Kurama deixou Gandara sem dar explicações e sem falar com ninguém. A batalha travada ali já havia terminado, deixando muitos feridos e mortos. Infelizmente, ele nada podia fazer pela maioria deles. Socorreu e ajudou aqueles que pôde, mas tinha outros assuntos para resolver. Sozinho, foi em direção às antigas ruínas em que esteve dias antes. Desde que pressentiu um humano naquela parte do Makai, havia pensado em retornar para investigar melhor e confirmar as suspeitas que ganhavam forma em sua mente.

Por isso, não desperdiçou o próprio tempo e, ao chegar na floresta em que o humano o havia despistado da última vez, seguiu direto para o ponto em que o perdeu de vista.

Ele inspecionou o local com cautela. Dessa vez, não havia nem sinal daquela presença humana. Na verdade, não havia ninguém ali. Mas se estivesse correto, encontraria uma fenda dimensional em algum lugar daquele ponto. Um portal que provavelmente o levaria para o Mundo dos humanos.

Mentalmente, refez os seus próprios passos, relembrando a perseguição. Percorreu todo o perímetro do espaço por ele delimitado, examinando as árvores vividas, as folhas verdes que se misturavam à terra fresca e úmida no chão e os cipós que se moviam de um lado a outro como uma cortina em meio à vegetação.

Foi por pouco que não caiu na abertura escondida por debaixo de um tapete de gramíneas verde-musgo. Ao dar um passo para frente, o seu pé ficou suspenso no ar e uma força repentina o puxou para baixo. Antes que caísse, porém, ele conseguiu se libertar da sucção, recuando para onde estava anteriormente.

Enfim, havia encontrado a rota de fuga daquele humano. Mas ele sabia que a pessoa não simplesmente tinha caído ali por acaso. Seja lá quem fosse, estava deliberadamente transitando entre os dois mundos. Não era como os demais humanos que entravam no Makai sem querer e que precisavam ser resgatados pelos patrulheiros.

Esse humano tinha um propósito no Makai. E também sabia controlar o seu reiki, caso contrário, não suportaria a atmosfera tóxica do mundo dos demônios.

Sem saber exatamente para onde iria, Kurama se preparou para adentrar à fenda dimensional. Quando o fez, a realidade inteira se distorceu por alguns segundos, deixando-o zonzo. Ainda assim, preparado, ele caiu habilidosamente sobre o solo, evitando quaisquer danos provocados pela altura da queda resultante da viagem deturpada.

Olhou ao seu redor, constatando o óbvio. Estava no Ningenkai, do alto de uma colina que lhe permitia observar o belo pôr do sol alaranjado no horizonte. Não havia civilização ali. Somente uma vasta e infinita natureza. Havia a vegetação local, flores queimadas pelo frio extremo e uma barulhenta e enorme cachoeira que culminava no extenso rio que corria abaixo dos planaltos.

Para ele, porém, não importava exatamente onde estava, mas sim o que tinha acabado de encontrar ali.

Dezenas de outros youkais se encontravam no local. Despreparados, caíram ali não intencionalmente, é claro. Se ele mesmo quase foi puxado pela fenda dimensional escondida, outros demônios com certeza passaram pelo mesmo.

Mas diferente de Kurama, todos estavam mortos. Assassinados da mesma maneira e possivelmente pela mesma pessoa. Com um único ferimento letal e preciso no núcleo.

Ao examiná-los, não lhe restava dúvidas sobre a identidade de seu mais recente adversário. Suas suspeitas estavam corretas e ele até podia arriscar um palpite sobre as intenções desse humano.

Mas não podia agir sozinho. E, por isso, mais do que nunca precisava retornar ao Makai. Encontrar Kiara, Kuwabara e Yukina era prioridade.

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KIARA POV

Estava tudo tão escuro quando abri os olhos. Eu estava sozinha, no que parecia ser um amplo salão de um templo vazio. Do lado de fora, eu ouvia o vento colidir contra as janelas de vidro, uivando mais alto conforme a sua força aumentava. As lâmpadas do templo estavam apagadas, mas feixes pálidos de luz invadiam o local pelos enormes vitrais. Não era uma luz vívida como o sol, mas sim fraca, deixando a atmosfera com um ar melancólico e cinza.

Aonde eu estava, afinal?

Olhei ao redor, mas não encontrei ninguém comigo. Adiante, porém, havia um altar, e nele uma grande caixa retangular envolta por grossas correntes de metal que mantinham a tampa presa ao restante da peça. O formato e tamanho não deixavam dúvidas: aquilo era um caixão. Mas quem estava dentro? Senti um arrepio envolver o meu corpo e me aproximei devagar, notando então que as correntes estavam completamente frouxas.

Confusa, procurei pela fechadura para confirmar o seu estado, mas o simples contato com o metal me fez dar um salto para trás. Como mágica, as correntes se soltaram, escorregando até atingirem o chão de mármore num estampido que ecoou por toda a amplitude do local.

A tampa do caixão simplesmente se deslocou para o lado e foi ao piso num baque, libertando o que quer que estivesse ali de seu sono eterno.

Pude ver que algo se movimentava dentro do caixão e paralisei, incapaz de me afastar ainda mais. Um par de mãos se apoiaram nas laterais do móvel, buscando sustentação para elevar o restante do corpo. Quando o seu tronco enfim se ergueu, minha respiração se descompassou.

Mantendo a cabeça abaixada, seus longos cabelos loiros cobriam o seu rosto como uma cortina, seguindo em direção ao colo nu até chegar na cintura.

Ela estava encolhida e tremendo como um animal indefeso. Fraca e vulnerável, bem diferente da criatura que eu esperava encontrar ali dentro. A mulher murmurou algo, tão baixo que eu não pude entender o significado.

Me inclinei em sua direção, como se tentasse ouvi-la melhor. Ela então imediatamente ergueu a cabeça me fazendo recuar mais uma vez. Mesmo com os seus cabelos ainda encobrindo parte do rosto, pude ver os seus olhos marejados, cheios de tristeza. De uma coloração incomum, eles eram diferentes de tudo que eu já havia visto. Meio azuis, meio carmins. Únicos.

Ela sussurrou novamente uma frase inaudível. Seus lábios tremiam mais do que antes.

— O que disse? — perguntei em tom baixo, temendo fazer barulho. Como se falar alto fosse proibido naquele lugar sagrado e, ao mesmo tempo, profano.

Ela me encarou fixamente por alguns instantes antes de responder.

— Me ajude.

Perdi o fôlego quando ela endireitou o corpo, jogando os cabelos para trás a fim de expor o líquido viscoso e escuro que tingia a sua pele de vermelho. Havia uma enorme laceração aberta em sua caixa torácica, tão profunda que me permitia enxergar as camadas dilaceradas dos tecidos internos de seus órgãos.

— Me ajude — ela repetiu.

— O que aconteceu?

— Me ajude.

— Quem fez isso com você?

A tremulação cessou de repente. Seu olhar se fixou num ponto distante, atrás de mim. Seu braço se elevou, apontando em direção à entrada do templo. Me virei devagar, incerta do que iria encontrar.

A porta dupla estava escancarada e, parada na passagem, havia uma criatura de silhueta familiar. Pelo seu contorno, sabia que era o mesmo demônio que dizimou toda a minha família. O seu rosto, porém, não estava muito bem visível por conta da escuridão. Sua mão segurava um objeto pontiagudo que, pelo que parecia, estava sujo de sangue. Gotas espessas e pesadas pingavam no chão.

Mesmo querendo agir, não tive tempo de fazer nada. Apenas alguns segundos após o seu aparecimento, com um movimento rápido, ele fez todas as janelas do templo se quebrarem. Estilhaços de vidro de todos os tamanhos voavam desgovernados de um lado para o outro com a força do vento que adentrava sem piedade aquele lugar. Protegi o rosto num impulso, evitando me cortar. Vultos negros então invadiram o templo pelas janelas sem proteção, tão rápidos que seria impossível distingui-los em suas verdadeiras formas ou identidades. Minha visão era composta apenas pelos borrões dos youkais que agora sobrevoavam o local, pairando sobre mim e a mulher misteriosa dentro do caixão.

Me dei conta de que havia me esquecido completamente dela. Quando a procurei, ela já não estava mais no mesmo lugar. Ouvi o seu grito distante e a localizei no ar, contida e presa pelos demônios que invadiram o templo. Eram tantos, a agarrando e segurando por cada parte de seu corpo, que não demorou para que a engolissem por completo. Ela lutou para se libertar deles, mas logo a perdi de vista em meio àquela aglomeração que a cercava. Tudo que restou foram apenas os seus gritos abafados, implorando para que eu intervisse.

— Me ajude!

Quando tentei me mover, no entanto, a força do vento triplicou, fazendo jorrar todo tipo de poeira sobre mim. Me senti sufocada. Não conseguia abrir os olhos, tampouco respirar. Ainda assim, continuava a ouvir os gritos da mulher clamando por ajuda. Por algum motivo, sua voz se tornava cada vez mais clara, como se ela se aproximasse de mim.

O som de seus berros se tornou tão alto que ela parecia estar dentro da minha própria mente. Como se fosse parte dos meus próprios pensamentos.

"Me ajude"

"Me ajude"

"ME AJUDE!"

Ela não parava de repetir aquilo, mas eu não conseguia fazer nada. Ao menor esforço, caí no chão ajoelhada. Minha cabeça parecia prestes a explodir com tanto barulho. Agoniada, implorei para que aquilo acabasse o mais rápido possível. Para que tudo aquilo não passasse de um pesadelo insuportável.

E tudo acabou.

De um segundo para outro, tudo ficou quieto e imerso numa escuridão infinita. Eu ainda estava de olhos fechados quando senti que alguém se aproximava em passos lentos e silenciosos. Ao levantar do chão cambaleando, porém, paralisei. Não de susto, nem de medo, mas de choque. Choque por estar diante dos meus pais. Eles estavam abraçados, me encarando enquanto eu apenas conseguia tremer de nervoso. Perdi o chão quando sorriram para mim pela primeira vez. Ao meu redor tudo que me atormentava havia desaparecido: os demônios, o templo e a mulher misteriosa que implorava por ajuda. Tudo.

No lugar daquele cenário caótico, aos poucos, outras pessoas surgiam no meu entorno, formando uma multidão. Reconheci cada um daqueles rostos que um dia conviveram comigo, no clã Komorebi. Rostos de pessoas que há muito tempo eu não via e que agora não existiam mais no meu mundo. Pensar naquilo abriu um buraco no meu peito.

Minha mãe estendeu a mão, me chamando para junto dela. Eu tentei corresponder ao gesto, mas meu braço atravessou o seu na tentativa de senti-la. No local do contato, restou apenas um formigamento fantasma. Uma sensação que não era nada além de fruto da minha imaginação.

— Nada disso é real — eu disse — Vocês estão…não estão vivos. Eu devo estar delirando…

Senti um aperto no coração. Ela me lançou um olhar melancólico. Meu pai, porém, negou com a cabeça, contrariando o que eu disse. Ele movimentou os lábios, mas nenhum som saiu de sua boca.

"Você não está", foi o que pensei ter conseguido ler na sua falha tentativa de comunicação. Os demais, ao nosso redor, concordaram. Todos eles tentavam dizer alguma coisa, mas nenhuma palavra era de fato proferida. Tudo continuava silencioso naquele lugar.

— Então, por que não conseguem falar? Por que não posso ouvi-los?

Meu pai gesticulou para explicar, mas não consegui entender nada do que ele tentava me dizer. Notei então que sua imagem já não estava tão clara quanto antes. Parecia estar sumindo. Foi quando outro rosto em meio à multidão me chamou a atenção. Um rosto que não pertencia a um membro do meu clã e que eu não tinha a mínima ideia do que estava fazendo ali: aquela outra mulher desconhecida que encontrei pela primeira vez na fortaleza de Mukuro.

— Quem é você, afinal? Por que também está aqui? Por que você não fala logo o que quer de mim?!

Ela se aproximou. Seu semblante era frio e indecifrável. Nem amigável, nem hostil.

Como os outros, ela também tentou se comunicar comigo, mas, diferente dos deles, conseguiu.

Pela primeira vez eu pude ouvir a sua voz suave, embora a sua fala não passasse de um murmúrio indistinguível. Suas palavras eram cortadas pela metade, como se a conexão entre nós fosse frágil. Sua imagem era um borrão incerto.

— Voc…pre…ar…de..na…sa…ka…

Aquilo não fez sentido algum. Ela percebeu a dificuldade que eu tinha de compreendê-la. Então, um brilho cintilante e azulado a contornou, como se estivesse usando algum tipo de poder. Sua voz ficou mais clara e senti o meu corpo inteiro aquecer com aquela luz azul.

— O…perigo…o seu….matar todos…lemb…demais…os poderes…você mesma…

Aquelas palavras desconexas me deixavam confusa e quanto mais sua voz falhava, mais ela tentava aumentar a energia que a rodeava.

Era notório o esforço que fazia para ser ouvida. Estava desesperada para me dizer algo importante, pelo visto. E eu, desesperada para ouvir.

De repente, porém, ela simplesmente começou desaparecer, tal como o meu pai, minha mãe e todos os demais que estavam ali. Quando sumiu por completo, apenas me restou o eco de suas últimas palavras.

"Sangue" e "traidor".

Não tive tempo de lamentar a nossa separação, pois tudo ao meu redor se distorcia. Imagens confusas e aleatórias começaram a atravessar a minha mente sem propósito algum. Eram feitas de um misto de lembranças ruins e sentimentos de raiva, dor, exclusão e medo. Feitas das piores memórias que eu possuía. De todas as vezes em que me senti excluída ou desprezada; com medo ou pavor em uma batalha. Como num filme, repetidas vezes assisti meu pai ser assassinado diante de mim, num looping perturbador e interminável.

Eu quis chorar, angustiada e exausta de tudo aquilo. Cansada de estar presa naquele limbo atormentador.

Foi quando então me vi em outro local escuro. Era apertado ali. Quente e abafado, com frestas estreitas que me permitiam enxergar um outro cômodo bem iluminado. Demorei para notar que algo tremia sob meus braços. Algo não, alguém. Kazuki. Ainda muito pequeno para entender o que estava acontecendo, ele se contorcia amedrontado, tentando se livrar de mim para sair do esconderijo e correr direto para os braços de nossa mãe. Mas isso não seria possível, pois ela mesma havia me dado a ordem para mantê-lo confinado ali junto comigo, enquanto ela combatia os invasores que descobriram a localização do clã.

A contragosto, a obedeci, sabendo que a melhor forma de ajudá-la naquele momento seria não a atrapalhando. Enquanto mamãe estivesse preocupada conosco, ela não conseguiria se concentrar direito. Eu compreendia aquilo, mas o meu irmão não. Com apenas quatro anos, ele não tinha idade suficiente para assimilar o que estava acontecendo. Não tinha ideia do perigo que corria.

Por isso, o levei para o dentro da casa, onde poderíamos ficar escondidos. De dentro do armário, podia ouvir os sons horrendos provenientes das lutas que aconteciam do lado de fora, enquanto mantinha Kazuki calado, tapando a sua boca para que não emitisse nenhum ruído.

Alguém entrou na casa. Um demônio, como pude constatar pelos som de seus passos pesados e pela energia que emanava dele. Ao se aproximar de onde estávamos, uma sombra grotesca apareceu no meu campo de visão. Prendi a respiração. Ainda não tinha aprendido a manter minha presença oculta, além disso, se fosse um youkai capaz de nos farejar, seríamos encontrados de qualquer maneira. Apertei Kazuki sem perceber, o fazendo choramingar sem querer. O demônio parecia ter ouvido o silvo, aproximando-se ainda mais de nós. Quando estava prestes a nos descobrir, porém, algo o impediu.

Pela abertura do armário, eu não podia ver mais do que uma estreita faixa do chão, suficiente para perceber que minha mãe o atacava. No entanto, não conseguia captar tudo que acontecia do lado de fora. Os dois estavam agitados num embate frenético que, até então, eu tinha certeza que minha mãe ganharia.

Mas eu estava enganada.

Meu estômago se revirou quando a ouvi gritar. O baque de algo caindo no chão me fez saltar dentro do armário. Eu não sabia ainda, mas era o corpo dela. Pela fenda da porta, vi esguichos de sangue tingirem as cortinas da sala. O medo me consumiu e sem perceber soltei Kazuki. Ele chorou, berrou e esperneou. Eu o abracei com força, tentando protegê-lo, mesmo sabendo que seria inútil. O monstro já sabia onde estávamos. Nós éramos os próximos. Duas crianças indefesas e prestes a morrer.

Senti um enorme pavor ao vê-lo se aproximar, olhando diretamente para nós pelas fresta da porta, arrastando-a em seguida para nos expor completamente. Quando dei por mim, também estava chorando apavorada. Meu coração estava prestes a saltar para fora do meu corpo. A última coisa que vi antes de me encolher foi o seu sorriso malicioso.

Apertei os olhos com força e gritei.

KIARA POF

HIEI POV

Não foi fácil acessar as suas memórias. Era como se sua mente estivesse bloqueada. No começo, era tudo um grande vazio. Não consegui nenhuma conexão com ela. Seus pensamentos tinham sofrido um apagão, mas, se estava viva, tinha que ter um jeito de fazê-la voltar ao normal.

"Medo".

Era isso o que eu tentava invocar. Com um comando simples ordenava que me mostrasse suas lembranças, mas esse é um sentimento subjetivo demais. Quantos graus de medo alguém pode sentir? Poderia variar desde o mais leve até o mais complexo, como um trauma. Humanos costumam sentir fobia de tudo.

Tive que forçar a conexão diversas vezes, até finalmente conseguir desbloquear um caminho cognitivo.

A primeira coisa que vi foi sua infância. Vi o seu youki se manifestar pela primeira vez sem controle, ainda criança, deixando as outras pessoas daquele lugar assustadas. Pelo que parecia, para eles, a energia demoníaca era uma espécie de tabu. Algo proibido. Qualquer semelhança com um youkai seria mal vista. Mas ela, ao contrário deles, não sabia controlar o próprio reiki e, por mais que tentasse, sempre terminava fracassando.

Pelas costas, se referiam a ela por apelidos ofensivos. Ela sabia, mas fingia não ouvir.

Os episódios de fracasso se repetiam com frequência e, desde então, as outras crianças começaram a se afastar dela. Ignoravam a sua existência e a suportavam apenas porque não tinham outra opção. Eles a desprezavam, isso era evidente. Uma garota em particular a odiava, sempre a provocando e atacando diretamente. Ela estava em quase todas as memórias. Essa era a única que realmente batia de frente com Kiara, ao invés de só falar pelas costas. Os outros pareciam ser covardes demais para fazer o mesmo.

Mas, independente da provocação, Kiara nunca revidava, o que, é claro, achei ridículo.

Nas suas memórias, ela aparecia sempre em evidência, rodeada por todos. Era de se esperar, já que seria comandante daqueles humanos, ou algo assim. Mas ela parecia odiar estar no centro das atenções. Quando todos a observavam, ela se mantinha quieta e afastada, com um olhar distante e perdido. Tinha medo de como a tratariam? Não, não era isso… o medo que sentia era de si mesma, de perder o controle e decepcioná-los mais uma vez.

Que tolice. No lugar dela, eu teria mandado todos aqueles idiotas pro inferno. Pra quê sentir compaixão por aqueles que te desprezam? Ela devia ter ido embora dali há muito tempo. Sua passividade chegava a ser revoltante e eu já tinha me cansado de assistir aquilo.

Sem desfazer a conexão, chequei como ela estava. Apesar das lembranças incômodas, ela não esboçou reação alguma. Continuava imóvel como uma estátua de pedra. Eu precisava procurar por emoções mais fortes.

Então, fui mais fundo em sua mente, desenterrando tudo o que podia. Sua primeira batalha, seu primeiro ferimento grave, o susto de se deparar com um adversário ainda mais forte do que o anterior e o temor da possibilidade de falhar ao tentar proteger o irmão mais novo (esse, em particular, era um medo recorrente). Quando ela murmurou algo, chequei novamente a sua reação. Aquele rosto neutro já havia desaparecido. Seu olhar ainda estava sem foco, mas seu semblante havia mudado. Era como se estivesse angustiada, descontente.

A estratégia parecia estar funcionando.

Insisti ainda mais, revivendo os seus pesadelos até chegar ao que pensei ser o ápice de suas piores lembranças: a noite que descreveu quando nos conhecemos. Ela já havia contado em detalhes o que tinha acontecido, mas assistir era muito diferente. Dessa vez, pude sentir o seu pavor, vivenciar a experiência. Um a um, vi os seus companheiros serem assassinados durante o ataque. A vi paralisar de medo diante daquele youkai que destruía a cidade. Até então eu tinha achado um exagero a forma como ela o tinha descrito, mas então compreendi o que quis dizer. A presença dele realmente causava uma sensação estranha em mim, intimidante. Calafrios inexplicáveis, como se fosse um mau agouro.

Percebi então que diante de mim ela estremecia. Ainda não havia voltado à realidade, mas estava sofrendo. Não era pra menos. Era como se estivesse revivendo tudo que as suas lembranças lhe mostravam. Inconscientemente, uma lágrima escorreu pelo seu rosto e ela choramingou. Achei que estivesse prestes a acordar, então chamei o seu nome na esperança de que conseguisse me ouvir, mas não adiantou. Ela continuou presa no seu próprio mundo.

Aquela memória já estava acabando, mas eu precisava mantê-la em estado absoluto de medo e pavor, se quisesse que aquilo desse certo. Incisivo, a provoquei ainda mais, exigindo mentalmente que mostrasse tudo de novo, que revivesse novamente o seu maior pesadelo.

Depois de três vezes, ela estava atormentada, derramando lágrimas sem controle. Mas eu não podia parar ali. Após mais algumas tentativas dentro daquela mesma memória, consegui acessar um momento diferente de sua vida, quando ela era bem mais jovem.

Sua mente me transportou para um repentino ataque naquele lugar onde viviam. Era uma lembrança caótica. Um grupo de youkais estava em busca de vingança ou algo assim, pelo que pude perceber. Eles chegaram de surpresa, destruindo tudo. Kiara quis lutar, mas uma mulher mais velha a impediu. Mandou que pegasse o irmão e entrasse em uma das casas. Ela obedeceu. Carregando-o, correu para uma residência, sem perceber que um dos demônios de uma categoria mediana não tirava os olhos dela.

Ela os enfiou dentro de um armário. Segurando o irmão, tentava impedir que fizesse um escândalo, enquanto mantinha a guarda por uma fresta na porta. Aquele youkai a seguiu, obviamente. Sem pressa, se aproximava lentamente como se quisesse aterroriza-la aos poucos. E, na realidade, ele conseguia. Desarmada e encurralada, ela não tinha pra onde fugir e nem como enfrentá-lo. Os dois seriam mortos.

Aquela mesma mulher então entrou na casa e atacou o youkai, tentando proteger as duas crianças. Senti a mesma onda de alívio efêmera que Kiara sentiu. Uma sensação boa, porém passageira. A mulher foi derrotada diante deles, num cenário bem violento. Em instantes, o menino estava berrando, enquanto a irmã não conseguia sair do estado de choque que se encontrava. Quando o youkai abriu a porta do armário, ela agarrou o garoto e gritou com toda a sua força.

E então, a memória acabou abruptamente.

A encarei quando me dei conta de que a conexão tinha sido desfeita, e que agora ela gritava de verdade diante de mim.

— Ei, fique calma…

Quando me aproximei para tentar tranquilizá-la, ela reagiu sem controle. Esperneando, tentou me afastar com chutes desordenados.

— NÃO! Sai daqui! Fique longe de nós!

A chamei pelo nome, tentando fazer com que me escutasse, mas o surto falou mais alto. Ela se debateu de novo, como se ainda fosse a mesma criança de sua memória e eu o demônio que queria matá-la. Não tive outra alternativa a não ser imobilizá-la à força, segurando os seus braços e impedindo que se movesse. Ainda assim, ela tentou resistir, lutando para se livrar de mim. Ao notar que não conseguiria, gritou novamente.

— Quer parar com essa histeria?! Sou eu! Acorde de uma vez!

A chacoalhei forte para que me ouvisse. Ela ficou quieta de repente e me encarou assustada. Ainda tremia muito quando soltei os seus pulsos. Não me movi mais. Permaneci na mesma posição, com receio de que não me reconhecesse e continuasse em crise. Se necessário, teria que segurá-la de novo. Mas ela permaneceu em choque, paralisada. Ofegava tentando se recuperar e demorou um pouco pra conseguir formular uma frase que fizesse sentido.

— Hiei…? O quê você…? E Kazuki? O ataque…o que aconteceu?

— Aquilo não passou de uma memória antiga.

— Memória? — confusa, ela varria os olhos pelo quarto para se localizar. Estava completamente desorientada.

— Você estava lutando contra um demônio dimensional antes de afundar em um rio. Não se lembra disso? Não se lembra de fugir com Yukina e Kuwabara para essa montanha de gelo?

Talvez eu estivesse sendo direto demais, mas não estava para enrolações. Ela pensou um pouco antes de responder. Passou as mãos pelos cabelos ainda úmidos e depois abraçou a si mesma, estremecendo de frio.

— Acho que lembro, mas…

— Ele te fez entrar num estado de inércia. Tive que invadir suas memórias pra conseguir te libertar. Você estava apagada, não reagia a nada.

Sua expressão mudou, como se por fim tivesse voltado a si.

— Igual a ela? — Kiara constatou, olhando para a garota zumbi no lado oposto do quarto — Igual a Naoki, não é?

Assenti em silêncio. Suas mãos ainda tremiam. Ela tentou escondê-las e eu fingi não reparar, me afastando um pouco.

— Entendi. Então, foi você que me fez ver todas aquelas coisas horríveis. Mas foi tão real…o meu clã, a minha mãe…Eu estava com ela…

— Não era real. Era apenas uma lembrança.

— Não é verdade. Sei que não estava acontecendo agora, mas foi real, até demais. Por que me fez reviver aquilo?

Ignorei o que parecia ser um resquício de mágoa na sua entonação.

— Imaginei que se sentisse medo suficiente, você acordaria. Funcionou.

Ela inspirou fundo e, fechando os olhos, esfregou o rosto, tentando limpar as lágrimas.

— Foi muito esperto. Na verdade eu nem acredito que conseguiu. Os yukinoroi tentaram de tudo pra tirar a Naoki dessa e não conseguiram. É que…eu sei que vou soar muito mal agradecida, mas por quê tinha que me fazer reviver justo aquele dia?! Foi o pior dia da minha vida, o único que eu queria esquecer.

— Por isso que funcionou. Não tive outra alternativa. Precisei apelar pra emoção mais forte que encontrei. Tentei de outras formas, mas nem dor você sentia.

Olhei para a faixa que cobria sua mão. Ela fez o mesmo, retirando o curativo para avaliar o dano. Fez uma cara feia ao cutucar a ferida, mas não pareceu dar muita importância àquilo.

— Além disso...— continuei —...acha que escolhi essa memória a dedo? Que deu preferência a ela? Passei por muitas outras antes, mas nenhuma foi suficiente.

— Eu sei. Eu vi todas elas. Não pense que estou com raiva, você fez o certo, é óbvio. Mas é que foi tão real, todos os detalhes, como se eu estivesse lá de novo…eu estava tão…

Sua voz foi perdendo a força, deixando a conclusão solta no ar.

— Apavorada? — perguntei — Vocês dois estavam.

— Achei que fôssemos morrer.

— Eu também. Como foi que sobreviveram?

— Meu pai apareceu bem na hora que aquele maldito demônio nos encontrou. Foi ele que nos salvou. Agora essas imagens não vão mais sair da minha cabeça…

Ela ficou quieta por alguns instantes, pensativa. Sabia que precisava de um tempo para se recompor, então decidi deixá-la assim por alguns minutos. Estava planejando lhe fazer uma pergunta quando o silêncio naquele quarto começou a me incomodar. Kiara, porém, de repente, arregalou os olhos e ameaçou se levantar.

— E Izumi?! O que aconteceu com ela? Preciso saber se está bem!

Bloqueei o seu caminho, a puxando de volta para impedir que se movesse. Ela protestou de dor, massageando o braço que parecia machucado.

— Fique calma. Aquela mulher está segura. Kuwabara matou o outro youkai dimensional.

— Kuwabara? Mas ele está muito mal. Pra onde ele foi?!

— Procurar Yusuke.

— O quê? Procurar aonde? E por que você deixou? Ele não consegue se mexer!

Pisquei aturdido. Ela estava mesmo me repreendendo? Coragem em excesso ou noção de menos? Achei melhor relevar, pensando que, no mínimo, toda essa confusão deve ter danificado suas funções cerebrais e sua capacidade de raciocinar corretamente.

— Eu não tinha porque impedi-lo. Ele que tome suas próprias decisões. Além disso, era melhor mesmo que saísse daqui. Já estava me irritando.

— Mas ele não está em condições de...

— Nem mesmo eu o rebaixo tanto quanto você. Aquele idiota é bem mais resistente do que você pensa.

— Eu só estou preocupada com ele, diferente de você que parece não dar a mínima. E de onde foi que você veio, afinal? Como conseguiu nos encontrar? Esse lugar é protegido e indetectável, sabia? — ela me lançou um olhar desconfiado, tão natural que quase me fez rir.

— Que bom que perguntou. Eu queria mesmo falar sobre isso. Eu estava pelas redondezas quando senti a sua energia. Não se lembra de como matou o demônio que te perseguia?

— Eu tinha uma das armas dos yukinoroi. É um pergaminho letal pra esse tipo de youkai. Se não fosse por ele, eu não teria conseguido. Mas o que tem isso?

— Eu não me refiro àquele pedaço de papel ridículo. Ele tinha a capacidade de matar o youkai, mas você precisou usar sua força pra conseguir atingi-lo. Eu me refiro a essa energia que você usou para matá-lo.

— O que tem a minha energia?

— Realmente não se lembra?

Ela negou com a cabeça, com um ar de inocência, sem saber aonde eu queria chegar.

— Era reiki. Você usou a sua energia espiritual.