim. – Sentou-se ao lado dele, a perna roçando na dele, o calor do seu corpo fazendo com que o seu coração batesse ainda mais depressa. - Eu estou aqui porque quero. Contigo. Não com uma ideia de ti, não com uma versão sem problemas. Contigo.

Ele desviou o olhar, com o conflito interno evidente na sua expressão.

- Eu... Eu sei, Tonks, mas é difícil para mim...

Ela ergueu a mão e tocou no rosto dele, fazendo-o olhar para ela.

- Eu também estou nervosa, sabes? Não sou exatamente uma especialista nisto de relações amorosas. - Tonks esboçou um sorriso torto, tentando aliviar o clima. - Na verdade, sou desastrada até nisso, portanto, se errarmos, vamos errar os dois juntos.

Ele engoliu em seco, ao perceber o rumo que as coisas iam tomar e o que estava implícito, qual subtexto, nas palavras dela. Os dois, sozinhos, com uma paixão recolhida durante tanto tempo… Era tudo tão novo para ele. Tentou recompor-se e riu suavemente, a tentar aliviar um pouco a tensão que sentia nos seus ombros, dizendo:

- Tu nunca erras, Tonks. Só fazes as coisas à tua maneira.

Ela revirou os olhos, mas a sua expressão era terna:

- Está bem. Então, se eu estiver nos teus braços, derrubar um candeeiro sem querer, tropeçar e cair, não te vais espantar.

Remus virou-se para ela, com um sorriso terno, tomando a sua mão nas dele:

~- Não, mas vou segurar-te.

O sorriso de Tonks alargou-se, e ela inclinou-se para a frente, unindo os seus lábios aos dele. Foi um beijo doce, hesitante, como se ambos estivessem a tentar medir o que estavam prontos para partilhar. O sabor do chá de canela que ela havia tomado antes ainda pairava na sua boca, e a sensação fez com que Remus sentisse uma onda de carinho e desejo como nunca antes sentira.

Deram as mãos e, sem dizer nada, foram para o quarto que ele ocupava em Grimmauld Place. Não havia pressa. Sentaram-se na cama e começaram a conversar. O tempo foi passando.

Agora, o calor da lareira iluminava suavemente o quarto e, o crepitar das chamas era a única música que preenchia o ambiente. Lupin e Tonks tinham passado o último par de horas a conversar, a trocar histórias, a rir sobre os momentos que partilharam durante as missões para a Ordem. Mas agora o riso já se tinha dissipado, e um silêncio confortável reinava entre eles.

Remus olhava para Tonks, o cabelo dela ainda em tons de lavanda, um sinal de tranquilidade e felicidade. Estava sentado ao lado dela na cama, sentindo o coração bater um pouco mais depressa do que o normal. Ela parecia tão descontraída, tão... certa do que queria. Ele, por seu turno, sentia-se como um miúdo desajeitado, em vez do homem que ela acreditava que ele era.

- Dora- Começou ele, com a voz hesitante. O diminutivo que lhe atribuía estava carregado de carinho, mas também de uma insegurança que ela percebeu de imediato.

Ela virou-se para ele, com as sobrancelhas arqueadas em curiosidade:

- O que foi, Remus? - perguntou, estendendo a mão para tocar suavemente na dele. - Pareces preocupado.

Ele respirou fundo, tentando encontrar as palavras certas. O medo de dececioná-la, de não ser o que ela esperava, fazia-o querer recuar, mas sabia que não podia. Não queria esconder nada dela.

"Eu... Eu preciso de te contar uma coisa," ele disse, a voz soando baixa, quase tímida. Ele desviou o olhar, sentindo o rosto começar a corar. "Sobre... sobre mim. Sobre algo que eu nunca..."

Tonks estacou. Mais um mistério? O que poderia ser pior do que o facto de ele ser um lobisomem? Inclinou a cabeça, com os olhos fixos nele, mas o seu toque permaneceu firme e tranquilizador:

- Podes contar-me qualquer coisa, Remus. Acho que já percebeste que não há nada que me possa fazer deixar de te amar. – Acrescentou, sorrindo levemente.

Ele devolveu-lhe o sorriso, grato pelo apoio dela, mas ainda a lutar para dizer o que era precido.

- Eu nunca...- Começou, à procura das palavras certas. - …estive com alguém.

Soltou o ar que não sabia que estava a prender, sentindo um peso sair-lhe dos ombros, mas, ainda assim, o medo permanecia.

Foi então que, para seu espanto, ela resolveu ajudá-lo:

- Estás a querer dizer-me que… és virgem?

- Sim. – Respondeu ele, imediatamente, como que aliviado, mas em tom sério e algo até estranhamente formal para o momento. – Sim, sou.

Tonks piscou os olhos, espantada apenas pela forma como ele parecia envergonhado e a esconder novamente as emoções. Já suspeitava que Remus não tinha tido muitos relacionamentos, considerando a forma como sempre se distanciava dos outros e as suas constantes tentativas de afastá-la. Mas vê-lo tão vulnerável, ao admiti-lo, fez com que o seu coração se enchesse de ternura.

- Remus… - Sussurrou ela, segurando o rosto dele com as duas mãos, forçando-o a olhar para ela. - Isso não muda nada. Na verdade, eu já sabia. Ou, pelo menos desconfiava. E tu achas que eu... esperava que fosses algum mulherengo? - Ela sorriu, tentando aliviar a tensão.

Lupin riu nervosamente, mas os olhos dele ainda estavam carregados de incerteza:

- Sempre me mantive afastado de... tudo isso. Nunca pensei que... que fosse possível, que alguém me pudesse querer dessa forma. Sou um lobisomem, Dora. Não conheço nenhum que tenha... procriado. Além disso, sempre tive em mente que qualquer mulher que se aproximasse de mim estaria em risco.

Tonks acariciou o rosto dele com os polegares, com os olhos brilhando de compreensão;

- Eu sei. E entendo porque me tentaste afastar tantas vezes, mesmo tendo a ajuda da poção. Mas eu estou aqui, Remus. Eu escolhi estar contigo. Não porque resolvi ignorar quem tu és, mas porque amo quem tu és, exatamente como és. Não quero mais ninguém.

Ele sentiu um aperto no peito ao ouvir aquelas palavras. O medo ainda estava presente, mas foi começando a ser substituído por uma onda de afeição e gratidão:

- Mereces alguém melhor. Alguém sem todos estes... problemas.

Ela revirou os olhos, ligeiramente enfastiada, mas com um leve sorriso nos lábios:

- Outra vez, Remus? Eu mereço a pessoa que amo e pronto. – O sorriso estava agora um pouco mais travesso. – Sabes uma coisa? Pode ser um génio, mas às vezes é um idiota.

Inclinou-se para ele, beijando-o suavemente, antes de sussurrar contra os seus lábios:

- Amo-te, Remus. E não vou a lugar nenhum.

Ele sentiu o corpo relaxar um pouco mais, mas ainda havia algo que precisava de ser dito. Puxou o rosto dela para trás, apenas o suficiente para poder olhá-la nos olhos.

- E tu? - Perguntou, com a voz quase num sussurro. – Disseste que... tiveste um namorado a sério, mas eu nunca quis perguntar...

Tonks suspirou, com os dedos a brincar com a gola da camisa dele, como se tentasse encontrar as palavras certas:

- Sim, tive. Mas não foi nada bom, Remus. Ele... era um pouco abusivo. Não fisicamente, mas psicologicamente. Não lidava nada bem com o meu lado desastrado. Estava sempre a fazer-me sentir que eu nunca era boa o suficiente, e eu... acabei por acreditar nisso por uns tempos. - Mordeu o lábio inferior, com os olhos a brilhar com uma dor antiga.

- E quanto a... àquilo? – Ele não conseguiu terminar a frase, mas ela percebeu.

- Não era amor" - Resumiu ela, suavemente. - Eu nunca o amei de verdade. Nunca me senti segura com ele. Estar com ele era... desconfortável, para dizer o mínimo. Aproveitava-se do facto de eu ser metamormaga para fazer de mim uma pessoa que eu não era. Depois de terminarmos, não quis mais ninguém até... bem, até te conhecer. – Soltou uma pequena gargalhada, um som leve e nervoso. – És o único homem que alguma vez amei, Remus.

Remus ficou em silêncio por um momento, absorvendo as palavras dela. Saber que ela também tinha as suas inseguranças, que ela também estava nervosa, fazia com que ele se sentisse um pouco menos inadequado. Passou os braços ao redor dela, abraçando-a com força, como se quisesse protegê-la de qualquer dor, até mesmo das memórias.

- Amo-te, Dora. - Sussurrou, com a voz embargada. - E não sei como fazer isto, como... estar contigo você, mas...

Ela colocou o dedo nos lábios dele, silenciando-o:

- A única coisa que temos de saber é que queremos estar juntos. Todo o resto... podemos descobrir juntos."

Ele assentiu e os seus olhos encontraram-se com os dela, cheios de promessa e confiança:

- Eu quero.

Ela sorriu, um sorriso cheio de amor e esperança:

- Então vamos devagar, sem pressa. Não precisamos de correr. Só precisamos de ser nós mesmos.

Beijou-o com carinho e desejo, e ele correspondeu, de todo o coração. Quando se afastaram, os olhos de Tonks brilhavam e a sua respiração estava um pouco mais rápida. Sabia que, para ele, era a primeira vez. No entanto, também ela não tinha muita experiência, e a pouca que tinha não era aquela maravilha de que falavam. Porém, sentia por ele um desejo que jamais imaginara ser possível sentir por alguém. Amava-o profundamente, como nunca amara alguém… e o amor, dizem, é o melhor afrodisíaco que existe. Aninhou-se no peito dele, sentindo o bater descompassado do coração de Lupin.

E, naquele momento, enquanto se seguravam um ao outro, sentindo a proximidade e o calor, Remus e Tonks começaram a dar seus primeiros passos em um território novo e desconhecido, juntos. Não havia pressa, apenas a promessa de um amor que, mesmo com todas as cicatrizes e medos, era real e verdadeiro.

A magia daquele momento não estava nas varinhas ou nos feitiços, mas na vulnerabilidade e na coragem de se entregarem um ao outro, completamente, pela primeira vez.