HIEI POV

— Você usou a sua energia espiritual.

Quando eu disse aquilo, Kiara ficou me olhando consternada, muito mais do que achei que ficaria. Só depois de um tempo respondeu, obviamente em negação.

— Impossível. Eu lembro de externalizar minha força, mas eu já falei pra vocês que nunca consegui usar o reiki pra outra função que não fosse a de cura. Não tenho porque mentir sobre isso.

— Eu sei. Não estou duvidando. Não se esqueça de que acabei de comprovar o que disse — seu rosto ficou levemente corado e sua expressão se fechou, como se estivesse incomodada pelo fato de ter tido as memórias invadidas. Uma reação idêntica a de todos aqueles em que eu já tive o desprazer de usar o Jagan — Foi justamente isso que me deixou curioso. Por que agora você conseguiu?

— Não sei. Não é possível. Você deve ter se enganado.

— Eu tenho certeza do que estou falando. Talvez, de alguma forma, você tenha desbloqueado o que quer que te impedisse de usar o reiki .

— Hum…assim do nada? Quero dizer, passei a vida inteira tentando e não consegui. Por que agora?

— Deve ter tido um gatilho.

Ela ponderou um pouco e depois sorriu tensa.

— Com certeza não foi correr risco de vida, senão isso já teria acontecido bem antes. Mas se o que você diz é verdade…

— É verdade — interrompi.

— Mas será que desbloqueei definitivamente?

— Só tem um jeito de descobrir: tentando usá-lo mais uma vez.

Ela não respondeu. Ficou em silêncio, pensativa, analisando aquela possibilidade. Estava fraca e é claro que não tentaria agora, ainda mais sem privacidade. Com certeza, o faria somente quando se encontrasse sozinha. E por mais curioso que eu estivesse para saber a resposta, no seu lugar eu faria o mesmo. Pra que arriscar fracassar na frente dos outros?

Ela arqueou as sobrancelhas de repente, como se tivesse lembrado de algo muito importante.

— E quem era aquela mulher pedindo ajuda?

— O quê? — perguntei, pensando ter ouvido mal.

— Queria me assustar pra me acordar daquele transe, certo? Eu fiquei mesmo assustada com tudo aquilo. A mulher no caixão e tudo mais. De onde tirou tudo aquilo?

Mas o que diabos ela estava dizendo? Me perguntei se, talvez, eu tenha exagerado um pouco e mexido demais com a sua cabeça.

— Do quê está falando?

Ela revirou os olhos, impaciente.

— Daquela mulher implorando por ajuda no caixão.

— Não tinha nenhuma mulher implorando por ajuda, muito menos um caixão.

Ela piscou várias vezes, sem desviar a atenção de mim.

— Que brincadeira é essa agora? Você disse que me fez ver tudo aquilo.

— Não. Eu disse que invadi suas piores memórias e fiz revivê-las. Não tinha mulher alguma pedindo ajuda em nenhuma delas. Eu não criei imagens pra que você visse. Tudo que usei realmente aconteceu em algum momento da sua vida. Seja lá o que viu, não foi coisa minha. Deve ter sido o seu subconsciente.

Ela discordou balançando a cabeça.

— Era muito real. Tinha uma mulher desesperada, estavam atacando ela. Depois, vi os meus pais e também…

Ela parou de falar abruptamente, como se tivesse deixado escapar um segredo.

— Também o quê?

Ela pensou bem antes de me responder, forçando uma pausa longa e dramática.

— Quando você me encontrou, eu estava sozinha?

— Você estava no fundo de um lago congelado. Quem mais estaria lá?

Ela suspirou. Parecia hesitante, com receio de dizer o que estava pensando.

— Aquela mulher que vi na Fortaleza de Mukuro.

A encarei fixamente, já prevendo o que diria a seguir. Inclusive, ela estava demorando pra trazer o assunto à tona e explanar o fato de eu ter duvidado completamente da existência daquela suposta humana. Um erro fatal, no caso. Não existia uma outra explicação para o ataque surpresa à Fortaleza. Ou, pelo menos, não existia uma explicação melhor.

— Já sei o que vai falar — eu respondi — Que provavelmente ela orquestrou o ataque e que tenho culpa por ter duvidado de você. Melhor poupar o pouco de energia que te sobra. Não tem mais nada a ser dito sobre esse assunto. Está tudo bem claro pra mim.

Ela quase riu. Um riso meio forçado, sarcástico e cansado. Não estava de fato se divertindo.

— Que bela maneira de reconhecer que errou. Mas não é nada disso, muito pelo contrário. Eu ia dizer que você estava certo.

Não respondi, incapaz de disfarçar o quão confuso estava. Algo na minha expressão deve tê-la feito compreender aquilo e, por isso, continuou a se explicar.

— Eu a vi de novo, aqui na montanha. Acho que essa mulher não existe. Quer dizer, não é que ela não exista, porque eu consigo vê-la com clareza. Ela é muito real pra mim. Até tentou me ajudar a escapar daquele demônio dimensional. E, depois, eu a vi enquanto estava inconsciente, ela queria me falar alguma coisa. Mas parece que só eu a vejo, que ela só aparece pra mim. Sei que não faz sentido nenhum. Talvez, ela exista só na minha cabeça. Talvez, seja uma projeção da minha própria consciência, sei lá. Ou, talvez, ela realmente não exista. Só, por favor, não diga que eu estou ficando louca, porque eu já estou quase me convencendo disso.

— Então, agora você acha que está vendo coisas?

Cabisbaixa, ela deu de ombros.

— Não era exatamente isso que você pensava? Por que essa surpresa?

— Que bela maneira de reconhecer que errou.

Ela estagnou o olhar em mim, estreitando-nos olhos de mau humor.

— Muito engraçado.

— O que ela te falou, enquanto você estava inconsciente?

— Eu não consegui entender direito. Foram só palavras soltas e desconexas. Mas ela citou uma traição. Não é coincidência, né? Óbvio que nós fomos traídos. Não foi à toa que nos atacaram no momento mais oportuno, quando nenhum de vocês estava perto de mim, só o Kuwabara. E isso só porque ele mudou de ideia na última hora e voltou pra ficar comigo e com a Yukina. Mas quem pode ter sido?

— Até agora eu estava certo de que era essa mulher. Mas, se você diz que ela tentou te ajudar, isso não faz sentido algum. Ainda mais se ela for uma mera criação da sua cabeça, o que parece ser bem provável.

— Bom, eu estive pensando em como tudo aconteceu. Nobu não estava na Fortaleza naquela hora. Disse que tinha assuntos para resolver. Ele estava bem próximo de mim e conhecia nossos planos, será que foi tudo premeditado? Eu não queria pensar nisso, mas…

— Nobu está morto — ela arregalou os olhos, espantada — Eu mesmo o vi.

— Como?

— Ele retornava para a Fortaleza quando o ataque aconteceu. Quando cheguei, já estava morto.

Ela então abraçou os joelhos e escondeu o rosto entre as pernas flexionadas.

— E eu pensando o pior…— sua voz estava abafada — Que injusto. Eu gostava dele.

— Então deveria estar aliviada. Contente-se em saber que não foi ele que traiu a sua confiança.

Ela me lançou um olhar irritado.

— Não consigo pensar assim com tanta frieza.

— Mas não tem outra alternativa. E, enquanto não soubermos quem foi o responsável por isso, fique de olhos bem abertos com qualquer pessoa que se aproximar de você.

— E aqueles caras, subordinados da Mukuro que me cercaram no outro dia? Não acha que podem ter a ver com isso? Eles não pareciam muito contentes com a aliança entre os reis.

— Não. Eles não passam de uns imbecis. De qualquer forma, cedo ou tarde eu vou descobrir quem foi, nem que tenha que confrontar um por um — antecipei a euforia ao me imaginar punindo o culpado, mas disfarcei para que Kiara não notasse — Por hora, tome isso.

Entreguei a ela o colar que havia deixado cair durante a batalha. Ela ficou espantada ao vê-lo comigo e, pela cara que fazia, contente também.

— A corrente arrebentou quando eu tava fugindo. Achei que tinha perdido pra sempre!

Ela improvisou um novo cordão, remendando o linho do tecido que a cobria com a corrente de prata já arrebentada. Ao tentar colocá-la, deixou à mostra um outro colar pendurado em seu pescoço, cujo pingente eu conhecia muito bem.

— O que está fazendo com isso? Não pertence a você.

Ela estranhou o tom ríspido e repentino. Mas quando percebeu que eu me referia à hiruiseiki , deu de ombros, indiferente.

— Eu não roubei, se é o que está pensando. Foi Yukina que me emprestou. E eu já vou devolver antes que acabe perdendo também. Por pouco aquele youkai não a tirou de mim.

— Foi assim que ele conseguiu te encontrar, então.

— Sim. Eu esqueci que estava usando ela, se não fosse por isso, ele nunca teria vindo atrás de mim. Essa lágrima gélida é bem diferente das outras. Ele veio como um louco pra tentar pegar, queria tê-la de qualquer jeito. Deve ser muito rara e poderosa — segurando a hiruiseiki , Kiara desviou o olhar para a outra garota que estava no canto do quarto. Ela estava tão quieta que eu já nem lembrava de sua existência — Eu ainda não acredito que você conseguiu trazer minha consciência de volta. Precisa fazer o mesmo na Naoki, ela já está desse jeito há muito tempo. Talvez você consiga salvá-la também e…

— Não. Eu não vim aqui pra isso. Pouco me interessa ajudar a gente que vive nessa montanha. Eu vim somente para encontrar vocês três. E nem perca seu tempo tentando me convencer do contrário, porque nada do que disser vai me fazer mudar de ideia.

— Mas e se esse não for um pedido meu? E se for de outra pessoa?

— Que pessoa?

— Você negaria o pedido da Yukina? Os yukinoroi a ajudaram quando fugiu do País do Gelo pra procurar o irmão e essa menina, Naoki, se tornou uma grande amiga dela. Indiretamente, você é responsável por tudo isso. Afinal, ela fugiu pra procurar você.

Dessa vez a encarei curioso. Incomodado também, mas principalmente curioso. Yukina era discreta demais para ter contado a verdade. Será que ela estava apenas blefando para confirmar o parentesco? Não, não tinha dúvidas na sua expressão. Kiara sabia muito bem do que estava falando.

Ela sorriu de canto, se divertindo.

— Por que ficou calado? Eu falei alguma bobagem? Yukina é sua irmã, não é?

— Foi o que ela te contou?

— Não, eu deduzi. Ela só me contou a própria história. Mas eu reconheço um irmão preocupado quando vejo um, afinal, eu também sou uma. Não é por acaso que você nos encontrou antes dos outros. Acho que não teria tido o mesmo empenho se Yukina não estivesse com a gente. Quando os conheci, era você que estava protegendo ela. Agora se incomodou por eu estar com a hiruiseiki . Essa pedrinha têm algo estranho, uma força que me lembra vocês dois. Já reparou nisso? Não sei explicar, mas eu passei tanto tempo com ela que sinto que ela reage à presença de vocês. Além disso, você está sempre observando Yukina, mesmo que de longe. Mas não sei porque ela omitiu que você era o irmão que ela tanto procurava. Por acaso era pra ser segredo? Se incomoda quando…

— É claro que não. Só não vejo motivos pra que outras pessoas se metam em assuntos que não são da própria conta. O elo entre mim e Yukina só diz respeito a nós dois.

— Entendi. Então, não vou mais falar sobre isso. Mas você vai ajudar a Naoki, né? Você não tem outra opção.

Foi na mesma hora que Yukina chegou. Ao abrir a porta do cômodo, ficou espantada quando viu Kiara acordada. Levou a mão à boca, reprimindo um grito. Kuwabara chegou em seguida, tão surpreso quanto ela, mas escandaloso como sempre.

Kiara ainda me encarava com um olhar triunfante quando Yukina a abraçou entusiasmada. E então, ela retribuiu o entusiasmo dos dois, sem se preocupar com a minha resposta. E por que deveria? Ela estava certa. Por mais que eu não quisesse, acabaria cedendo.

Graças à Yukina, eu estava em débito com aquele povo do gelo.

HIEI POF

KIARA POV

Os olhos de Yukina estavam inchados e vermelhos. Na verdade, todo o seu rosto estava. Dava pra ver que realmente tinha chorado bastante. Nunca a tinha visto tão vulnerável daquele jeito e fiquei mal por saber que, de certa forma, eu também fui a causa das suas lágrimas. Toda aquela situação com os demônios dimensionais saiu do meu controle, mas pelo menos agora estávamos todos bem.

Mesmo Izumi, que antes estava sempre na defensiva, agora parecia mais calma. E com razão. A sua espécie estava finalmente livre. Podiam viver sem o medo constante de serem caçados por aqueles youkais dimensionais. Finalmente abandonaram o esconderijo e voltaram à superfície, retomando a cidade abandonada que lhes pertencia. Eles estavam em festa, sorrindo e brincando na neve como se fossem crianças. Não era de surpreender que Kuwabara tivesse se juntado a eles. A energia dele precisa ser infinita e, mesmo estando machucado, ele continuava se mexendo de uma forma que alguém normal não conseguiria. Era inacreditável.

Mas, sentada ao meu lado, Yukina continuava aflita. Ela tentava não transparecer, mas estava ansiosa por Naoki. Eu sabia que Hiei não tinha gostado nem um pouco de ter que tentar ajudar aquela garota, mas pelo menos não negou quando a irmã pediu para tentar salvá-la. Na verdade, eu tinha certeza que ele cederia, então não foi tão difícil convencê-lo. Sua única condição foi que o deixássemos a sós com ela, pra que não o atrapalhássemos. Pra ser sincera, ele praticamente nos expulsou do quarto. Não queria nenhuma plateia assistindo.

Então, só nos restava aguardar.

Do outro lado do Makai , esperávamos o aval de Yusuke para podermos ir para Gandara. O conflito por lá tinha acabado, mas eles ainda queriam confirmar se estaríamos mais seguros aqui do que naquele país. Por mais que eu detestasse a ideia de ficar congelando nesse fim de mundo, a aldeia dos yukinoroi calhou de ser um excelente abrigo. Mas a ausência de notícias me deixava inquieta e ansiosa. Queria saber como as coisas tinham terminado, quais foram os estragos, as perdas e principalmente se Shura tinha conseguido salvar Chiharu. Pro meu azar, Yusuke não disse nada para Kuwabara! Mas talvez, fosse cedo demais para avaliar os danos. Ou, talvez, ele só não soubesse como dar as más notícias. Pensar nisso só me deixava ainda mais angustiada…

De dentro de uma das casas da aldeia, eu observava pela janela Kuwabara se divertir com os youkais menores, enquanto eu me encolhia debaixo de uma manta para tentar me aquecer. Era inútil, é claro, mas ao menos a nevasca tinha dado uma trégua, embora isso não aliviasse realmente todo o frio que eu sentia. Depois de cair naquele rio congelado, era como se a sensação tivesse piorado. Meus ossos doíam e meu corpo inteiro estremecia.

Eu só queria ir embora logo pra um lugar bem quente e…

— Podemos falar com você?

Estava tão distraída que me assustei com a repentina aproximação de Izumi. Ela estava acompanhada de outra yukinoroi , uma bem anciã.

— Ah…claro. O que foi?

— Queria agradecer pelo que fez. Por nos libertar daquela maldição. Agora somos livres de novo.

Nem tanto. Ainda estão presos nessa montanha.

— Não precisa agradecer a mim. Meu plano quase matou nós duas.

— Não. O plano era bom. Foram as circunstâncias que o tornaram falho. De qualquer forma, também vou agradecer aos seus amigos. Vocês nos salvaram. Queria poder retribuir à altura, por isso conversei com os outros sobre aquilo que você queria saber. Sobre a possibilidade de alguém ser controlado por um longo período de tempo. Talvez Midori aqui possa te dar uma resposta melhor do que a minha. Ela já viveu muito mais do que eu e conhece algumas histórias.

— Histórias? — perguntei, relanceando a idosa que mal conseguia manter os olhos abertos — De que tipo?

Ela vagarosamente se moveu para sentar diante de mim, como se não conseguisse mais se manter em pé.

— Antigamente as coisas não eram como agora — murmurou bem lentamente — Tínhamos um território muito maior, sabia? Esse mundo era coberto de neve. Muita neve mesmo, quase não se via outra coisa. Nós convivíamos com outros youkais . Não éramos assim tão isolados…

Sua respiração pesou e ela tossiu em crise, me fazendo acreditar, por um instante, que ela estava prestes a ter um colapso bem diante de mim.

— Essa maldita tosse que não passa! Eu também não sou mais como antigamente. Agora tudo dói, tudo é tão difícil…O que eu estava dizendo mesmo?

— Que vocês não viviam isolados.

— Ah, e não vivíamos mesmo! O tempo mudou, ficou mais quente e veio o degelo. Nossa raça foi sendo excluída aos poucos. Por um lado foi bom, porque não tínhamos mais que enfrentar ninguém. Mas por outro, éramos nós por nossa conta. Completamente sozinhos. Não foi fácil. Nem um pouco…detesto o calor.

— Midori, ela está esperando que diga o que sabe sobre o controle corpóreo e mental.

— Acalme-se, Izumi! Com quem acha que está falando? Eu já estava chegando lá. Você não tem paciência nenhuma!

— Como funciona esse controle? — perguntei, antes que Midori novamente desviasse do assunto.

— Há muito tempo o Makai era habitado por criaturas horrendas, sem escrúpulos e maldosas. Cruéis, muito cruéis.

— Mas gente assim ainda existe.

— Isso é óbvio, menina. Criaturas maldosas e horrendas existem ainda hoje. Não só aqui, mas no seu mundo também! Mas não me refiro a elas! — exaltada, ela pigarreou novamente — Me refiro àquelas que não tinham um pingo de discernimento entre certo e errado, que só buscavam o caos. Monstros amaldiçoados, se quer saber! Era muito comum ouvir relatos de youkais que tiveram a vida tomada por eles. Youkais que perderam o controle e mudaram de comportamento radicalmente.

— O que fizeram com eles?

— Sabe o que te torna você? — ela me perguntou então. Eu hesitei, confusa e cansada daquela enrolação. Mas neguei simplesmente com a cabeça, deixando que continuasse — Não é sua aparência, seu comportamento ou suas vontades. Tudo isso faz parte de você, mas a sua essência é a sua energia. É isso que mantém você sendo você. Existe um princípio de transferência de energia, já ouviu falar?

— Acho que não.

— Mas com certeza já o viu. O poder de cura que muitos possuem, como é o caso de Yukina, se baseia nesse princípio. É a transferência de energia vital dela própria para outra pessoa, com o intuito de curá-la. É uma grande demanda de si mesmo, sabia? Você perde uma parte de sua vitalidade para doar pra outro ser. Esse poder não é pra qualquer um. Eu mesma não conseguiria fazer isso. Sente-se fraca depois de usá-lo, Yukina?

— Sim, fico um pouco tonta se usar muito — atenta à conversa, Yukina respondeu ao meu lado.

— Claro que fica! Perde um pouco de sua força toda vez que usa. Se usasse demais de uma única vez, morreria decompensada!

Comecei a entender aonde aquela anciã queria chegar com todo aquele falatório. A técnica de cura realmente é muito exaustiva. Te deixa fraco, sonolento e cansado. Mas aonde isso se encaixa na história de Kazuki? Seria possível alguém ter feito o mesmo que com ele? Mas com intenção de controlá-lo?

— Está querendo dizer que para controlar alguém pode-se partir do mesmo princípio de transferência de energia?

— Exatamente. O princípio de transferência de energia pode ser usado para o bem ou para o mal. Se a técnica for executada corretamente, um ser pode controlar outro, por que não? Lógico que é tão fácil assim, não é? Se fosse, todos usariam! Seria um desastre!

— Mas o efeito duraria assim por tanto tempo?

— Depende do quão poderoso é aquele que o usa. Eu soube de pessoas serem controladas até o fim de suas vidas. É como se a energia vital do outro os tivessem contaminado. Como se uma parte daquelas criaturas habitasse o corpo de seu servo. É uma espécie de parasitismo. O parasita infecta o hospedeiro e o controla de dentro para fora. O usa como quiser.

— Em outras palavras, você quer dizer que é como se parte do demônio parasita vivesse dentro do não-parasita? — ela assentiu — Mas como faço para removê-lo, então?

— Não tem como, é óbvio! Para aniquilar a energia parasita dentro do hospedeiro, somente matando o próprio hospedeiro!

Gelei ao pensar em Kazuki. Meu corpo inteiro ficou tenso. Yukina percebeu meu estado, pois foi ela quem respondeu a Midori, tentando me tranquilizar.

— Mas isso tudo é apenas um boato, não é? Não é certeza que as coisas funcionam dessa forma.

— Está duvidando de mim? — sua voz ficou severa, de repente. Ela apontou então para o próprio rosto — Eu vi acontecer, com estes olhos aqui! Etsuko era um dos nossos. Eu era muito jovem quando o encontrei caído numa clareira de gelo, e tinha uma outra criatura com ele. Era noite e eu não conseguia enxergar muito bem, mas seus olhos pareciam acesos como duas lanternas vermelhas. Brilhavam na escuridão como eu nunca tinha visto antes! Aquele estranho segurou Etsuko e o ergueu do chão. Eu estava longe e gritei para que ele parasse, mas fui ignorada. E então, eu vi algo sair de dentro daquele youkai e ser absorvido por Etsuko. Depois, a coisa foi embora e deixou o meu amigo ali. Desapareceu como se nunca tivesse existido. Desde então, Etsuko ficou estranho, vivia num transe. O yukinoroi que costumava ser amigável e tranquilo, de repente de voltou contra nós. Parecia um louco, nem nos reconhecia. Tentou me matar várias vezes…um absurdo, uma tragédia. Tivemos que sacrificá-lo.

— Mas talvez existisse alguma forma de libertá-lo disso. Algo que vocês desconheciam? — Yukina sugeriu, ainda tentando amenizar a situação.

— Acho difícil. Somente a pessoa que transferiu a energia poderia ser capaz de removê-la, mas por que ele faria isso? Não teria sentido. Não, não mesmo. Tivemos que matá-lo, não tínhamos outra alternativa.

Ouvir aquilo novamente me doeu. De repente, eu estava torcendo pra que aquela conversa acabasse o mais rápido possível, antes que eu mandasse aquela velha calar a boca. Mas não precisei chegar a esse ponto, pois quando Hiei entrou na casa, seguido por Kuwabara, desviou a atenção de todas nós. A porta aberta trouxe uma lufada de ar gélido que me fez estremecer, mas, pelo menos, o foco não era mais o controle mental de Kazuki e nem a possibilidade de ter que sacrificá-lo. Tudo que importava agora era saber se Naoki tinha voltado ao normal.

Hiei não precisou dizer nada. Eu já sabia o veredito antes mesmo que ele dissesse. Dava pra notar na forma que olhava diretamente para Yukina. Um olhar duro e incisivo. Talvez, ela não tivesse percebido de cara, pois esperou que ele se pronunciasse de qualquer maneira, assim como Izumi. Kuwabara, entretanto, também já parecia saber o que aconteceria a seguir e se aproximou de Yukina, provavelmente para ampará-la.

— E então? E Naoki? — perguntou Izumi.

— Nada em suas memórias foi forte o suficiente para fazê-la acordar. Continua igual.

O silêncio ficou suspenso no ar por um tempo. O brilho de esperança no olhar de Izumi foi desaparecendo aos poucos e Yukina escondeu o rosto sob as mechas de seu cabelo. Achei que choraria de novo, mas me enganei. Seus olhos continuavam marejados, mas nenhuma lágrima escorreu pelo seu rosto.

— É uma pena. Foi a melhor chance que já tivemos. — Izumi disse, ajudando a idosa a se levantar — Mas não é culpa sua. A vida de Naoki nunca foi muito emocionante mesmo. Isolada nessa montanha, ela não teve muito o que viver. Vamos continuar cuidando dela, como sempre fizemos.

As duas nos deixaram para dar a má notícia aos outros do vilarejo e ninguém mais disse nada por um tempo. Foi Kuwabara o primeiro a tentar oferecer apoio à Yukina.

— Você está bem, Yukina?

— Vou ficar. Obrigada, Kazuma — ela ergueu o rosto com um sorriso triste e não muito sincero. Em seguida, se aproximou de Hiei — E obrigada por tentar. Sei que fez o possível.

O abraço em seguida foi um gesto curto e sem nenhuma reciprocidade. Tão rápido que nem deu a Hiei um tempo de reação. E foi na mesma hora que ouvimos o barulho aumentar do lado de fora da casa. Numa espiada rápida pela janela, Kuwabara, que por um instante parecia perturbado, verificou a movimentação.

— Parece ser a escolta do Yomi. Vieram nos buscar…

Ele saiu apressado, puxando a maçaneta da porta com tanta força que quase quebrou as dobradiças.

— Acho que vou me despedir de todos antes de partir. E também agradecer pela estadia e por terem nos abrigado — Yukina disse a mim — Quero falar uma última vez com a Naoki. Sei que ela não pode me escutar, mas…

Sua voz morreu num silêncio incômodo que me fez buscar as palavras certas pra tentar reanimá-la.

— Yukina, depois que todo esse pesadelo acabar e meu irmão estiver a salvo, eu vou ajudar Naoki. Esse não é o fim. Ela vai sair dessa. Eu prometo!

— Acha mesmo que ainda podemos salvá-la?

— Tenho certeza. Já vimos que não é impossível se livrar daquele estado, então é só a gente buscar uma outra forma. Esse mundo é enorme. Em algum lugar a gente vai encontrar a solução.

— É. Tem razão — ela respondeu, um pouco mais animada — Não vou desistir dela.

Yukina me agradeceu pelo apoio e até sorriu antes de sair para se despedir dos amigos. Já Hiei continuou ali, me olhando com um quê de desaprovação.

— Não minta para ela — ele foi direto ao ponto, antes que eu perguntasse qual era o problema — Quanto mais cedo Yukina se conformar com o destino dessa garota, melhor para ela.

— Só por que você não conseguiu salvá-la, significa que ninguém mais vai conseguir? Izumi disse bem: você foi a melhor chance que ela teve, mas também foi a primeira e única. Além disso, você a ouviu. Ela não vai desistir de Naoki.

— Ela disse que não ia desistir, porque você a induziu a isso.

— Ela diria isso de qualquer maneira, porque Naoki é muito importante pra ela. Yukina vai procurar uma alternativa, mas nós dois sabemos que sozinha ela corre muito perigo. O tráfico de youkais nunca vai deixar de existir. Ela é uma mina de ouro. Se andar desprotegida e sozinha, então…Tem ideia do que os humanos fariam pra colocar as mãos nela?

— O mesmo que muitas raças de youkais fariam ou acha que esse tipo de coisa não acontece no Makai ? Por que acha que quero que ela fique naquele maldito templo do Ningenkai e pare de se meter onde não deve? Não era nem pra ela estar aqui.

— Concordo. E é por isso que eu vou ajudá-la. Se ninguém fizer nada, ela mesma vai querer fazer. Se não é seguro ela sair, eu saio por ela. Eu não sou tão valiosa.

— Não é o que os milhares de demônios que estão atrás de você diriam. Algum valor deve ter.

— Só por enquanto, mas uma hora isso vai acabar. Quando o meu problema for resolvido, vou me concentrar no de Yukina. Assim, ela não vai precisar correr perigo.

Me aproximei da porta da casa, dando uma última olhada para aquela montanha isolada do resto do mundo. O frio rigoroso me fez arrepiar inteira e eu fiquei extremamente feliz por finalmente poder ir embora dali. Porém, ao mesmo tempo, me sentia culpada por tanta felicidade, já que os yukinoroi nunca poderiam fazer o mesmo. Aquilo não parecia nem um pouco justo.

— Pretende ficar aí bloqueando a passagem até quando? — Hiei perguntou, me apressando pra sair da frente da porta — Pensei que odiasse esse clima e estivesse ansiosa pra ir embora daqui.

— Eu odeio, mas não me importaria se, pelo menos por um dia, o mundo inteiro ficasse coberto de neve.

Sabia que aquilo soaria sem sentido, mas ele me olhou como se compreendesse o que eu queria dizer. Me juntei então à escolta de Yomi em seguida, nem um pouco pronta para retornar aos meus próprios problemas.