Lydia estava jogada no sofá da sala, o sol da tarde entrando pelas grandes janelas da casa dos Deetz, era a única fonte de iluminação. À sua frente, Adam e Barbara estavam lado a lado, observando a jovem com uma mistura de antecipação e preocupação. No centro da mesa, um bloco de notas preenchido com rabiscos semi incompreensíveis e perguntas anotadas com pressa, servia como a âncora da conversa. Lydia bateu a caneta repetidamente na borda do sofá, o som ecoando no silêncio tenso da sala. Ela havia passado a noite acordada, relendo seus livros e analisando todas as informações que tinha. Beetlejuice era um enigma, mas também uma figura cheia de histórias não contadas.
"Escutem", Lydia começou, sua voz baixa, mas firme, "Juno não vai facilitar para vocês. Ela não ajuda de graça e, nunca, sem alguma resistência. Isso significa que vocês precisam ser inteligentes. Diretos, mas cuidadosos. Se ela sentir que vocês estão pressionando, vai se fechar."
Adam, que já estava inquieto, ajustou os óculos e passou a mão pelos cabelos, tentando mascarar sua ansiedade. "Ok... mas como exatamente devemos abordar isso? Não temos muitas informações. E se ela simplesmente nos ignorar? Ou pior..."
Lydia suspirou, largando a caneta sobre a mesa e cruzando os braços, seu olhar fixo nos Maitlands revelava a urgência de sua missão. "A questão aqui não é se ela vai ignorar vocês. Ela vai tentar, com certeza, mas vocês têm que ser persistentes. Perguntem sobre o passado dele, quem ele era antes de se tornar o que ele é agora. Tem que haver algo que a gente ainda não sabe e vai explicar muita coisa. Algo que Juno possa estar escondendo. Mas, cuidado, ela pode não gostar de reviver esses momentos".
Barbara, sempre a voz da razão, inclinou-se para frente, sua expressão preocupada. "Lydia, você acha mesmo que qualquer coisa que fizermos vai fazer com que ela colabore? Ela já nos ajudou antes, mas pareceu tão impaciente... Talvez ela nem queira se envolver de novo. E ela é definitivamente poderosa, isso pode sair da maneira mais errada possível!".
"Ela vai ter que ajudar, não temos outra escolha. Estamos lidando com algo muito maior do que nós. Beetlejuice esconde algo, e eu preciso descobrir o que é. Não apenas por ele, mas por todos nós", Lydia respondeu, sua determinação era palpável. "Vocês só precisam encontrar o jeito certo de abordar, entrar no assunto de forma convincente. Não provoquem ela logo de cara, tentem sondar informações sem fazer parecer que vocês estão desesperados. Se ela perceber que estamos em cima de algo importante, pode ficar ainda mais evasiva. Então, peguem qualquer detalhe, mesmo o menor, pode ser crucial".
Adam assentiu devagar, ainda processando as instruções. "E se ela simplesmente não disser nada? Quer dizer, se não houver nada sobre o passado dele que faça sentido?", Adam questionou, ajustando nervosamente seus óculos. "E o que exatamente devemos perguntar? Não sabemos muito sobre o passado de Beetlejuice".
"Adam", Lydia respondeu, levantando uma sobrancelha. "Nós três sabemos que tem algo. Ele pode não se lembrar, ou querer esconder, mas eu sinto que tem algo grande nesse passado misterioso. E se Juno sabe, ela vai deixar escapar, de um jeito ou de outro. Mas vocês têm que estar prontos para pegar isso no ar, alguma pessoa, algum evento que possa ter mudado o curso da vida dele. Mas vocês não podem esquecer de serem sutis".
Barbara apertou a mão de Adam, tentando transmitir segurança. "Nós podemos fazer isso, Adam. Somos bons em investigar. E não temos muito a perder, certo? Lydia tem razão, nós somos quem passaram mais tempo com ele, você também sente que há algo de errado".
Lydia sorriu levemente ao ver a união dos dois, mas logo voltou ao seu tom sério. "Eu confio em vocês. Agora, vão. Eu vou abrir o portal".
Os Maitlands se levantaram lentamente, trocando olhares entre si. O portal, um vórtice brilhante, verde e tremeluzente, estava sendo aberto no canto da sala, próximo à escada, suas bordas girando e distorcendo o espaço ao redor. Barbara deu um último olhar para Lydia antes de atravessar, Lydia respirou fundo, sabendo que este era o ponto sem retorno. "Nós podemos fazer isso, não é, Barbara?" Adam perguntou, tentando parecer confiante.
Barbara deu um leve sorriso. "Juntos, podemos". Ela apertou a mão dele com força, e juntos, deram o primeiro passo rumo ao outro mundo.
Ao atravessarem, a sensação de deslocamento foi imediata. O ar era mais pesado, quase sufocante, e as sombras ao redor pareciam mais densas, mais profundas. Era um lugar sem tempo, onde ecos do passado e do presente se misturavam, sem uma linha clara entre eles. Eles vagaram por um tempo em silêncio, absorvendo a estranha atmosfera daquele lugar. Sabiam que o conceito de tempo era diferente por lá, os sons distantes de máquinas de escrever e murmúrios baixos reverberavam, mas o espaço à sua volta parecia vazio.
"É estranho como um lugar feito para fantasmas, como nós, me faça querer diretamente para longe", Adam afirmou, sua voz soando abafada no ambiente incomum.
Barbara olhou ao redor, hesitante. "Deve ser por aqui, ainda me lembro um pouco. Acho que a encontraremos em breve".
E, como que por destino, após o que pareciam ser alguns minutos, os dois avistaram sala de recepção, tudo estava igual à última vez que estiveram lá, apenas os recém-falecidos mudaram, obviamente. Bem a frente, estava uma figura impossível de esquecer, a Miss Argentina lixava desinteressada sua unha perfeitamente pintada de vermelho. "Senha 360.542.827.491, sua consultoria pós morte está aguardando", disse ela em uma voz monótona, sem levantar os olhos do que estava fazendo.
Ao fim da sala ela possível ver uma porta com a placa de identificação: Juno. Eles atravessam da forma mais discreta que poderiam, tentando evitar ao máximo chamar atenção indesejada. A porta estava entreaberta, e Barbara a empurrou vagarosamente, torcendo, em vão, para que não fizesse muito barulho. Então, eles a viram, Juno estava no meio de uma pilha de papéis, com uma longa fila de espíritos desorganizados à sua frente, esperando instruções ou, quem sabe, alguma chance de passar para a próxima fase. Os ajudantes dela corriam de um lado para o outro, com pranchetas e formulários. Barbara deu um passo à frente, hesitante. "Juno?".
A mulher não ergueu os olhos imediatamente, mas o som familiar de sua voz fez com que ela parasse por um instante. "Vocês de novo?", ela perguntou, finalmente levantando o olhar. Seu tom era de exasperação. "Achei que já tínhamos terminado com a nossa conversa, eu ainda me lembro bem do que vocês fizeram comigo".
"Nós sabemos que está ocupada, mas queremos algumas informações. Precisamos de sua ajuda novamente", disse Adam, tentando manter um tom respeitoso, mesmo que a tensão fosse palpável. "É sobre Beetlejuice, seu filho, ele é... Ele está... Há algo no passado dele que precisamos entender para ajudá-lo!", a última frase saiu como uma cuspida de Adam, não era que ele pretendia, e se culpou instantaneamente por isso.
Juno revirou os olhos dramaticamente e soltou um suspiro audível. "Vocês realmente acham que podem ajudar Beetlejuice? Ele é uma causa perdida. Sempre foi. E sempre será. Não há nada ali que valha a pena reviver".
Barbara se aproximou, sua voz cheia de urgência e um pouco de raiva, por algum motivo, a forma que Juno estava se referindo à Beetlejuice, a irritou. "Por favor, Juno. Sabemos que você conhece o passado dele. Pensamos que algo aconteceu antes dele morrer. Precisamos de qualquer detalhe, qualquer informação que possa nos dar uma chance de ajudá-lo a superar o que quer que esteja prendendo-o aqui".
Juno ficou em silêncio por um momento, seus olhos fixos em Barbara e Adam, como se estivesse avaliando a seriedade deles. Mas seu rosto endureceu, e sua voz saiu seca. "Vocês não sabem no que estão se metendo. Beetlejuice sempre foi problemático, desde o começo".
"Mas houve algo, não é?", Adam interveio, pegando o fio solto da conversa. "Alguém ou algo que foi importante para ele?".
Por um breve segundo, o rosto de Juno pareceu hesitar. Mas logo voltou à sua habitual dureza. "Teve alguém, sim. Uma pessoa... burra o suficiente para se apaixonar por ele. Alguém tão idiota que colocou o próprio futuro em risco por causa de um amor ridículo". Ela bufou, como se desprezasse a ideia, "Mas esse tipo de coisa nunca dá certo, não é? Só causou problemas desnecessário para todos."
Adam e Barbara trocaram um olhar surpreso. Isso era algo que eles não esperavam ouvir. "Quem era essa pessoa? Isso é importante, Juno!", Barbara insistiu, sua voz um pouco mais urgente agora.
Ela os olhou com impaciência crescente, suas sobrancelhas franzidas em desgosto. "Vocês realmente são insistentes, não é? Não importa. Essa pessoa foi um problema, um grande erro de cálculo e só trouxe complicações. Vocês não precisam saber mais do que isso. Não adianta tentar remediar o que já foi feito, vocês não sabem a quantidade de papelada que isso me causou. E o inútil nem sabe, ou nem se lembra da existência dela". Ela fez um gesto brusco, e um portal se abriu ao lado deles. "Agora, voltem de onde vieram. Eu não tenho mais tempo para isso."
Antes que pudessem protestar, uma força invisível os empurrou para o portal, lançando-os de volta ao mundo dos vivos.
Quando se encontraram de volta à casa dos Deetz, os dois ainda estavam processando o que Juno havia dito. Barbara em choque e Adam, completamente afoito, foi o primeiro a falar, suas palavras quase atropeladas. "Ela disse que alguém se apaixonou por Beetlejuice e que isso causou problemas!".
Lydia, que havia esperado ansiosamente pelo retorno deles, se inclinou para frente, seu interesse aceso, ela esperava muita coisa, mas não isso. "Então Isso temos uma pista! Precisamos descobrir quem era essa pessoa. Deve haver algum registro, alguma menção em jornais antigos ou até nos livros do além". Ela já parecia estar formulando um plano enquanto falava. "Eu vou começar a procurar agora mesmo", disse se levantando com um pulo.
Com uma nova esperança nas mãos, Lydia e os Maitlands sabiam que estavam mais perto de descobrir o que ligava Beetlejuice ao seu passado perdido.
--‐--
Beetlejuice estava sentado em uma velha cadeira giratória, observando as paredes nuas ao seu redor, a estrutura rangendo a cada movimento, como se estivesse a um estalo de desabar. A sala ao seu redor estava coberta de poeira e caos – pilhas de arquivos amarelados, móveis quebrados, garrafas vazias jogadas pelo chão e uma iluminação fraca que parecia não vir de lugar algum em particular. A placa recém-instalada na porta ainda pendia de maneira torta, com as palavras "Beetlejuice – Bioexorcista Profissional", piscava com neon fraco, falhando em intervalos curtos. Era um espaço desordenado, mas, de certa forma, combinava com ele.
"Novo escritório", pensou, com um sarcasmo mordaz. Ele estava sozinho, como sempre, com apenas seus pensamentos para lhe fazer companhia. Enquanto mexia em alguns velhos artefatos fúnebres se espalhavam pela mesa bamba, uma onda de nostalgia o atingiu.
"Maldito passado...", ele murmurou para si mesmo. As memórias de sua vida mortal, tão distantes agora, ainda o assombravam. Lembrava-se das ruas empesteadas, o cheiro de morte no ar, e ele, um ladrão de corpos, sempre correndo de algo, sempre em busca de algo mais.
A solidão era constante, algo que ele tentava ignorar, mas que sempre voltava para lembrá-lo de quem ele era, ou quem ele havia sido. Ele começava do zero, de novo. Beetlejuice repousou os pés sob a mesa, enquanto seus olhos vagavam pelo nada. As paredes o cercavam, mas não ofereciam conforto. Na verdade, era como se o apertassem de todas as direções.
"Essa porra de lugar, sempre a mesma coisa". Ele levantou e jogou a cadeira contra a parede, que ricocheteou com um barulho seco. Havia algo profundamente irritante em estar preso ali de novo, como se o universo estivesse rindo da sua cara. Passar tanto tempo no mundo dos vivos, quase conseguindo o que queria, e então ser jogado de volta para o limbo, era como um déjà vu.
"É isso? Eu vou apodrecer aqui de novo?". Ele resmungava revoltado, enquanto se arrastava pelo ambiente. Não era só o espaço físico que o incomodava, era a ideia de estar preso, sem poder fazer nada.
"Pelo menos antes eu tinha uma chance, eu podia fazer algo foda lá fora. Agora, olha só pra mim. O 'Grande Beetlejuice', reduzido a um cafofo patético no meio do além". Por um momento ele ficou ali, olhando para o vazio, tentando entender o que o destino ainda reservava. O peso de séculos de arrependimento se acumulava em seus ombros
Sentia falta de... algo. Não sabia exatamente do quê. Havia alguma coisa que parecia estar constantemente escapando de sua memória, e isso o incomodava. Ele coçou a cabeça, frustrado, enquanto seus cabelos ganhavam um tom escuro de vermelho. "Ah, que se foda, não importa". O que importava mesmo é que ele não gostava nem um pouco da sensação de ter sido enganado de novo.
"Merda de vida... merda de morte...". Um sorriso amargo surgindo em seus lábios. Entre os pensamentos mais amargos, um sentimento agridoce sempre parecia surgir junto: Lydia. Ele sentia falta da confusão, do caos e dela. "Garotinha, hein?". Ele murmurou pensativo, enquanto ajustava um porta retrato dela na 'mesa', ele havia roubado a foto em algum momento que nem se lembrava mais. Sentia falta das provocações, das discussões e, de alguma forma, da energia que ela trazia para sua existência. E não só dela, mas de todos os outros. Barbara, Adam, até os Deetz tinham se tornado parte do show. E agora? Um monte de nada.
"Ah, sim... Isso aqui vai ser do caralho!", disse rindo para si mesmo, com sarcasmo. "Apenas o lugar perfeito para quem foi expulso do mundo dos vivos. Um buraco pra lá de deprimente."
"Não era pra eu estar aqui!". Ele gritou de repente, como se sua revolta pudesse romper as paredes do outro mundo. Mas sua voz ecoou vazia, sem resposta. Nenhum sinal de que o universo ouvia suas queixas.
Havia um desconforto crescente em sua mente, uma sensação pegajosa de que algo estava acontecendo lá fora. Algo importante. Mas o quê? Ele sentia uma pontada constante que não sabia de onde vinha. "Ah, ótimo! Como se eu precisasse de mais problemas". Era como se o ar estivesse carregado com uma tensão que ele quase podia tocar. Sabia que algo estava se movendo, algo grande, mas estava preso aqui, impotente.
"Ótimo, mais uma coisa que eu não tenho controle. Como se já não bastasse". Ele balançou a cabeça e olhou ao redor, se perguntando quanto tempo mais teria que aguentar aquilo. Estava cansado de ser pego de surpresa, de sempre estar um passo atrás. "Ah, droga, BJ, você está ficando mole".
"Maldição," ele rosnou, seus olhos verdes faiscando com uma raiva contida. "Por que isso agora? Eu estava tão bem sendo... eu mesmo." E socou a parede com força, rachando o reboco, mas isso não o fez se sentir melhor. Na verdade, só aumentou a frustração.
Havia uma sensação de falta que ele não conseguia compreender completamente, algo que não fazia sentido em sua existência. Ele tinha flashes, lembranças fragmentadas que apareciam nos momentos mais inoportunos – algo que sempre desaparecia antes que ele pudesse agarrá-lo com clareza.
O eco da batida reverberou por todo o cômodo, deixando um silêncio incômodo no ar. Beetlejuice ficou parado, o peito arfando enquanto tentava controlar a maré de emoções que começava a subir. Ele se sentia preso, não apenas no outro mundo, mas dentro de si mesmo, confinado ao desespero.
Antes que pudesse seguir mais longe em seus pensamentos, um barulho alto cortou o ar. Um dos arquivos mais antigos despencou no chão, seus papéis espalhando-se pelo ambiente. Ele apenas olhou entediado para a bagunça.
Por fim, jogou-se numa cadeira qualquer, que rangeu sob seu peso. "Mas, quer saber?", ele disse com um sorriso cínico no rosto. "Nada disso vai me segurar por muito tempo. Independente do que estiver acontecendo, e eu vou descobrir o que é". Mesmo sem saber ao certo o que o esperava, Beetlejuice sentia que a monotonia estava prestes a acabar.
"Vou descobrir o que porra está acontecendo e por que isso está me assombrando, afinal, eu sou fantasma aqui". Agora, ele estava decidido a encontrar as respostas – quer gostasse delas ou não. E ele estava mais do que pronto para o que viria. Não estava?
