Alguns meses haviam se passado desde o casamento de Marguerith e Pericles no começo de 1952. A partir daquele dia apenas Sirius, Hesper e os elfos viviam em Grimmauld Place. Apesar de Regulus não ter ainda se casado, raramente ele ficava com os pais, mesmo quando visitava a Inglaterra. Por isso, acostumado com aquela rotina quase solitária, o patriarca se surpreendeu ao encontrar a gêmea mais velha na biblioteca da casa.
-Betelgeuse, o que faz aqui? – Sirius perguntou, enquanto se servia de uma dose generosa de Firewhisky.
A moça observou o tio com um sorriso nos lábios. Ela sabia que só estavam os dois em casa. Aquele era o dia da semana em que sua tia Hesper costumava visitar Lucretia.
-Cheguei de Moscou hoje e decidi matar saudades da minha antiga casa e do meu querido tio. – ela respondeu, com a voz suave e comedida.
Sirius apenas assentiu, abrindo o armário, tirando de lá o tabuleiro de xadrez.
-Uma partida? – ele perguntou, bebendo mais um gole de Firewhisky.
-Sempre – ela respondeu, se sentando diante do tio, enquanto ele organizava as peças no tabuleiro.
-Acredito que queira ficar com as peças brancas agora que é uma Ivory. – o homem gracejou.
Betelgeuse riu baixinho.
-E peças pretas para o Sr. Black, parece realmente adequado. – ela respondeu, bem humorada.
Betelgeuse moveu a primeira peça sem tirar os olhos do tio. Ela quase sentia falta daquelas partidas, não fosse o fato de Stephanio ser um enxadrista ainda melhor que Sirius.
-Como vai a vida de casada? – ele perguntou, enquanto movimentava seu cavalo.
A moça se inclinou para frente, observando um pouco o tabuleiro antes de dar o próximo passo na partida.
-Estupenda. Apesar de alguns parentes de Stephanio não gostarem de mim pelo simples fato de eu não ser russa. Mas meu marido, ele é maravilhoso. Tenho certeza que morreria por mim...
"E mataria por mim", ela pensou consigo, satisfeita. Era estranho e prazeroso constatar que ela e Stephanio se completavam de maneiras que ela não poderia antes imaginar. Ela também o amava com a mesma intensidade.
-Sabe quem esteve me visitando? – Bete perguntou de forma despretensiosa, enquanto colocava uma mecha de cabelos atrás da orelha. – Tio Hebert. Ele tinha negócios por lá. Alguém queria vender uma caixa de Dibbuk e ele achou que era uma boa aquisição para a loja.
Sirius assentiu. Às vezes o cunhado viajava para o exterior para comprar alguns artefatos, entretanto ele nunca demonstrou interesse pelas gêmeas a ponto de desejar visitar qualquer uma delas.
-O que o velhaco realmente queria? – Black perguntou, curioso.
-Ele conseguiu se endividar em um carteado. Por um acaso eram parentes de Stephanio. Tio Hebert achou que poderíamos ajudar – ela riu pela ironia da situação, justamente aquele homem que sempre a desprezou veio se arrastando por misericórdia – Mas para minha surpresa, ele tinha algo verdadeiramente valioso para me oferecer em troca.
Ela moveu a rainha antes de fitar o relógio que trazia no pulso. Levantou os olhos e percebeu que a tez do tio estava pálida. Gotas de suor escorriam da sua testa. Ele começou a abrir o colarinho, sentindo dificuldade em respirar. Havia começado no tempo previsto.
-Tio Hebert me contou como você amaldiçoou a minha mãe. Como ela morreu pelo que você fez! – Betelgeuse falou, com um ódio gélido impresso em cada palavra.
Sirius tombou no chão, arfando. Sentindo como se uma mão invisível apertasse a sua garganta. Ele escutou os saltos da sobrinha ecoarem pelo escritório, se aproximando dele. Mesmo com a visão turva, ele conseguiu perceber que a silhueta dela se abaixou próxima a ele.
-Você deve ter imaginado a minha decepção quando soube a verdade. – Bete falou de modo calmo – Eu te amava como se fosse meu próprio pai. Mas minha mãe merece justiça.
Bete levantou-se pegando o rei negro do tabuleiro, brincando com ele entre os dedos. O rosto de Sirius começava a adquirir uma coloração arroxeada, seus olhos lacrimejavam.
-Os Ivory possuem um acervo de venenos inimagináveis. Stephanio me apresentou uma variação magnífica da água-tofana. Completamente indetectável. E ele me ajudou a chegar em Londres sem que ninguém soubesse. Foi muito fácil adicionar uma dose no seu Firewhisky.
Betelgeuse manteve uma expressão neutra enquanto o tio ainda se retorcia no chão. Ela havia sido sincera quando disse que havia amado Sirius, mas nunca perdoaria ninguém que machucasse sua mãe ou sua irmã.
-Pode partir tranquilo, não vou contar para tia Hesper ou para Marge o que você fez. Não quero que minha irmã tenha ideias erradas como talvez voltar para Alphard depois de ter conseguido um bom casamento.
O velho Black já tinha os olhos vazios e distantes, não demorou para que desse seu último suspiro sob o olhar severo da sobrinha.
Com alguns acenos de varinha, a jovem eliminou quaisquer vestígios de sua presença ali.
Ela colocou o rei negro no bolso do vestido que usava, murmurando antes de sair:
-Xeque-Mate.
Marguerith olhou para a figura de Sirius Black deitado em seu caixão. Pela última vez. Não fosse a esquife, poder-se-ia dizer que o homem dormia profundamente.
O quarto estava cheio, dando a impressão que toda Londres havia comparecido ali para prestar as últimas homenagens ao falecido. Pelo menos os membros das famílias importantes da sociedade bruxa.
Alguns se aproximavam do corpo de Sirius, murmurando despedidas ou, quem sabe, lhe lançando uma última maldição a ser cumprida no reino dos mortos.
Outros se dirigiam para a saleta adjacente, onde era servida comida, chás e bebidas mais fortes.
Marguerith suspirou discretamente. Era verdade que Sirius Black era mais velho que sua tia Hesper, mas, mesmo assim, o homem sempre lhe pareceu que seria imortal.
Belvina, a irmã caçula de Sirius estava encostada perto do umbral, sendo consolada pelo filho mais velho. Enquanto Hesper estava sentada ao lado do marido, dando a sua última despedida. A mulher tinha olhos violetas ligeiramente desfocados. Dividira uma vida inteira com aquele homem, sem amor, mas cheia de cumplicidade. Agora, estava livre, e, ainda não sabia como se sentir sobre aquilo.
Marguerith, por sua vez, não derramara nem uma lágrima sequer. Não era aquilo que esperavam de uma Black? Discrição e compostura?
Ela se lembrava do pranto quando o pai morreu, ainda pequena. Mas a figura carinhosa de Phineas era um borrão nas névoas de suas lembranças. Também se recordava do choro quando a mãe foi embora, pouco depois de Marge entrar em Hogwarts.
Quanto ao patriarca da família, mesmo em seu silêncio, ela sofria. Sentia pela perda do tio que sempre estivera tão próximo e ao mesmo tempo tão distante e inalcançável.
Sirius Black era alguém que ela admirava, pela postura séria e apegada às tradições, mas ao mesmo tempo se ressentia por esses mesmos motivos.
Na maior parte da vida, ela fez exatamente o que ele exigiu, esperando em retorno algo que fosse a sombra de um carinho. Até mesmo casara com alguém escolhido por Sirius.
Contudo, nenhum esforço foi o suficiente. Ele nunca a fez se sentir plenamente merecedora.
O mais próximo foi um sorriso que ele lhe lançou no dia do seu casamento.
Uma brisa forte passou por cima dos ombros de Marguerith, bagunçando-lhe os cabelos. Ela os ajeitou rapidamente, percebendo, também, com o gesto que a vela se apagara com o vento. Ela sentiu uma ansiedade se embolar em seu peito. Era necessário sempre ter uma vela acesa.
Apressada, porém, discretamente, ela se aproximou da vela, as mãos tremendo ao segurar a varinha. Foi então que Marguerith sentiu uma mão pousar suavemente em seu ombro. Parada ao seu lado estava Betelgeuse, que viera da Rússia para prestar as últimas homenagens ao homem. Ela não encarava a irmã; em vez disso, seus olhos azuis estavam fixos na vela apagada.
Marge compreendeu, como sempre, o que aquele silêncio significava. Finalmente conseguiu acender a vela. A chama tremeluziu novamente pela sala, tomando sua função no rito fúnebre.
Bete deixou a mão escorregar pela manga do vestido de Marguerith, procurando a mão da irmã, enlaçando seus dedos aos dela. Marge não disse nada.
O diálogo entre elas sempre transcendeu às palavras. Bastava apenas a presença reconfortante da irmã para que Marge se sentisse um pouco melhor.
Embora invejasse a posição de Betelgeuse no coração do tio. Sempre a favorita, sempre aquela que conseguiu os maiores feitos, Marguerith não conseguia odia-la. Era como odiar a si mesma. Eram parte uma da outra, sempre. E nada, nem seus respectivos casamentos, nem a distância geográfica, poderia destruir aquilo.
-Tia? – Marguerith chamou a mulher, com suavidade, notando que os olhos de Hesper estavam fixos na tapeçaria dos Black. – A senhora está bem?
A matriarca assentiu, com um pálido sorriso no rosto. Imaginou que sua ausência momentânea no velório passaria despercebida.
-Sim, Marge, estou bem... Dentro do possível, só estava ponderando sobre o meu futuro, de agora em diante... Talvez pareça muito cedo, nós nem enterramos Sirius, mas... A verdade é que faz muitos anos que penso no que seria de mim quando ele não estivesse mais ao meu lado... Apenas não me decidi qual caminho escolher...
Marge saiu do batente da porta parando ao lado de Hesper, pegando a mão da mulher e entrelaçando com a dela. Quando Rosette morreu, a tia se tornou sua rocha e seu porto seguro, sempre tivera mais afinidade com ela que com o falecido tio. Gostaria de ser um alento para ela também.
-A senhora está sofrendo? – ela perguntou, mais direta do que a educação recomendava, porém franca como sempre fora na sua relação com Hesper.
A matriarca dos Black meneou a cabeça em negativa.
-Minha vida com seu tio teve bons momentos, não posso reclamar. Entretanto, agora, me sinto livre e até mesmo aliviada. Você me culparia por isso, minha querida?
A mais jovem apertou um pouco mais a mão da tia, tentando ser solidária. Por que Marge julgaria Hesper? Ela sabia que o mundo que a mais velha havia crescido era diferente do dela. As mulheres tinham ainda menos escolhas que possuíam no momento. O que Hesper poderia ter feito se não obedecer ao pai? Havia outros caminhos, era claro, mas os Gamp haviam educado a filha para ser o que ela se tornou, e, dificilmente uma jovem de quatorze anos imersa naquele mundo da elite bruxa pensaria poder seguir outro destino.
-Nunca, tia – Marge respondeu com sinceridade.
Os olhos de Marguerith pousaram sobre o nome da tapeçaria que Hesper olhava fixamente: Lycoris. Sempre era ela. A lembrança da filha parecia ainda assombrar a mulher depois de todos esses anos. Percebendo que a sobrinha também observava a árvore genealógica da família, a matriarca colocou o dedo em um ponto logo abaixo do nome da filha.
-É quase imperceptível, mas tem uma pequena queimadura aqui... – Hesper falou com melancolia. – Seu tio fez, logo depois que Lys nos abandonou. Nenhuma criança dela entraria na tapeçaria, tanto que muitos na família acham que ela não teve filhos. Eu não podia reencontrar minha filha até o dia da morte de Sirius. Eu tenho netos que nunca conheci, que nunca pude abraçar.
Marguerith permaneceu em silêncio. Embora ela e Betelgeuse soubessem da história de Lycoris, apesar do tabu envolvendo o nome da prima na família, nunca antes Hesper deixara tão explícita a dor da falta que a filha fazia para ela.
-Bete está feliz com Stephanio e você também parece bem com Pericles. Creio que cumpri a promessa que fiz para sua mãe. Acho que é hora de ir para a América, finalmente conhecer outra parte de minha família.
-Vou sentir sua falta – Marguerith disse, com sinceridade.
Ela amava Hesper. Talvez, além de Betelgeuse, a tia fosse a única pessoa da família com quem Marguerith poderia baixar a guarda e se permitir mostrar um sentimento genuíno sem parecer ser uma fraca, sem ser lembrada que era "a bastarda", a "intrusa". Marge tinha orgulho de ser uma Black, contudo sabia o que alguns tios e primos pensavam dela e da irmã. Eles que fossem para o inferno. O sangue dela era o mesmo de todos eles. Apesar de não demonstrar afeto, o grande Sirius Black a reconhecera como um deles, e absolutamente ninguém poderia roubar isso de Marguerith.
-Também vou sentir a sua – Hesper respondeu, repleta de carinho.
A mulher desejava do fundo do coração que as sobrinhas encontrassem alegria em seu caminho. Entretanto, precisava se afastar das meninas que criara como se fossem suas próprias filhas para, enfim, reencontrar a outra filha que lhe fora negada por todos aqueles anos.
