Estava a chover naquela noite.
Nina estava sentada em frente de uma página praticamente em branco. Não era uma tese para a sua graduação; não era um diário. Bem, talvez diário não fosse muito longe da realidade. Mas não era essa a intenção do que estava a tentar conjurar, aparentemente, com a vontade de outra pessoa. Porque, pela sua vontade, a carta estava em branco há... Dez? Quinze minutos?
Olhou pela janela onde a chuva suave e constante caía e fazia companhia à sua mente perturbada.
Não era como se estivesse a fazer uma tarefa contrariada, ou que não soubesse o que escrever. Só parecia... Inútil? Sem sentido? Ou de outra perspectiva, tão importante que uma simples carta nunca poderia encapsular tudo? Demasiado para que simples palavras conseguissem expressar tudo?
Não. Palavras eram incrivelmente poderosas. As palavras eram as coisas mais poderosas do mundo.
Não havia nada de inútil acerca disto. Por isso era tão importante, mas tão difícil.
Porque é que haveria de ser difícil? Porque é que tinha de ser?
Se alguém tivesse feito isto antes...
Se ela tivesse...
Nina suspirou e encostou-se na cadeira. Este não era o objectivo deste exercício. Não era o objectivo que lhe foram proposto para, bem, organizar os seus pensamentos e emoções.
Não se passara nada de mal, nem estava num período negativo. Não. A sua vida estava a correr bem. Estava genuinamente feliz. Ocupada, a níveis stressantes, o que na maioria dos dias ela agradecia. Tinha amigos na universidade, e mantinha o contacto com as pessoas importantes da sua vida como Dieter e o Dr Tenma. Mas este momento, esta carta, tinha-se imiscuido mais e mais no seu dia a dia e exigira o seu lugar e importância.
Porque ele precisava de o ouvir. Algures, de alguma forma. Mesmo que fosse numa carta que ninguém leria. Mesmo que fossem palavras que ninguém dissesse.
A caneta nos seus dedos deslizara sobre o papel várias vezes sem nunca desenhar as palavras além da primeira linha. Não conseguia expressar os pensamentos seguintes. Sabia quais eram. Parecia tão... Óbvio, tão dolorosamente óbvio, que a necessidade desta carta existir se tornava inútil e infantil, só... Não, não, já passámos esta parte, já sabemos que não é inútil.
Porque ele precisa de o ouvir.
Na página, lia-se:
Querido irmão
O olhar de Nina fixou-se na escuridão lá fora salpicada consistentemente por ventres de luz fornecidos pelos candeeiros de rua. As luzes dos faróis dos carros reflectiam-se no alcatrão como tinta vertida. Querido irmão. Porque Johan não era o seu nome. Sabiam-no agora.
As palavras são coisas poderosas.
Tudo o que Johan - o monstro, Johan Liebert, nunca o seu nome real - fizera na sua vida, toda a distorção e corrupção da vida e sentido de todos à sua volta, tinha de facto um motivo tão simples por trás que parecia mesmo uma história que contarias a uma criança, um conto de fadas; um lembrete, uma lição de que se a criança certa tivesse ouvido a coisa certa no momento certo, poderia ter mudado tantas vidas depois disso.
Era demasiado tarde agora. Para a Mãe, para o Pai. Para todos os seus pais adoptivos, para Ruenheim, e especialmente para as crianças que nunca tiveram a hipótese de ouvir palavras como aquelas antes das suas vidas serem destruídas. Para a criança que ele fora antes da sua vida se destruída.
Porque ela entendia que o achassem um monstro. Conseguia entender se ele achasse que era.
Nina pousou a ponta da caneta contra o papel.
Tu és humano. Tu és, de forma tão completa e dolorosa, humano. Gostava que soubesses isso.
Gostava que alguém te tivesse dito mais cedo.
Quando pensava que ela era a razão por tudo aquilo, doía. Às vezes, era demais. E por isso é que tinha de lhe dizer.
Ela sabia. Ela era a prova.
Tudo o que ele fizera fora por ela, e não havia nada mais dolorosamente humano do que isso.
Tenta dizer a um monstro o que é o amor, e ele vai perceber que foi humano o tempo todo.
Como todo o meu amor
A tua irmã
Nina
O nome - a palavra - que escolhera para si.
Pousou a caneta ao lado da carta que ninguém ia ler e levantou-se, preparando-se para ir para a cama antes de perceber que não ia conseguir dormir e em vez disso calçou as botas e pegou no guarda-chuva, e saiu para uma caminhada no ar gelado de Outono.
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fim
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Nota de autor: Quando vimos o Monster, acabei a história a pensar que o Johan era um monstro - um conceito - que tinha adorado. Foram precisas várias horas a ver vídeos para perceber o quão enganada eu estava. Ele é inacreditavelmente humano, é quase cómico. Isso fez-me gostar muito do Johan enquanto personagem.
Não escrevo nada desde 13 de Novembro de 2023. Este é o meu primeiro fanfic desde aí. É pequeno e nada de especial mas fico feliz de o ter escrito.
Quero deixar estas duas fansongs que são brutais, "Monstro Sem Nome" de Enygma, e "Monstro" de Takeru
