Aquele era o quarto ano do mandato da Ministra Wilhelmina Tuft, uma mulher alegre e otimista, bastante popular entre os cidadãos do mundo mágico. Desde que assumiu o poder, ela criou a tradição de fazer as festividades de Natal e Ano Novo memoráveis para todos. Além de incentivar as comemorações entre os bruxos, ela mesma promovia uma festa de Réveillon, de caráter beneficente, que costumava contar com a presença das famílias ricas da elite bruxa.
Independente da causa a ser ajudada, quem era alguém no mundo bruxo estaria na festa.
Por isso, era a quarta vez que Sirius e Hesper Black participavam do evento ao lado das sobrinhas. Alguns outros membros da família ocasionalmente também compareciam.
As gêmeas se juntaram às jovens debutantes da alta sociedade, algumas colegas de Hogwarts, outras recém-formadas. Marguerith olhou discretamente para o canto onde Alphard e Bartemius pareciam compenetrados em uma divertida conversa. Por alguns segundos, ela fixou-se naquela cena, abstraindo-se completamente do assunto que as garotas próximas a ela discutiam.
Ela deu um sorriso discreto. A mente de Marge acabou vagando para o dia em que ela começou a perceber que o que ela sentia por Alphard estava saindo da esfera de amizade...
Marguerith não sabia se havia sido o olhar preocupado dele na ocasião ou o jeito cuidadoso com que ele tratou da ferida dela nos dias que se seguiram. A verdade era que aquele foi o primeiro dia em que começou a ver Alphie como alguém que ela poderia amar... E, por mais que ela tivesse tentando negar para si mesma aquilo que estava sentindo, o amor foi aumentando... Quanto mais ela lutava contra, mais o sentimento crescia dentro dela...
Talvez ela precisasse apenas acumular um pouco de coragem para deixar às claras o que sentia por ele.
O que importava a Marge era que naquele exato instante ela estava feliz. E isso bastava.
Ela virou o rosto novamente para as colegas, tentando participar da conversa, quando percebeu que Betelgeuse fitava alguma coisa atrás de Marguerith. A gêmea mais velha tinha um sorriso malicioso e intensamente sedutor.
Marge virou-se observando um homem alto e moreno, com olhos absurdamente azuis. Ele usava um terno de risca de giz, e, mesmo sob a roupa, era possível notar os músculos bem definidos.
Betelgeuse pediu licença às demais moças, e, ao passar pela irmã, sussurrou em seu ouvido:
-Aquele é Stephanio Ivory, ele está passando um tempo aqui em Londres a passeio e a negócios. Vi no Profeta Diário, vou me apresentar a ele.
Marge arregalou os olhos de leve, invejando a ousadia da irmã. Talvez pudesse aprender alguma coisa com ela.
A noite já havia caído sobre Londres fazia algum tempo, mas o decorrer das horas ainda não avançara o suficiente para que os habitantes da mansão localizada em Grimmauld Place estivessem quase todos completamente imersos no reino dos sonhos.
Contudo, era provável que entre estes a mais desperta fosse Marguerith. Já vestida com sua camisola branca de seda e envolta por um fino robe de mesmo material, a moça estava postada na frente da porta do quarto da irmã mais velha, andando de um lado para o outro, enquanto, inconscientemente roía as unhas, ato imperdoável para uma dama da sociedade bruxa, que deveria se manter impecavelmente alinhada. Mas, a jovem estava ansiosa demais para se importar com sua própria aparência.
Marge tinha um problema com o qual chegara à conclusão que não conseguiria lidar sozinha. Ela decidiu que precisava recorrer a alguém em que verdadeiramente confiava. Exatamente por essa razão, a caçula das gêmeas acreditava que a mais velha poderia compreender aquilo que lhe afligia.
A moça parou novamente diante da porta, prendeu a respiração, como se o ar inalado fosse lhe dar coragem extra para o que estava prestes a fazer. Bateu de leve na porta, só voltando a respirar quando escutou a voz de Bete convidando-a a entrar.
Ela estava de costas, os cabelos cor de ébano desciam pelas costas da moça, concentrada em penteá-los enquanto observava seu próprio reflexo no espelho da penteadeira.
- Faz dez minutos que está do lado de fora do quarto, Marge. Podia escutar seus passos daqui. - Betelgeuse disse em um tom neutro que a caçula não soube interpretar.
- Me desculpe, Bete. – Marguerith disse, enquanto apertava as mãos uma contra a outra, sem esconder o nervosismo. Geralmente era senhora de si, mas diante da irmã, permitia-se mostrar mais abertamente seus sentimentos.
Betelgeuse finalmente se virou, encarando avaliatoriamente a mais nova, observando cada detalhe do gesto da outra. Definitivamente não era preciso demorar- se em conjecturas para se concluir que algo perturbava Marguerith.
- O que você deseja? - a mais velha perguntou com um tom ligeiramente mais suave.
- Bete... - Marge balbuciou, com os olhos fixos nas próprias mãos, incapaz de fitar a irmã - Eu preciso de um conselho... e achei que talvez pudesse me ajudar...
A mais nova se calou, aguardando alguma indicação da irmã para que pudesse prosseguir.
- Continue. - a voz aveludada de Betelgeuse soou mais uma vez.
- Eu estou apaixonada pelo Alphard. Talvez pudesse me dizer o que fazer.
Marguerith fechou os olhos, esperando pela resposta. Contudo, o que ela escutou foi algo completamente oposto do que imaginou. Uma risada alta e estridente ecoou pelo quarto. Só então ela ousou levantar o rosto e encarar Bete. As feições da mais velha tinham uma expressão de divertimento que Marge raramente via na irmã.
- Querida, até acho compreensível que se acredite apaixonada pelo Alphie. Confesso que ele possui certos atrativos que podem interessar a algumas mulheres... mas já ponderou o quão inadequado ele seria para você? – Betelgeuse disse ao perceber que a atenção da caçula estava completamente direcionada a ela – Nosso primo nunca vai passar de um boêmio. É com esse tipo de homem que você quer passar o resto da sua vida? Alguém que facilmente acabaria com seu nome e te daria um casamento cheio de insegurança?
A caçula sentiu-se estremecendo por dentro ao escutar aquelas palavras. Para Marguerith, não eram observações ou conselhos, mas sim profecias de mau agouro que saiam pela boca da irmã. Ela sabia que pelo comportamento de Alphard, Bete estava longe de mentir.
- Eu... entendo... - ela balbuciou mais uma vez.
Betelgeuse assentiu, virando-se novamente para a penteadeira e retomando o ato de pentear seus cabelos.
-Você merece alguém melhor, Marge. Alguém que seja digno de sua pessoa. - foi o que a mais velha disse, usando o mesmo tom neutro do começo da conversa.
-Obrigada, Bete. - a caçula respondeu, tentando segurar as lágrimas que teimavam em se formar no canto dos olhos. – Boa noite.
Sem esperar a resposta de Betelgeuse, Marguerith se retirou do quarto da irmã, seguindo a passos ligeiros em direção do próprio dormitório, ainda tentado refrear o choro. Talvez as intenções de Bete fossem as melhores, mas a mais velha talvez não tivesse consciência de que esmigalhara os sonhos da caçula.
