KIARA POV
Tive uma sensação de déjà vu quando acordei. Botan estava sentada ao meu lado, debruçada em cima de mim e com cara de quem tinha acabado de chorar, da mesma forma que a vi antes de me aplicaram aquele sedativo. A dor que eu sentia no peito também era exatamente a mesma.
Botan estava tão distraída com os próprios pensamentos que só percebeu que despertei quando me mexi. Ela deu um sorriso de alívio ao me ver de olhos abertos e de alguma forma aquilo me reconfortou. Só então me dei conta de que eu estava realmente agradecida por não estar ali completamente sozinha.
— Como se sente, Kiara?
— Não muito bem.
— É, eu posso imaginar. Ootake passou dos limites. Como pôde ter feito isso?
— Você acha que só agora ele passou dos limites? O que é um tranquilizante perto de um tiro?
— É verdade. Mas quando o senhor Koenma voltar ao poder ele vai ser só!
— Você acredita que o Koenma vai voltar ao poder?
Ela parecia hesitante, mas respondeu com confiança.
— Ele vai. Eu sei que vai. Isso tudo vai se resolver quando sairmos daqui.
— Falando nisso, por quanto tempo eu dormi, Botan?
— Algumas horas. Seis horas, pra ser mais precisa.
— Ah, foi menos do que eu esperava. Acho que é pouco tempo pra você ter recebido alguma notícia dos meninos, né?
— É, ainda não tenho nenhuma novidade. E pra ser sincera, eu tô incomunicável também. Não saio desse prédio desde que você e Kuwabara vieram pra cá. Não acho que receberei notícias deles.
— Mas você pode sair, né? Quer dizer, não precisa ficar aqui o tempo todo, porque não está sendo feita de prisioneira. Poderia ir e tentar se encontrar com eles.
— Não seria uma boa ideia. Se Yusuke e os outros estiverem no Ningenkai, será porque vieram pra cá escondidos. Se eu for encontrá-los, vou acabar revelando a localização deles. Por isso que, mesmo se eu soubesse onde estão, não iria até eles.
— É, você tem razão. Acho que não tô raciocinando direito. Esquece o que eu disse.
— Eu também prometi pro senhor Koenma que cuidaria de você e do Kuwabara. Já falhei com o Kuwabara, porque me proibiram de visitá-lo. Não vou falhar com você também. Vou ficar do seu lado até que os meninos venham nos buscar.
— Eu tô feliz que esteja aqui comigo, Botan.
Eu não costumava dizer o que sentia tão abertamente, mas falar aquilo me pareceu o certo naquele momento.
O rosto dela se iluminou com um sorriso largo e seus olhos brilharam emocionados. Uma feição contente que logo se transformou em terror quando tentei me colocar de pé.
— Ei, ei! Espera aí! Onde você acha que vai?
— Fica tranquila. Não vou arrumar confusão, se é o que está pensando. É lógico que eu queria bater de frente com os caras que me prenderam aqui, mas sei que com essas algemas espirituais não vou conseguir fazer nada. Não seria prudente enfrentá-los nesse estado.
— E então? Por que está se levantando?
— Preciso me acostumar com essa maldita dor no coração. Quando os meninos chegarem pra nos tirar daqui, não dá pra esperar que me carreguem no colo, né? Ainda mais se chegarem de forma não amigável. Preciso pelo menos conseguir andar.
Ainda sentada, eu mantinha os pés no chão, enquanto me preparava psicologicamente pra pegar impulso e levantar. Porém, os meus pés quase cederam na primeira tentativa. Era como se eu nunca tivesse sido capaz de sustentar o peso do meu próprio corpo. Me desequilibrei e pensei que fosse cair, mas Botan chegou a tempo de me segurar.
— Vamos com calma — ela disse — Não esquece que ficou aí deitada por uns dias. Eu te ajudo até que consiga ir por conta própria.
Agradeci e permiti que ela fosse me guiando em passos curtos e lentos por todo o quarto, até que eu conseguisse caminhar sozinha. Fui bem devagar quando ela me soltou, mas pelo menos começava a pegar o jeito de me movimentar, tentando diminuir ao máximo o impacto do ferimento no peito.
— Você tá conseguindo!
— É, mas cada simples passo faz meu coração acelerar e doer ainda mais. Preciso pisar no chão com muita leveza pra não sentir nada. Mas e se eu precisar correr? Não sei se vou conseguir.
— Vamos manter o otimismo. Talvez você não precise correr, né?
— Mas qual a chance de Ootake nos libertar por vontade própria? Duvido muito que alguém consiga convencê-lo. Se os meninos vierem nos tirar daqui, com certeza vai ter uma briga feia.
— Como assim "se eles vierem"? Eu já te disse que eles vem, Kiara! Não fala como se eles fossem nos deixar aqui!
Estranhei a forma com que ela elevou o tom de voz. Olhei pro seu rosto e percebi que estava brava. Indignada com o meu comentário.
— Calma, Botan. Foi só uma maneira de dizer. Relaxa, eles jamais deixariam você presa aqui.
— Ai, como você é lerda! Bem que eu tinha lido algo assim sobre a sua personalidade naquela ficha do Reikai. Dizia que, às vezes, você é completamente deslocada da realidade. E que tem dificuldade de se abrir e se relacionar com as pessoas ao seu redor!
— Quê?! Como assim esse tipo de coisa tá escrita em algum lugar? Isso nem é verdade!
Ela revirou os olhos.
— É, também dizia que você não admite os próprios defeitos e que não aceita muito bem nenhum tipo de crítica.
— Isso daí já é exagero! Você tá inventando.
— Se é tudo invenção minha, me explica o porquê você acha que o senhor Koenma, Yusuke, Kurama e Hiei te deixariam presa aqui?!
— Eu nunca disse que acho isso, é você que tá colocando essas palavras na minha boca. Eu disse que eles não TE deixariam aqui, mas sei que eles não me deixariam também.
— Sabe mesmo? E por que eles não deixariam?
— Porque todos nós estamos no mesmo barco, né? Em busca de respostas e uma solução pra tudo que tá acontecendo. O Koenma pediu ajuda deles pra…
— Resposta errada! — ela me interrompeu — Eles não vão te tirar daqui porque você é parte de um acordo com o senhor Koenma, mas sim porque são seus amigos.
Eu ia responder. Até abri a boca, mas fechei em seguida sem dizer nada. Amigo não era uma palavra que eu estava acostumada a ouvir. Não fazia parte do meu dia a dia. Nunca fez, na verdade. Ouvir aquilo me deixou sem fala e sem reação. De certa forma, até envergonhada. Andei devagar até a mesinha em frente a cama do quarto, onde tinha uma bandeja com um copo d'água e fiquei ali ameaçando tomar um gole. Fingiria colocar a minha atenção em qualquer coisa só pra não precisar encarar Botan. Naquela hora, eu desejei estar sozinha.
— Acha que eu tô aqui por qual motivo? — Botan me perguntou em seguida.
Continuei sem olhar pra ela, concentrada apenas no copo de água que agora eu segurava como se fosse a coisa mais interessante do mundo.
— Você já disse — respondi — Fez uma promessa ao Koenma.
— Com ou sem promessa, eu estaria aqui. Você não entende, Kiara? Isso tudo já não é mais sobre o pedido que o senhor Koenma nos fez. Todos nós podíamos ter te abandonado faz tempo. A verdade é que mesmo que você estivesse aqui sozinha, sem eu ou o Kuwabara, eles viriam te resgatar. Por acaso você não nos considera amigos? Não gosta da gente?
Naquela altura do campeonato, esse assunto já tinha me deixado extremamente sensível. Botan me pegou desprevenida com essa conversa e acabou me fazendo parar pra pensar em algo que ainda nem tinha me passado pela cabeça. Meu único amigo na vida foi Daisuke, meu ex-noivo arranjado que vivia competindo comigo pela liderança do clã. Brigávamos mais do que qualquer outra coisa, mas, ainda assim, foi o mais perto que cheguei de ter um amigo. De ter alguém fora da minha família que gostasse de mim.
Mas agora, tudo parecia tão novo. Ninguém mais se importava com o tipo de poder eu usava e nem se afastavam mais de mim por ser diferente. Pra ser sincera, eu até me sentia parecida com eles, mais do que com o meu próprio povo. Talvez, ficar com os komorebi não fosse o meu destino mesmo…
Larguei o copo de vidro e virei para Botan.
— Eu gosto de vocês.
Ela sorriu de forma meio exagerada e bateu palmas silenciosas, como se tivesse acabado de ouvir a melhor coisa do mundo.
— Viu? Não foi tão difícil de dizer, né? Então é um sentimento recíproco. Eu sou sua amiga, por isso estou aqui com você.
Ela me abraçou meio inesperadamente e eu retribui meio desajeitada. Não lembrava da última vez que tinha abraçado alguém. Provavelmente tinha sido a pequena Sayu, quando trabalhei pra Yamazaki fingindo ser outra pessoa.
Mas os meus dedos inconscientemente se afastaram de suas costas, pois enquanto a abraçava, meu olhar recaiu em outra pessoa que há dois segundos atrás não estava no quarto: aquela mulher misteriosa. A mulher que vivia aparecendo para mim nos momentos mais aleatórios. Jovem, olhar marcante e expressão rígida. Estava diante de mim, ou melhor, de nós. Mais visível do que nunca.
Me afastei de Botan sem tirar os olhos dela.
— O que foi? — Botan me perguntou, confusa. Ela olhou para os lados como se estivesse tentando ver o mesmo que eu via — Tá olhando o quê?
Era inacreditável. Ela simplesmente não podia enxergá-la.
— Botan, você por acaso já viu fantasmas?
— Fantasmas? — ela deu um risinho — Que pergunta estranha. Fantasmas são nada menos do que espíritos das pessoas que faleceram e não fizeram a travessia. Claro que eu já vi! Eu posso ver todos os espíritos, já que sou uma guia espiritual! Mas por que está me perguntando isso de repente?
— Por nada…esquece.
Eu fiquei em choque. Se Botan não podia enxergá-la, então ela não era um espírito. Mas se ela não era um espírito, então o que ela era?!
A mulher apontou em direção a lixeira ao lado da mesa. Seus lábios mexeram e acho que tentou dizer algo como "veja", mas, como não tinha voz, eu não podia afirmar com certeza. Me aproximei e notei a coisa metálica que refletia a luz do quarto ali dentro.
— O que foi, Kiara? Você não tá batendo bem, né? — Botan comentou, quando desesperadamente me debrucei sobre a lixeira para ter certeza do que estava vendo — Será que foi o sedativo?
Estiquei o braço e peguei a seringa pela base do êmbolo, examinando o estado da agulha que, para a minha sorte, estava inteira. Mas, quando fui olhar de novo para aquela mulher, ela já não estava mais ali. Desapareceu como se nunca tivesse estado naquele quarto.
De qualquer forma, seja lá o que fosse essa pseudo-espírito-fantasma que só eu podia ver, acho que também podia considerá-la minha amiga. Pelo menos, ela parecia estar tentando me ajudar. Pensando bem, tirando aquela vez na fortaleza de Mukuro que eu quase me ferrei tentando persegui-la, ela nunca me fez nada de ruim.
— Ah, é a seringa que usaram pra aplicar o tranquilizante em você — Botan disse — Pra que pegou isso?
— Eu acho que dá pra usar ela de novo.
Ela me olhou estranho, com cara de quem não estava entendendo onde eu queria chegar.
— Vai usar pra quê, exatamente? Ela não tem utilidade. Não temos o quê aplicar e ela também já está usada — ela esboçou uma careta, como se estivesse com nojo.
— Podemos dar uma utilidade a ela. Só não sei se você vai gostar da minha ideia. Na verdade, nem eu mesma gostei. Afinal, vou ter que ficar com a pior parte.
Expliquei para Botan o meu plano e, como eu já esperava, ela não ficou nada contente. Repetiu várias vezes que era má ideia, que jamais daria certo e que ela acabaria sendo jogada numa cela junto dos demais prisioneiros super perigosos que estavam no último andar. Mesmo assim, a convenci de tentarmos.
Escondi a seringa debaixo do meu travesseiro e, pelas horas seguintes, apenas observei o movimento dos funcionários do Reikai. Alguns entraram para limpar o quarto, outros para trazer comida. Mas o mais importante: sempre entravam sozinhos. Isso seria crucial para o meu plano funcionar. Além disso, eles estavam preparados para o que quer que acontecesse. Traziam consigo uma espécie de pochete presa à cintura que eu já tinha visto ser usada uma vez. Ali, eles guardavam as doses dos sedativos.
— Não sei não, Kiara. Acho que não vou conseguir fingir direito — Botan disse, preocupada — Não sou boa com mentiras.
— Vai dar tudo certo. Você consegue.
Tentei encorajá-la, mas em nenhum momento Botan pareceu segura do que faria. Tive que admitir que ela era mesmo um caso perdido. Certinha demais pra fazer algo tão errado quanto o que eu sugeria. Não demorou pra eu perceber que o sucesso dessa missão dependeria da minha capacidade de pegar a todos desprevenidos, incluindo a guia espiritual que parecia totalmente perturbada com aquela situação.
Deixei o dia virar, observando com calma tudo ao meu redor, e sempre acompanhando o relógio preso na parede. Percebi que os funcionários eram bem pontuais ao trazer comida. Ao meio dia, vinha o almoço e às sete horas da noite, o jantar. Então, ao anoitecer do dia seguinte, já sabia exatamente o momento que trariam a nossa próxima refeição. A princípio, prometi a Botan que a avisaria quando fôssemos iniciar o plano, mas mudei de ideia e decidi fazer as coisas do meu jeito.
Me preparei psicologicamente com antecedência. Ela nem desconfiou quando levantei da cama faltando cinco minutos para o jantar. Preocupada comigo como sempre, Botan não tinha ideia das minhas intenções, e confesso que isso fez eu me sentir um pouco mal.
— Cuidado, Kiara. Você tem se esforçado demais. Sei que quer se acostumar com a dor, mas vai acabar se desgastando desnecessariamente.
Ela levantou de onde estava e veio até mim para ajudar caso fosse preciso.
— É, eu sei — disse a ela enquanto caminhava lentamente, ainda prestando atenção no relógio. Eu não podia perder o timing — É que eu tô muito ansiosa.
— Pra sair logo daqui?
— É. Tô tão cansada desse lugar. Eu sei que já disse antes, mas tô muito feliz que esteja aqui comigo, senão acho que eu já teria enlouquecido.
Botan sorriu e abaixou a guarda. Deixá-la feito boba era mais fácil do que eu imaginava.
Três minutos e meio.
— Nossa, eu nunca tinha visto você dizer esse tipo de coisa e agora já falou duas vezes!
— É que eu fiquei pensando no que você me falou. Sobre agora eu ter amigos.
— Ah, é. Você disse que nunca tinha tido nenhum, né? Isso é verdade mesmo, Kiara?
— É sim. Quer dizer, eu tinha um, o meu ex…— interrompi, antes que dissesse a palavra "noivo". Era um detalhe desnecessário que com certeza causaria uma reação exagerada em Botan. Preferi me poupar de ter que explicar aquilo e mudei a minha resposta — Meu ex-companheiro de luta. Mas ele também era meu rival. Competíamos em tudo.
— Como assim? Como podem ser rivais e amigos ao mesmo tempo?
— Sempre cuidávamos um do outro, mas também brigávamos muito. Ele tentava ser melhor do que eu em absolutamente tudo. Sempre foi muito exibido e queria se destacar mais do que qualquer outra pessoa no clã. Por bem ou por mal, eu sempre ficava no caminho dele — dei de ombros.
Ela me escutava com atenção, completamente envolvida pela história. Era mais curiosa do que eu imaginava. Então, me aproximei ainda mais, nos deixando lado a lado.
Quase lá. Só mais um um minuto e meio.
— Bom, mas mesmo assim você fala dele com muito carinho. Então, apesar de tudo, parece que ele era mais seu amigo do que um rival.
— É — concordei — Era quase um irmão. Eu o xingava todos os dias, mas hoje sinto falta dele. A gente só dá valor às pessoas quando perdemos elas, né?
Ela ficou emocionada e, pra ser sincera, eu também. Por que tive que dizer aquilo? Geralmente evitava pensar no meu passado, porque me fazia mal lembrar de todos que perdi. Me deixava completamente vulnerável. Era uma ferida que não cicatrizaria nunca.
Balancei a cabeça, tentando me concentrar no que importava no momento. Olhei pra Botan e notei que ela tinha lágrimas nos olhos.
— Sinto muito — ela disse limpando o rosto — Mas agora você tem a gente.
Eu assenti, curvando os lábios com um meio sorriso. Olhei pro relógio mais uma vez. O ponteiro maior cruzou o número doze, fazendo o menor anunciar a troca de horário.
Agora!
— É, agora sei que você é minha amiga — eu disse a ela — Por isso, Botan, preciso te pedir desculpas.
Ela franziu a testa, sem entender.
— Por quê?
Naquele instante ouvi a trinca do quarto zunir quando o mecanismo foi acionado pelo lado de fora. A porta começou a deslizar para a direita, se abrindo para o guarda do Reikai entrar.
— Por isso!
A empurrei com o pouco de força que tinha, fazendo-a perder o equilíbrio e cair de costas na cama. Ela gritou e eu fiz um enorme esforço pra me jogar em cima dela, a agarrando pelo pescoço.
Apesar de toda a sua histeria, tenho certeza que aquilo doeu mais em mim do que nela. Primeiro, porque eu quase não fazia força alguma nas mãos e, segundo, porque eu quase morri (de novo!) quando pulei em cima dela. A dor no meu peito quadruplicou e eu achei que meu coração não aguentaria tamanha pressão. Ainda assim, continuei firme onde estava, fingindo enforcá-la, enquanto ela continuava gritando como uma maluca.
Será que Botan tinha ideia de que eu estava tão fraca que, se ela quisesse, poderia facilmente me derrubar no chão? Será que essa tonta ainda não tinha percebido que estava colocando o nosso plano em prática?
O guarda encarou aquela cena de boca aberta, mas não demorou pra vir correndo na minha direção. Agarrou os meus ombros por trás e me puxou, livrando Botan do meu "ataque". Ela ainda estava assustada quando levantou e ele, por sua vez, me derrubou na cama. Meu rosto ficou colado no colchão, enquanto ele segurava os meus pulsos e torcia os meus braços para trás, mantendo-os presos em minhas costas.
Com muita dor e dificuldade, me debati com as pernas ao vê-lo pegar a seringa dentro de sua pochete.
Segurando meus dois braços com uma só mão e a seringa em outra, ele notou que não conseguiria pegar a ampola contendo o sedativo sozinho. Passou os utensílios para Botan e deu a ordem em seguida.
— Me ajuda aqui, ela tá sem controle! Encaixa agulha na seringa e prepara o tranquilizante!
Botan estava assustada, mas reagiu rapidamente, obedecendo. Na posição em que estava, eu não conseguia ver bem o que acontecia atrás de mim. Só me restava torcer para tudo dar certo.
— Aqui está!
De relance, vi Botan devolver o que parecia ser a seringa pronta para o guarda, com um líquido levemente amarelado dentro. Senti a agulha perfurar o meu braço com força e não consegui reprimir um grito. A substância invadiu o meu corpo, me queimando por dentro.
Me senti zonza na mesma hora. Aos poucos parei de me mexer e então desmaiei de novo.
KIARA POF
xxxx
As instruções tinham sido claras. Keiko relia pela quarta vez o bilhete que foi dado a ela junto da gorjeta no restaurante Yukimura por um completo estranho.
Nele, constava um endereço bem afastado da cidade. Um lugar tão remoto que ela não tinha ideia de como chegaria lá.
Keiko sabia que tinha sido enviado por Kurama, uma vez que estava junto de uma pétala de rosa. E, se tinha sido enviado por Kurama, também tinha relação com Yusuke. Fazia muito tempo que não o via e a saudade apertava o seu peito cada vez mais.
"Eles estão te vigiando. Tome cuidado. Não seja seguida."
Era esse aviso o seu maior problema. Desde que recebeu o bilhete, Keiko percebeu que fosse no restaurante, ou fora dele, sempre tinha alguém em seu encalço. Geralmente um homem que a sondava à distância sem se preocupar em disfarçar muito.
Ela nunca estava sozinha. Mesmo dentro de casa, sentia como se a estivessem observando. Certa vez, durante a noite, se atreveu a olhar pela janela do quarto. Arrastou a cortina o suficiente para apenas espiar a rua e lá estava ele: o mesmo homem. De terno preto, óculos escuro e chapéu. Olhando diretamente em sua direção.
Ela sabia que precisava ir ao encontro de Yusuke, e até preparou as coisas que Kurama pediu dentro de uma mochila. Mas como faria isso sem ser seguida?
Ela precisava sumir de vista, mas a tarefa parecia impossível. Quando o sol se punha, com a mochila nas costas, ela guardou o bilhete no bolso da calça e seguiu o caminho para ir embora para casa, deixando o turno da noite no restaurante para os seus pais. Às vezes, parava no meio do percurso para olhar as vitrines das lojas que ainda estavam abertas, usando o reflexo do vidro para visualizar quem quer que estivesse atrás dela.
Ele sempre estava lá. Sempre.
Aquilo se repetia por dias e Keiko já não aguentava mais. Estava prestes a cometer qualquer loucura que fosse para encontrar Yusuke. Faria o que fosse preciso pra despistar aquele homem. Foi então que, sem muito pensar, ela parou e se virou abruptamente. Acompanhando os seus passos, ele também parou, agora a encarando de frente.
A respiração de Keiko pesou, por medo e por raiva. Diminuindo a distância entre os dois, ela foi de encontro a ele, furiosa e deixando de lado a sensatez que tentou manter por tanto tempo.
— Por que você tá me seguindo?!
Surpreso, o homem arregalou os olhos com a pergunta. Não esperava que ela o abordasse tão diretamente.
— Me deixa em paz, seu esquisito!
Aquela exaltação atraiu alguns espectadores.
— Não sei do que está falando. Você está louca? — ele respondeu, se fazendo de desentendido.
— Você vai ver a louca.
Keiko respirou fundo, juntou todo fôlego que foi capaz e gritou o mais alto que pôde.
— Socorro! Socorro!
A multidão ao seu redor parou o que fazia para olhar o escândalo. Os lojistas saíram de seus estabelecimentos curiosos e aos poucos a quantidade de pessoas que se acumulava ali foi aumentando.
Keiko e o vigia mandado pelo Mundo Espiritual agora estavam cercados por inúmeros pares de olhos. As pessoas cochichavam, se perguntando o que teria acontecido.
— Esse homem está tentando me sequestrar! — Keiko o acusou, fazendo com que as pessoas comentassem ainda mais — Me ajudem, por favor! Ele está me seguindo!
— Isso não é verdade — ele respondeu meio desajeitado, já que a multidão parecia acreditar no falso choro de Keiko — Ela é maluca!
— Então, me deixa ir embora! — ela retrucou dando alguns passos para trás.
O homem fez um movimento brusco como se fosse tentar segui-la e a multidão ficou mais agitada, como se aquilo desse credibilidade para o que ela dizia. Keiko então resolveu dar a cartada final.
— Cuidado! Ele tem uma arma!
Apavoradas, as pessoas começaram a correr para todos os lados, desordenadas, trombando umas nas outras. Keiko rapidamente aproveitou para se misturar entre elas. No meio daquela bagunça na rua, corria o mais rápido que podia e apenas olhou para trás por um segundo, tendo um breve vislumbre do homem de terno preto que agora todos acreditavam ser uma ameaça.
Ao ver uma feira adiante, Keiko não pensou duas vezes em entrar. Imaginou que o homem a tinha visto fazer isso, então seguiu abaixada ao passar por entre as barracas enquanto procurava um lugar para se esconder. Para a sua sorte, o evento estava lotado, cheio de feirantes anunciando suas promoções e clientes desesperados para conseguir pagar pelo menor preço. Quando se sentiu cansada demais para continuar correndo, ela parou atrás de uma das barracas e ficou observando com cuidado as pessoas que passavam entre a abertura de seu esconderijo e a barraca vizinha.
Ela ofegava tentando retomar a normalidade de sua respiração. Seu coração martelava tão forte em seus ouvidos por causa da adrenalina que, por um instante, ela pensou que poderia ser ouvida. Espiando por trás da barraca, viu o homem passar de costas, a procurando. Voltou a se abaixar e, engatinhando, seguiu pelo lado oposto ao dele, até conseguir chegar novamente na rua.
Pensou ter escapado, mas reprimiu a vontade de sorrir ao ver de longe outro homem se aproximando, com o mesmo estilo de roupa do anterior.
"Não é possível. Ele chamou ajuda?!", ela pensou. No escuro do anoitecer, decidiu correr também na direção oposta do segundo perseguidor, rezando para não ser vista, mas bastaram dez passos para avistar um terceiro homem. Eles estavam por todos os lados. Encurralada, ela não sabia mais para onde ir e pensou em desistir. Ficou parada no mesmo lugar, perdida até que, de repente, alguém agarrou o seu braço.
Ela virou o corpo assustada e tentou se desvencilhar por impulso. Mas suspirou aliviada ao ver que a pessoa que insistentemente a agarrava pelo casaco não era um daqueles homens, mas sim alguém do mesmo porte que ela. Uma garota que, usando um boné e uma blusa de gola alta, impedia que Keiko conseguisse reconhecer o seu rosto parcialmente encoberto.
— Vem comigo! — ela disse, arrastando Keiko em direção a um beco estreito.
Por algum motivo, Keiko a obedeceu sem hesitar. Pensou que, caso fosse necessário, pelo menos teria mais chances de enfrentar aquela mulher do que os caras fortes e enormes que a estavam seguindo.
As duas atravessaram aquele caminho rapidamente e a mulher puxou Keiko até um carro preto que estava estacionado na outra extremidade da rua adjacente. Os vidros das janelas eram tão escuros que a deixaram desconfiada.
— Entra logo aí! — a garota disse, abrindo a porta de trás — Vai!
— Por que eu deveria?
— Porque eu sei que você precisa sair daqui sem ser vista por aqueles caras pra encontrar o seu marido.
Keiko ficou em estado de choque. Quem era aquela, afinal? E como sabia tanto?
— Como você…
— Entra logo que eu te explico!
Keiko então entrou no carro, seguida pela mulher. Ali dentro tinha outra pessoa, no banco do motorista. Ela sentiu o cheiro de cigarro na mesma hora e, apesar da pessoa estar de costas e usar óculos escuros, Keiko a reconheceu imediatamente.
— E aí, Keiko? Correu bastante, hein?
— Sh-Shizuru?!
A irmã de Kuwabara abaixou discretamente o óculos e lançou uma piscadela pelo espelho retrovisor do carro. Em seguida, pisou fundo no acelerador, saindo daquela região em alta velocidade. Enquanto isso, a garota desconhecida abaixava a gola e retirava o boné, revelando os seus cabelos castanhos curtos.
Keiko sabia que aquele rosto lhe era familiar e a observou por um momento, até se lembrar da foto que um dia Kurama lhe mostrou.
— Ei, você não é a namorada do…?
Ela engoliu as palavras e se calou antes que dissesse o nome errado por acidente. Até onde sabia, a namorada de Kurama não tinha ideia da sua verdadeira identidade e somente o conhecia como Shuichi Minamino.
— Do Shuichi? — ela perguntou — Pois é. Não sei se sou mais. Mas meu nome é Maya, muito prazer.
Confusa, Keiko revezou o olhar entre elas, sem entender como foi parar num carro com aquelas duas. Nada poderia ser mais estranho ou aleatório.
— Será que vocês podem me explicar o que diabos está acontecendo aqui? — ela perguntou.
— Você também recebeu o bilhete com o endereço, né? — Shizuru perguntou.
— Sim. Recebi.
— Então, nós estamos indo pra lá.
Keiko olhou para Maya, desconfiada
— E você? Recebeu também?
— Não recebi nada. Queria saber o porquê meu namorado tá mandando recados pra vocês duas dizendo onde encontrá-lo e não pra mim.
Keiko gaguejou, se atrapalhando com as palavras.
— O-o quê? Mas, como você sabe que…quem foi que disse que foi ele que mandou?
Maya mostrou a pétala de rosa que havia pego do bilhete de Shizuru, com o ar triunfante de que aquilo era prova suficiente de que o recado era de Shuichi Minamino.
— Eu sei que foi o Shuichi — ela disse — Pode parar de tentar acobertar ele.
Keiko olhou de soslaio para Shizuru, como se pedisse por ajuda.
— Fazer o quê? — Shizuru disse dando de ombros — Ela conhece bem o homem que namora.
Keiko suspirou.
— Mas se você não recebeu nada, Maya, por que está vindo com a gente? E como foi que encontrou a gente?
— Shuichi tem agido muito estranho e eu sei que ele tá me escondendo alguma coisa. Ele sumiu e passou a mandar só mensagens. Está tão distante de mim. Nem parece mais ele mesmo. Eu sabia que tinha algo errado, então resolvi investigar por conta própria. Fui atrás dos amigos dele e encontrei vocês.
— O que quer dizer? Tava espionando a gente?
— Mais ou menos isso.
Surpresa, Keiko ficou boquiaberta em silêncio.
— Ela é sensitiva, Keiko — Shizuru argumentou — Assim que percebeu que eu estava sendo seguida, me ajudou a escapar daqueles caras. Ela que alugou esse carro, até porque eu não tenho grana pra isso mesmo. Pelo visto, Maya não está no radar deles. Kurama é tão reservado que nem devem saber sobre a relação dos dois.
— Shizuru! — Keiko a repreendeu, sem acreditar que a amiga tinha deixado escapar o nome verdadeiro do kitsune.
— Do que o chamou? — Maya perguntou — Disse Kurama? O que querem dizer?
— Ai meu Deus, que confusão! — Keiko falou, mas sem responder as perguntas de Maya — No meu bilhete ele pediu pra eu levar uns itens de primeiros socorros, Shizuru.
— Isso não é bom. Deve ter acontecido alguma coisa. Tenho o pressentimento de que Kazuma não está nada bem.
— Ai, não brinca com isso, tá me deixando preocupada! Mas por que Kurama pediu esse tipo de coisa, sendo que ele costuma usar os recursos do Makai pra curar as pessoas?
Keiko arregalou os olhos e levou as mãos à própria boca.
— Dessa vez, foi você que falou — Shizuru disse, se divertindo com a situação.
— Por que vocês estão chamando Shuichi por esse nome? Parem de me enrolar! — Maya quis saber.
Keiko suspirou. Não tinha que se meter naquele assunto, então preferiu ser direta e cortar a garota de uma vez por todas.
— Sem ofensas, Maya, mas é melhor que ele mesmo te explique certas coisas, tá bom?
Maya não gostou da resposta, mas também não insistiu. Afinal, achava que Keiko tinha certa razão no que dizia e preferiria confrontar o namorado por conta própria.
— E quem são esses caras que estão seguindo a gente? Você sabe, Shizuru? — Keiko perguntou para a amiga.
— Não, ainda não sei de nada. Espero encontrar a resposta nesse endereço.
As três seguiram a viagem em silêncio, trocando poucas palavras pelo percurso. Levariam doze horas para chegar no destino e, por isso, tiveram que fazer algumas paradas no meio do caminho para comer ou abastecer o tanque de gasolina. Por segurança, Maya é quem conversava com as pessoas nos estabelecimentos, uma vez que era a única que não estava sendo perseguida.
E, já que Keiko não sabia dirigir, Shizuru e Maya alternavam o papel de motorista. Na verdade, em alguns momentos, depois de ver Shizuru no comando do volante, Keiko começava a se perguntar se a carta de motorista da amiga não passava de uma falsificação. "Quantas multas será que ela já levou?", ela pensou, dando graças a Deus ao ver Maya assumir a função.
Depois de uma viagem extremamente cansativa, já ao amanhecer do dia seguinte, ao passarem por sinuosas curvas em uma serra remota, desértica e distante de tudo, elas chegaram a um chalé rodeado por um bosque denso.
— É aqui — disse Maya estacionando o carro — Chegamos.
Keiko foi a primeira a sair do veículo. Às pressas, ela correu em direção a entrada do chalé. Bateu na porta para anunciar a sua chegada e esperou ansiosa que Yusuke aparecesse. Mas quem abriu a porta foi uma pessoa completamente diferente de quem ela esperava.
— Yukina!
Keiko a abraçou apertado, contente por vê-la bem depois de tanto tempo. Shizuru a abraçou com mais força ainda, quase a levantando do chão. Yukina olhou confusa para Maya, imaginando quem ela era, mas preferiu não perguntar naquela hora. Apenas a cumprimentou brevemente e convidou as três para entrarem.
Keiko ficou decepcionada ao notar que não tinha mais ninguém ali. A preocupação estava estampada em seu rosto e Yusuke não saía de seus pensamentos.
— Pelo visto você está sozinha — Shizuru disse — Vem cá, Yukina, me explica por que resolveu vir pra esse lugar tão distante de tudo? Parece até uma fugitiva. Fez alguma coisa errada?
— Vou explicar tudo pra vocês — a koorime respondeu — Muita coisa aconteceu desde a última vez que nos vimos.
— Onde está Yusuke? — Keiko perguntou — Onde estão todos os meninos?
O nervosismo fez Yukina desviar o olhar, enquanto cruzava os braços envolvendo a si mesma num abraço.
— Eles foram resgatar o Kazuma e a Kiara.
xxxx
— Kiara, acorda!
Botan chacoalhou Kiara de um lado pro outro, mas obteve apenas um resmungo como resposta. Desacordada há muito mais tempo do que deveria, Kiara não demonstrava sinais de que levantaria tão cedo.
— Acorda logo!
— Me deixa em paz, Botan…
— KIARA!
O grito agudo a fez abrir os olhos assustada, mas, mesmo assim, Botan a continuou chacoalhando.
— Pode por favor parar de me sacudir? Eu já acordei! — ela disse esfregando os olhos e tentando erguer o tronco para se endireitar na cama.
Enfim, Botan suspirou aliviada, embora toda a sua feição sugerisse que ela ainda estava irritada.
— Você dorme muito, Kiara!
— Eu estava sedada, o que você esperava?
— É, mas você dormiu mais do que da última vez! Já é de manhã de novo! Acho que foi só preguiça!
Botan ofereceu a ela uma caneca com água que foi prontamente aceita. Porém, o estômago de Kiara reclamou na mesma hora, como se aquela água pesasse toneladas. Um enjoo forte lhe engolfou com uma ânsia terrível. Ela então se deu conta da dor de cabeça pulsante que também martelava em suas têmporas.
— Não tô me sentindo bem — disse, tentando se concentrar em não vomitar, enquanto o quarto inteiro girava ao seu redor.
— É o efeito adverso do sedativo. Ele é muito forte. Mexe com sua percepção de espaço e acaba dando náuseas. Talvez os efeitos das duas doses tenham se sobreposto.
— Não imaginei que ficaria assim tão mal...
— Ai Kiara, você me deixa doida, sabia? Não tínhamos combinado que me avisaria quando fôssemos colocar o plano em prática? Por que fez aquilo tudo sem me dizer nada?! Poxa, ainda veio com aquele papo deprê sabendo que ia me deixar triste só pra me pegar desprevenida! Falou um monte de bobagens e eu acreditei!
— Não eram bobagens. Tudo que falei era verdade.
— Ah, é? — surpresa, Botan soou menos ofendida — Então, menos mal. Mas, mesmo assim, devia ter me avisado antes! Eu levei o maior susto.
— Já te pedi desculpas, antes mesmo de empurrar você. Não te avisei, porque sabia que você não ia conseguir fingir, então tentei deixar o mais verídico possível. Você não se machucou, né?
— Hm, não. Eu só levei um baita susto mesmo. E aí tive que explicar pros guardas o porquê eu decidi continuar aqui mesmo depois de você me atacar. Tive que dizer que estava devendo um favor pro senhor Koenma e que simplesmente precisava continuar aqui, como se estivesse sendo obrigada. Não sei se acreditaram em mim.
— Provavelmente não. Você mente muito mal.
Botan revirou os olhos.
— Mas e você, se machucou?
— Um pouco, aquele cara me segurou com muita força. E meu coração doeu tanto quando eu pulei…foi muito pior do que eu pensei que seria.
— E o que vai dizer se Ootake vier aqui querendo saber porque você estava tentando me matar?
— Não acho que ele vai vir. Mas, se vier, eu digo que não te suporto e não aguentava mais você falando sem parar no meu ouvido. Tenho certeza que ele não vai desconfiar.
Botan ficou atônita, como se tivesse acabado de ser insultada da pior maneira possível.
— É brincadeira — Kiara acrescentou rapidamente — Mas me diz, você conseguiu? O plano deu certo?!
A guia espiritual assentiu sorrindo, retirando do bolso um frasco minúsculo com um líquido amarelado e denso dentro.
— Roubei uma ampola do estojo do guarda. Foi tudo tão rápido. Nem acredito que consegui! E ele nem deu falta!
Se esforçando para lutar contra a sonolência e o enjôo, Kiara pegou o frasco da mão de Botan para analisá-lo mais de perto. "Tão pequeno e tão perigoso ao mesmo tempo", ela pensou.
— Ótimo. Agora temos uma utilidade pra seringa.
