Carla deu uma boa olhada no que estava pela frente, uma subida enorme que aparentava não ter fim, a não ser pela fumaça que marcava o topo das montanhas.
-É uma subida e tanto - ela acabou comentando em voz alta.
-Eu sei, mas eu também sei como chegar lá - Spider garantiu - de um jeito mais fácil pra nós.
A frase dele, em vez de surtir um efeito reconfortante, acabou destacando a diferença que ela já tinha sentido desde que tinha chegado. Ela era uma estranha entre os nativos, no entanto, aquele humano estava completamente integrado, no seu habitat natural. E quanto mais tempo Carla passava com Spider, mais isso a intrigava.
-Tudo bem - ela respondeu, depois de perceber quanto tempo ficou em silêncio.
Assim, Spider diminuiu o ritmo, deu passos precisos e mais lentos em cada trecho da jornada, Carla o seguiu diligentemente, completamente atenta ao que ele fazia.
Em certo momento, ela sentiu os pés vacilarem. Imediatamente, por reflexo, ela estendeu os braços em busca de equíbrio.
Spider ouviu os pés dela contra as pedras, agarrou seu braço imediatamente, a ajudando a manter o equilíbrio.
-Me desculpe - foi o que ela pensou e disse, se sentiu falha em sua única e simples tarefa.
-Não tem nada do que se desculpar - ele logo a tranquilizou - talvez eu não tenha escolhido o caminho mais certo.
-Não, não - Carla negou - tenho certeza que você sabe exatamente como andar por aqui, é só que é tudo novo para mim.
-Como um dia foi pra mim, consigo compreender seus sentimentos - ele a apoiou.
Ela apenas respondeu com um sorriso, pensando que era difícil imaginar Spider sem habilidades para escalar. Apesar de humano, se encaixava perfeitamente ao seu ambiente.
Cada vez mais, Carla se sentia mais curiosa sobre ele, mas se continha em perguntar, não queria parecer indelicada. Quando ela olhou ao seu redor e viu espécimes das plantas que estava procurando, finalmente se sentiu aliviada e se pôs a trabalhar. Ao menos tinha valido a pena seus esforços de ter subido até ali.
Depois de alguns momentos de silêncio, Spider resolveu quebrá-lo em uma conversa.
-Então, o que te trouxe a Pandora? - ele não conseguiu pensar em nada além disso.
-Eu... bem, toda a população precisou vir pra cá, nós... perdemos a Terra... - ela deu uma resposta geral, mas cheia de tristeza pessoal.
-Eu ouvi falar disso, de como a Terra estava... - ele respondeu, com a mesma cautela dela.
-Como? - Carla interrompeu o trabalho, surpresa.
Agora, ela realmente precisava entender de onde vinha aquele rapaz e qual era sua história por inteiro.
-Eu cresci com alguns humanos, eles me criaram - ele contou - cientistas, como você.
-Mas então... ? - a declaração só deixou Carla mais confusa.
-Como eu vim parar aqui? - Spider se deu ao luxo de dar uma risada - é uma longa história, eu posso te contar, se não te atrapalhar.
-Eu garanto, não vai - ela sorriu de forma doce para ele.
Spider achou que era um sorriso bonito e irresistível, teria que contar a história por causa dele.
-Eu sou filho biológico de militares, meu pai liderou os humanos na guerra contra Toruk Makto - Spider disse - o meu pai morreu, mas a RDA o reconstruiu como um recombinante, ele é o consorte da Varang.
-Isso explica muita coisa - Carla deixou escalar um comentário sincero.
-É, eu fui adotado pelos líderes do clã - ele explicou - a Varang é realmente como uma mãe pra mim.
-Entendi, você aprendeu a ser como um na'vi com eles - a cientista logo deduziu.
-Ah na verdade, não - Spider riu, o que Carla acabou achando bom, ela descobriu que gostava quando ele ria, fazia tudo parecer mais leve e menos denso - eu cresci perto dos filhos de Toruk Makto, são meus amigos mais antigos.
-É sério? Então, uau, isso é... - Carla não conseguiu encontrar palavras - impressionante.
-Eu sei, mas eu não gosto de me gabar por isso - ele deixou claro.
-Tudo bem - ela concordou com ele.
Ela terminou de coletar suas amostras e se levantou, pronta para partir. Spider a observou se equilibrar de novo. A princípio, ela até podia parecer frágil e delicada, mas apesar da falta de habilidade nas montanhas, ela parecia ter uma mente muito aguçada, afinal, ela era uma cientista.
-Eu tive uma ideia - ele disse em voz alta e Carla se voltou para ele - talvez se eu descer mais devagar e segurar sua mão, você não escorregue de novo.
-Tudo bem - ela concordou de imediato, achando uma boa ideia.
Carla segurou a mão que Spider ofereceu e juntos, eles foram descendo a montanha. A primeira sensação que ela teve foi um arrepio, um estranhamento. Ninguém nunca tinha pegado sua mão daquela forma protetora e cuidadosa, a não ser quando ela era criança.
Mas depois de um tempo, ela se sentiu segura, observando gratidão surgir em seu coração, por Spider ser tão gentil.
Eles demoraram mais para descer, mas ao menos, ali estava Carla sã e salva, com os pés firmes no chão outra vez.
-Obrigada - ela fez questão de dizer.
-De nada - Spider sorriu.
Para ele, havia um sentimento de satisfação em ver que ela estava se sentindo bem. Por mais habituado que estivesse a ser um na'vi, era como se ele tomasse pessoalmente a missão de fazer um dos seus semelhantes, ainda mais alguém sem intenção de machucá-los, se sentir bem ali.
Eles voltaram para a casa de Spider em silêncio, durante algum tempo, até serem interrompidos por uma aparição surpresa no caminho.
-Eu vejo você ma'Spider - Guaitani o cumprimentou.
-Eu vejo você, ma'Guaitani - ele foi educado, na mesma medida, mas muito atento às ações seguintes dela.
-Quem é a mulher do povo do céu que trouxeram com vocês da guerra? Uma prisioneira? - ela questionou, observando Carla com olhar desdenhoso.
-Ela é uma cientista, uma estudiosa deles - ele explicou - veio pra cá apenas para colher plantas das montanhas, nada mais.
-Eu espero que não tenham feito a escolha errada em trazê-la até aqui - a jovem na'vi foi bem direta.
-Não foi, eu garanto - Spider sentiu a necessidade de defendê-la.
Carla, que entendia na'vi, conseguiu perceber toda a hostilidade contra ela. Por um lado, se ofendeu, mas por outro, não podia culpá-la, afinal, era o povo dela que tinha causado muito sofrimento aos na'vi.
Carla seguiu seu caminho com Spider, porém sem ter ideia que havia muito mais por trás da hostilidade de Guaitani.
