KIARA POV

A primeira coisa que senti foi dor, antes mesmo de abrir os olhos.

Não conseguia entender de onde ela vinha. Irradiava a partir do lado esquerdo do meu peito, tomando os braços, a nuca e a cabeça. Era uma dor confusa e lacerante.

Meus olhos ardiam. Tive que me esforçar para abri-los e, o que deveria ser uma tarefa simples, passou a ser um martírio. As luzes acesas naquele ambiente extremamente iluminado quase me cegaram. Minha retina doeu com o choque da claridade. Fiquei sem enxergar por alguns instantes antes de conseguir me acostumar.

— Meu Deus! Você acordou mesmo!

Estava deitada e apenas virei o pescoço. Olhando para o lado encontrei Botan chorando, debruçada em cima de mim. Ela resmugava alguma coisa entre os soluços, mas eu não entendia o quê.

— Onde é que estamos? — perguntei — Por que você tá chorando?

Ela me olhou tentando limpar o rosto, ainda choramingando.

— Porque pensei que você não fosse mais acordar! Achei que fosse mentira, um engano…que fosse impossível!

— Que mentira? Tá falando de quê?

Me apoiei no colchão, tentando levantar, mas o mínimo esforço fez o meu corpo inteiro ferver. Senti como se o meu coração fosse explodir. Podia ter gritado de dor, mas nem para isso tive fôlego. Botan me ajudou a sentar na posição correta e só então eu consegui relaxar.

— Você está bem? — ela perguntou preocupada.

— Não. Tô com muita dor.

— Foi a bala espiritual que Ootake disparou em você. Pegou em cheio no seu coração.

A lembrança voltou com tudo, mas era um borrão. Me lembrava de ser atingida e só. Depois daquilo não tinha a mínima ideia do que aconteceu.

— É mesmo. Eu tinha me esquecido disso. Aquele imbecil atirou em mim do nada. Mas por quê?! Pensei que o Mundo Espiritual não machucasse humanos. Eu podia ter morrido!

— Bom, na verdade…— Botan disse, parando no meio da frase como se estivesse escolhendo bem as palavras que usaria.

— "Na verdade" o quê?

Ela suspirou.

— Não tem um jeito fácil de dizer isso pra você, então vou ser direta. Na verdade, você morreu.

Fiquei em silêncio a encarando, enquanto tentava entender exatamente aonde ela queria chegar. Imaginei que estivesse fazendo alguma piada sem graça, mas ela não fez menção alguma de dar risada. Nunca a tinha visto tão séria, na realidade.

— Você me ouviu, Kiara? Eu disse que você morreu.

— Botan…eu estou aqui. Viva. Bem na sua frente. Eu não estou morta.

— Agora não tá, mas você tava sim! Eu vi com os meus próprios olhos e fiquei aqui com você por todo esse tempo! Achei que não fosse mais acordar!

Ela voltou a chorar, me deixando preocupada e ainda mais confusa do que já estava.

— Como assim por todo esse tempo? Há quanto tempo estamos aqui?

— Três dias. Você ficou morta por três dias!

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Me sentia letárgica após ouvir com atenção tudo que Botan queria me contar. Não sabia o que responder e, pra ser sincera, não sabia nem se devia acreditar em tanta coisa absurda. Eu, imortal? Era impossível, só podia ser um engano. Mas Botan parecia convicta de tudo aquilo que me disse. Ela ainda me encarava apreensiva, esperando por alguma reação. Mas, infelizmente, eu não tinha ideia de como reagir àquilo. Estava cética, me negando a acreditar que toda aquela história pudesse ser verdade, Então apenas fiquei esperando que ela desmentisse tudo.

— Kiara, você não sabia mesmo disso? Não tinha ideia?

— Claro que não. Você tem certeza disso, Botan? Não pode ser. É tão…inacreditável. Você deve ter entendido errado.

— Claro que tenho certeza! O Rei Enma deu a vida pra não contar nada sobre você. Ele sabia que você era assim, sabia de muita coisa e se negou a contar. Ele jamais tiraria a própria vida em vão. A verdade é que o senhor Koenma viu você morrer. A bala espiritual pegou no seu coração e ele parou de bater na mesma hora, mas o seu espírito não deixou o corpo. Você morreu, mas voltou à vida. Não sei como é possível, mas aconteceu.

Eu estava desnorteada com aquela história. Mas, quanto mais eu pensava nela, mais sentido começava a fazer, por mais que eu odiasse admitir. Foi inevitável lembrar do dia em que eu estava naquela aldeia com os outros komorebi, quando nos enganaram e sequestraram Kazuki. Me lembro de ter sido derrotada e dos meus adversários dizerem que eu estava morta. Disseram que o meu coração não estava batendo. Me queriam viva, por isso me largaram ali, sem imaginar que eu acordaria. Então, eles não estavam errados, porque eu estava morta mas, mesmo assim, consegui ouvi-los.

Pensando bem, aquela não tinha sido a única vez. Eu perdi a consciência quando me afoguei naquele lago congelado, enquanto tentava fugir do youkai dimensional. Se me lembro bem, Hiei me disse que quando me tirou de lá eu parecia estar morta. Sem pulso algum.

Mas se tudo isso for verdade, significa que eu já morri mais de uma vez?

— Não não não…não pode ser — sussurrei bem baixinho — Por quê eu?

— Ninguém sabe, Kiara. Mas ainda bem que você não morreu, não é?

Não respondi. Não sabia se o que tinha acabado de descobrir era mesmo algo bom.

Olhando em volta, me dei conta de que estávamos num quarto como um de hospital. Todo branco, mas sem janelas. Uma máquina parecia monitorar meus sinais vitais, exibindo-os num painel. Os eletrodos estavam presos pelo meu corpo, dando acesso a esses dados médicos. Apesar de conseguir visualizar o eletrocardiograma na tela, coloquei a mão ao peito, na altura do coração, somente para ter certeza que ele realmente estava batendo. Pra garantir que aquilo não era mais um dos meus sonhos bizarros. Percebi então que a cada simples batida, o meu peito doía, e que toda a minha dor irradiava dali.

— Botan, você disse que já estamos aqui há três dias, mas ainda não me contou onde é aqui.

Ela fez uma careta. Um indício de que a resposta não era boa coisa.

— Naquele dia, depois do Ootake atacar você, ele te trouxe pra cá. É um centro do Reikai que fica localizado no Mundo dos Humanos. Serve pra muitas coisas.

— Eu tô em reabilitação há três dias?

Ela confirmou balançando a cabeça.

— Mas ainda tô com muita dor. Por mais que a bala tenha atingido meu coração, já era pra estar quase recuperada. Eu sempre cicatrizo muito rápido. Não tô entendendo o porquê…

Parei de falar no instante em que bati os olhos em minhas mãos. Ao redor dos meus pulsos, haviam argolas douradas brilhantes. Pareciam pulseiras, mas, dado o contexto, estavam mais para algemas.

— O que é isso?!

— Kiara, você precisa me ouvir e manter a calma agora, tá bom? Isso são algemas espirituais. Elas reduzem o seu nível de energia espiritual. Sugam ele inteirinho! Então, o seu nível de força agora é exatamente igual ao de um humano comum. Por isso você não consegue se recuperar tão rápido. Seu poder de cura está basicamente zerado e você só acordou porque está recebendo um tratamento aqui.

— Como é que é?! Agora entendi o que você quis dizer com "esse lugar serve pra muitas coisas". Isso aqui não é um centro de reabilitação, é uma prisão!

— Bom…é…também…

Irritada, arranquei por impulso os eletrodos conectados a mim. O painel apitou um alarme e Botan veio correndo até mim quando fiz menção de tentar levantar. Ao colocar os pés no chão e tentar me erguer, porém, a dor me derrubou de volta na cama. Qualquer mínima agitação fazia meus batimentos acelerarem e, consequentemente, o meu corpo inteiro doer ainda mais.

— Por favor, você tem que se acalmar! — Botan pediu, se agachando na minha frente — Não tenta fugir e nem lutar, senão vai ser pior. Você vai acabar igual o Kuwabara!

— O que fizeram com ele?

— Ele também está preso aqui. Ele tentou reagir quando Ootake atirou em você, mas o senhor Koenma disse que colocaram as algemas nele na mesma hora. O coitado levou uma surra, ficou sem poder nenhum! Estão mantendo ele nesse centro, porque ele tem a capacidade de desfazer a barreira entre os dois mundos que está sendo reerguida. O problema é que eu tentei acalma-lo, mas mesmo com as algemas ele não para de tentar escapar. Toda hora quer enfrentar os guardas que entram no quarto e toda hora ele apanha mais! Já até proibiram a minha visita.

— Mas por que aquele idiota fica tentando lutar se sabe que vai perder toda vez?

— Você sabe como ele é…

— Sei. Burro!

— A questão é que você não pode fazer o mesmo que ele, tá bom? Prometi pro senhor Koenma que ia te manter calma e não ia deixar você fazer nenhuma besteira até que os meninos conseguissem chegar aqui.

— E quando vai ser isso? Onde eles estão?

Ela fez uma careta, deixando claro que sabia do assunto tanto quanto eu.

— Não sei também. O Reikai está expulsando youkais do Mundo dos humanos, a situação está um pouquinho complicada! Mas temos que confiar neles.

De repente, a porta da sala se abriu. Botan levantou às pressas e se colocou do meu lado. Ootake entrou acompanhado de outros quatro homens do Reikai. Todos estavam armados, com aquele mesmo tipo de arma que Ootake usou para atirar em mim.

— Então você acordou. Como está se sentindo? — ele me perguntou.

Não tinha cinismo na sua voz, mas mesmo assim a sua falsa preocupação me irritou.

— Você me baleou. Como acha que eu estou?

— Eu disse que ia te mostrar o que eu sabia sobre você. Iria acreditar se eu simplesmente contasse que você é imortal? Tive que te provar e essa foi a única maneira. Não precisa ficar ressentida.

— Ah, é mesmo? E quanto isso aqui? — ergui as mãos, mostrando as algemas que envolviam meus pulsos — Qual a sua desculpa pra colocar isso em mim?

— É pra te manter segura. Está correndo perigo, já que estão atrás de você. Ficando aqui, estará cercada por toda a segurança do Reikai. É pro seu próprio bem.

— Como me deixar aqui sem poder algum pode ser bom pra minha segurança?!

— Se nós não fizéssemos isso, você ia se atrever a tentar fugir. Você é a peça chave pra toda essa bagunça que está acontecendo e, por isso, preciso te manter sob vigília. Preciso dar um jeito de consertar toda a merda que Koenma andou fazendo.

— Vai pro inferno com essa história. Eu não pedi pela sua proteção! Eu tenho que sair daqui pra ir atrás do meu irmão. Você não pode me manter presa. Eu não fiz nada de errado pra me tratar como uma criminosa.

— Garota tola. Se eu quisesse te tratar como criminosa, você estaria trancafiada numa cela. Eu te faria conhecer o inferno na Terra! Agradeça por ainda estar recebendo os cuidados necessários pra se curar completamente. Nós salvamos a sua vida.

— É, logo depois de tirar ela!

Ootake estreitou os olhos. Não parecia disposto a continuar aquela discussão.

— Vejo que está muito alterada. Isso só vai te fazer mal, sabia? Vou providenciar o seu descanso — ele disse, se dirigindo para um dos guardas que o acompanhava — Pode aplicar o sedativo.

O guarda se aproximou de mim e eu tentei recuar na cama. Ele foi rápido e retirou do bolso uma ampola com uma pequena dose do que deveria ser um tipo de tranquilizante.

— Não precisa disso, por favor! — Botan protestou ao meu lado, mas eles a ignoraram, tirando-a do meio do caminho.

O guarda com a ampola preparou uma seringa, enquanto outros dois me cercavam. Não tinha pra onde fugir, mas isso não me impediu de me debater quando me seguraram pelos braços.

Pela primeira vez, tentei usar minha energia, mas não consegui. As algemas realmente anulavam toda a minha força e, por mais que tentasse me desvencilhar daqueles homens, a agulha da seringa perfurou a minha pele até alcançar a veia mais próxima.

O efeito do sonífero foi instantâneo. Senti a dormência se espelhar por todo o meu corpo e a última coisa que vi antes de cair num sono profundo foi a silhueta de Ootake saindo pela porta do quarto.

KIARA POF

YUSUKE POV

— A central do Reikai no mundo dos humanos é um prédio bem grande. Tem sete andares e seis deles são subterrâneos. É o lugar que o Reikai usa pra resolver assuntos diversos, por exemplo, tratar casos complexos de humanos que caem por acidente no Makai e precisam ter suas memórias adulteradas. Mas também serve como uma prisão pra youkais problemáticos e perigosos. Tem também uma ala restrita de reabilitação para pessoas feridas por causas sobrenaturais e conflitos entre demônios. Enfim, tem muitas utilidades. Kiara e Kuwabara devem estar em algum lugar do quinto andar, que são destinados aos cuidados médicos. O problema vai ser como invadir, já que todos os membros do esquadrão espiritual estão por lá, além de inúmeros guardas do Reikai.

Koenma olhou para nós três pensativo, como se fizesse um enorme esforço pra conseguir ter uma boa ideia. Também pensativo, Kurama acompanhava seu raciocínio, enquanto Hiei parecia distante, como se nem estivesse ouvindo. Já pra mim, a solução era muito simples.

— Não podemos só chegar lá e explodir tudo? — perguntei, mesmo sabendo qual seria a resposta.

— Quais são as chances de vocês chegarem ao quinto andar se já forem pegos logo no primeiro, Yusuke?

— E quem disse que seremos pegos, Koenma? É só sentar a porrada em qualquer um que tentar nos impedir.

— Não é bem assim. Não tenho dúvidas da força de vocês três possuem para derrubar qualquer um ali, mas também não subestime o Reikai. Sabemos bem como neutralizar o inimigo e, aliás, Kuwabara, Kiara e até Botan — que topou se arriscar mesmo sem ter nada a ver com isso — estão à mercê deles. Podem ser usados como reféns. Não tenho dúvida de que Ootake faria isso, se fosse necessário.

— Tá, tá bom, Koenma! E o que fazemos então? Quer que a gente chegue lá e implore para, POR FAVOR, soltarem os três? Cai na real, não tem como resolver isso se não for com violência. Eles literalmente sequestraram Kiara e Kuwabara e, pelo que você contou, até mesmo torturaram uma guia espiritual. E não esquece que por culpa deles o seu pai tá morto!

— Yusuke! — Kurama me repreendeu com um olhar fulminante — Já deu pra entender.

Koenma ficou cabisbaixo. Ele estava tão abatido que me senti extremamente mal por esquecer que ele ainda estava de luto. Poucos dias tinham se passado desde o ocorrido e a dor de Koenma era muito recente. Ainda assim, ele tentava se fazer de forte, entrando de cabeça num plano que possivelmente jogaria a última pá de terra na sua carreira como líder do Reikai. Mas como evitar ficar possesso? O luto de Koenma era culpa deles. Não dá pra ter misericórdia de gente do pior tipo. Com Ootake não tinha conversa. Um acordo não seria uma opção.

— Foi mal — eu disse enfim, tentando amenizar o clima — É que tá difícil manter a calma. Tivemos que vir escondidos pra cá como se nós fôssemos os bandidos da história, não temos ideia do que tá rolando naquele lugar e, pra ser bem sincero, minha vontade é matar no soco esse cuzão do Ootake.

— Eu sei, Yusuke — Koenma respondeu — Acha que não me sinto da mesma forma? Mas temos que ter o mínimo de cautela, justamente porque não sabemos o que está acontecendo lá dentro com Kuwabara e as meninas.

— O ideal seria que entrássemos sem que nos vissem, mas não vejo como isso pode ser possível. A não ser que tivéssemos uma distração, alguém que ocupasse toda a atenção de Ootake e do prédio inteiro enquanto tentamos entrar — Kurama ponderou.

— Eles não seriam tão burros de cair nessa armadilha. Com certeza já esperam que tentemos alguma coisa assim — Hiei respondeu.

— É, provavelmente você tem razão. Eles já devem ter previsto isso. Mesmo se tivesse uma distração fora do prédio, eles não iriam baixar a guarda. Então, temos que dar a eles o que não esperam.

— E o que eles não esperam que a gente faça? — perguntei.

Kurama colocou as mãos nos bolsos e deu um longo suspiro antes de responder.

— Que a gente chegue lá e implore para que, por favor, soltem os três.

Fiz uma cara feia e olhei pra ele indignado. Mas Kurama apenas riu da minha reação, sem voltar atrás no que disse.

— Tá de sacanagem? Eu não tava falando sério quando sugeri isso, Kurama.

— Fica tranquilo, Yusuke. Eles não soltariam os três mesmo que você se ajoelhasse diante de Ootake. Mas você me deu uma ideia quando disse isso. Se não conseguimos entrar escondidos, vamos entrar pela porta da frente. Quer dizer, só um de nós poderia fazer isso.

Kurama desviou o olhar para Koenma, que logo entendeu o recado.

— Eu estou afastado temporariamente. Não tenho mais permissão para entrar lá.

— Tem, se você for convidado.

— E por que me convidariam? — Koenma perguntou.

— Ootake pensa que seu pai te contou algo importante quando você o visitou e ele quer muito saber o que é. Além disso, tenho certeza que ele gostaria de te ver implorar pela liberdade dos três. Humilhado diante dele.

— Mas e daí, Kurama? Onde você quer chegar com isso? — Hiei perguntou, já sem paciência — Koenma entra e faz o quê? Abre a porta pra gente?

— Não, não só a porta. Ele vai abrir o prédio todo pra gente

Hiei, Koenma e eu nos entreolhamos, ainda sem entender a ideia.

— Dá pra ser um pouco mais claro, Kurama? — perguntei — No que você tá pensando?

— Lembra o que você falou sobre simplesmente chegar lá e explodir tudo? Então, acho que é uma boa ideia. Vamos explodir o prédio de dentro pra fora.