Abro a porta da mansão Rosier e estava tudo muito quieto, será que ele já chegou?

Coloco a mão no bolso e sinto o bilhete que deveria ter colocado na bolsa, mas agora que está aqui, continuará aqui.

Fecho a porta e subo para o segundo andar, porém, antes de abrir a porta, respirei fundo umas três vezes, tentando não ficar nervosa, mais que já estou, mas qual é? Verei um garotinho e não um homem, mesmo sendo um.

Abro a porta e o abajur estava acesso, me surpreendendo no processo por ver uma pessoa sentada na poltrona que tinha no quarto. Não era um garoto e sim, um homem.

Acho que entrei na residência errada.

_ Boa noite, coelhinha. - Fechou o livro e me olhou.

Minha respiração ficou presa na garganta e meu corpo se arrepiou... Era ele, aquele homem que vi em 1981.

_ O que foi? - Merda, ele era tão bonito assim? _ Surpresa por me ver assim e não um garoto? - Engoli em seco e tentei não prestar atenção no barítono de sua voz.

Ou de seus olhos incrivelmente vermelhos e intensos, que me olhavam como se fosse a comida principal.

Sua pele estava bronzeada por conta da luz alaranjada do abajur e suas roupas eram tão refinadas que podia sentir o cheiro de roupa nova de longe, mesmo sendo apenas um terno de três peças e totalmente negro como a noite lá fora.

Meu coração não parava quieto no peito e só conseguia observar aquela pessoa sentada que me olhava com tamanha intensidade.

Seus cabelos estavam arrumados, mas, ao mesmo tempo, estavam bagunçados.

_ Little lord? - Fiz que a minha voz saísse, mesmo que fosse apenas um sussurro.

_ Estou tão diferente assim? - Sorriu de lado e aquela imagem parecia tão pecaminosa. _ Não quero conversar com você estando nesse corpo, quero conversar com você como adulta. - Balançou um vidrinho.

_ Nenhuma poção funcionará para reverter o meu estado, fiz a poção para que...

_ Não confia em mim? - Ri e fechei a porta.

_ Fiz isso por um ano e olha a situação em que estamos. - Fui até ele. _ Mentiu para mim...

_ A poção, Leesa. - Avisou, cruzando as pernas. _ Não falarei nada com você assim. - Parecia enojado. _ Somos adultos e precisamos...

_ Conversar como adultos. - Concordei. _ Vou tomar banho, então, se quiser algo, é só pedir ao Penny.

_ Tem vinho? - Perguntou enquanto eu ia para o banheiro.

_ Deve ter. - Fechei a porta do banheiro.

Respirei fundo e coloquei a mão no meu coração, ele estava batendo tão rápido que meus olhos ardiam devido à intensidade dos sentimentos.

Ele sempre foi daquele jeito? Não me lembro de muitas coisas do passado, mas ele não era assim...

Tiro a minha bolsa e a coloco no balcão.

Olho para a poção e queria saber quanto tempo ela demorava para me fazer voltar ao normal, não queria fazer aquela poção novamente e passar por aquilo tudo de novo.

E como essa poção funcionava? Ela não é a poção da Leesa, ou é?

Coloco a poção no balcão e começo a retirar as minhas roupas, porém, antes de jogar as roupas no cesto, retiro o bilhete e o coloco na bolsa.

Retirei os anéis, a varinha com o coldre e o curativo, mas o meu dedo continuava com uma ferida e precisaria de outro curativo, espero que o Penny tenha algum em casa... Não, com certeza tem.

Peguei a poção e a examinei, a destampando, o cheiro de podridão era tão forte que queria vomitar.

Mas fui forte e tomei a poção em um único gole, e mesmo que meu corpo quisesse expulsar isso, não podia.

Respiro fundo e jogo o vidro no lixo, esperando acontecer alguma coisa.

_ Você está bem? - Escutei a sua voz rouca e latente.

_ Acabei de tomar a poção, então só estou esperando algo... - Sufoquei um grito e apertei o balcão com os meus dedos. _ Dói. - Vejo minha pele borbulhar. _ Mas não tanto quanto a minha.

_ Deveria ficar feliz por isso? - O escuto alisar a porta.

_ Fique. - Respirei fundo e deixei minha mente em branco para me acostumar com o meu corpo crescendo rapidamente. _ Como funciona essa poção? - Minha voz ficou diferente, era como antes, forte e altiva.

_ Quando você sair daí, eu conto. - Revirei os olhos. _ E não revire os olhos. - Olhei para trás, mas a porta estava fechada.

_ Você... - Riu e até mesmo a risada dele me fazia arrepiar. _ Terei que cortar os meus cabelos novamente. - Eles cresciam comigo, mas nunca diminuíam comigo.

_ Vemos isso depois, agora tome um banho. - Faria isso sem que me pedisse. _ Quero vê-la. - Merda, little lord, não diga coisas assim.

Olhei-me no espelho e vejo que não demorou tanto, ou doeu como aquela poção, mas estava mais uma vez com o meu corpo que nunca pensei em rever em tão pouco tempo.

Mas estava exatamente igual, apenas com o cabelo maior por algum motivo.

Tento mexer os meus membros e não estava desconfortável, e até mesmo a minha magia estava normal no meu corpo. Isso era ótimo, não queria passar dias sem a minha magia.

Mas devo parabenizar o little lord por essa poção.

Dou alguns passos em direção do box, e não sinto a estranheza de ter o meu antigo corpo como aconteceu comigo naquele dia.

Minhas pernas não estavam bambas e nenhum membro estava estranho, mas a única coisa que me incomodava era que não cresci, continuava com os meus odiáveis 1,70.

Abro o registro e começo a tomar banho, sentindo a estranheza de ter novamente seios medianos ao invés de limõezinhos.

Voltei a ter 28 anos com apenas uma poção e isso era estranho, mas era muito melhor que ser uma criança e não poder fazer nada como ando fazendo.

Não posso ir em lugar algum que deveria ir e isso era horrível, mas isso só prova que deveria ter pensado mais em como me tornar uma criança.

Suspirei, enquanto lavava os meus cabelos que batiam na minha bunda e isso estava me irritando.

Contudo, depois de alguns minutos, fechei o registro e peguei uma toalha para me secar, mas ao invés de colocar uma roupa, apenas coloco um roupão felpudo no meu corpo.

Não queria colocar roupas que em poucos minutos teria que tirar para colocar uma menor.

Apenas vejo se estava dando para ver alguma coisa e não, estava tudo perfeito. Coloco a toalha no toalheiro e faço o meu dedo se curar, dando um laço no roupão logo em seguida.

Embora tivesse que colocar um curativo no meu dedo, já que iria me machucar em algum momento, preferia fazer isso depois.

Coloco os meus anéis e arrumo o meu colar no meu pescoço, pegando a varinha, o coldre e a bolsa, torcendo para que tudo desse certo depois que saísse daqui.

Arrumei meus cabelos e saio do banheiro, mas o little lord não estava ali, talvez esteja no andar de baixo...

Joguei minhas coisas na poltrona e saio do quarto.

Precisava tirar satisfação do motivo dele mentir e só de pensar nisso, a raiva que estou tentando reprimir para agir com racionalidade está me matando.

Desço a escadaria e olho em todos os cantos, mas ele não estava em lugar algum, será que ele era apenas a minha imaginação pregando peças?

Não, era real.

Paro no corredor do jardim e sigo em frente, e lá estava ele, observando o céu e a neve que não caia no chão devido a feitiço que não sei qual é.

Meus pés pisaram na grama e o orvalho me fez arrepiar, me lembrando que odiava que meus pés ficassem molhados, mas tinha um bom motivo para esquecer isso.

Passo por ele e me sento ao seu lado, o vendo me oferecer uma taça de vinho.

_ Penny me mostrou tantos vinhos que pensei que estivesse no paraíso. - Comentou e apenas peguei a taça. _ Quero pedir desculpas. - Fiquei surpresa e fiquei sem entender.

Era a segunda vez que me pedia desculpas... Ou era a terceira? Bom, quando estou com ele não preciso contar as coisas, posso esquecer de pensar e agir naturalmente.

_ Por que está me pedindo desculpas? - Alisei a taça.

_ Por mentir, você foi honesta comigo, algo que elas não foram. - Franzi a testa.

_ Apenas li algumas páginas do diário delas, não sei o seu romance com elas ou de seus filhos, só sei o básico. - Abriu e fechou a boca.

_ Quando você descobriu que fui o seu marido? - Isso deveria me enojar, mas não sinto nada.

_ Hoje. - Bebi o vinho e o gosto doce e amargo fizeram meus olhos lacrimejarem. _ Você também escreveu aqueles bilhetes.

_ Sim, queria conversar com você.

Sua voz estava calma, mas estávamos falando de coisas que poderiam mudar toda a nossa história.

_ Queria saber se você me aceitaria quando soubesse de tudo.

_ E não aceitei. - Suspirou e bebeu o seu vinho. _ Porque não sabia que era você.

_ Você me aceitaria se você soubesse que...

_ Sim. - O olhei. _ Você tem razão, Tom. - Parecia que apenas por aceitar isso já me fazia enlouquecer. _ Não posso brigar com você e agir com infantilidade, sou uma adulta e mesmo querendo esquecer o que vivi com você, não posso ser hipócrita.

_ Pensei que estaria com raiva por ter mentido. - Acenei.

_ Deveria, mas não sinto nada. - De ruim em relação a tudo. _ você deve ter o seu motivo, porém, também menti para você, na verdade, omiti muitas coisas.

_ Acho que o meu deve ser mais grave. - Bebi mais um pouco. _ Queria ter contado, mas cada vez que você dizia que não fez tal coisa que eu sabia que você fez, acreditava cada vez mais que você tinha apagado suas memórias.

_ Não sou elas, Tom. - Minha voz falhou. _ Me desculpe, mas...

_ Sim, você realmente não é elas. - Mordeu os lábios e isso me fez ter mais certeza de que não tínhamos os mesmos sentimentos. _ Mas antes de dizer o motivo de acreditar nisso agora, vou te falar o motivo de mentir.

_ Por favor. - Tomei o último gole, sentindo que isso era pouco para essa conversa.

Antes que pudesse pegar a garrafa, ele colocou o vinho em minha taça, me fazendo agradecer.

_ Menti porque tive medo de perder você, de perder a única pessoa que poderia me entender, a única pessoa que não me olhava como o Lorde que deveria ser o Deus do mundo. - Meu coração doía por ver seus olhos tristes. _ Você me olhava como um ser humano e não como uma marionete como você tanto desejou que eu fosse.

_ Acho que quem era a marionete era eu. - Zombei.

_ Não, nunca falei uma única mentira para você. - Repensou. _ Bom, menos de fingir ser um garoto. - Alisei a borda da taça, vendo o meu reflexo no vinho. _ Não conseguia mentir ou de manipular você, parecia errado e parece errado. - Bagunçou os seus cabelos e bebi o líquido da taça.

_ Então devo te pedir desculpas, sempre pensei em te usar e estar atrás de você. - Discordou e me observou, pensando em algo que não sabia.

_ Não ligo de ser usado por você, pode usar, faz o que você quiser comigo. - Segurou a minha mão e alisou seu dedão em minha pele. _ Mas não fique com raiva de mim. - Suplicou. _ Não brigue comigo ou se afaste, porque não aguentarei ficar sem você.

Merlim, não queria repensar naquelas coisas de antes, mas como não posso pensar quando a pessoa que entreguei meu coração sem perceber me diz essas coisas?

_ Aqueles meses sem você, que você acreditava fielmente que havia apagado as minhas memórias foram os piores, tudo me lembrava você. - Beijou minha mão. _ Por isso que comecei a mandar bilhetes, queria ter pelo menos a sua caligrafia comigo.

_ Só mandei um bilhete e uma carta, bom, duas, já que mandei uma hoje. - Riu, colocando minha mão em seu rosto e o acariciei.

_ Mas foi o suficiente para sentir novamente o seu cheiro, mesmo que fraco. - Tombou a sua cabeça e ele parecia o Tommy quando procurava carinho.

_ Que cheiro? - Seus olhos estavam em meia-lua e eram adoráveis. _ Você não me contou naquele dia.

_ Talco, seu cheiro é adorável como você. - Ele sempre foi tão direto assim? _ Não contei por achar que você não acreditaria em mim, ainda mais estando naquela forma.

_ Não posso dizer que você está errado, mas cada dia que passava me convencia delas e ainda mais quando você estava lá por mim.

_ Sempre estarei. - Acredito nisso.

_ E tenho cheiro de bebê. - Mudei o assunto ou acabaria chorando.

_ Mas é um cheiro agradável. - Ficou me olhando e continuou. _ No dia que dei esse anel, tive a certeza de que você não era elas, aquelas mulheres que compartilharam uma vida comigo não gostariam de ganhar algo tão fofo. - Beijou o anel. _ O anel que carrega a minha alma. - Observou-me.

_ O que quer dizer?

_ Coelhinha, lembra do nosso primeiro dia? - Concordei. _ Naquele dia não estava morrendo pela febre e nem estava morrendo de verdade, estava partindo a minha alma.

Minha mão, que estava em sua posse, se foi, mas logo a pegou novamente.

_ Você matou quem? - Tentei colocar todas as peças em ordem. _ Seu tio? - Negou

_ Um trouxa qualquer, mas para conseguir o anel foi um pouco difícil. - Deixei a taça no banco de pedra e fiquei olhando o anel.

Queria saber mais, mas ele não entrou em detalhes, o que me fez perceber que isso era apenas o começo.

_ É o anel Gaunt transfigurado?

_ Sim. - Falou baixinho e me olhou, tentando desvendar o que faria em seguida.

_ Por que não sinto a magia negra ou...

_ Devido o juramento, minha magia é parecia com a sua, já que uma parte da minha magia é sua, e uma parte de sua magia é minha.

_ Meus pais, e...

_ Não sou um bruxo comum, consigo esconder a magia negra com um feitiço calmante e fiz de tudo para que a magia negra não fizesse a sua cabeça. - Alisou meus cabelos, acariciando minha bochecha em seguida.

_ Não sinto nada. - Dedilhou meus lábios. _ Para mim é apenas um anel normal e nem mesmo sinto a transfiguração. - Girei o anel. _ Mais o quê? - Quase beijei seu dedão.

_ Nesse dia foi o estopim para perceber que você não era elas.

_ Demorou um pouco, né? - Concordou. _ Deveria ter percebido quando aceitei a luminária.

_ Deveria, foi um erro meu. - Confessou. _ Viu, cometo erros. - Sorriu de lado, quase me fazendo enlaçar seu pescoço e beijá-lo.

_ Certo, você já me contou o motivo de mentir e até mesmo que meu anel fofo é uma Horcrux. - Estava levando isso numa simplicidade que me assustava.

_ O que você quer saber? - Não sei. _ Quer saber da minha vida com...

_ Não. - Isso não me interessava no momento. _ Realmente não me interesso por saber como elas eram ou como vocês se apaixonaram, mas tem coisas que quero saber.

_ Por favor, pergunte. - Peguei a taça e tomei um pouco do vinho, o que fez fazer o mesmo.

_ Você não deveria ser mal e essas coisas? - Quase cuspiu o vinho.

_ Não, não com você e não preciso ser um desgraçado com a pessoa que amo, posso ser apenas eu, Tom Riddle. - Apertou minha mão. _ Não gosta? - Estava apreensivo.

_ Não estou dizendo isso, só que é estranho não sentir sua hostilidade estando no seu corpo normal. - Apenas via carinho em seus olhos e suas ações eram mais amáveis.

Era como se nada tivesse mudado, ainda conseguia ver a alma que tanto passei a gostar e os olhos vermelhos que tanto passei amar, porém, acho que sempre o vi... Sempre vi a alma desse homem a minha frente, afinal, os olhos são a janela da alma.

_ Você...

_ O conheci em 1981, quando fui salvar o meu afilhado. - Engoli em seco.

_ E o que você achou daquela pessoa?

_ Não me lembro. - Realmente não me lembrava dos meus pensamentos daquela época. _ Mas posso dizer que naquela época pensava que o odiava.

_ Não me odeia mais? - Meu coração estava ansioso e me dava calafrios a cada segundo.

_ Tom, fiquei a minha vida toda pensando em como o odiava, para chegar naquele dia e tudo sumir por apenas um olhar. - Bebi o restante do vinho. _ Tudo que pensei naquela época, sumiu.

_ Você amadureceu, Leesa.

_ Sim, mas não vi isso, às vezes penso que só tenho 15 anos e quando acordar, estarei naquela cela novamente. - Apertei sua mão. _ Não tive infância e tento ter pelo menos isso quando tenho corpo de uma menina de 12 anos.

Minha voz tremia e queria me agarrar a essa pessoa.

_ Não tive amor dos meus pais, porque eles estavam ocupados demais correndo pelas suas vidas...

Respirei fundo e peguei a garrafa de vinho, bebendo o conteúdo até não sobrar mais nada, já que precisava de coragem.